sobre o nada e o inevitável, e sobre a vida imaginária de pessoas que não existem.#

17.04.2008

Pra que ser assim, Rosalva?

falei por aqui há um tempo do concurso de contos criado pelo André Gazola. e que eu fiz as vezes de jurada, mais o Alessandro e do Jefferson. o ganhador do concurso foi escolhido.

o autor do conto vencedor é o Dino Canteli. vai abaixo o texto, e quem gostar, vá ao blog do autor e essas coisas todas. pois sim. paf.

*

Pra que ser assim, Rosalva?
por Dino Canteli

Detesto essas liberdades que as visitas deliberam. Principalmente quando ouvem aquela malfadada expressão "sinta-se em casa" e a levam ao pé da letra. Vão nos quartos, mexem nas gavetas. Vão na cozinha, fuçam na geladeira. Reviram a estante e encontram o rascunho do meu futuro possível livro.

- Você está escrevendo um livro?
- Não, é meu balancete de despesas mensais. Dá aqui!
- Não é não, seu bobo... Esse seu balancete tem muitas letras pro meu gosto.
- Faço introduções longas.
- Mentiroso.
- Por favor, devolve.
- Por que todo cara de talento esconde as coisas que faz?
- Porque as pessoas tendem a fazer comparações. Sempre, aliás.
- Ai, pronto. Parece meu pai reclamando.
- Devolve, Rosalva. Ou então eu...

Rosalva é um nome que dá tesão até de pronunciar. A gente começa abrindo a boca pra fazer o "ro", mexe todo o maxilar e a língua vai parar no céu da boca com o "zal", e, por fim, os lábios se unem para cuspir a última sílaba, já mandando realmente tirar a roupa nesse "va". Se isso não for erótico, ao menos serve de massagem facial. Rosalva! Se não fosse tão metida, eu e ela já teríamos, sei lá, fornicado.

- Se eu não devolver, você faz o quê?
- Faço um macarrão instantâneo enquanto isso.
- Você não sabe cozinhar outra coisa?
- Requento que é uma maravilha.

Não adianta discutir com mulher. É melhor deixá-la fazer o que quiser. O tédio e a mudança de opiniões no lado feminino vêm mais ligeiro. Passei a defender essa tese depois que meu casamento durou quatro meses.

E a Rosalva era assim: iria ler, se aborrecer e voltar a falar de qualquer outra coisa comigo. Ou então mudar de opinião e resolver fazer as temidas comparações que odeio, detesto, tenho pavor e derivados. Era tão fácil ela apenas dizer "vamo pro quarto", "que calor", "o que é esse auto-relevo na sua calça de veludo?", "deixa eu segurar isso aí", e crau.

- Você tem um estilo de alguém que conheço.
- Ihhhhh! Lá vem.
- Pera, deixa eu pensar... Ah, já sei: é o Luis Fernando Verissimo escrito.
- Já me disseram que eu era um Scliar, só que nos aspirantes.
- Hum... pensando melhor, Kafka! Você parece o Kafka!
- Concordo que já acordei estranho, mas o mais próximo disso foi uma ressaca.
- Humm... Um pouco de Guimarães Rosa nos personagens.
- Ele era um rural ortodoxo. Eu sou rural também, mas mais liberal.
- Putz, da linhagem do MST?
- MSG.
- Ãhn?
- Movimento dos sem gramática.

(...)

- Rá!
- Muito engraçadinho, macaco simão.
- Sei que não sou engraçado e não faço esforço nenhum para parecer.
- Você tem uma cabeça boa.
- Ah, é?
- Boa para dar um derrame.
- Obrigado, Edgard Allan Poe fêmea.
- Tá, peraí! Peraí. Falando sério. Deixa eu analisar melhor... Bem, com os tiros, as trepadas e as mortes, eu diria que o Rubem Fonseca está bem representado.
- Não é bem assim, me preocupo com os leitores mais sensíveis. Não quero ninguém deprimido.
- Lya Luft.
- Pára! Também não é isso. Tenho meus métodos narrativos pra chegar onde eu quero.
- Ah-rá! Aquele pessoal do O Segredo!

