quinta-feira, 08/05/2008

da literatura

e me encanta a literatura pelo tanto dela que não podemos compreender, que jamais se poderá compreender; que é o que fazem os poetas -- que são todos os escritores -- quando tentam capturar com palavras o inexistente, o inexprimível e o impossível, como fez Alice ao atravessar o espelho, não saltando sobre ele, mas sim diluindo-o com a palavra, horizontalmente atravessando-o como se nunca pudesse ter havido ali qualquer tipo de oposição.

deparar-se com esse choque, com o que é a ficção e se mescla ao real, com essa possibilidade inexplicável de criar-se a si mesmo e transformar os possíveis. essa literatura que é sempre o Odradek, esse ser efêmero de forma ao mesmo tempo precisa e incerta -- impossível -- que fala em um sopro sem pulmões, porque a idéia de que ele possa nos sobreviver é eternamente dolorosa para mim.

terça-feira, 29/04/2008

découragez!

you're an author? me too! pra ler, do NY Times. em inglês (bã). que devemos desencorajar novos escritores, sempre quando possível. sim?

‘Découragez! Découragez!’

não duvido. ninguém jamais conseguiria me desencorajar (se nem mesmo uma faculdade de letras), mas isso talvez não queira dizer nada.

sábado, 26/04/2008

e por onde se vá qualquer imaginada glória de um autor publicado

claro, meta a sociologia no meio e diga que é tudo culpa dos grupos dominantes que excluem a periferia. mas a mim isso tudo soa quase alienígena, ou mesmo imaginar que um escritor publicado é alguém "contemplado pelo mercado" e pela mídia. a situação atual é outra. o livro na estante é um livro na estante, uma nota no jornal é uma nota que será esquecida no dia seguinte. os que realmente fazem qualquer diferença para o público são uma meia dúzia ou talvez uma dúzia inteira, e que desses boa parte seja do eixo Rio-São Paulo posso até dar razão ao que diz Rinaldo de Fernandes, mas muito muito em parte, porque a verdade é que a mídia e o mercado não estão interessados em coisa nenhuma.

sexta-feira, 18/04/2008

mais uma lista de autores de literatura policial

The 50 Greatest Crime Writers, no Times Online. sugestão do blog Confessions of an Idiosyncratic Mind. vejam a lista e depois vão fuçar os outros artigos que acompanham a lista.

domingo, 13/04/2008

why I write

Reginald Hill na seção Why I write do Guardian:

How do you survive being alone in your work so much of the time?
You are never alone with a novel. The characters become as real to me as real people. But I don't shut myself away, incommunicado. I've got my laptop in front of me and you've just interrupted me in mid-sentence. I'll finish that sentence, but I will never be sure that it's sentence I'd have written if you hadn't phoned at that moment. That is part of the excitement of writing.

[link.]

um pouco de sensatez para aquela frescura de "uh, preciso me fechar para o mundo quando vou escrever." sempre achei isso tudo uma grande bobagem.

sábado, 12/04/2008

dos dilemas da literatura de gênero no Brasil

Lucas Murtinho publicou no Palavra um texto mui interessante sobre literatura policial e literatura de entretenimento: "O dilema da literatura de gênero brasileira". um pouco em resposta ao que eu e o Polzonoff andamos escrevendo sobre o assunto. o texto está muito bom e traz idéias interessantes para a discussão. leiam e comentem e façam barulho, hein hein?

quarta-feira, 09/04/2008

and yes I said yes I will Yes

vi em um artigo do blog de livros do Guardian: depois da lista dos 100 melhores começos de romances, o American Book Review fez a lista com os 100 melhores finais.

pelo que entendi, vai ter uma votação pra escolher o melhor ou qualquer coisa assim. enfim. vale fuçar. confesso que quando pensei em finais o único que consegui me lembrar foi o do Ulysses, do James Joyce. e óbvio que ele está na lista. tinha que estar.

depois lembrei outro, dos meus favoritos: "O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia." (Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa, rei!)

alguém aí lembra um bom final?

quarta-feira, 26/03/2008

autores lêem

do booktwo.org: uma seleção de gravações de autores lendo trechos de seus livros. com James Joyce e tudo (ele lê quase tão estranho quanto escreve, convenhamos, e parece que no meio da leitura de repente não entende nada do que está lendo, mas é incrível). tem o T. S. Eliot, também e outros mais obscuros pra gente. a única gravação que não foi feita pelo próprio autor é a do Rilke, porque, buena, as leituras são em inglês, e Rilke era alemão.

aqui para ir direto para a página em que dá pra ouvir as gravações. só abrir no navegador e clicar.

terça-feira, 25/03/2008

100 melhores começos

uma lista com os 100 melhores começos de romances, criada pelos editores do American Book Review.

se são de fato os melhores, pouco importa. mas tem alguns que são geniais. quais os seus começos favoritos? (esteja ele na lista ou não.)

um dos meus favoritos é o do "Estrangeiro", do Camus: "Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem." outro: "Uma das poucas coisas, talvez a única, que eu sabia com certeza era esta: que me chamava Mattia Pascal", do "O falecido Mattia Pascal", do Pirandello.

e que mais?

domingo, 23/03/2008

dica de leitura

uma entrevista com Dennis Lehane e George Pelecanos para a revista Crescent Blues. sugestão do Gregório Dantas (valeu!), do blog Mal de Montano. vale a leitura.

quarta-feira, 12/03/2008

da literatura policial, pelo mestre

o texto completo do The Simple Art of Murder (em inglês), do Raymond Chandler. segundo informação da Wikipedia, o texto foi publicado pela primeira vez em 1944. vale muito a leitura. que é pra gente não ficar o tempo todo se repetindo.

download de livros

Burgomeister's Books. livros recentes para download gratuito. tem umas coisas mui interessantes. principalmente os policiais. Raymond Chandler, Dashiell Hammett (e um monte de Agatha Christie, pra quem gosta). teoricamente funciona como uma biblioteca: você baixa, lê, deleta. buena, a teoria é linda, mas enfim. não sei de que forma o site faz o controle para que você só possa baixar cinco livros a cada duas semanas, mas esse é o único catch.

eu estava procurando alguma coisa digitalizada do ensaio The Simple Art of Murder, do Raymond Chandler, que reli esses dias e queria postar um ou outro trecho, mas estava com preguiça de digitar. achei. hip!

quinta-feira, 06/03/2008

lendo Miguel Torga

Miguel Torga, no prefácio de "Bichos":

Fazemos parte do mesmo presente temporal e, quer queiras, quer não, do mesmo futuro intemporal. Agora, sofremos as vicissitudes que o momento nos impõe, companheiros na premente realidade quotidiana; mais tarde, seremos o pó da História, o exemplo promissor ou maldito, o pretérito que se cumpriu bem ou mal.
terça-feira, 26/02/2008

Palavra #18

ae ae.

texto meu na 18ª edição do Palavra, no Le Monde diplomatique online. eu falando sobre meu processo de organização de idéias quando quero escrever literatura policial -- a poodle está tentando tirar minhas mãos do teclado para que eu faça carinho nela -- que é um troço que vez ou outra alguém pergunta, e aí.

pois sim. digam aí o que acharam.

nesta mesma edição está um texto do Paulo Polzonoff Jr. que já divulguei aqui quando foi publicado no blog dele e quem não leu deve ler. sobre literatura policial. hah. claro.

e agora vou-me para meu primeiro dia de aula depois de umas férias que podiam ter durado pra sempre (se bem que já não estou de férias desde a última semana, quando comecei a trabalhar. huh).

quarta-feira, 20/02/2008

paranóia

só pra dizer que terminei de ler o Shutter Island, do Dennis Lehane, e comecei logo a ler outro livro, porque o final desse último ficou ecoando na minha cabeça (não bastasse eu ter sonhado com ele durante a noite toda) e se eu não me distraísse logo com outra coisa ia começar a ficar paranóica.

terça-feira, 19/02/2008

Shutter Island

finalmente comecei a ler o livro Shutter Island, do Dennis Lehane. tinha encontrado em um sebo e deixado ali na estante para um momento que o tamanho desses pocket tamanho-padrão-best-seller-americano (em outras palavras, pocket com 400 páginas) não me assustasse muito. eu tenho uns momentos que preciso ler coisas mais curtas. ok, ok, passou. pode olhar ali na minha lista de últimas leituras (os dois últimos, pelo menos).

enfim, enfim. Shutter Island está muito bom. mais um daqueles livros que me agarram e me deixam toda míope quando finalmente consigo parar um pouco de ler para voltar a trabalhar. estou lá pelo meio e só parei para terminar minha cota de redações do dia, falar com meu pai no msn (huh?!) e escrever esse post.

