sexta-feira, 25/02/2005
Um começo
Você não vai lembrar de mim, mas você pediu pra te avisar que você vai morrer amanhã, às quatro da tarde.
segunda-feira, 06/12/2004
Estrada
As coisas ficavam bonitas depois que a chuva acabava, e o sol iluminava as árvores, saindo tímido por trás das nuvens com uma luz esbranquiçada. Ardendo nos olhos e nas folhas brancas de papel, brilhando em rostos tristes. A antítese nas nuvens cinzentas que se afastavam, indo levar a chuva para algum lugar distante, como manda a lei da Terra.
O sol ardendo nos olhos, no gramado e nas páginas brancas, e fazendo os olhos se encherem de lágrimas.
Ah, e o arco-íris...
Antes de escurecer, quando o céu começava a ficar claro e amarelado a oeste, tudo ganhava um novo grau de nitidez. O claro e o escuro brigavam entre si. Tudo parecia mais limpo, de contraste estourado.
sexta-feira, 03/09/2004
Rotina
No começo do relacionamento, ele à na casa dela pra assistir o Domingão do Faustão por que gostava de sua companhia. Mas o tempo foi passando e eles foram parando de conversar durante o programa, e pararam de sorrir-se durante os intervalos. Acostumaram-se tanto um ao outro, que esqueciam-se que estavam juntos. De repente, ele percebeu que ia à casa dela para assistir televisão.
terça-feira, 13/07/2004
Fim de tarde
Ele sabia que não deveria parar no meio da avenida Paulista para olhar o céu das cinco horas naquela tarde de inverno. Faixas de azul e laranja apresentavam-se atrás dos prédios como uma visão que ele tinha certeza que já existira antes, em um sonho, ou talvez em alguma fotografia manipulada no computador.
E tudo tão estático.
O farol de pedestres fechou outra vez, e ele ainda continuava ali. Olhou o reflexo das luzes nas janelas de um edifício maior, um espelho gigante. E esqueceu-se que estava em São Paulo, e que era segunda-feira, e que ele ainda tinha mais duas semanas antes das suas férias.
Algumas pessoas olhavam o céu também, mas a maioria estava demais preocupada com os carros, e o farol de pedestres que demorava demais para abrir, ou com transeuntes suspeitos com olhares perversos.
Mas nada daquilo importava. Era apenas ele, o céu, e os edifícios. Se houvera alguma vez um pôr do sol como aquele na cidade, ele tinha se esquecido. E de pensar nisso, de pensar que talvez um dia ele também esqueceria aquele céu, não foi capaz de se mover quando o farol de pedestres ficou verde pela terceira vez desde que havia parado ali.
Queria ter uma máquina fotográfica para guardar aquilo para sempre. Queria ser capaz de, de alguma forma, armazenar aquele momento, para voltar ali quando tivesse vontade.
Alguém passou por ele ao atravessar a rua, trombando em seu ombro e forçando-o a olhar para frente. "Perdão" o homem dissera. Mas o céu, o céu. Ele voltou a olhar para cima, a vista entre os prédios. Os carros seguiam em frente com o farol aberto, e uma nova leva de pedestres se reunia para cruzar a avenida. O laranja era o mesmo, sua mente dizia. Mas não era.
Tudo parecia um pouco mais escuro. A visão lhe escapava. A memória falhava. Ele queria se lembrar daquele laranja vivo, do azul clarinho como os olhos de uma criança albina. Voltou seu olhar para os carros e ônibus. "Nada dura" ele pensou, ou talvez falara em voz baixa. "Que ridículo" concluiu, de repente.
O farol de pedestres abriu, e ele atravessou a avenida.
sábado, 10/07/2004
Exagero
Apaixonava-se, sempre, loucamente. Apaixonava-se porque podia se apaixonar, porque era como a capacidade de raciocínio do ser humano que o separava dos outros animais. Apaixonava-se simplesmente porque era humano. Apaixonava-se sem nem perceber. Quando dava por si, estava amando.
E como amava aquela menina sentada no banco da praça, lendo um livro de capa colorida! Ela encostava o livro nas coxas, segurando com uma das mãos, enquanto levava a outra à boca para morder as unhas. Ele tinha vontade de sentar-se ao seu lado e, carinhosamente, fizesse com que ela parasse com aquele vício horroroso, que estragaria suas lindas mãozinhas.
