E o passado é

Qualquer outro lugar ao sol
outro lugar ao sul,
céu azul, céu azul
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Qualquer outro lugar ao sol
outro lugar ao sul,
céu azul, céu azul
cheiro forte de café entupindo o ouvido. bomba pronta pra estourar. miolo de pão que ressecou no canto. tartaruga. to escrevendo pra fugir do que não posso falar. do que não tem palavra. do som.
to escrevendo pra fugir do som da palavra oca.
~*~
to ansiosa por começo novo e já abri as portas. tem jardim colorido na minha frente, mas ainda não dei passo pra entrar. tenho medo de abrir buraco e já gosto da casa que moro. tento viver o instante e escrevo o que não vivo. não me procure aqui, é no buraco entre as palavras que estou. não me procure aqui, não existo. corre um coelho pela varanda. eu insisto.
~*~
tenho escrito um bando de coisa maluca. eu, hein?!
o passado é o que dá sentido ao presente, enquanto o presente se divide quando se estende na evocação do passado que lhe confere significado e se contrai na orientação ao futuro. o presente é o devir, é o abismo. segundo deleuze, em sua leitura sobre bergson, “se temos tanta dificuldade em pensar uma sobrevivência em si do passado, é porque acreditamos que o passado já não é, que ele deixou de ser. confundimos, então, o Ser com o ser-presente.” mas se é o passado que confere sentido ao presente, se o passado é, enquanto o presente é devir, não podemos entender o passado como momento anterior ao presente. na verdade, eles são simultâneos. compartilham as existências ao mesmo tempo.
~*~
e um nó na cabeça em looping pensando na duração, acesso do passado que é, organizado como memória. passado não psicológico e de lembranças, mas passado de si mesmo, de tudo que você já viveu, passado-história-percepção do mundo. como matéria também feita dessa memória. e capacidade vidente de acessar esse passado que não está no cérebro e sim em algum outro lugar. instantes de eu-presente-devir prestes a se acumular ao passado, memória de tudo, navegando entre as ondas de rádio... rastro de tudo que existe. de tudo que já foi e é.
e ao ter uma intuição, ou premonição, ou consultar um vidente... ao acessar a memória, você alcança a duração... e minha cabeça dá um nó. conceito novo pra relógio de mão.
resolvi fazer marola pra animar a onda. já to preparada pra pegar um jacaré e descer até a praia. as mudanças não páram e saturno comanda. que venham as coisas novas. e que sejam boas.
eu não sou o que escrevo. não sou o que visto. não sou o que vejo e nem quem é visto. não sou o que falo nem minha voz. não sou o que conto e nem o que escondo, e nem meu silêncio eu sou. o jeito que ando, o que como, o que bebo, quem me come. não sou seu parente. nem sou o que penso. muito menos o que rezo.
não sou nada não.
~*~
vi um filme lindo, lindo, lindo! "Me and you and everyone we know". poético, inspirado, simples, sutil. um filme sobre afetos, solidão, troca, procura, sentimento. um filme daqueles amo ou odeio, sem meio termo. narrativa suspensa, sensação de leveza no cinema e um certo desconforto. algumas lágrimas e muitos sorrisos provocados por um garotinho muito fofo. mas muito mesmo. assim como o filme todo, lindo demais.
vá assistir!
~*~
a vida escorrendo pelos dedos e ela agachada lavando a roupa no rio. mais água que bacia e muito vento pra lavar. os cabelos dançando pro dedo trabalhar. costura essa roupa que a casa é nova. e anda pra vida, e sobe pedra e desce esse morro. força nas pernas. perde esse olhar numa folha e se demora. deixa o cachorro latir, tem nada não. abraça esse coqueiro e segue. anda pra vida cabrocha que a safra é boa. e deixa o tempo te trabalhar. que sei que ele ainda dói um pouquinho e essa dor não vai sarar.
~*~
vislumbres de duração num vazamento do absoluto.

adentrei o quarto cheio de bolas de ninar e arranquei o carpete. deitei no chão. catei as plumas flutuantes do nariz e joguei no cesto. deitado de chão. vazei de lado e salpiquei um bocadinho pra chuver serpente. to cantando. e meu chuveiro não pára de escoar. se o sabonete falasse, eu sairia correndo. tem vozes demais no meu mundo e to rezando o silêncio. dente de chão e papagaio pipa. roleta de gente é mundo e que me vale a vida. andei pra pisar torto e cair sentada. ladro de noite. e arrebento o dia.
ps. te ganhar ou perder, sem engano. é que eu preciso dizer que eu te amo, tanto...
