" /> Gabriela com Café: julho 2007 Archives

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julho 20, 2007

Amiga, vai alegrar o céu!

pra morrer, basta estar vivo. vai embora uma amiga muito querida. linda demais. cheia de energia. de luz. tem coisas que não dá pra entender. ou tem mais gente que conheço morrendo porque to ficando mais velha...ou deus tá construindo um parque temático lá em cima. seja o que for, a morte anda dando suas caras. e não combina nada com um momento tão especial. que eu saiba compreender e aceitar as regras desse mundo.

Blanchot

"a solidão que acontece ao escritor por força da obra revela-se nisto: escrever é agora interminável, o incessante. ... não é o repouso, a dignidade do silêncio, pois ela é o que ainda fala quando tudo foi dito... escrever é quebrar o vínculo que une a palavra ao eu, quebrar a relação que, fazendo me falar de 'ti', dá-me a palavra no entendimento que essa palavra recebe de ti, porquanto ela te interpela, é a interpretação que começa em mim porque termina em ti. escrever é romper esse elo. é, além disso, retirar a palavra do curso do mundo, desinvesti-la do que faz dela um poder pelo qual, se eu falo, é o mundo que se fala, é o dia que se indentifica pelo trabalho, a ação, o tempo. escrever é o interminável, o incessante."

e eu me apaixonei novamente.

julho 19, 2007

Não sei não, assim você acaba me conquistando

ando transmutada em móveis. em querer ser cortina, mesa, cadeira, trepadeira de banheiro. ando esquisita. e não me escuto mais. o ser que grita habita em uma paz serena. e não cabem perguntas. mas elas vivem. assopra um medo de estar junto por hábito, por obra, por matéria, por convenção. são as posses que me assustam. os papéis que me assombram. será que de uma hora pra outra serei responsável pela sua comida, cuecas e meias? ah, esse odioso comercial de margarina que criaram pra gente. vamos jogar fora. inventar qualquer coisa nova em que caiba a gente vivo, singular, mutante. calar a boca num beijo e ficar só. não se tem mesmo certeza de nada. a vida é esse constante permitir vir deixar poder fazer enquanto se tem saúde.

julho 18, 2007

Vazio

ainda bem que eu tenho muita caixa, louça, papel pra arrumar. acidentes me deixam triste. lembro que vou morrer. e que a qualquer momento pode ir embora alguém que gosto.

julho 17, 2007

A vida não é filme, você não entendeu

no mundo filme, projeção dos outros, eu espero linda e loira pelo grande dia. me preocupo com minha beleza, passo cremes, faço massagem, cuido das unhas, cabelo, sorriso. nesse mundo, eu também namoro bastante, apaixonada, encantada. eu ando nas nuvens. penso no vestido, na viagem, na camisola, nas fotos, celebro com os amigos.

no mundo real eu trabalho como louca pra tirar alguns dias de férias e deixar tudo no lugar. ando roxa de carregar caixas, bater em paredes, abrir janelas. minhas unhas estão feias de tanto lavar louça, passar lustra móvel, pano na parede e mudar móvel de lugar. meu cabelo cheira a poeira e meus dentes moram no dentista. nem vejo meu namorado. eu saio às 7h e ele chega às 22h. não comemoramos a casa nova, só trabalhamos. enquanto um arruma o armário, o outro monta o ar condicionado. estamos cansados, ansiosos, nervosos, doentes.

o mundo real é bem melhor que o mundo filme. com todas as suas cores, contrastes, defeitos. ele é vivo, pulsante, transparente. não projetem seus filmes em mim. nem imaginem que a minha vida está cor de rosa. parem de invejar meu dia-a-dia e vão viver.

julho 13, 2007

E era eu, era ela, era eu

ontem tive fé que vou morar durante muito tempo nesses braços. ontem tive medo de morar em braços. ontem tive braços que quero pra sempre no tempo de abraços. ontem. rápido demais. ontem. e só sei que é muita gente olhando pra gente. e eu nem me vejo mais.

abri o espelho e lá estava eu. nua. sobre essas vestes estranhas. lá estava eu. clara. cheia de um sorriso de dentes tortos. lá estava ela. e ela era eu. perdida nessas vestes entranhas.

corri pra te encontrar e não achei nada. me perdi. é o tempo que me guia agora. e eu lutando pra estrangular as horas com as pontas dos dedos. lutando pra enforcar a hora. e o tempo correndo bravo feito louco solto na minha sala.

olhei no espelho e era eu. velha. mãe. quase irreconhecível nesse papel de mulher. era eu mulher. gostando das minhas formas. saboreando minhas cores. olhei e era eu. e não pude fugir.

julho 10, 2007

circo do faustão

eu sou a marmota. fazendo malabarismo no circo do faustão. eu, a própria. fugindo do atirador de facas e equilibrando pratos na ponta do nariz. marmota. jogando bolinhas no sinal de trânsito com roupa de chinês de corda bamba. um milhão de tarefas. e ainda querem que eu tenha tempo de digerir e preparar alguma coisa inteligente. esqueçam. no momento eu sou a marmota. e só há tempo para isso.

julho 9, 2007

Ilariê

boca de palhaço, coração na testa, um x em cada bochecha. nós dois no peito. você surfista. cabelos ruivos estilo design maizena e um laço. braços timbalada. mãos indianas nomes. muitas vozes e sorrisos. alegria em meio ao meu véu dança do ventre cor de rosa. muitos presentes. natal chegou mais cedo esse ano. :)

julho 6, 2007

Só as mães são felizes

não há espaço no meu corpo pro que sinto. espaço. identidade. respeito. não tenho mais espaço no lugar onde não caibo. abro. entro. afundo. não criei um espaço pra tudo que flutua ao redor de mim pairando febre. solto. morto. vivo. perdi. deixei de gostar de mim no meio dessa brincadeira e não consigo voltar. é gente demais. e eu só queria ficar um dia inteiro na praia com a areia e o sol, habitando com o corpo livre, atravessado de terra e mar. perdido no meu horizonte ipanema. cabendo entre o morro e pedra. mas não há espaço. só pergunta, ansiedade, rótulos, afirmações. eles me dizem quem eu sou. não sou. devo ser. fazer. e eu só quero existir sem ter que ficar me medindo na hora em que eu tô apertada dentro dessa coisa que inventaram e chamam de eu. eu não existo. vou aprender a habitar segurando os pêlos do universo até formar crosta e não emitir som.

julho 5, 2007

Deixa eu dançar, pro meu corpo ficar Odara

a vida tem laços eternos. pessoas que não passam impunes. que não estão o tempo inteiro, mas moram em você. ser amigo de alguém há mais de 20 anos, no meu caso, é ser amigo de alguém durante quase toda a minha vida. é não precisar dizer nada, fazer nada, revelar nada. é um amor profundo de irmão que pode ficar anos guardado numa gaveta que no primeiro reencontro parece o novo que sempre foi. to reencontrando gente antes de mudar de pele. e quanta gente maravilhosa tem por aí. ontem reencontrei aquela que me sabe do avesso. conhece cada pista minha como eu entendo cada olhar dela. nossos encontros são sempre muito bons. e nunca suficientes.

julho 3, 2007

Pastel

não tenho mais massinha pra virar palavra. acabou...virou pó esse castelo de areia com palitos de sorvete de um verão passado. massinha pra virar palavra. e aquilo que chamo de eu enrolado dentro de uma panqueca gigante lambendo cada pedaço. palavra. nem sei mais o que é isso. há tanto gesto, afeto, gente, massa. não dá mais pra virar nada. persigo a linha de chegada.