Amava-a! Como nunca havia amado alguém, como nunca mais amaria ninguém. E sim, nunca havia a visto antes, e provavelmente nunca mais a veria na vida. Assim como provavelmente não se sentaria ao seu lado para que ela parasse de roer as unhas. Mas como era boa aquela sensação, de estar apaixonado.
Exagero, exagero. Gostava de ser exagerado. Sorriu, ao passar mais perto da menina, com a felicidade de anos e anos de convivência que nunca existiriam. Com as noites que passariam em claro, e ele lhe contaria sobre assuntos banais e teorias inúteis, e a faria sentir que era a única mulher do mundo.
Sorria, mas a menina não se virou e continuou muito entretida com seu livro. E ele seguiu seu caminho, não olhou para trás. Sentiu o desespero que tomava seu corpo e amolecia as pernas. Mas seguiu em frente, com a certeza de que nunca mais amaria ninguém como amara aquela garota, lendo seu livro na praça enquanto entretia-se roendo as unhas da mão esquerda.
quinta-feira, 08/07/2004
Despedida
Ele deixou para colocar a máquina de escrever na mala por último, antes de ir embora.
— Mas você disse que me amava.
— Ah, meu bem. Foi um artifício literário.
(Dupla autoria via MSN.)
quinta-feira, 24/06/2004
Ecos

Foi antes do tempo. Tanto antes que quando o tempo surgiu não afetou o Grande, e tal força tão poderosa continuou como estava em seu mundo atemporal. Mas a definição da existência passou a ser aquilo que se movia no tempo e no espaço, e o todo poderoso não existia mais.
Seu reino atemporal, entretanto, foi unido ao mundo dos humanos, ligado às trevas no mais sombrio dos lugares. E nesses locais, permaneceu intocado.
Ser algum poderia dizer quanto se passou desde que isso aconteceu, uma vez que o próprio tempo não monitora suas ações, e minha raça não segue princípios tão levianos. Entre o tempo ou não, nós somos agora os ecos daquele que nunca existiu.
Mas o tempo... O tempo deteriora tudo.
quinta-feira, 27/05/2004
Exercício de roteiro
O homem abotoou a camisa com movimentos ligeiros e precisos, enquanto fitava os próprios olhos no espelho, na parte de dentro da porta do armário. Era alto e magro, os músculos eram toda a carne que tinha. A camisa ficava um pouco larga, deixando-o de certa forma com a aparência um pouco mais robusta. O quarto era pequeno e a cama de solteiro o fazia ainda menor, mal sobrando espaço para um armário estreito, o criado-mudo e uma cadeira de madeira, sobre a qual estavam jogados a calça social bege e um cinto preto. As paredes eram de um bege velho e manchado, dando a todo o ambiente uma aparência pálida, desbotada, como uma fotografia antiga guardada em uma caixa de sapatos sob a cama.
A cama estava feita, com um cobertor marrom dobrado sobre ela, e o lençol esticado sem uma dobra sequer, impecável. A janela pequena estava aberta, mas pouca luz conseguia se transportar para dentro daquele espaço, como se o ar ali fosse um pouco mais pesado. O sol entrava quase que perpendicularmente, quase atingindo a parede oposta.
O homem vestiu a calça, vagarosamente, e com a mesma destreza com a qual abotoara a camisa ele colocou o cinto. Olhou sua imagem no espelho com olhos negros bem abertos que, apesar da pouca luz, brilhavam com um certo orgulho da própria figura. Seu rosto era fino e cheio de pequenas manchas de sol. Usava um bigode preto, bem mais preto que seus cabelos, que já tinham alguns fios brancos, em uma faixa que ia de orelha a orelha por trás da cabeça.
O ruído da rua, ao fundo, parecia distante, mal se fazendo ouvido. O som de carros passando em alta velocidade, com seus motores desregulados e amortecedores sendo testados pela via esburacada. O homem ajeitou a gola da camisa e passou as mãos nos cabelos, penteando-os. Mesmo os barulhos mais altos e irritantes não pareciam afetá-lo, entretido com o seu reflexo. Sem cerimônia, fechou a porta do armário e saiu do quarto.