De manhã - Caetano Veloso
É de manhã
É de madrugada
É de manhã
Não sei mais de nada
É de manhã
Vou ver meu amor
É de manhã
Vou ver minha amada
É de manhã
Flor da madrugada
É de manhã
Vou ver minha flor
Vou pela estrada
E cada estrela é uma flor
Mas a flor amada
É mais que a madrugada
E foi por ela
Que o galo cocorocô
dia lindo no forte de copacabana com céu azul. aquele mar grande cercado de edifícios e a gente ali, pequenininho contando histórias da vida. te ouvir é um dos maiores prazeres, mesmo quando dói. e você inteiro é do que mais gosto. e te saber tão grande e inocente de si é o que te faz lindo.
o dia seguiu azul e junto da cerveja chegaram os amigos. um nostálgico guardando as cores do fim do dia. outra grande pequena que já gosto muito. e o dia continuou no cinema, insólito, infinito, melancolia sóbria de uma tarde que enfim anoiteceu em meio a montes de livros e sopa quente.
meu dia foi feliz e cegou a vontade de que a vida ande mais depressa do que ela pode.
nos dias em que nada acontece é quando mais acontece. porque quando tudo acontece não se tem tempo de degustar os acontecimentos. e é na falta deles (ou na percepção de falta) que as tramas começam a brotar sementes. quando nada acontece tudo acontece. pra dentro. pro lado de fora que a gente não vê. mas sente. se você ficar quieto quando nada acontece vai ouvir o vento. e ele vai doer. porque quando o vento passa com tempo, o tempo dói. e a falta de acontecimento é sinônimo de sobra de tempo. e o que é uma sobra de tempo? é um pedaço do tempo que ficou parado. porque o tempo também pára. ele dorme. pra falar mais tarde. quando tudo acontece e sua cabeça parece não aguentar de tanta que é a vibração do corpo conectado com aquele tempo incessante, jorrando pra todos os lados. e quando ele jorra sobre você, é a sobra do tempo seu maior desejo. é o pernas pro ar, é a rede, o ronronar macio de um pé descalço pisando em tempo. mas ainda não era isso. nada era quando tudo acontece. veloz demais pra ser absorvido, mastigado, saboreado, tocado por você. e é quando a gente se toca que tudo acontece, no nada acontecendo de bom pra fazer, a não ser acontecer ao seu lado.
se tem duas palavras que não combinam, estas são tolerância e tpm... sim, porque hoje meus hormônios estão sem a menor paciência para seres de camisas polo. e parece que percebendo a movimentação suspeita das glândulas, eles, os seres em camisas polo, cismam em perguntar a mesma coisa várias vezes, em se tornar ainda mais burros do que de costume, mais arrogantes do que merecem e mais idiotas dos que os três patetas. eu penso em alertá-lo. penso em comer minha língua. quem sabe um chocolate diminua minha ira? mas não... não adianta... os seres de camisa polo são invencíveis. ultrapassam minha medíocre inteligência com caretas de quem não gostou. de quem não sabe ler. de quem é feio mesmo, coitados. porque os seres de camisa polo, nos meus dias de tpm, fedem a bolor. e minha tolerância tange o zero. o negativo. tange a vontade de dar na cara deles e sair pela porta, cantando um samba. tem duas palavras que realmente não combinam, e são "gabriela com café" e "camisa polo".
depois da vergonha de sábado, dos jogos com atuação medíocre e da preguiça de escrever que o parreira me dá... fica aqui meu primeiro e último post sobre a copa. só pra constar que o melhor foi sair mais cedo do trabalho e beber umas cervejas com os amigos. ;)
Tenho uma amiga maravilhosa que casou tem pouco tempo. Outro dia ela comentou sobre o desejo de manter os pequenos mistérios femininos, mesmo estando casada. Aquela sombracelha que parece que já nasceu assim. O decote perfeito. O perfume atrás da nuca. Pequenos artefatos que usamos para ter a sensação de linda e poderosa quando ele vem te buscar. Um ritual de preparação (escolher roupa, se maquiar, pentear, etc.) solitário que agora procurava um novo espaço.
Eu ri. Achei um exagero daquela mulher tão linda, inteligente, fashion, charmosa e tudo de bom.
Mas agora, te entendo como nunca.
Eu também ando com medo de dormir e acordar junto todo dia. Reconheço publicamente que me peguei pensando se isso iria quebrar o meu "encanto feminino". Me sinto ridícula, as vezes. Quero ele goste de mim de qualquer jeito, a qualquer hora, com remela, de pijama, aquele coque mal feito, de meia com chinelo confortável no pé e a cara amassada de quem acabou de acordar. E sei que ele gosta. E eu também gosto dessa sensação que chamam por aí de intimidade.
Mas confesso que as vezes sinto falta de sentir saudade. E um medo maluco de que ele canse de mim. De que perca o desejo por estarmos próximos de mais, cedo de mais, rápido de mais.
É... é um conforto acolher minha ambiguidade, minha humanidade que não sabe bem o que quer. E olhando os meus pais, percebo que o desejo é algo além do que aprendi até agora. E pouco a pouco, vamos descobrir esse novo lugar.