quando eu crescer quero escrever feito o Dennis Lehane.

quarta-feira, 06/02/2008

revista online de literatura policial

estou montando uma revista online de literatura policial.

e apanhando do Movable Type. na verdade descobri que tem algumas coisas que eu não sei bem como resolver no código e por isso bateu uma crise e estou me achando a incompetente. se alguém aí manja tudo de Movable Type e se dispõe a me ajudar, eu ia ficar bem contente.

a revista vai se chamar Máscara negra, referência descarada à revista americana que começou na década de 20. os planos é que tenha contos, artigos, resenhas e vez ou outra alguma entrevista ou qualquer outra coisa diferente. também vai ter espaço pra textos mais longos, ou mesmo romances, em formato folhetim.

mas a melhor parte (e também a parte que eu não consigo resolver no Movable Type) vai ser as colunas escritas por quem conhece a polícia brasileira. vai ser um ponto de referência para quem quer escrever literatura policial e não conhece nada da polícia e de procedimentos, e acaba apelando para a estrutura americana, ou mesmo por escrever histórias que não se passam no Brasil. serão duas colunas: uma escrita pelo Roger, falando sobre a parte da investigação, delegados e afins; a outra vai ser escrita por um perito, falando da parte do trabalho da perícia e tudo mais ligado a isso. acho que conhecendo a realidade fica mais fácil construir o verossímil, mesmo que os dois não sejam sempre equivalentes.

eu queria que a revista ficasse pronta até o dia 15, mas agora que empaquei no código, não sei bem quando eu consigo terminar. se alguém puder ajudar, quem sabe.

terça-feira, 29/01/2008

mais da literatura policial e, inevitavelmente, da polícia

do Carlos (sem link) em comentário ao último post do Polzonoff sobre literatura policial brasileira:

O problema não é o Espinosa ser metido a filósofo. Eu mesmo sou licenciado em filosofia, e um amigo meu é delegado e professor de filosofia clássica. Outro, escrivão, aprendeu latim por conta própria. E por aí vai. Com esta coisa de concurso, o que não falta na polícia é intelectual deslocado, gente que precisava arranjar um trabalho, passa fácil em concurso mas não consegue emprego no mercado de trabalho real.

o post do Polzonoff é bom e esse comentário do Carlos é todo muito pertinente. isso que ele diz se relaciona diretamente com o que eu tinha comentado antes: a verdade é que convivendo por quase quatro anos com um investigador de polícia eu cheguei mesmo foi à conclusão que até nessa polícia há muito espaço para a ficção, sem precisar abrir mão da verossimilhança. sim, a polícia brasileira tem uns tipos bem literários, digamos assim. dia desses faço um post listando tipos reais e imaginários e peço para vocês adivinharem quais são verdadeiros e quais eu inventei. topam?

pra mim, a discussão continua iluminando aos poucos minhas questões sobre a literatura policial brasileira. que por aqui ela comece a tomar um rumo. pelo menos por aqui.

tenho uns planos.

mais dilemas da literatura policial brasileira

domingo, 27/01/2008

A life of their own

"From Jane Eyre to Jean Brodie, David Copperfield to David Brent, whether solidly realised or lightly sketched, fictional figures can be as vivid to us as real people. But just what, exactly, is a character, asks James Wood": texto sobre personagens, no The Guardian.

longo. ainda estou na metade. muito bom.

domingo, 20/01/2008

o dilema da literatura policial brasileira

na 14ª edição do Palavra, no Le Monde Diplomatique online, um texto meu sobre a literatura policial no brasil e suas crises insolucionáveis.

leiam, leiam.

e um pedido: se alguém por aqui gosta de literatura policial ou escreve literatura policial, deixe aqui um comentário (com email verdadeiro, fazfavor) que vou entrar em contato.

estou com uns planos aqui.
me aguardem.

quinta-feira, 10/01/2008

o escritor e o detetive

The writer as detective: my investigation: no blog sobre livros do Guardian, por RN Morris.

trecho:

So if the detective is the writer, his fictional creation is the murder victim. And in fact, there is a sense in the book that as Martin Beck becomes more preoccupied with the character he and his team create - that of Roseanna, the murdered woman - the distance grows between him and the real, living woman who is his wife. She pulls him back to the world of his family - the real rather than the imagined world - and he resents her for it. It's a phenomenon that has been noted in the lives of many artists, including writers. The detective rejects the living and chooses the dead, while the writer chooses the fictional, those who have never lived. The obsessiveness of the detective is akin to the obsessiveness of the writer.

muito bom.

quinta-feira, 03/01/2008

Fitzgerald, Amory Blaine e o artista

um tanto assustador é o personagem Amory Blaine, protagonista do livro "This side of paradise", do Fitzgerald.

parei um pouco quando ele diz ao amigo Tom, quando Tom lhe sugere que escreva ficção: "Trouble is I get distracted when I start to write stories - get afraid I'm doing it instead of living - get thinking maybe life is waiting for me in the Japanese gardens at the Ritz or at Atlantic City or on the lower East Side". e de que nos serve a ficção?

a verdade é que essa literatura mostra o quanto esses problemas e as crises da arte, que começaram a aparecer já com a revolução industrial, e foram crescendo para topar com o modernismo ao redor do mundo, e então o pós-modernismo que não passa de um bando de artistas que não têm mais nada a que se apegar, essa literatura mostra o quanto tudo isso ainda não está nada resolvido. a arte? a gente não sabe mais o que é arte. a gente perde tempo discutindo o-que-é-arte, ou deixamos que os críticos decidam por nós.

o livro é o primeiro do Fitzgerald, e foi publicado pela primeira vez em 1920. a princípio o narrador acompanha a vida de Amory Blaine, mas o que pesa no livro é a parte que vem depois do interlúdio, quando Amory já saiu de Princeton, foi à guerra e voltou. a primeira parte é um retrato de uma geração, a segunda parte são as conseqüências disso tudo. antes são os acontecimentos, as especulações, as dúvidas e um personagem que ainda não sabe bem o que é, o que deve ser, por onde seguir. na segunda parte são as idéias, o que se pode tirar desse retrato, ou, ainda, o que restou.

de certa forma, é ainda o mais importante: o que restou? para Amory, para os artistas, para nós. em que podemos acreditar, agora. o que pode ser feito com esse mundo, a partir do momento em que ele é questionado.

na mesma discussão em que há a sugestão do amigo Tom, Amory diz:

"We want to believe. Young students try to believe in older authoes, constituents try to believe in their Congressmen, countries try to believe in their statesman, but they can't. Too many voices, too much scattered, illogical, ill-considered criticism. It's worse in the case of newspapers. Any rich, unprogressive old party with that particularly grasping, acquisitive form of mentality known as financial genius can own a paper that is the intellectual meat and drink of thousands of tired, hurried man, men too involver in the business of modern living to swallow anything but predigested food. For two cents the voter buys his politics, prejudices, and philosophy. A year later there is a new political ring or a chance in the paper's ownership, consequence: more confusion, more contradiction, a sudden inrush of new ideas, their tempering, their distillation, the reaction against them --"

mais adiante:

"What's all this got to do with your being bored?"

Amory considered that it had much to do with it.

"How'll I fit in?" he demanded. "What am I for? To propagate the race? According to the American novels we are led to believe that the 'healthy American boy' from nineteen to twenty-five is an entirely sexless animal. As a matter of fact, the healthier he is the less that's true. The only alternative to letting it get you is some violent interest. Well, the war is over; I believe too much in the responsibilities of authorship to write just now; and business, well, business speaks for itself. It has no connection with anything in the world that I've ever been interested in, except a slim, utilitarian connection with economics. What I'd see of it, lost in a clerkship, for the next and best ten years of my life would have the intellectual content of an industrial movie."