A sala era um pouco maior, e lá os ruídos dos carros pareciam ainda mais próximos. Também era possível ouvir os passos das pessoas que passavam na calçada, lá embaixo. A janela aberta dava para a rua, e a luz não entrava por ela. Mas, talvez por ser maior, a sala parecia tão iluminada quanto o quarto. As paredes tinham quadros antigos de pinturas de barquinhos e paisagens verdes e vazias, anônimas. A mesa de jantar era grande e inconveniente, ocupando metade do espaço e quase bloqueando a porta que dava para a cozinha. E mesmo assim, estava tudo organizado, com uma perfeição exagerada. Ao lado da porta de entrada havia um móvel de madeira com rodinhas, e sobre ele uma variedade de uísques e outras bebidas.
Havia um sofá de dois lugares, sob a janela, e uma mesa de centro, feita da mesma madeira escura que a mesa de jantar. Em contraste a todo o ambiente, tão austero, havia um aparelho de som moderno, de última geração, ocupando a parede adjacente ao sofá, como algum tipo de televisão-monstro prateada de 50 polegadas. Uma prateleira sobre ele apresentava uma coleção enorme de CDs, enfileirados com precisão. Competindo com o barulho da rua, havia também o som de um aspirador de pó vindo do andar de cima, e vez ou outra alguma coisa era derrubada, ecoando por todo o teto.
O homem aproximou-se, tendo que desviar da mesa de jantar. Parou ao lado do piano, pegando algumas folhas soltas que estavam sobre ele, junto de um par de óculos de aro grosso. Colocou-o no rosto e sentou-se com a postura ereta, abrindo a tampa do piano e ajeitando as folhas a sua frente. Havia, também sobre aquele antigo piano, tão bege e tão marrom quanto todo o resto do apartamento, uma fotografia em preto e branco. Ela mostrava um sujeito com os cabelos divididos ao meio, um bigode escuro e feio, com o maxilar largo. A imagem tinha os mesmos olhos que os do homem sentado ao piano, as sobrancelhas ralas e quase inexistentes. A diferença entre os dois era apenas o maxilar, um forte e outro fino.
A música encheu a sala, de repente, ecoando no apartamento quase vazio. Os dedos do homem, ligeiros e ágeis, moviam-se sobre as teclas com uma habilidade surpreendente. A sala ainda era a mesma, escura e bege, mas era como se aquilo não fizesse a menor diferença, com o som do piano que se sobrepunha a qualquer ruído na calçada, ou qualquer carro que passasse com o escapamento estourado. Não era música triste nem muito alegre, e parecia fluir dos dedos longos e velozes do homem. Ele fechou os olhos, erguendo o queixo e deixando a cabeça virada na direção do porta-retratos. Vez ou outra os abria para encarar a partitura, com olhos sérios e sem emoção.
O aspirador de pó do andar de cima foi desligado, e tudo que podia se ouvir era a melodia do piano. O homem abriu os olhos mais uma vez, erguendo um pouco mais a cabeça. O sujeito na fotografia olhava para ele, com um sorriso quase imperceptível sob o bigode preto.
quinta-feira, 06/05/2004
Ecos
E a noite caiu. O sol desapareceu atrás das montanhas do oeste, escondido por nuvens escuras e pesadas.
Se você estivesse lá fora, você diria que havia algo espreitando nas sombras? Ou diria que foi apenas sua imaginação tão tola? Aquela tempestade estava, afinal, fazendo um barulho tão alto, não estava? Como alguém poderia dizer que havia algo mais ali além do som da água caindo com força na grama, e o vento balançando o topo das árvores?
Sombra entre sombras, nada teria sido visto. A noite já estava lá. E trevas são trevas em qualquer lugar, com ou sem o tempo. Se você estivesse ali, você diria que havia algo lá, algo estranho? O que você diria?
Teria algo te observando? Ou algo te caçando? Você seria capaz de dizer a diferença?
Ah, os humanos. Estranhas criaturas.
Enquanto a escuridão continuava, enquanto a chuva ainda caía, alguém talvez pudesse dizer que havia alguma coisa lá fora, alguma coisa observando tudo, e todos. Cada voz, cada respiração.
Ecos.
Junto de passos no escuro. Ecos podiam ser ouvidos. Tão distante, e ainda assim pareciam tão próximos... Como alguém poderia ouvir qualquer coisa com aquela tempestade? Ecos de gritos, como suspiros. E havia algo rodeando o lugar, atraído pela luz, ou talvez... Talvez apenas esperando a luz desaparecer completamente.
Mas aquilo não era apenas fruto da imaginação? Todos aqueles ruídos e sussuros, apenas dentro da mente? Por que pareciam com ecos, algo que já existiu, algo que não queria desaparecer? Algo que talvez... Que talvez quisesse desaparecer...?
