Lendas Públicas da Grande Cidade

Lendas Públicas da Grande Cidade Gaucha

Capítulo 3: Sonhos de um Cais de Porto

Puerto Ajegre é abençoada. Despeja-se serena à beira de um lago (ou rio, ou miragem) chamado Guariba. Dizem, os locais, que o pôr-do-sol do Guariba é o mais belo do mundo. Como se existisse um pôr-do-sol totalmente diferente do outro. O sol vai lá, nasce, brilha, esquenta e some. Com ou sem rio e montanhas. Mas o bom disso é o cultivo de uma paixão inconsciente do povo pelo fim do dia e começo da noite. Isso é bom.

Pois todo o crescimento da cidade se deu a partir da margem do Guariba, tendo como marco do desenvolvimento exatamente o porto. Só que o tempo foi passando e o porto foi virando uma tralha, perdendo para os de águas oceânicas. Grandes armazéns e galpões viraram casas mal assombradas. E com medo dos fantasmas, em setembro de 1345, a população se uniu em mutirão para construir um muro que, dizem, tem alho e salsinha misturados à argamassa. Passaram séculos, chamaram o Bill Murray, e ele disse não haver mais registros de espectro no local. Foi uma festa. Enfim o cais poderia ser aproveitado para o bem estar da cidade. O problema era saber como. O poder público, inseguro sobre a derrubada do muro, todo ano encomenda pesquisas para saber a opinião da população. O índice vem crescendo assustadoramente, chegando a 132% no estudo mais recente. Entretanto, ainda acham melhor ter mais certeza. Além disso, a prefeitura instituiu que por ser um patrimônio público, a área só poderá ser destinada a atividades culturais, nunca ao terrível capitalismo. O resultado disso é que o maior movimento mundial organizado de ratos e lagartos cultos tem sede na cidade.

Após algumas críticas da opinião pública, abriu-se uma licitação para exploração da área pela iniciativa privada por dez anos. Foi aí que entrou na história o feliz mega investidor-empreendedor de origem indígina Babo Bear ( aquele que tem dado na danceteria), cujo nome original era Urso que Baba, modificado para uma melhor adaptação social. Babo é sobrinho do multimilionário Jorge Berbau Yo! Rapper, conhecido também como MC Só Aço, megastar muito conhecido no Brazil e no exterior. Mas as regras do contrato, em letras miúdas, avisavam das restrições: Proibido construir, comercializar produtos, ganhar dinheiro, torcer para o Zequinha e manifestar simpatia por partidos de centro-direita. O projeto foi para o brejo.

Neste meio tempo a população, já integrada ao forte movimento dos ratos cultos do Cais, elege como governador do estado o maior ativista do grupo. Antônio Fritto assume em janeiro de 1995. E com ele ganha força um projeto de revitalização idealizado por ratos e ratazanas militantes do partido, com participação até de arquitetos estrangeiros. A briga ficou feia. A prefeitura nunca gostou de Fritto e deu um jeito de dificultar todo o processo. Acabou o mandato, veio outro e outro e outro e outro. Tudo caiu no esquecimento e na Bienal do Mercosul.

Um dia o atual governador resolve relançar o projeto. Apresenta como se fosse novo, mas esquece de tirar o logotipo dos roedores do final do vídeo. Horas depois de apresentado, o projeto já tende ao fracasso. A prefeitura, mesmo depois de tantos anos, continua a mesma. E agora ela diz ter seu próprio projeto.

Especula-se então que seja apenas uma disputa de belezas, entre o prefeito e o governador. O que poucos creem, já que o atual prefeito João Berne evita tanto a exposição pública que alguns duvidam de sua existência, exceto pelo banho no Guariba flagrado pela imprensa, onde se esboteava pelado com o Collaves, que protestava contra o nascimento, um dia, do PT, gritando "o Gasômetro é meu, é meu!". Enquanto isso os secretários encarregados de dialogar com o governador davam com o nariz na porta do palácio Piratini, fechado para reformas e detetização. Mais um embargo ao Cais, já que eles, os secretários da prefeitura, se recusavam em qualquer hipótese a comparecer às audiências no shopping Iguatemi. Com as obras, Ribotto despachava direto da Lyra Beauty, para evitar deslocamentos.

A prefeitura diz que não há demanda turística para um hotel da proporção prevista no projeto, e que ainda fere o plano diretor, datado do século passado. Mas o governo do estado é categórico, afirmando não haver demanda por não existir na cidade um marco da grandeza do hotel proposto. A discussão é tão transcedental que depois de alguns meses mal lembravam por que discutiam e decidiram finalmente experimentar a Nova Schin.

O projeto megalomaníaco também prevê a construção do teatro-sede da OSPA, que viria a somar-se àquele que já existe na Independência, e ao que está sendo construído na Cristóvão Colombo. O que permite à entidade um registro no Guiness como a maior orquestra sinfônica do planeta, tamanha necessidade de espaço.

E a história segue, sem definição. Quem perde? A população, sempre, que continua com medo dos fantasmas. Os fantasmas das lendas públicas desta querida terra Gáucha.

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comentários deste post (2)

21mar | olivia

bom, olivia paulista nao entendeu metade, mas gostei desse ainda mais que gostei do outro, principalmente o começo "O sol vai lá, nasce, brilha, esquenta e some. Com ou sem rio e montanhas. Mas o disso disso é o cultivo de uma paixão inconscinete do povo pelo fim do dia e começo da noite. Isso é bom."

como diria minha professora de literatura do 2o ano: "hmmmmmmm, delicioso" (tem doido pra tudo)

to adorando seus textos!

18mar | Menina Má

"o maior movimento mundial organizado de ratos e lagartos cultos tem sede na cidade." (só quem mora em Porto Alegre para entender e dar boas gargalhadas!)

"Jorge Berbau Yo! Rapper" (fantástico!)

ah! muito bom!

diga aí


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