maio 2004 Archives

Breve, num cinema perto de você

-- Ah não! Minha caneta!

Continuando...
:: Crônicas minhas sobre eu mesmo me observando sozinho ::

Acordando

O relógio-despertador liga. Que na verdade é o rádio. Sintonizado há anos na mesma emissora. No fundo, no fundo, é a única hora que escuto rádio. Ele desperta. Desperto eu. Mas isso nem sempre acontece. Tem dias que acordo antes. Fico com raiva. Muita raiva. Mordo o travesseiro. "Seu Gejfin idiota, podendo dormir mais um pouquinho!" - penso, fecho os olhos de novo. "Mas e que horas deve ser agora?" - pergunto, com medo. Não resisto e levanto a cabeça para enxergar os dígitos. E é sempre, SEMPRE do assim: falta só um minuto. Deito e me cubro de novo rápido. Tenho que aproveitar esse tempo. "O que eu estava sonhando mesmo? Tô ficando com sono... muito sono..." A droga desperta. Dou um soco na cama. Mas relaxo em seguida, acho ridículo socar a cama, afinal a vida é assim. Fico bem desperto para ouvir qual besteira o locutor despeja. Tocava uma música ruim. Ele fala. São dez para às sete. Sou tomado de alegria, pois é cedo ainda. Levantando agora chegarei em ponto no trabalho, sem precisar correr. Sem precisar me estressar com estacionamento. Sem precisar ficar até mais tarde para compensar tempo. Vai ser um dia feliz. Muito feliz. Vou fazer tudo que quero sem precisar me preocupar muito. Por exemplo, posso escrever aquele conto, aquela idéia abandonada. "O que era mesmo? Sim, da velhinha que recebe cartas. Se terminasse com a filha dela chegando e dando um abraço..." Ouço o locutor: Este é o College, a gente ouviu [qualquer coisa] e são oito e cinco. Ele lê algumas manchetes. Fico atento. Muito atento. Escuto todas. Todas da Zero Hora. Acho um absurdo uma delas. Pensando bem, acho um absurdo eu prestar tanta atenção, pois vou ler todas dali alguns minutos. "Como é bom ler a Zero Hora de manhã. A informação é uma coisa importante na minha vida." E lembro que é bem aquilo que a professora falou na especialização, sobre os filtros, sobre o acúmulo. Lembro de uma questão que esqueci de perguntar na aula. "E se todos estiverem errados?" Locutor: sete e vinte. "Droga!" - penso. Esse é o limite. Meu dia já não vai mais ser tão tranqüilo, mas se levantar agora pelo menos o atraso é só de 15 minutos. Posso, no almoço, pedir um sanduíche e já compenso. Enquanto isso tenho mais tempo para pensar melhor sobre como resolver aquele embaraço no projeto. Tenho então uma idéia genial. Basta inverter os ambientes. E toda a apresentação pode começar por ali. Tenho a certeza de que vou deixar o cliente surpreso. Vai ser um sucesso. Penso em como é bom ter a oportunidade de trabalhar neste tipo de projeto, para grandes empresas. Afinal, elas têm uma responsabilidade social enorme. Lembro que preciso ver como andam as ações... Volto a mim. "Bá, certo que vou me ferrar com o estacionamento." Melhor ir." Locutor: sete e vinte cinco. Melhor ir! Sento na cama. Sinto frio. Preguiça. "Mundo capitalista de merda! Por que não posso ficar dormindo?! Para que serve tudo isso? Está tudo errado!" Deito de novo para me revoltar contra o mundo. Afinal, é um dever. Não posso consentir com tudo. Mas também, sei lá, o que ganho fazendo isso? "Já que estou atrasado mesmo, podia usar