Borrões... Cada dia me impressiona

Borrões...

Cada dia me impressiona mais a aceleração do tempo. Março, pois até o eterno mês de março, passou num piscar de olhos.

E por falar em piscar de olhos, semana passada eu e minha querida malvada Menina assistimos ao bom documentário brazuca "JANELA DA ALMA" (Brasil, 2002, 73min.). Dirigido pelo estreante Walter Carvalho, o filme é baseado em relatos de dezenove pessoas, incluindo nomes como José Saramago, Wim Wenders, Hermeto Pascoal, Oliver Sacks e João Ubaldo Ribeiro, que contam como as implicações da visão podem alterar a personalidade, os sentidos e a forma de interpretar o mundo. Entretanto, a obra acaba por ir além e registrando algumas análises interessantes acerca de todo o significado que a, ou melhor, as imagens têm para nós como uma janela para a vida.

Algumas pinceladas que, tenho certeza, valeriam conversas de boteco ou bons textos:

Sentidos não são sentimentos. O que acontece então quando a emoção se perde dos sentidos? A visão capta, mas a emoção interpreta. Ninguém nunca será capaz de ver igualmente como uma outra pessoa.

Nunca foi tão presente na humanidade, e daqui para frente cada dia será ainda mais, a idéia de limitação representada por Platão na Alegoria da Caverna, onde tomamos por realidade a representação das imagens que nos são envidas diariamente.

Há um excesso de imagens e de referenciais por toda parte. O ponto da saturação. O resultado disso é que imagens simples não são mais percebidas e, para prender a atençãodas pessoas, é preciso que as imagens sejam complexas e fantásticas. Vivemos uma exigência crônica de representação, crescendo exponencialmente.

O que vemos pode despertar sentimentos, mas também selecionamos nossa visão, nossa atenção, pelo que sentimos. Olhamos sempre para aquilo que individualmente nos é mais significativo, mesmo no mais aberto dos planos.

O que a miopia, tão comum, pode ter de responsabilidade na personalidade das pessoas, ao exigir do seu portador que, na falta de um recurso "sintético", veja o mundo como naturalmente fora de foco?

E essa é uma minha:

Sinto, às vezes, andando na rua o que chamei de fadiga da beleza. É tanta a busca incansável do ser moderno pelo belo que está cada vez mais comum encontrarmos "design" em coisas e lugares inusitados. O preenchimento de todos os espaços com o cuidado estético. Não julgo certo ou errado, mas, de repente, sem mais nem menos, senti um cansaço enorme de ver tantas linhas, formas e cores dispostas em uma harmonia artificialmente perfeita.

anterior | home | próximo

comentários deste post (5)

29mar | Dolfo

Sensacional. Vi este documentário tem um tempo já, mas volta e meia frases dele me pegam por aí. Estou sempre enquadrando a vida pela minha moldura, pelas minhas lentes. As pessoas precisam ver esta película.

29mar | Milton Ribeiro

Excelente post, Geva. Para não ser tão longo quanto os amigos acima, só te digo que vi este filme (e todos os outros que vi até hoje) com olhos de daltônico. Será a minha beleza diferente da tua? Abraço.

27mar | olivia

muito bom, muito bom esse filme. eu vi umas duas vezes porque tive que fazer trabalho de FECH (fundamentos da expressao e comunição humana bla bla bla) sobre ele. o problema foi que eu comecei a achar muito defeito e coisa ruim sobre um filme que era pra ser bom.

mas enfim. acho que o problema é que eu nao aguento mais ouvir falar do mito da caverna.

acabei me irritando com o saramago, com aquele papo de premio nobel, um papo que todo mundo já conhece, estamos todos cegos, que todo mundo ja fala. e nao digo que deixa de ser verdade por causa disso, so acho que podia se esperar um pouco mais dele. nao?

acho que eu queria conclusoes e nao consegui nenhuma. pra complementar esse filme, bom mesmo é ler Miguilim, ou Primeiras Estorias, que só mesmo o Guimaraes Rosa sabe aquietar alguns pensamentos.

bah, na verdade eu nao devo ter feito muito sentido. eu gostei do filme, o wim wenders vale o filme inteiro. o bom de ser miope é as vezes colocar os oculos depois de ficar mto tempo sem eles, e começar achar beleza onde ninguem mais vê, como na nitidez do contraste entre o céu no por do sol com uma montanha ou que sejam os predios...

bom comentario final, e eu concordo. tambem nao sei se é bom ou ruim, mas é no minimo interessante. essa coisa de design tá pegando que nem peste negra. no mais, a gente joga agua em cima que acaba. por ora, nao tá ruim :D

abraço!

26mar | Menina Má

a miopia... a miopia (essa era minha, mas tudo é válido). o grande problema dos míopes (e eu posso dizer isso com propriedade porque tenho 4 graus e meio em cada olho) é que a visão turva, tida como errônea, pode ser justamente apenas mais uma visão. e uma visão correta! porque é eu que não enxergo o mundo com foco? porque não é o mundo que está inadequado para mim? porque não é o mundo que está borrado e eu, enxergando absolutamente bem? e falando em mundo borrado, a artificialidade do que vemos e vivemos hoje em dia não nos permite ver as coisas de forma clara. novamente borrados. e, dentro de uma Caverna de Platão, vemos um mundo borrado e cheio de representações cansativas, beleza estética perfeita, mas impossível de ser sentida.
sobre a simplicidade: acho que esta dificuldade de "ver simples" não reside só aí. a dificuldade maior é viver simples. um amor tem que ser arrebatador, tem que avassalar a vida. um filme tem que ser espetacular, fantástico. uma festa tem que ser a mais "forte", perfeita. a comida tem que ser picante. o doce tem que doer na garganta. fica que não sentimos mais o agridoce, o meio amargo. e a vida tem desses, mais do que necessários. passamos a viver por títulos de perfeição, deixando de nos pautar numa vida mais realística. taí o mundo dos blogues que, sim, aproximam amigos, mas faz a vida tomar proporções de virtualidade inpensáveis.
:)

26mar | tiagón

O desafio da beleza, hoje em dia, acho que é devolver ao design seu aspecto orgânico, natural. As coisas são tão lindas que nem são mais lindas - são só coisas. Não é excitante, de uma maneira meio transgressora, imaginar A Mulher Mais Bela da Cidade de Bukowski, que era lindíssima e tinha uma cicatriz enorme no rosto?
Por outro lado, acho nós brazucas temos tudo para ser cada vez mais vanguarda de beleza e design. Por exemplo: tudo é música eletrônica, mas os djs daqui remixaram cuíca e atabaque. Conquistaram o mundo!
Excelentes tópicos. Abraço!

diga aí


Type the characters you see in the picture above.