Aquela conversa estava tomando um rumo muito chato. Bem o que eu temia. Quando chega nesse ponto do abuso gratuito, eu costumo ser grosso e arremesso a primeira enciclopédia que encontro. Já falei, se ela fosse mais superficial e dissesse "quero que você examine uma coceirinha que tá me dando na virilha", isso, assim e só, nossa relação seria muito mais harmônica.

Pra quê ser assim, Rosalva? Por que não é apenas uma dessas moças gostosas, de ancas largas, coxas grossas, seios fartos, lábios carnudos e vácuo no crânio? Ela é tudo isso, só que metida a intelectual. E tem hora que a gente não agüenta, mesmo.

- Vamos pra cama que eu te conto o meu "segredo".

Passou-se vinte e poucos minutos de um rala-e-rola contagiante em que discurso nenhum tinha vez naquele espaço, a não ser alguns desabafos sem significações necessárias e de entendimento que é universal: AH, UH, OH, UH!

Extasiado e de cabeça vazia, virei pro lado.

- Vai, conta esse teu segredo.

"Que perseguição!", pensei gritando. Só me relaciono com mulheres que lêem resumos de vestibulares e respondem a questionários da Capricho.

- Eu não tenho estilo nenhum!

Ah! Eu sabia: é o Millôr.

Fuck!

Olivia
16:44 || Dos outros
[1]

15.07.2005

Conto Desafio - VI

Sim, sim, outra vez. Na verdade, continuando. Pois mundo já ouvi do Vitor por eu ter de repente negligenciado essa idéia. E, juro, não foi uma negligência propriamente dita. Eu estava com a cabeça em outras coisas. Mas agora aproveitemos que é sexta-feira, e fica aqui a solução do Vitor.

(E espero continuar com isso até ter publicado todos que fizeram isso pra mim, e são mais dois.)

Instantes

[Por Vitor]

"Infindo e onipresente, o nada envolvia cada recanto de sua consciência" - Joseph Glittergate

O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.

Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.

Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.

Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela.

Decidiu. Da cabeceira, assomou a arma. Retesou o pulmão. Engatilhada, o cano aproximou-se sem emitir som. O silêncio gritou um aviso, a bala respondeu num dó torto. E o silêncio voltou ao recinto.

Desta vez, permanente.

Olivia
23:05 || Dos outros
[0]

08.05.2005

Conto Desafio - V

Ligeiramente atrasada, chega a Renata com sua continuação pro meu começo de conto. E eu idem, ligeiramente atrasada, deixo ele aqui pra vocês se divertirem enquanto eu sofro com as caixas e aquela zona toda que é casa depois de mudança.

Noir

[Por Renata]

O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.

Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.

Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de
sons.

Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela.

Segurou então, a arma que estava presa junto ao corpo. Encostado na parede, abriu a porta com um leve chute. O silêncio voltou a reinar. Não poderia arriscar a relíquia, era seu dever protege-la. Corajosamente, pulou no corredor com a arma em punho. Olhou para um lado, para o outro, na escada, e nada - apenas um gato, lambendo o próprio corpo, distraído.

Voltou com a arma ao coldre, ajeitou os suspensórios e foi caminhando para o quarto. A mão na maçaneta e uma surpresa: estava trancada.

Ele poderia arrombar a fechadura, como ameaçou fazer. Mas preferiu murmurar:

- Louise, eu sei que você está aí. Abra a porta ou eu atirarei no ferrolho. Eu vou contar até três.

Dois sons agudos seguidos de um estalo, e ela estava lá. Louise segurava um malão e seu corpo sustentava um nínfico vestido preto, que além da cor, em nada era apropriado para uma viúva. Os adjetivos agora pulavam, em seqüência, e não eram nada cristãos. Ela não valia nada, mas tinha os melhores braços e umas pernas que diziam o quão boa dona de casa ela era para o falecido Dr. Morrison.

- Entre, bebé. Não fique parado aí na porta. Ou será que sou uma visita inesperada?