esse tempo para dormir mais um pouquinho." E durmo mesmo. Acordo com o locutor falando da previsão do tempo: pancadas de chuva. "Como pancadas?! Mas é ou não chuva? Esses caras não sabem de nada!" Locutor: vinte para às sete. "Ih, fodeu!" Levanto correndo, acendo a luz, desligo o rádio, abro a janela, procuro o chinelo. "Não acredito que vou chegar de novo atrasado. Oh vida de merda!" Abro a porta, vou até o banheiro. Páro e penso: "será que vale o tempo? Estou atrasado e mijar demora. A Zero Hora. Tenho que pegar a Zero Hora. E nem estou com tanta vontade assim. Aliás, pronto, decidi, é essa a punição. Isso, Gejfin, tu não vai mijar agora, seu vagabundo!" Desço as escadas, abro a porta da rua, pego a Zero Hora. Vou até a cozinha. As janelas escancaradas. "Que saco! Ninguém aqui entende que de manhã sinto frio!? E cadê a porra do leite?! Por que ninguém lembra de repor o açúcar no açucareiro?!" Faço o café correndo e bebo em pé. Gelado mesmo. Eu mereço ficar doente. Sento. Abro o jornal. A charge é boa. Olho o relógio na parede. Já devia estar no banho. "Já sei, vou só passar os olhos, correndo." Viro a página. "Putz, mas logo hoje é dia da crônica do Veríssimo..." Leio. Olho para o relógio. Já são cinco para às oito. "O que é mais importante? Chegar cedo no trabalho ou estar bem informado? Posso recuperar no final do dia. Fico até umas sete e meia da noite." Volto para a Zero Hora. Leio tudo, devagar, de cabo a rabo. A Contracapa está engraçada. Os quadrinhos geniais. E enquanto isso enfio uma ou duas fatias de bolo na boca. São oito e quinze e estou atrasado como nunca. Fecho o jornal. Subo. Entro no banheiro. Penso:"pelo menos agora tomo um banho relâmpago". Mas debaixo do chuveiro lembro daquela hora, ontem, quando vi aquele menino puxando carrinho na rua. Que bela foto não dava. Ou que bela história. Esqueço se já passei ou não shampoo na cabeça. Na dúvida, faço de novo. "Quero viver de literatura. De cultura." Está frio para sair debaixo da água quentinha. "Mas literatura não dá dinheiro. Quero dinheiro. Quero dinheirinho! Tô indo, tô indo!" Saio. Me visto. Faço um checklist do que devo lembrar para o dia. Esqueço completamente do banco, óbvio. E minha estratégia da carteira, relógio e chave do carro funciona e me salva a pele. Entretanto, por precaução, coloco o bilhete dentro do bolso. Vai que até o meio-dia acontece alguma coisa. Pego casaco. Pego pasta. Minha mãe, nesta altura, já está acordada e sempre pergunta: "Leandro, tu não tá atrasado?" E qualquer vestígio de bom-humor vai para o espaço. Dou um "tchau" monstruoso. Entro no carro. O relógio marca quinze para às nove. Da casa ao trabalho não faço em menos de meia-hora. Ou seja, vou precisar compensar mais de uma hora de trabalho. Mas isso se o trânsito não estiver um inferno. E sempre está. Escolho um CD para distrair. "Ah este mundo maldito. Este cárcere corporativo, trabalho, sociedade industrializada." Fecho o portão e sigo meu caminho. Em menos de 10 minutos já esqueci de quase tudo que pensei antes. Aumento o volume. Canto as músicas e percebo que aquela árvore ali, bem no meio no caminho, eu nunca tinha visto. E dela sai um conto, tem uma forma diferente. Me pego bereteando. "Ufa!" - penso - "Apesar de tudo, continuo o mesmo."