"Try fiction," suggested Tom.

o mundo mudou. por volta de 1850. e ainda estamos tentando entender o que aconteceu, e para onde estamos indo. a literatura é a maior prova disso, porque a literatura se afasta, "free from all hysteria". Amory Blaine é um contra-senso porque passa a vida em um estado de perturbação e ansiedade, e teme escrever porque ao invés disso poderia estar vivendo. mas não vive, como viveriam os homens comuns, porque tem a literatura dentro de si. esse demônio do questionamento. em outras palavras, é um artista.

esse é o legado que nos deixou a revolução industrial. por ora, não há descanso para o artista. o artista não pode se deixar fazer parte do mundo. não que ele seja um rebelde consciente. ele continua boquiaberto com a velocidade das locomotivas e não conseguiu de todo acompanhar as conseqüências do motor a vapor. ele está entre a tradição, que não lhe serve, e o presente, que não lhe faz o menor sentido.

do Virgínia Berlim, de Luiz Biajoni

acabei de ler o Virgínia Berlim, último livro do Biajoni. tinha também acabado de ler o que o Marcos VP falou sobre o livro (aliás, ele também falou sobre o meu, vai lá ler), e acabei encontrando em minha leitura muito o que o VP comentou. o Bia é um exagerado.

mas o livro é bom. vai comprar com o Sexo Anal e o que se encontra desse primeiro são os exageros -- que eu chamaria desnecessários --, mas essencialmente Virgínia Berlim é outra coisa. Virgínia Berlim tem uns momentos de poesia que são lindos. momentos em que o narrador sabe usar as palavras para provocar no leitor alguma reação à sua dor e às suas idéias. a forma que ele cria os diálogos ficou consistente com aquele narrador que parece sempre repetir as coisas dentro da cabeça, como que se experimentando a força das suas palavras. ao mesmo tempo, tem alguns momentos que estragam tudo, e a gente esquece um pouco que aquilo ali é literatura, e fica parecendo um pouco uma crônica sem-vergonha de um jornal de quinta em uma cidadezinha muito menor do que Limeira.

é mais ou menos assim: o narrador solta um "putz!" e logo você pensa "putz! estava indo tão bem!"

achei interessante também umas tentativas de não-linearidade, uns momentos quase James Joyce, ou aquele Pai Nosso entre parênteses, que só não funcionou lá tão bem porque ficou, buena, entre parênteses. graficamente, e também por estarem muito demarcadamente separados do resto da narrativa, esses momentos não se misturam muito bem ao resto do texto, e parecem mesmo uma tentativa, e não uma qualquer coisa que deu certo.

mas no geral, o que tenho a dizer é que o livro é bonito. o texto, na maior parte do tempo, é bonito. exagerado, sim, e muito inconstante, talvez mesmo até sem muita unidade (e o próprio Bia me disse isso). mas ganham os momentos em que as palavras ficam ecoando e a gente sente um pouco o narrador. e o livro é curto. não peca por se alongar no que não precisava de mais do que aquelas 44 páginas. o que há de ruim dura pouco, e sobra muito mais o que há de bom. quem leu Sexo Anal e achou que o Bia estava quase lá, vai achar que agora está ainda mais quase lá do que antes.

mas como disse o Marcos VP, quem disse que o Biajoni quer isso?

sábado, 29/12/2007

Leituras de 2007

ahá! dessa vez eu mantive uma lista!

e aí vai, por ordem de leitura:

1. Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa (janeiro)

2. Catrâmbrias!, Evandro Affonso Ferreira (janeiro)

3. Esse Ofício do Verso, J. L. Borges (março)

4. Prosa do Observatório, Julio Cortázar (março)

5. Eugénia Grandet, Balzac (março)

6. Não feche seus olhos esse noite, Maira Parula (março)

7. O Guarani, José de Alencar (março)

8. Madame Bovary, Gustave Flaubert (março)

9. O Último Leitor, Ricardo Piglia (abril)

10. Lucíola, José de Alencar (abril)

11. Quem me dera ser onda, Manuel Rui (maio)

12. A história maravilhosa de Peter Shlemihl, Adelbert von Chamisso (maio)

13. Gone, baby, gone, Dennis Lehane (junho)

14. Poison, Ed McBain (julho)

15. A Última Dança, Ed McBain (julho)

16. Bom dia, camaradas, Ondjaki (julho)

17. Prayers for rain, Dennis Lehane (agosto)

18. Música Perdida, Luiz Antonio de Assis Brasil (agosto)

19. O segundo tempo, Michel Laub (agosto)

20. Conversas com Cortázar, Ernest Bermejo (agosto)

21. As armas secretas, Julio Cortázar (agosto)

22. Um caderno e tanto, Agota Kristof (agosto)

23. The diamond as big as the Ritz, F. Scott Fitzgerald (setembro)

24. The Last Tycoon, F. Scott Fitzgerald (setembro)

25. Iaiá Garcia, Machado de Assis (setembro)

26. Terra sonâmbula, Mia Couto (setembro)

27. Novelas, Samuel Beckett (outubro)

28. O pintor de retratos, Luiz Antonio de Assis Brasil (outubro)

29. Introdução à crítica textual, César Nardelli Cambraia (outubro)

30. A margem imóvel do rio, Luiz Antonio de Assis Brasil (outubro)

31. Quincas Borba, Machado de Assis (novembro)

32. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, Mia Couto (novembro)

33. Mensagem, Fernando Pessoa (novembro)

34. Meias vermelhas e histórias inteiras, Marcos Donizetti (novembro)


coisas que não estão nessa lista: livros que comecei e parei, pedaços de livros que li para a faculdade, livros de contos que só li alguns contos e afins. depois de novembro fui tomada pelos trabalhos de final de semestre e não li mais nada. agora estou lendo "This side of paradise", do Fitzgerald (desde o começo do mês, e enrolando), e também lendo e revisando o livro do maridão, mais o novíssimo livro de contos do senhor meu revisor (qualquer problema no texto do Operação P-2 o negócio é com ele) Marcos VP.

que venha 2008.

e aí, mais alguém guardou uma lista de leituras de 2007?


(há UM livro dessa lista que eu não li inteiro. na verdade, que não li quase nada. quem adivinha?)

quinta-feira, 20/12/2007

agora lendo

quando eu crescer vou escrever igual o Fitzgerald.

How a Triangle show ever got off was a mystery, but it was a riotous mystery, anyway, wheter or not one did enough service to wear a little gold Triangle on his watch-chain. "Ha-Ha Hortense!" was written over six times and had the names of nine collaborators on the programme. All Triangle shows started by being "something different - not just a regular musical comedy," but when the several authors, the president, the coach and the faculty committee finished with it, there remained just the old reliable Triangle show with the old reliable jokes and the star comedian who got expelled or sick or something just before the trip, and the dark-whiskered man in the pony ballet, who "absolutely won't shave twice a day, doggone it!"

There was one brilliant place in "Ha-Ha Hortense!" It is a Princeton tradition that whenever a Yale man who is a member of the widely advertised "Skull and Bones" hears the sacred name mentioned, he must leave the room. It is also a tradition that the members that the members are invariably successful in later life, amassing fortunes or votes or coupons or whatever they choose to amass. Therefore, at each performance of "Ha-Ha Hortense!" half-a-dozen seats were kept from sale and occupied by six of the worst-looking vagabonds that could be hired from the streets, further touched up by the Triangle make-up man. At the moment in the show where Firebrand, the Pirate Chief, pointed at his black flag and said, "I am a Yale graduate - note my Skull and Bones!" - at this very moment the six vagabons were instructed to rise conspicuously and leave the theatre with looks of deep melancholy and an injured dignity. It was claimed though never proved that on one occasion the hired Elis were swelled by one of the real thing.

This side of paradise, F. Scott Fitzgerald

segunda-feira, 17/12/2007

e o Camilo Pessanha

mas só mesmo poeta português pra usar a metáfora "grumo de sangue".

da poesia

convenhamos que T. S. Eliot é um mala sem tamanho. mas de todo mala pode-se tirar aquilo que os menos malas não seriam capazes de dizer. ou disseram, mas com dedos demais.

dele, do livro Ensaios de doutrina crítica (edição portuguesa), em "Tradição e talento individual":

De facto, o mau poeta é geralmente inconsciente onde devia ser consciente e consciente onde devia ser inconsciente. Ambos os erros tendem para torná-lo "pessoal". A poesia não é um solar de emoção mas uma fuga à emoção; não é a expressão da personalidade, mas uma fuga à personalidade. Mas, claro, somente aqueles que possuem personalidade e emoções sabem o que significa querer fugir a essas coisas.
segunda-feira, 03/12/2007

de lançamentos e finais

waaa.

sim, hoje é o lançamento triplo de Marcos Donizetti (é, o Doni mesmo), Albano Martins Ribeiro (que se autodenomina Branco para escapar do fisco) e João Peçanha, a partir das 17h no bar Genial. quer saber mais, vai no site dos Viralata. ou vai no bar de uma vez e pára de resmungar.

e mais!

hoje está no ar a aguardadíssima final da Copa de Literatura Brasileira. e se o seu livro favorito não ganhou, repito o conselho do goleiro do Corinthians: não é o fim do mundo.

e como diriam os gremistas (e, convenhamos, todos os outros times), boa segunda.

sexta-feira, 30/11/2007

de Drácula a Philip Marlowe

colaborei com um texto para a última edição do Palavra. dessa vez um artigo sobre as origens da literatura policial.