Tão frio. Um azul tão brilhante e tão frio. Mas não mau. E não bom também. Apenas... Ali. Ou talvez não estivesse, talvez estivesse tudo na sua cabeça. O cérebro tão imaginativo dos humanos... E os ecos... Estavam desaparecendo, ficando cada vez mais distantes, recuando para de onde vieram. Estavam? Você poderia ouvir os passos se afastando também? Você poderia ouvir eles indo embora, sumindo, como se eles nunca houvessem estado ali antes?
As luzes piscaram, acenderam, e depois apagaram mais uma vez, de repente. Estava escuro por mais um tempo, e um ruído alto veio de fora. Luzes. As luzes se acenderam mais uma vez, e dessa vez ficaram assim, e o silêncio. Qualquer ruído vindo de fora parou. E o som da chuva caindo na grama quase que trazia paz, quase como se nada tivesse acontecido.
quarta-feira, 31/03/2004
Entendendo a Matsu, por Olivia Maia Rezende.
Não, não pense que vai ser tão fácil assim. Quem já viu Matsu séria, quando ela fica com aquele sorriso que não é um sorriso, mas engana todo mundo porque ela não consegue ficar séria nunca, talvez tenha alguma idéia do que eu tô falando. Matsulina Matsoloca não é exatamente o que vocês pensam que ela é.
A começar por aquele sorriso que você viu quando achava que ela estava séria. O sorriso da Matsu é a tradução de tudo que ela é, não é ou que as pessoas podem pensar que é. Por que a Matsu não consegue ficar séria? Será mesmo uma coisa simples - com o perdão da palavra coisa, aos amigos literatos e o escritor do Blog do Romance - porque ela nasceu assim, e tem a ver com o formato do crânico, pele e genes? O sorriso não-sorriso dessa menina na verdade, não é um sorriso.
Tá, conclusão idiota. Quando a Matsu estiver sorrindo de verdade, você não terá a menor dúvida.
Das pequenas coisas, você logo percebe que Matsu é uma pessoa levemente paradoxal. Em gostos e desgostos, ela sabe muito bem o que quer da vida, e ao mesmo tempo não sabe, tá dirigindo sem mapa assim como eu, e muitos outros também. Sabe o que gosta e não gosta, e não tem vergonha de dizer. Matsu é uma pessoa um pouco sem vergonha, diga-se de passagem, e tímida de doer. Enquanto ela está saltitando ao seu lado, você não tem idéia do que se passa na cabeça dela.
Matsu gosta de ordem e de gente feliz, gosta de seus amigos e de coisas bonitas, e tem um gosto decente na escolha de homens (apesar do namorado dela). Matsu gosta de cores, mas não usa muitas.
E talvez a gente possa colocar a culpa na família estranha e feliz que ela tem, com um pai estranho e feliz, e um irmão mais estranho e feliz ainda. A mãe deve ser assim também, de conviver com todos eles.
A Matsu é um estereótipo que deu errado, acabou saindo com muitas variáveis, e nenhum computador conseguiu processar. Ficou como ficou, assim e assado, sendo e não sendo, com os desvios do previsível e uma ou outra mudança de humor inesperada. Você acha que já viu milhares de meninas assim, mas não viu, e talvez tenha sido enganado por aquele sorriso que na verdade não é um sorriso.
A Matsu era para ser uma coisa simples de ser explicada e entendida, era pra ser um modelo de personalidade - ainda que estranha e doida - a ser seguido por outros que viriam. Mas do estranha e doida saíram alguns aspectos e pontas que não estavam no plano, não estavam no projeto inicial. Uns extremos foram arredondados e alguns arredondamentos se exageraram, e surgiram diversos rabiscos e sobreposições no desenho do projeto, aí nem mesmo os projetistas sabiam mais o que estava acontecendo ali.
Mas a verdadeira essência da Matsu não é uma coisa a ser explicada, muito menos entendida. A verdadeira essência de Matsu é uma coisa que se percebe, que se sabe, que não se bota em palavras. É olhar aquela cara séria com o sorriso que não é sorriso e saber que, por mais que você não descubra no que ela está pensando, é como se você soubesse. É como se não fizesse a menor diferença.
Olivia
não tem acento. Olivia não tem critérios. Olivia não existe. Olivia talvez
seja fruto da sua imaginação.