quinta-feira, 17/04/2008

Pra que ser assim, Rosalva?

falei por aqui há um tempo do concurso de contos criado pelo André Gazola. e que eu fiz as vezes de jurada, mais o Alessandro e do Jefferson. o ganhador do concurso foi escolhido.

o autor do conto vencedor é o Dino Canteli. vai abaixo o texto, e quem gostar, vá ao blog do autor e essas coisas todas. pois sim. paf.

*

Pra que ser assim, Rosalva?
por Dino Canteli

Detesto essas liberdades que as visitas deliberam. Principalmente quando ouvem aquela malfadada expressão "sinta-se em casa" e a levam ao pé da letra. Vão nos quartos, mexem nas gavetas. Vão na cozinha, fuçam na geladeira. Reviram a estante e encontram o rascunho do meu futuro possível livro.

- Você está escrevendo um livro?
- Não, é meu balancete de despesas mensais. Dá aqui!
- Não é não, seu bobo... Esse seu balancete tem muitas letras pro meu gosto.
- Faço introduções longas.
- Mentiroso.
- Por favor, devolve.
- Por que todo cara de talento esconde as coisas que faz?
- Porque as pessoas tendem a fazer comparações. Sempre, aliás.
- Ai, pronto. Parece meu pai reclamando.
- Devolve, Rosalva. Ou então eu...

Rosalva é um nome que dá tesão até de pronunciar. A gente começa abrindo a boca pra fazer o "ro", mexe todo o maxilar e a língua vai parar no céu da boca com o "zal", e, por fim, os lábios se unem para cuspir a última sílaba, já mandando realmente tirar a roupa nesse "va". Se isso não for erótico, ao menos serve de massagem facial. Rosalva! Se não fosse tão metida, eu e ela já teríamos, sei lá, fornicado.

- Se eu não devolver, você faz o quê?
- Faço um macarrão instantâneo enquanto isso.
- Você não sabe cozinhar outra coisa?
- Requento que é uma maravilha.

Não adianta discutir com mulher. É melhor deixá-la fazer o que quiser. O tédio e a mudança de opiniões no lado feminino vêm mais ligeiro. Passei a defender essa tese depois que meu casamento durou quatro meses.

E a Rosalva era assim: iria ler, se aborrecer e voltar a falar de qualquer outra coisa comigo. Ou então mudar de opinião e resolver fazer as temidas comparações que odeio, detesto, tenho pavor e derivados. Era tão fácil ela apenas dizer "vamo pro quarto", "que calor", "o que é esse auto-relevo na sua calça de veludo?", "deixa eu segurar isso aí", e crau.

- Você tem um estilo de alguém que conheço.
- Ihhhhh! Lá vem.
- Pera, deixa eu pensar... Ah, já sei: é o Luis Fernando Verissimo escrito.
- Já me disseram que eu era um Scliar, só que nos aspirantes.
- Hum... pensando melhor, Kafka! Você parece o Kafka!
- Concordo que já acordei estranho, mas o mais próximo disso foi uma ressaca.
- Humm... Um pouco de Guimarães Rosa nos personagens.
- Ele era um rural ortodoxo. Eu sou rural também, mas mais liberal.
- Putz, da linhagem do MST?
- MSG.
- Ãhn?
- Movimento dos sem gramática.

(...)

- Rá!
- Muito engraçadinho, macaco simão.
- Sei que não sou engraçado e não faço esforço nenhum para parecer.
- Você tem uma cabeça boa.
- Ah, é?
- Boa para dar um derrame.
- Obrigado, Edgard Allan Poe fêmea.
- Tá, peraí! Peraí. Falando sério. Deixa eu analisar melhor... Bem, com os tiros, as trepadas e as mortes, eu diria que o Rubem Fonseca está bem representado.
- Não é bem assim, me preocupo com os leitores mais sensíveis. Não quero ninguém deprimido.
- Lya Luft.
- Pára! Também não é isso. Tenho meus métodos narrativos pra chegar onde eu quero.
- Ah-rá! Aquele pessoal do O Segredo!

Aquela conversa estava tomando um rumo muito chato. Bem o que eu temia. Quando chega nesse ponto do abuso gratuito, eu costumo ser grosso e arremesso a primeira enciclopédia que encontro. Já falei, se ela fosse mais superficial e dissesse "quero que você examine uma coceirinha que tá me dando na virilha", isso, assim e só, nossa relação seria muito mais harmônica.

Pra quê ser assim, Rosalva? Por que não é apenas uma dessas moças gostosas, de ancas largas, coxas grossas, seios fartos, lábios carnudos e vácuo no crânio? Ela é tudo isso, só que metida a intelectual. E tem hora que a gente não agüenta, mesmo.

- Vamos pra cama que eu te conto o meu "segredo".

Passou-se vinte e poucos minutos de um rala-e-rola contagiante em que discurso nenhum tinha vez naquele espaço, a não ser alguns desabafos sem significações necessárias e de entendimento que é universal: AH, UH, OH, UH!

Extasiado e de cabeça vazia, virei pro lado.

- Vai, conta esse teu segredo.