então enquanto instalo aqui o Ubuntu em meu recém-adquirido notebook (que veio com um Windows Vista Starter mui sem vergonha), vão lá dar uma olhada.

terça-feira, 27/11/2007

oh, o Kindle

eu acho engraçadinho como todo mundo está correndo a divulgar os problemas e faltas do tal Kindle (o nome é feio, convenhamos, lembra Kinder Ovo), e também dizer que, ah, que bobagem que issozinho aí vá representar o fim do livro impresso, ho ho ho (risada de Papai Noel). e porque é caro e absurdo, como é que a Amazon não percebeu? outros também que dizem, ora ora, essa gente tão desesperada em criticar o bicho não percebe que livro é só um formato e que na verdade o que importa é o conteúdo, yada. ou mesmo que o design é feio e esdrúxulo. e então do outro lado vem os entusiastas que compraram o iPhone na primeira semana balançando os bracinhos e dando piruetas, dizendo que lindo que lindo, como eu odeio sair por aí carregando livros pesados, uh, viva.

não posso evitar detectar nessas atitudes um pouco do prolongamento daquela discussão estúpida sobre ebook e livro impresso, que pelo jeito não vai acabar nunca, enquanto na verdade o ebook e o livro impresso estão pouco se lixando pra tudo isso. e também perceber as visões sobre literatura e leitura que cada uma dessas pessoas têm, e a vontade terrível de mostrar o quanto a visão delas é obviamente a mais certa, e que no fundo isso nada tem a ver com o gadget mirabolante da Amazon.

sábado, 24/11/2007

nomenclaturas

tomando assim que exista uma diferença entre crítica e análise literária, acho que então na verdade eu não sei bem fazer crítica literária, que é um troço em que a gente precisa saber destacar o que há de bom ou ruim em determinada obra.

análise literária pode ser então aquilo que aprendi (na marra e sem ninguém ensinar, que é como aprendemos as coisas na faculdade) com o curso de Letras, em que a gente pode viajar um pouquinho nas intenções do autor e toda a metalinguagem que pode existir por trás do texto.

mas aí vamos chegar em qualquer meio termo, porque sempre têm uns que chamam das duas coisas uma coisa só, e eu nem sei por certo se há entre elas qualquer diferença maior do que mera birra lingüística de minha parte. ou então concluir que crítica é o que se faz para escritor novo, e análise é para os mortos, pois sim? os vivos sempre podem contestar essa ou aquela visão, e por isso é infinitamente mais desagradável falar sobre eles. eles podem ler o que você escreveu (vide a CLB, com boas e péssimas interferências autorais).

e resenha?

acho mesmo que na verdade eu não sei falar de livros assim tão explicitamente, talvez porque me pareça uma perversão tratar de assuntos tão íntimos como é a leitura. ou que seja logo uma dissecação como para esses trabalhos de faculdade, e porque sempre me é desafio descobrir a metalinguagem oculta em todo texto interessante.

pois?

não chego a conclusão nenhuma.
mas é o formato, esse tal de dissertativo, que me deixa sempre muito confusa. porque para ele devo me transformar em um ser assim mui acadêmico, um tipo que seria até engraçadinho mas que fora da universidade fica só mesmo meio bobo. ou nada. ou a imprecisão.

quinta-feira, 18/10/2007

portugal telecom

do Ondjaki, que por um acaso estava na USP ontem:

"ah, depois que anunciaram o terceiro lugar eu tive certeza que não ia ganhar nada mesmo."

terça-feira, 09/10/2007

ah, a glória

viva o mercado editorial.

sexta-feira, 05/10/2007

esse mundo literário

"Quem vive de literatura não faz literatura." -- do Evandro Affonso Ferreira, escritor.

sexta-feira, 14/09/2007

retomar Borges

não terminei de ler o Ficções porque desenvolvi um certo medo de Borges.

esses dias reli o "A forma da espada", um dos contos que mais me assustou. ok, me assustei um pouco menos. talvez Borges não seja tão assustador. talvez eu seja capaz de ler esses contos sem me sentir sendo arrastada para um labirinto do qual eu jamais serei capaz de sair.

talvez seja o momento de retomar Borges.

segunda-feira, 10/09/2007

jogo 3 na copa de literatura brasileira

está no ar a minha resenha para a copa.

o jogo é "Música perdida", do Luiz Antonio Assis Brasil, contra "O segundo tempo", do Michel Laub. acho que todos deveriam ler e comentar e reclamar. e, mais do que isso, ler o livro vencedor. porque vale a pena demais.

segunda-feira, 03/09/2007

o motivo que faltava

mais uma vez a literatura independente, até vocês não agüentarem mais e gritarem "chega!!" enquanto arrancam os cabelos

ou: "a gente só sabe o que vai ficar da literatura atual daqui a seis séculos"

hoje soube quantos exemplares de "Desumano" foram vendidos desde dezembro do ano passado, quando o livro foi lançado.

o livro vendeu muito bem no dia do lançamento, e mesmo a mocinha da Livraria da Vila veio me dizer que era um número surpreendente. agora não me lembro exatamente se era 84 ou 94. tinha um 4. mas sim, um monte. e agora, depois de pouco mais de seis meses? mais ou menos o dobro disso. no total, contando com aqueles do lançamento.

ora, ora.

não vamos entrar no mérito do meu livro. eu mesma sei que o bichinho tem suas falhas, e a cada dia percebo falhas novas.

mas então pra que mil cópias, e pra que todo esse caminho irritante e assinar contrato e receber 8% das vendas? que troço estúpido. que desperdício de papel. é só uma literaturazinha policial sem vergonha que quero mostrar a quem interessar. não tenho vocação para vendedora nem para política. aliás, minha única vocação é escrever.

Alex Castro sempre que comenta de suas muitas vendas e resenhas, termina com um "e daí?". porque o livro não foi publicado por editora, etc, etc. ok, ok. pergunto eu: uh, editora. mil exemplares! vendeu menos de 20%. pra quê?! só mesmo para eu me dar conta que era um troço muito à toa. ritual de passagem? não vale a pena morrer por ele.

reclamo mesmo. porque dá uma raivazinha. porque eu acreditei (em algum momento em acreditei). deixe-me aqui que me viro, eu e meus leitores. há muita literatura muito mais interessante que a minha por aí, não quero ser nenhuma revelação ou a mais nova autora da literatura brasileira. que merda.

fama e reconhecimento todo mundo quer. mas ficar correndo atrás é bem idiota.

como disse meu amigo Rogério, numa discussão de quinta-feira de manhã sobre Homero, Safo e Dante, "a gente só sabe o que vai ficar da literatura atual daqui a seis séculos".

começou a copa de literatura brasileira

a primeira resenha está no ar. "Mãos de cavalo" X "Por que sou gorda, mamãe?", por Renata Miloni.

não li nenhum dos dois, mas claro que fiquei surpresa com o resultado.

de qualquer forma, não tive vontade de ir adiante na leitura de nenhum dos dois livros, quando em livrarias comecei a ler as primeiras linhas. e tenho uma certa mania com as primeiras linhas de um livro.

enfim. leiam a primeira resenha e assinem o feed do site para as próximas. a minha partida é a terceira. em muito breve. uh!

quinta-feira, 30/08/2007

a literatura brasileira

a verdade é que tem certos autores que estão por aí fazendo sucesso, e eu devo dizer que alguns dos meus alunos de ensino médio (ok, não são meus alunos propriamente ditos, mas vou chamar assim para efeito didático) escrevem muito melhor que. não que os que fazem sucesso sejam ruins. é só que não são lá grande coisa. mas é que parecem que não estão se esforçando. parece que querem mesmo é fazer o novo, fazer diferente, etc. ao invés de querer fazer coisa boa. fico pensando, e me lembrando de uma conversa que uma vez tive com um desses novos que fazem sucesso e ele falou que olha só estou tendo essa idéia e quero fazer um texto assim diferente. ou então outra vez que eu mostrei uma idéia minha para um outro e a resposta foi "ah, mas isso já foi feito".

só queria saber isso. estão se esforçando? eu sei que me esforço, e sei que ainda não sou tudo o que ainda gostaria de ser. se vai servir de alguma coisa, o esforço? nem sei. mas como disse Cortázar, para lutar contra o pragmatismo e a horrível tendência à consecução de fins úteis, etc. ah. ontem li esse conto ("perda e recuperação do cabelo", em Histórias de cronópios e de famas) para a quinta-série, foi bem divertido. eles acharam o primo do narrador um idiota inútil, mas enfim. crianças.

mas como eu ia dizendo.