:: Crônicas minhas sobre eu mesmo me observando sozinho ::

O Ajuste do Relógio

Acordar de manhã cedo começa na noite anterior. O relógio na minha frente. Eu na frente dele. Cansado de chegar atrasado, resolvo acordar mais cedo, embora dúvidas inquietantes quanto ao tamanho e cumprimento dessa tarefa. Mas vou em frente. Sugiro 10 minutos. Penso e acho muito. Mudo para 5. Mas me condeno: "seu Gejfin preguiçoso de merda, ou faz a coisa direito, ou não faz!" - penso. E não deixa de ser verdade. Vem em mente algo no meio, como 7 minutos mais cedo. A solução é boa. Clico no ajuste. Volto 7 minutos no horário. Páro. "Por que diabos vou sacrificar 7 minutos do meu sono para esse capitalismo selvagem?" - penso. E volto aos meros 5 minutos menos. É uma baita diferença. É o equilíbrio. Fico feliz comigo. Deito. Levanto. 5 minutos o caralho! Vou voltar para o horário de sempre. É bem mais fácil demorar 5 minutos menos lendo jornal do que levantar mais cedo nesse frio horrível. Ajusto de novo o relógio para o horário rotineiro. Isso tudo levou meia-hora. Deito satisfeito. Ou quase, quando me dou conta deste último ponto. Tempo é um saco. Discuto mais 30 minutos comigo mesmo sobre meus erros e acertos do dia como um ser no mundo, e todo sistema transcedente que vive a ... lembro que amanhã vou ter que ir no banco. Levanto. Escrevo um bilhete. Enrosco no relógio de pulso, que ponho em cima da carteira, a qual deixo sempre ao lado da chave do carro. Sem carro de casa eu não saio. E assim lembro do banco. Deito. Levanto a cabeça para espiar o horário. "Tarde desse jeito, como vou conseguir acordar disposto? Quem sabe durmo mais um pouco, tipo uns 10 minutos?" Penso em levantar para ajustar o relógio, mas dá muito trabalho, agora que achei a posição do braço. Deixo para o outro dia pensar melhor sobre tudo isso. Durmo.

Ei! pssiu! Acorda!
Acorda!
Está chegando...
Bem que avisei para não deixar esta casa às moscas. Agora precisa correr contra a desintegração crônica que atinge blogueiros de todo planeta.
Acorda!
Ou dispara palavras ao vento, como chutes em final de campeonato, ou o rodapé deste lugar alcança o topo e -- BUM! -- é o fim dos tempos.
Corra!
Acorda!
Já não há espaço para rodeios!
Vê se levanta esse rabo da poltrona, larga o controle remoto e cria um post decente!
Levanta, infeliz!
Aproveita que sobraram alguns leitores.
Mas te apressa!
Ou daqui a pouco sobrará só arquivos do além do ontem.
LEVANTA!

Ensaio sobre o mau-humor de segunda-feira

Bom dia. Hoje é seguda!
Que apodreçam os inventores deste calendário do inferno.
Ou que morram os reformistas desta terra de m****, a sociedade industrializada, aqueles que dividiram o trabalho da nossa casa, Deus e seus 7 dias, de onde na segunda se trabalha. Para o inferno o relógio-ponto.

Que explodam os despertadores. Que explodam junto com a segunda alguns horários do dia, como 6, 7, 8, 9, 10 e 11 da matina.

A vinda, o trânsito, o banho de inverno. Saco. A chegada de cumprimentos. E quando tudo, pelo menos, parece estar sendo o rotineiro, o mouse estraga, já há um recado, o cliente pergunta porque eu não estava aqui mais cedo.

Segunda, ó segunda-feira, teimas em ser constante. Pois vou à tribuna provar falsamente que escondes armas de destruição em massa. E então, num golpe perfeito, invadir teus aposentos, desorganizar tuas fronteiras, desrespeitar a natureza, derrubar o governo e te farei sexta-feira.

Segunda pós descanso. Dia do fim de alegria. Quando te tornas dia presente, é sinal que venceste. Como tempo, fazendo reféns. Fichando inocentes em crachás de firmas. Produção alheia. Roubam-me segunda-feira. O exército das agendas, hoje cada vez mais eletrônicas. Mergulhados em palmtops, afogados em horas falhas, que a cada 24 precisam ser mais e maiores. Microsoft me solta! Me solta Microsoft! Mas a família, os amigos e o resto tudo vai ficando pequenininho através da torre de vidro. É o próprio extermínio. Sou sedado, torturado, estuprado, sacrificado. E há quem ache bom o volume compensasório de alguns trocados. Eu, hoje, por exemplo, sinto-me no Holocausto. A cada volta, tenho menos algum pouquinho.

Mas não penses, segunda-feira, que deste trono nunca serás derrubada. O mundo é heterogêneo. Se as vidas são tão diferentes, não és tu, que não muda há milênios, que não te atualiza na vida, que conseguirás ficar de pé diante do levante que se aproxima.