Olivia
19:45 || Dos outros
[1]

03.05.2005

Conto desafio - IV

E hoje é terça-feira, e é a vez do Ulisses descobrir o que aconteceu com o homem no quarto do hotel e coisa e tal. Sexta-feira tem mais, tem mais.

Parabéns pra você, nessa data querida.

[Por Ulisses]

O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.

Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.

Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.

Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela.

Os passos aproximavam-se com a mesma velocidade que ele empregava no arrumar do quarto, mas com um cuidado um pouco maior. Mal o silêncio estatelara-se no asfalto, sendo em seguida atropelado por um caminhão de médio porte transportando galinhas caipiras, os tocs-tocs já eram ouvidos por ele enquanto tratava de exterminar todas aquelas sombras, empurrando suas coisas para debaixo da cama. Levantou-se rápido e abotoou a camisa encardida, tocs-tocs, Já vai!, mãos ajeitando rapidamente o possível dos cabelos, dedos removendo remelas, tocs-tocs, tocs-tocs, to... ele abre a porta.

Há poucos metros dali, - ou muitos, dependendo do ponto de vista – ela comprava um bolo. Tentou fazer antes, mas o expediente havia sido puxado, segundo suas próprias palavras ao padeiro que afirmava ter tido ela sorte de encontrar a padaria aberta. Ela sorriu como fazia tantas outras vezes, mesmo sem vontade, e pagou. Era seu aniversário e decerto ficaria feliz em ser lembrado. Claro que sim. Embrulhou a coisa toda meio chocolate meio morango e saiu da padaria pisando contente, com seu semblante iluminado contrastando com a noite fria na periferia da metrópole. No meio do caminho lembrou que ele hospedara-se ao lado daquele lugar horrível - um puteiro, deixem-me dizer. – e pensou mesmo que talvez ele não merecesse, depois de tudo... além do mais, haviam as putas e as náuseas que sentia com aquele néon verde... Embora houvesse mesmo cogitado desistir não interrompeu os movimentos que a conduziam. Seguiu e logo esqueceu a idéia.

Olivia
15:22 || Dos outros
[2]

29.04.2005

Conto desafio - III

Agora é a vez do meu Roger, e a sua continuação pro começo que eu escrevi. E depois a gente vai dominar o mundo. Mas não hoje. Hoje tá bom pra não fazer nada.

[Por Roger]

O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.

Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.

Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.

Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela.

- Pereira, seu cretino! Abre essa porra.- A voz grave de Melécio ainda o assutava, não somente no tom a ela imposta, mas também na impressão causada em seu corpo franzino, arrepiado. Abre, caralho! Até quando vai ficar aí? Já são dez e quarenta.

Melécio era seu companheiro no setor de carimbos da prefeitura. Vizinhos de mesa e cúmplices de almofada para tinta de carimbo. Iam juntos para a repartição pela manhã e, ao meio dia, trocavam vogais durante o almoço em fugazes exposições sobre o vencimento mirrado, qualidade da borracha dos carimbos, quantidade de comida nas marmitas, dentre outros assuntos que nem sequer eles mesmos se lembravam ao final do dia. Pereira não gostava de Melécio, eram poucas as pessoas pelas quais sentia algo, e Melécio o incomodava.

Olivia
10:46 || Dos outros
[1]

26.04.2005

Conto desafio - II

Entra o rei Tiagón underground para escrever a continuação do meu começo.

Sexta-feira, ou sábado, tem o texto de outra cobaia humana pessoa super legal.

Tiagón anda meio underground. Ele não sabe se isso é bom ou não. Talvez sejam as más-companhias. Mas como disse Cortázar, "talvez seja o diabo quem diz essas coisas, e talvez você acredite nelas porque quem as diz é um rei".

Xadrez chinês

[Por Tiagón]

O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.

Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.

Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.

Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela. Ele esperava tanto tempo por esse momento. Era a hora do dia que ele mais gostava. Quando ela chegava. Há quatro meses era assim, toda noite tinha um momento especial. A hora de sentir-se em casa. De sentir-se amado e seguro. Ainda que no fundo ele soubesse que jamais estamos seguros. A segurança é um broche de lapela em forma de joaninha. Ela não vai pra Assunção com ele de jeito nenhum. A segurança é uma tatuagem de escorpião no pescoço. Abriu a porta suando frio. “Entra”, “Cheguei cedo, hoje”, “Que bom, tava ansioso”. Ele sorrindo infantil, ela olhando distante. “Tira logo a roupa”, “Primeiro, um beijo”, ” Primeiro, a grana”. Tirou do bolso os seiscentos paus. E como sempre ela contou e sorriu e beijou e lambeu e sentou e fez tudo aquilo que um dia ela fez de graça para ele no tempo em que ele era seu namorado até o dia em que ela descobriu na faculdade uma nova carreira além da Psicologia. Seiscentos paus pra que ele se sentisse em casa, um pouquinho, de novo. “Vem pra Assunção comigo não vai te faltar nada grana amor sexo droga”, “Cala a boca eu já disse que nunca seu nojento feioso”, “Tu me amava”, “Eu tô noutra cai fora goza de uma vez”. A amava tanto que não queria gozar senão acabava mas sempre gozava acabava em poucos minutos. E ela sorria chamando de trouxa e de otário passando a toalha dele na vagina pra limpar o lubrificante da camisinha. Vestiu-se rapidamente e voltou a ser a putinha mais linda da faculdade e caiu fora dizendo sarcástica “Me liga amanhã? Claro, cedinho tu liga, tu sempre liga bem cedinho, todo dia”, deixando a porta aberta e sacudindo bastante a bunda. Ele levantou vagarosamente e lacrou o quarto com força. O prédio todo tremeu. Ele sentiu-se tremer. Sentou-se na cama. Tentou encontrar o silêncio outra vez. Não conseguiu. Desenhou uma carreira sobre um livro e cheirou fundo. A luz tremulava em sua retina e ela doía, mas ele não fechava os olhos. Era muita zoeira naquele bairro. E ele ia ter que descer. Achava uma merda, ter que descer. Mas precisava fazer dinheiro pra pagar o aluguel no outro dia. Acertar as contas com a dona do muquifo. Amanhã ele vai embora. Precisa fazer a grana pra passagem. Custa caro porque é ônibus clandestino, o negão Saul explicou. Amanhã, Assunção, ele pensa. É caro mas é seguro e vale a pena. Quer livrar-se desse lugar, dessa puta, desse horror. Precisa fazer grana pra passar os primeiros dias, se aclimatar, encontrar os canais pra depois vender o pó. O negão Saul conhece o cara, sai ônibus quase todo o dia. Chega dessa sujeira e da puta e das luzes saindo dela. As ambulâncias passam em frente aos cartazes dos topos dos prédios, voando baixo com suas sirenes ligadas. Ele precisa de um pouco de soro. E alguns pontos no supercílio que abre constantemente durante o sono. O sangue escorre e as nas cavidades oculares forma poças de líquido encarnado e viscoso. Os olhos afogam-se e, nos sonhos, ele não enxerga nada.

Olivia
16:14 || Dos outros
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24.04.2005

Conto desafio - I

Eu escrevi um começo de um conto. Aí, assim como fez o Dr. Rinogas certa vez, enviei esse começo de conto a algumas pessoas para que elas terminassem como bem entendessem. O primeiro da lista é o David, o estragador de contos que não sabe escrever metafísica, com as palavras dele mesmo.

Espero publicar duas pessoas por semana, mas se essas pessoas não forem boazinhas o negócio complica. Terça ou quarta não percam o texto do Tiagón.

[A parte em itálico é minha. O resto foi escrito pelo David.]

O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.

Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.

Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.

Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela.

Ele peidou. O silêncio agradeceu por ter pulado pela janela, do contrário estaria morrendo, asfixiado. Foi um pensamento tolo, porque o silêncio caiu sobre o capô de um velho Corcel II, sem motor, sem rádio, sem lanternas e sem rodas, abandonado na calçada havia tempos. Foi um pensamento tolo porque o silêncio morreu com o baque sobre o capô. Os adjetivos ficaram chocados, e se transformaram em interjeições de exclamação.

Olivia
00:46 || Dos outros
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