a verdade é que quanto mais ouço falar de literatura brasileira atual mais fico com raiva de querer fazer parte dela (pretensões, pois sim, faço parte). e o que essa gente da mídia fica falando, os "novos autores", a "geração 00", e que blog é literatura e literatura é blog. que horror, que horror.

eu até fico com vontade de ler mais do que há por aqui, mas quase sempre não dá gás continuar a leitura.

o que me salva é que desde que entrei na faculdade de letras me dei conta que era preciso ler apenas aquilo que me interessasse, e que nunca era preciso terminar de ler um livro simplesmente porque comecei. mas vá ver: nunca pensei que fosse ler qualquer livro de literatura angolana e gostar. a literatura angolana em comparação com a brasileira de hoje, ainda, com coloquialidades e essa escrita meio torta, ainda tem a vantagem de aquela linguagem ter algum significado, o que na brasileira já não serve como desculpa. Bom dia camaradas me disse muito mais que, ham, o último livro brasileiro que li, aliás, para a Copa (o resultado da minha partida vocês saberam, em tempo).

mas já estou me desviando.

era mesmo só para dizer que... às vezes eu fico até frustrada. pobre Mário de Andrade.

quarta-feira, 22/08/2007

nas capas de livros

um jeito de perceber o quanto um autor é mais valorizado pelo seu nome do que pela sua obra é medindo o tamanho de seu nome na capa do livro em comparação com o título da obra.

se tanto, é ao menos um indicativo do que a editora tem a dizer sobre o que está publicando.

terça-feira, 21/08/2007

do Bernardo de Carvalho e a entrevista lá

ok, ok. todos já comentaram sobre essa entrevista que Bernardo Carvalho deu para o Rascunho. eu, confesso, comecei a ler pensando: ah, ah, esses escritores que falam, falam, falam. mas aí eu parei de reclamar e li, e vi que a entrevista é toda mesmo muito boa, e muito cheia de verdades, e que vale a leitura.

do final, quando ele responde aquela irritante pergunta do "por que escrevo", colo aqui o que ele disse e que eu poderia ter dito, e que, imagino, muitos outros também. e ele diz, brilhantemente, que é toda a razão para eu continuar insistindo e batendo a cabeça incapaz de fazer qualquer outra coisa, e que também é o motivo pelo qual eu, apesar da birra, fui e li a entrevista até o fim, para me surpreender:

Eu escrevo porque não daria para não escrever. Não sei explicar. Quando eu não escrevo, fico agitado. Mas não é terapia. É fundamental, é a minha vida. É mais importante que qualquer outra coisa. O chato é quando vejo que é uma ilusão. Uma ilusão que eu criei para mim, mas é uma ilusão que dá sentido para a minha vida. Acredito nesse negócio. Tem um negócio meio religioso. Igreja de um homem só. Vou lá, rezo, e acredito naquele negócio. E funciona. Não acredito em Deus, não acredito em nada. Em alguma coisa, eu tinha de acreditar. E, aí, sobrou a literatura. É ótimo. Agora, não dá para ficar sem. Igual a uma pessoa que acredita em Deus e não consegue passar sem essa crença. Tem de acreditar que Deus existe. Eu acredito na literatura. É uma ilusão. Cada um arruma uma forma para viver. A literatura é a minha.

bestas literárias

eu logo saquei que Saramago era uma besta quando assisti a sua ilustre participação no filme "A janela da alma" e ele veio com o mito da caverna. e porque claro que Lobo Antunes tem bastante razão quando disse a um auditório de brasileiros e literatos que "para o Brasil, Saramago está mais que bom".

segunda-feira, 20/08/2007

outras considerações sobre a literatura policial

porque esses dias conversando com o Alex Castro e não chegando a nenhuma conclusão sobre o que é, afinal, a literatura policial, só tive certeza que dificilmente seria possível, de fato, chegar a alguma conclusão sobre o que é literatura policial.

digo: pode ser um gênero demais limitante, que prevê regras estritas, e assim excluímos tudo que há de diferente do modelo de Poe (e meu livro Desumano, certamente, jamais poderia ser um romance policial, e mesmo o romance negro, que Dashiell Hammett inventou, começa a escapar demais do que deveria ser a história de detetive).

e se vamos então expandir a definição para acolher tudo que hoje chamamos literatura policial, vai ser necessário dizer que Hamlet e Édipo Rei eram também histórias policiais. Não?

ou começar a desmembrar o gênero, criar subgêneros: histórias clássicas de detetives, romance noir, crime fiction...? sem contar as histórias de bandido. em inglês, chamam. há detective stories e há crime fiction. e há também um monte de outras coisas, porque eles adoram botar nomes em tudo. mas o que a gente faz com isso que chamam alta literatura e sem querer se encaixar um pouco nos específicos do gênero? o que faz com Édipo Rei, e Hamlet, Crime e castigo, O estrangeiro ou alguns contos do Borges? o que faz com todos os crimes da literatura universal? e com as investigações? e com o mistério e o suspense?

hoje um colega do trabalho me perguntou qual eu achava a melhor história policial de todos os tempos e antes que eu respondesse sugeriu: "Crime e castigo?"

será que história policial é mesmo um troço tão alienígena e periférico? ou então que seja só esse nome, com "polícia" no meio, que faz parecer que não pode ser nada muito digno de uma boa literatura? e será que vale ficar por aí tentando definir ou agrupar coisas diversas, querendo botar Hamlet e O assassinato de Roger Ackroyd no mesmo saco só porque morre gente no meio da narrativa e há um personagem tentando descobrir o que aconteceu?

quarta-feira, 08/08/2007

e a literatura policial

Sobre gêneros, uma vez li do Todorov (em uma edição que ainda bota acento em "êle"):

Poder-se-ia dizer que todo grande livro estabelece a existência de dois grandes gêneros, a realidade de duas normas: a do gênero que ele transgride, que dominava a literatura precedente; a do gênero que ele cria.

Existe, entretanto, um domínio feliz onde essa contradição dialética entre a obra e seu gênero não existe: o da literatura de massa. A obra-prima habitual não entra em nenhum gênero senão o seu próprio; mas a obra-prima da literatura de massa é precisamente o livro que melhor se inscreve no seu gênero. O romance policial tem suas normas; fazer "melhor" do que elas pedem é ao mesmo tempo fazer "pior": quem quer "embelezar" o romance policial faz "literatura", não romance policial.

no capítulo "Tipologia do Romance Policial", em As Estruturas Narrativas, de Tzvetan Todorov

Eu escrevo literatura policial, e acho mesmo que é gênero menor. Ora, é gênero.

Leandro Oliveira escreveu sobre os defeitos da literatura policial. Por resposta Marco Polli fez a defesa. Claro que vou mais concordar com o segundo, ainda que o primeiro tenha lá seus pontos. Nos comentários do Leandro o Osrevni falou: "quando o livro é bom e aborda questões que vão além do mistério, o leitor, e principalmente a crítica, tende a esquecer que é um policial e chamar de outra coisa". Que aí vai pros lados do que falou o Todorov. Não enfeita demais, que aí é outra coisa. E será que não é mesmo?


Não?

Então leiam o Alexandre, em defesa das histórias de detetives.


E no ar o capítulo três do meu folhetim, que agora tem o título temporário "A última peça", até que eu me convença do contrário.

domingo, 05/08/2007

e mais da literatura independente

Do tanto que falei no bate-papo com Julio Daio Borges, tenho certeza que não estou sozinha.

E Branco Leone, uns dias atrás, falando dessa gente baixinha querendo se fazer notada, essa gente que escreve porque não poderia estar fazendo outra coisa e não pode esperar sentada a boa vontade do mercado editorial e da mídia. Depois fez também comentar a entrevista, enquanto não vamos querer deixar o assunto morrer.

Também Valter Ferraz falou um tanto sobre tudo isso.

Mais alguém?

Meu orgulhosinho é que, procurando por "literatura independente" no Google, há lá meu primeiro post sobre o assunto, em terceiro lugar e só depois do site Os Viralata, do Branco. E era post que eu, enquanto escrevia, fiz mandar email pro Tiagón dizendo: "vou fazer um post que tenho certeza que se pensar demais não vou postar coisa nenhuma". A resposta foi: "corre!".

Mas, enfim. Tem que deixar a coisa ecoar.

quarta-feira, 01/08/2007

no digestivo cultural

Julio Daio Borges, do Digestivo Cultural, lançou-me algumas perguntas sobre mercado editorial, publicar em papel e o que eu poderia ter a dizer sobre isso. E publicou as respostas no blog do Digestivo. Leiam lá e deixem comentários. A discussão tem que crescer.