No entanto - maldição! -, devo lembrar a posição que hoje ocupo. Foda-se o mundo! - dou um murro -, mas já é tarde e se este relatório inexistir às 18h, da segunda até saudade antecipadamente já vou sentindo. Fora do calendário, na rua da margura e com uma marca na bunda.

Devo insistir: Está tudo errado! Mas é a vida... e pelo jeito vou odiar ainda muito alguns dias, especialmente as segundas.

Desculpem o furo, a falha, a brecha, a quebra.
Mas está tudo rápido.
Não, tudo bem.
Mas achei que devia satisfações.

A realidade é tudo aquilo que não existe.
Sonhos são reais.

E então a gente chega e logo pensa: Meu Deus, como podem essas pessoas viverem aqui?!
E então a gente logo que sai, pensa: Meu Deus, como podem as pessoas viverem lá?!
E então a gente morre e pensa: Meu Deus, como será que acabou o jogo?!

Nada como ficar a contemplar...

Ok. Só mais essa, de virada, e vamos todos para o baile.
O baile em braile.

Dizia a música: "Tenho andado distraído".
Pois eu estou me sentindo ao contrário.
Tenho andando pouco distraído.
Tenho bereteado abaixo da média. E isso é grave para quem inventou o tal verbo.
Acho que minha mente tem recebido informação útil demais nas últimas semanas. Isso não é bom. Isso não é bom. Vivo um cárcere pela utilidade. Abstração liberta. Ver diferente liberta. Não ter muito tempo para isso irrita. Como mais irrita saber que isso não dá dinheiro. E se não dinheiro não se come, mora, anda de um lugar para outro.
Tudo bom, tudo bem... já estou parando.
Parando na próxima parada: uma cidade ainda misteriosa localizada na região central deste vasto Rio Grande.
Preciso me sentir menos útil.
Preciso de espaço interno.
Preciso de um papo com o amigo Genevaldo.

Uma frase. Saiu ontem, num ótimo brainstorm sem qualquer finalidade que eu e o amigo Tiagón fizemos. Acho que era:

"Os estúpidos raramente são capazes de enxergar os gênios, mas estes enxergam os estúpidos sempre."

Ou qualquer coisa assim. A idéia é boa.

PAZ

Vi um sujeito esses dias. Um motoqueiro. Na lanterna traseira da moto ele recortou umas tiras de fita adesiva e formou a palavra "PAZ", que ficava em destaque cada vez que a luz acendia. Que meigo. Pois ele passou pelo meu carro em alta velocidade, naquele corredor entre-carros, passou um, dois, três, quatro, chegou na faixa. O sinal FECHADO. Ele pouco se importou, atravessou a esquina, quase atropelou dois jovens, converteu à esquerda, um carro que vinha no cruzamento, certo, precisou desviar bruscamente. Buzinadas. E o fdp foi embora. Paz? Que inferno. Está tudo errado. Ou, vai ver a moto era emprestada.

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ESTIAGEM

Onde? Cadê? Típico de Porto Alegre, em quatro dias vai chover tudo que não choveu em dois meses.

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SONO

Sim, muito sono. Me deixa... me deixa!

E viva a bobagem!

Meu grande amigo-gêmeo escritor-gênio Tiagón criou a mais fantástica comunidade no orkut, chamada Geladeira Velha. Qual o propósito? Rá! Pobre mortal, só indo lá descobrir. Mas é mais uma prova universal de que nada é mais importante e fundamental do que um bom espaço para bobagens. Relaxa, exercita o coração e a mente, deixa a pele bonita.

Opa, não... isso é sexo. Mas, enfim, bobagem é ótimo.

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Estive relativamente fora do ar nos últimos dias porque estou precisando me organizar. Esse mundo virtual está mexendo as coisas. Já não basta blog e aquele vício infernal que é o orkut. Pois não é que comecei quarta passada uma especialização, Psicologia na Comunicação. E o interessante é que não é um curso tradicional, mas EAD (Educação à Distância). Então temos 2h de aula e uma semana inteira para 180 alunos trocarem opiniões e farpas num fórum on-line.