Né.

terça-feira, 31/07/2007

mais copa de literatura brasileira

porque da copa de literatura brasileira claro que era esperado que alguns inconformados se manifestassem contra. dizer que é idiota, que é obaoba, que é oportunismo, vá lá. mas difícil mesmo é conseguir compreender esses motivos (menos o post, mais a discussão, que se segue).

e eu só posso mesmo dizer: vocês não estão entendendo nada. o problema do nome da coisa não é o "copa" e sim o "literatura". seria? é.

mas me parece que quem bate o pé e diz que literatura tem que ser arte é a mesma gente que diz que sua banda preferida precisa ser obscura e não pode cair nas garras da mídia e da ignorância do povo. é gente que diz que não lê os autores novos porque já existem velhos o suficiente e são afinal muito melhores e consagrados pelo tempo. aliás, tenho muitos amigos que dizem isso, mas sabe o que posso concluir? é gente rabugenta, oras, oras. gente chata. deixa essa gente.

ok, ok, literatura pode ser arte. mas não PRECISA ser. quero dizer, só porque literatura é arte a gente não pode brincar com ela? tem coisa que para mim é arte e entretenimento. entretenimento só é um troço estúpido quando é para gente estúpida. gente estúpida se diverte assistindo domingão do faustão. por que eu não posso me divertir com literatura? ah, sim. literatura é arte. não pode. senta aí e lê, porra. em silêncio! shuuush!

a copa é um jogo de opiniões, por que não seria? por que a gente precisa encontrar um jeito para não ser? se alguém ESCOLHE alguma coisa, tem opinião no meio. a gente só vai dar umas justificadas, ou, mais que isso, explicadas. quer dizer, a gente vai dizer: escolho esse, porque isso. pode ser o mesmo motivo que um outro não escolheria, mas que vai fazer? fazendo um paralelo infeliz, imagina a copa de futebol: imagina que o brasil não chegue à final justamente porque saiu em segundo do grupo, sei lá, e dá de topar com a argentina na semi-final, e o roberto carlos se abaixa para arrumar a meia bem no momento que não devia. e o brasil perde! que bosta! se não fosse a argentina podia ser a inglaterra, e vai que a gente ganhava. ou só pegava a argentina na final e ficava em segundo lugar! o livro, coitado, caiu nas mãos de um jurado rabugento e perdeu a viagem.

é que ninguém gosta dos outros escolhendo pela gente, não é? e se for escolher, que seja alguém importante com renome e tudo. aí pode. o antonio candido pode escolher o melhor livro do ano! se não, eu quero escolher o MEU livro do ano, não é? claro que quero. eu sei que eu quero. aí vem esse bando de BLOGUEIRO pretencioso da puta que pariu dizer que vai escolher o melhor livro do ano em um torneiozinho sem-vergonha baseado em gostos e umas justificativas duvidosas de gosto. vá à merda!

ora, ora. tem gente que não acredita no oscar, tem gente que não acredita no jabuti. você pode acreditar no que quiser. o lucas teve a idéia e agora vamos brincar de ser jurado. oba. a quem interessar a discussão, as partidas serão transmitidas. quem leu esse ou aquele livro e acha que ele é sensacional, pode ir atrás das partidas para ver o que um outro fulano está falando sobre ele.

eu entrei porque achei boa a idéia de conhecer um pouco mais os autores novos, já que nunca fico sabendo de nenhum deles. e porque o lucas falou quem já tinha topado e pensei mais ainda: oras, se eles toparam, por que não? com esses caras, o negócio só pode ser bom. maridão achou idiota, eu disse a ele: bah, chato.

não acho que valha a pena o vencedor GANHAR qualquer coisa, justamente porque o prêmio não é democrático e porque não é imparcial e porque quase não é sério. porque a copa na verdade vão ser resenhas comparativas. eu mesma nunca gostei de comparações, ouvir gente dizer, afirmar e bater o pé: james joyce é melhor do que guimarães rosa, ou o contrário. por isso que o prêmio PRECISA ser uma coisa de opiniões, e a única graça dele são as opiniões. as pessoas todas acham que prêmios precisam ser imparciais e que torneios precisam ser baseados em quem é o unanimamente melhor de todos. tem gente que não gosta de beatles e guerra nas estrelas. o que você poderia esperar? pois bem. o lucas fez esse prêmio PELAS opiniões.

aí vem alguém dizer: o vencedor NÃO vai ser o melhor livro do ano. claro que não! o melhor livro do ano talvez tenha sido publicado por uma editora obscura, teve uma distribuição PORCA e você nem ficou sabendo da existência dele. o vencedor desse torneio vai ser um que teve algum mérito e alguma sorte. mas o quê; você esperava diferente?

quarta-feira, 25/07/2007

meus mais queridos escritores

E agora vou falar dos meus escritores mais queridos. Porque hoje é dia do escritor, e esses são os escritores que de um jeito ou outro mudaram um pouco o meu encarar a literatura e a leitura.

(Ok, o dia do escritor está acabando, mas como era só desculpa, ninguém vai nem reparar nesse tão pequeno detalhe.)


do Guimarães Rosa:

Eis o melhor escritor brasileiro. Não penso duas vezes para afirmar que "Grande Sertão: Veredas", é a grande obra literária brasileira. E sei que uns fãs de Machado vão me olhar feio quando eu digo isso. Mas digo, redigo e bato o pé. E olha, que fui ler esse livro agora, nas últimas férias de janeiro.

Conheci Guimarães Rosa no meu terceiro ano do colégio, porque "Primeiras Estórias" estava na lista da Fuvest. Foi na verdade quando comecei a gostar de literatura. Tive um professor sensacional, que estava sempre atrasado em suas análises porque passava metade da aula falando de Proust e do tempo perdido. Foi nas aulas dele que me apaixonei pelo conto Nenhum, nenhuma, mesmo sem entender nada do que estava escrito ali.

"Infância é coisa, coisa?"

Gente, que era aquilo. Recentemente me deparei com um ensaio da Leyla Perrone-Moisés, uma análise psicanalítica do conto chamada "Nenhures: considerações psicanalíticas à margem de um conto de Guimarães Rosa". Está no livro "Flores da escrivaninha", que fui ler quando pedi para minha professora de Literatura Brasileira me passar todas as análises desse conto que ela conhecia. E foi de repente toda aquela sensação que o Guimarães Rosa descreve, aquele quase-lembrar, e todas as minhas aulas de literatura do terceiro ano volta-voltando bem aos poucos. Ah! Meu professor se guiava por aquela análise! Estava tudo lá! E que ela cita, do texto: "Tem horas em que, de repente, o mundo vira pequenininho, mas noutro de-repente ele já torna a ser demais de grande, outra vez. A gente deve de esperar o terceiro pensamento".

Esse terceiro pensamento, toda a obra de Guimarães Rosa. Ah!

Foi nas aulas de Literatura Brasileira II, com essa professora que me apresentou o ensaio da Leyla Perrone-Moisés, que descobri o "Tutaméia". Aí, pirei. E curioso ainda que no começo das aulas estava há muito tempo sem encostar em Guimarães, achando que o amor da professora era só um exagero porque afinal James Joyce já tinha feito tudo aquilo tantos anos antes. Quem diria, então.

"Tutaméia" é o último livro do Guimarães publicado em vida, e o melhor de todos. Tenho ainda um projeto de iniciação científica para provar minha predileção. Porque eu entrei na faculdade muito decidida a me manter bem longe dessa vida acadêmica, a não ser que. A não ser que "Tutaméia", é o que posso dizer. O quê dizer? Um livro de avessos, de não-ditos, feito por possíveis. As terceiras estórias. E as segundas, você pergunta? Eu posso arriscar uma explicação, mas certeza eu só tenho uma: ele sabia muito bem o que estava fazendo.


do Julio Cortázar:

Conheci Cortázar quando minha avó Suzana (a que é cineasta) resolveu que eu devia conhecer Cortázar. Fiquei com essa idéia na cabeça, mui vagamente. Topei com "Histórias de cronópios e de famas" em um sebo ali na Augusta e, apesar da capa horrenda, comprei. Que, eu nem sabia dessas coisas de literatura fantástica, cronópio cronópio. Aquele conto Perda e Recuperação do Cabelo mudou minha vida.

Para lutar contra o pragmatismo e a horrível tendência à consecução de fins úteis, meu primo mais velho defende a prática de arrancar um bom fio de cabelo da cabeça, dar-lhe um nó no meio e deixá-lo cair suavemente pelo buraco da pia.

Não é que toda aula de literatura deveria começar com isso? Sim, contra "a horrível tendência à consecução de fins úteis", porque afinal só mesmo por isso que a gente estuda literatura. E não? Mas, assim como "Tutaméia", "História de cronópios e de famas" é um desses livros que nunca acaba. Os contos são muito curtos, e são muitos. A releitura sempre surpreende.

Pois aconteceu que comentei com minha avó que tinha gostado muito do livro, e ela me botou 50 reais na mão e disse que era para eu comprar livros do Cortázar em sebos.

Obedeci.

"Todos os fogos o fogo" é outro livro de contos que todos sempre comentam. Dizem que é o melhor, e capaz de ser mesmo. O conto A auto-estrada do sul te derruba logo no começo. Que diabos esse cara está fazendo?! É sensacional. Também gosto demais do A ilha ao meio-dia. Principalmente do final. Das últimas palavras. Toda vez que leio sinto um arrepio. Dos melhores contos.

Com o Cortázar eu aprendi que não precisava escrever difícil para escrever bem. E isso, para mim, foi fundamental. Porque veja só, é tudo questão de ordenar as palavras. Ah! Ainda que eu nunca consegui ler nada em espanhol e era tudo tradução.

Então uma amiga minha disse que eu tinha que ler "O Jogo da Amarelinha". Eu não queria, não queria. Tinha medo, achava que devia ser uma bobagem. Gostava demais dos contos para estragar com um romance desordenado. Mas. Dia desses fui com ela fazer um tour pelos sebos do centro, e o livro gritou para mim. Comprei. Li.

"O Jogo da Amarelinha" é o livro da minha vida. Não é nada desordenado e essa de que você pode ler numa ordem torta não é assim tão verdade. O que acontece é que você pode intercalar a história com outras partes. Partes que talvez sejam, ham, inúteis. E por isso é tão bom. Quando estava chegando ao final do livro, não queria terminar de jeito nenhum. Estava, as últimas páginas do último capítulo e eu não queria parar de ler, não queria que o personagem acabasse. E o personagem, o Horácio, um tipinho maldito; você só vai começar a gostar dele no final, quando, penso eu, ele começa a enlouquecer. E então de repente o livro está acabando e tudo que eu podia pensar era que não, não, mas não pode acabar agora, o Horácio não pode acabar justo agora. Devo ter levado uns três dias para ler esse último capítulo.

No meu aniversário desse ano ganhei "Prosa do Observatório", do el_Rey Tiagón. E o texto é tão sensacional que eu precisava parar de ler de vez em quando para deixar as frases ecoando na cabeça. Só: "Jai Singh quer ser isso que pergunta, Jai Singh sabe que a sede que se sacia com água voltará a atormentá-lo, Jai Singh sabe que somente sendo a água deixará de ter sede".


do James Joyce:

Ah!

Numa dessas de andar por sebos topei com um livrinho da Penguin chamado "The Essential James Joyce". Nele, "Portrait of the artist as a young man", "Dubliners", uns trechos do "Ulysses" e do "Finnegan's Wake", uma peça chamada "Exiles" e alguns poemas. Pensei que era um bom jeito de conhecer o sujeito. Porque cedo ou tarde eu ia ter que.

Comecei pelo "Dubliners" e achei meio chato. Passei para o "Portrait of the artist as a young man" e o James Joyce logo ganhou lugar na minha lista de escritores favoritos. No começo eu não entendia nada, mas aos poucos fui me dando conta das coisas que aquele cara fazia com o texto. Li mais ou menos ao mesmo tempo em que lia "O Jogo da Amarelinha" e ao mesmo tempo também que arriscava escrever um romance não-policial. Mudou demais o como eu escrevia, essa mania estranha que a gente tem de ficar obedecendo tudo que o Pasquale manda, essas vírgulas todas que aprendemos nas aulas de redação (e que eu, invariavelmente, ainda corrijo nos coitados dos alunos).

Também em algum momento nesse tempo que li o livro do Edmund Wilson, "Axel's Castle", sobre os simbolistas. Há um capítulo sobre James Joyce. James Joyce ainda era vivo e Edmund Wilson conta que Joyce está trabalhando em uma nova obra, que "is to deal with the night and with subconscious". Mas, ah! Esse livro do Edmund Wilson é bom demais, verdade seja dita. O ensaio sobre James Joyce vale muito a pena.

Na verdade o que me encanta no James Joyce é o quanto eu posso pirar nas palavras dele mesmo perdendo um monte do que diabos ele estava querendo dizer. As traduções são todas muito ruins (ou pelo menos limitadoras, como sempre seriam, e no caso do James Joyce fica tudo muito pior) mas nem sempre eu vou conseguir entender aquele inglês torto dele. Depois do "Portrait of the artist as a young man" fui ler o "Ulysses". Ainda não li tudo, mas já reli um monte de coisa. Ah, e passei da página 100, muito obrigado. Também já li todo o monólogo final, porque eu estava curiosa demais e não poderia esperar. Um dos capítulos do meio, Cyclops, é o que mais gosto. Aquele monte de coisa acontecendo, monte de gente falando, e o narrador que pára de repente de narrar para contar alguma história que aparentemente nada tem a ver com o que está se passando, e na verdade ele parece estar só tirando uma com a sua cara. James Joyce é todo linguagem.

E enquanto isso, vou ganhando fôlego e coragem para enfrentar o "Finnegan's Wake" que maridão me deu de presente.


Eis que. Não vou falar do Mario de Andrade agora. Sim, gosto demais de Mario de Andrade, mas muito mais pelo trabalho como crítico e pensador da literatura. Gosto dele como poeta e conheço muito pouco dele como contista.

Mas. São esses três mesmo os meus mais queridos escritores. Porque são também mentores e sempre aprendo alguma coisa em leituras e releituras. E porque, como já nos ensinou Cortázar, vez ou outra é muito importante lutar contra o pragmatismo e a horrível tendência à consecução de fins úteis.

terça-feira, 24/07/2007

de véspera

Em resposta ao chamado do André, e para o dia do escritor (que é amanhã, dizem por aí), minhas respostas, ou os meus 10 gritos para o mundo.

E então também convido vocês aí a responderem também em seus blogs respectivos (eu juro que queria fazer uma chamada personalizada, mas eu estou com uma preguiça tão grande de ficar copiando e colando links). Ou então a escrever sobre seus escritores mais queridos. Ou os dois. Ou então a fazer um comentário simpático, para me deixar feliz.

Né.

(Amanhã é que escrevo sobre os escritores. Mas já entreguei numa das respostas quem são eles. Ok, matei a graça. Ops.)


1. Que livro você está lendo?

Suspeitíssima para responder. Agora estou dividida entre The life and opinions of Tristam Shandy, do Laurence Sterne, Viagens na minha terra, do Garret, e 101 redações de alunos do primeiro ano do ensino médio com uma resenha crítica sobre o filme Othello de 1995, do diretor Oliver Parker. Ops.

E ansiosamente esperando chegar o Prayers for rain, do Dennis Lehane, que comprei pela internet, e vou ler todo de uma vez só assim que aparecer na minha frente.

2. Lembra do seu primeiro livro?

Se foi o primeiro eu não sei, mas o único que eu me lembro é A casa sonolenta, daquele casal Audrey e Don Wood. Eles são sensacionais.

3. No Brasil, sabemos que a leitura não é um hábito da população em geral. Quantos livros, em média, você lê por mês?

Hah! Menos do que eu gostaria, porque eu sou lerda e minha concentração tem prazo de validade curto. Nem posso dizer que é falta de tempo. Em média, acho que leio uns 2 livros por mês.

4. Você tem um gênero favorito? Qual?

Por gênero, eu gosto de policiais. Os outros livros que eu gosto costumam não ter gênero nenhum.

5. Alguns escritores, além de grandes artistas, são vistos como “seres superiores” por alguns leitores. Você tem ídolos escritores? Quais?

Meus seres superiores são James Joyce, Julio Cortázar e Guimarães Rosa. E Mário de Andrade, que toda vez que deixo de fora ele começa a gritar e eu penso duas vezes e digo: ok, ok, entra aí.

6. Você distingue o escritor pelo gênero - poesia, conto, romance, etc - ou acredita que escritor é escritor e ponto?

Ham. Que pergunta traiçoeira. Escritor deve ser escritor, mas um poeta não é a mesma coisa que um cara que escreve romances, e nem deveria ser. Não?

7. A internet pode se transformar em uma ameaça para a leitura de livros?

A internet ameaça a leitura tanto quando a televisão. E antes disso a falta de energia elétrica e o hábito de ler em pé. Ah, esses antigos.

8. Se você pudesse, como acabaria com o analfabetismo no Brasil e como implantaria o hábito de leitura?

Estímulos, incentivos, etc, etc. Ler é hábito e só. E então, literatura de entretenimento! Nenhuma criança obrigada a ler Vidas Secas aos 10 anos de idade pode aprender a gostar de Graciliano Ramos.

Não aguento mais a discussão de que a autora do Harry Potter criou uma geração que só quer ler Harry Potter mesmo, e que na verdade Harry Potter não está fazendo ninguém ler mais, e o que, o que. Bah! Que a geração Harry Potter nunca leia Saramago (ai) ou Gunter Grass (duplo ai). Acho que antes de fazer qualquer coisa a gente precisava mesmo decidir (e depois sair por aí espalhando pra todo mundo) por que é que ler, afinal, é tão importante.

Eu não sei como acabar com o analfabetismo, mas deve ter alguma coisa a ver com governo, educação, professores. Oras!

9. José Saramago declarou recentemente que sempre será comunista, embora saiba que este é um assunto ultrapassado. Um escritor deve manter para sempre seus valores, ou pode mudar de opinião?

Na verdade eu acho que escritor com valores já é um troço muito esquisito.

10. Uma frase para o Dia do Escritor:

Quem mantém os dois pés no chão, não sai do lugar. ~ Tor Åge Bringsværd, escritor norueguês

porque amanhã é dia do escritor

E eu nem sabia que existia dia para escritor.

Eu vou responder o chamado do André, porque depois que ele me botou numa lista de, veja, os melhores escritores (desses que andam pela internet, e que as pessoas, ham, lêem), eu fiquei feliz e aí.


E amanhã publico um texto falando sobre os meus escritores mais queridos, uns tipos perigosos, minha tríade demoníaca, enfim, enfim. Aquela coisa de que livro você levaria para uma ilha deserta e eu que certamente perguntaria antes mesmo de terminarem de falar "mas posso levar 3?"

Sim, farei o post, e já convido todos os leitores, e quem mais, para fazer o mesmo. Sim?

sábado, 21/07/2007

e o que acontece

Idéia de Lucas Murtinho:

Dezesseis livros se enfrentam em quinze jogos. Cada jogo é decidido por um jurado, que explica e justifica sua decisão para o público. O campeão talvez seja o melhor romance brasileiro do ano, talvez não. Provavelmente não. O importante é que o campeonato seja divertido e o debate, inteligente.

A Copa de Literatura Brasileira é inspirada no Tounament of Books, criado em 2005 pela revista eletrônica americana The Morning News em parceria com a livraria Powell's.
E, hah! Participo. Como uma dos 16 jurados.

Leia a idéia toda pelo próprio Lucas, que ele explica tudo muito bem. Muito melhor do que me explicou no email, aliás. Vá pensar que depois de ter que explicar sua idéia para pelo menos 16 jurados ele ia aperfeiçoar sua técnica. No link também a lista completa de jurados e os livros escolhidos para participar.

Está tudo sendo preparado. Aviso aqui quando tiver mais informações.


E, claro. Hoje, hein? Ou como diria o Milton, porque hoje é sábado.

Estarei por lá a partir de umas 10 horas, porque é tão elegante chegar atrasado. Ooo.

(E agora tenho que trabalhar um pouco, porque meu chefe me achou.)

quarta-feira, 18/07/2007

Este sábado

21 de julho, em São Paulo - SP, no bar Canto da Madalena (e o bar fica num canto mesmo, parece que estava fugindo da rua Aspicuelta), rua Medeiros de Albuquerque, 471. Como o nome do bar indica, na Vila Madalena. Mas não muito. Eu diria que o bar fica realmente no canto da Vila Madalena.

E o que diabos vai acontecer lá, você pergunta.

(Na verdade você provavelmente já sabe.)

Vai ser o lançamento dos livros do Alex Castro e do livro novo do Biajoni.

Mais informações em Os Viralata.

O cardápio (que segundo o Bia avisou só vale para os lançamentos no Rio -- que já foi -- e em São Paulo):


[Agora eu volto pro meu mundinho, embaçado que é porque a oftalmologista dilatou minha vista, e sobre o tudo que a gente tem que ver, como a moça no rádio disse, é falta de muito mais do que só vergonha na cara, e eu considerando seriamente trocar minha passagem de avião para o Rio por seis horas dentro de um ônibus. Sim?]

sexta-feira, 06/07/2007

Ambições

Na verdade ambição de escritor é um troço estúpido.

terça-feira, 03/07/2007

Ainda a literatura independente

Biajoni também escreveu sobre.

Porque na verdade é um trabalho tão grande publicar por editora normal, para uma alegria que dura os primeiros três meses. Depois disso, seu livro fica velho e não interessa à mídia. E se não pela mídia, de que serve um livro publicado dessa forma? Será que o reconhecimento (qualquer tipo de reconhecimento) precisa mesmo passar por essa mídia? Se a cada ano escolhem meia dúzia de "novos autores" para colocar na pauta. E não sei se quero entrar na fila, esperar minha vez, acompanhar o ritmo de produção e publicação de uma editora que publica meu livro sabendo que ele mal vai se pagar.

Estou quase certa que não vale a pena.

sexta-feira, 29/06/2007

Pela literatura independente

Eis um post que se eu pensar demais vou acabar não postando.

Não é por ser mal-agradecida. Sei bem, porque está meu livrozinho de estréia pela Brasiliense espalhado em livrarias (teoricamente). E também que vou saber enfim quando esse troço vendeu na semana que vem. Penso.

Mas é que cansa.

Muito mais certa é a literatura independente, cada um publica o que bem entende, vende pra quem interessar. Não sai na Folha nem no Fantástico, mas, convenhamos, muita gente boa publicada também não sai.

Das grandes editoras, são poucas as que tem um bom trabalho de divulgação. A Cia. das Letras e... Buena. A Cia. das Letras faz um bom trabalho de divulgação, é verdade. E a Cia. das Letras, mais do que qualquer outra, não está lá tão interessada em publicar desconhecidos (não é impossível, veja bem, por vezes os astros se alinham e seu original cai nas mãos de um agraciado editor que acordou no humor certo para o seu estilo de escrita, mas isso não é, digamos, o que acontece na maioria das vezes), ainda mais porque essa editora está com o calendário de publicações provavelmente muito bem preenchido até 2011.

Claro. Com sorte, cai-se nas mãos de um editor que realmente está interessado em te ver crescer. Pode acontecer. Mas e achar o caminho?

Quero dizer: você é publicado, cai na graça de meia dúzia de jornalistas de pequenos veículos, alguns amigos te arrumam contatos, etc. E devo imaginar que existam leitores que te descobrem porque você foi citado aqui ou ali.

Mas não é isso.

Esses leitores não chegam em você. E você nunca vai ficar sabendo da existência desses leitores. Será que...?

Afinal, escrever? De que me serve? Escrevo. Depois de Desumano, já escrevi dois, e estou terminando um terceiro. Pensando em publicar? Inevitavelmente, mas tudo isso me dá uma angústia tremenda. Porque eu estou sempre muito mais preocupada em escrever do que publicar. Ou melhor: eu estou sempre muito preocupada em publicar, mas não consigo parar de escrever para fazer dessa preocupação uma ação. E daí, a angústia. Ir atrás de publicação dá muito trabalho e é muito chato e eu não tenho dinheiro para pagar agente literário para fazer isso por mim.

O segundo policial que escrevi se chama Operação P-2 e está prontíssimo. E gosto tanto dele. Queria ver ele por aí, em mãos alheias, em bocas alheias. Mais que os meus amigos próximos. Porque tem pelo menos 75 pessoas que lêem esse blog (ou fingem que, segundo o FeedBurner) e talvez ainda outros que poderiam estar interessados. Sim?

E vejo o Biajoni. Ou o Alex Castro. Literatura independente. Escrevem e têm os seus leitores. Pode não ser o grande oceano pacífico de leitores, mas. Nem sei se eles continuam buscando editoras, mas será que precisa? Na verdade eu vejo os dois e fico mesmo é com vontade de fazer como eles.

É que a internet, etc, etc.

Sabemos bem, nós, que moramos aqui na internet. Não o sabem todos, mas nós.

Pois. Cansa. E eu não tenho a menor paciência e habilidade para ficar por aí buscando publicações. E se eu continuar com esse péssimo hábito de escrever um ou dois livros por ano, a coisa vai começar a ficar feia.

quinta-feira, 28/06/2007

Títulos

Estou a um capítulo de terminar um livro aqui que estou escrevendo.

E o livro está sem título.

Gah!

A última vez que fiz uma lista com palavras que poderiam me dar uma luz para um título foi com o Desumano. Porque Desumano era um título temporário. Pois vejam só.

Sempre assim. Ou tenho certeza do título desde começar a escrever ou nunca terei.

Olivia
20:16