"Que perseguição!", pensei gritando. Só me relaciono com mulheres que lêem resumos de vestibulares e respondem a questionários da Capricho.

- Eu não tenho estilo nenhum!

Ah! Eu sabia: é o Millôr.

Fuck!

sexta-feira, 15/07/2005

Conto Desafio - VI

Sim, sim, outra vez. Na verdade, continuando. Pois mundo já ouvi do Vitor por eu ter de repente negligenciado essa idéia. E, juro, não foi uma negligência propriamente dita. Eu estava com a cabeça em outras coisas. Mas agora aproveitemos que é sexta-feira, e fica aqui a solução do Vitor.

(E espero continuar com isso até ter publicado todos que fizeram isso pra mim, e são mais dois.)

Instantes

[Por Vitor]

"Infindo e onipresente, o nada envolvia cada recanto de sua consciência" - Joseph Glittergate

O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.

Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.

Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.

Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela.

Decidiu. Da cabeceira, assomou a arma. Retesou o pulmão. Engatilhada, o cano aproximou-se sem emitir som. O silêncio gritou um aviso, a bala respondeu num dó torto. E o silêncio voltou ao recinto.

Desta vez, permanente.

domingo, 08/05/2005

Conto Desafio - V

Ligeiramente atrasada, chega a Renata com sua continuação pro meu começo de conto. E eu idem, ligeiramente atrasada, deixo ele aqui pra vocês se divertirem enquanto eu sofro com as caixas e aquela zona toda que é casa depois de mudança.

Noir

[Por Renata]

O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.

Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.

Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de
sons.

Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela.

Segurou então, a arma que estava presa junto ao corpo. Encostado na parede, abriu a porta com um leve chute. O silêncio voltou a reinar. Não poderia arriscar a relíquia, era seu dever protege-la. Corajosamente, pulou no corredor com a arma em punho. Olhou para um lado, para o outro, na escada, e nada - apenas um gato, lambendo o próprio corpo, distraído.

Voltou com a arma ao coldre, ajeitou os suspensórios e foi caminhando para o quarto. A mão na maçaneta e uma surpresa: estava trancada.

Ele poderia arrombar a fechadura, como ameaçou fazer. Mas preferiu murmurar:

- Louise, eu sei que você está aí. Abra a porta ou eu atirarei no ferrolho. Eu vou contar até três.

Dois sons agudos seguidos de um estalo, e ela estava lá. Louise segurava um malão e seu corpo sustentava um nínfico vestido preto, que além da cor, em nada era apropriado para uma viúva. Os adjetivos agora pulavam, em seqüência, e não eram nada cristãos. Ela não valia nada, mas tinha os melhores braços e umas pernas que diziam o quão boa dona de casa ela era para o falecido Dr. Morrison.

- Entre, bebé. Não fique parado aí na porta. Ou será que sou uma visita inesperada?

A vontade era de esmurra-la e beija-la até que ela não tivesse mais fôlego. Mas se fizesse isso seria a sua perdição. Começou a se vestir, para evitar aquele olhar inquisidor sobre o seu peito. A camisa rota, o sobretudo.

- Louise, eu vou levar a relíquia até o porto. Saia do meu caminho, eu já cumpri a minha parte no nosso acordo.

Sorrindo, ela senta numa poltrona em frangalhos. Abre a bolsa. Ele aperta a arma contra o corpo. Ela é louca, ele pensa.

- Calma, bebé. Eu só vou acender um cigarro.

E cruza as pernas tirando um isqueiro prateado da cigarreira dourada. A fumaça azulada subia confundindo-se com a luz do neon que piscava moribundo na janela do quarto.

- Querido, você matou o meu marido. E agora eu não vou embarcar sozinha sem você. Ele está morto por nós dois. O Bateau Omnia parte em duas horas. Não há saída. Mas eu também posso chamar a polícia. Duvido que o Inspetor Marlowe o trate tão bem quanto eu trato.

Louca, pensou mais uma vez. E em silêncio, foi até o armário onde estava a Relíquia. Embrulhou o belo Falcão incrustado de diamantes e rubis num jornal vagabundo.

- Você matou seu marido. Louise, você só veio aqui atrás da Relíquia, e ela não será sua.
- Eu não me importo com a Relíquia! É você, bebé! Não seja tolo. A fortuna que eu herdei é suficiente para você ser meu, eternamente.

E, angelicalmente, uma alça do vestido escorregou para o ombro, deixando um pedaço generoso do seio direito exposto, para o deleite do olhar dele. Caminhando, arrebentou um pedaço da liga, deixando as meias de seda escorrerem pelas pernas. O cigarro, atirado no chão, foi prontamente apagado pelo sapato channel. Louise o enlaçou de tal forma, que não havia como se mover. Os lábios estavam tão colados que ele sentia aquele hálito temperado de Martini.

- Eu não vou fazer nada, Louise. O jogo acabou. Vá embora, agora.

Uma lágrima solitária lavou um pedaço da maquiagem bem cuidada, mas ela não se moveu. Por fim, sorriu e olhou fixamente nos olhos pretos dele.

- Eu sempre soube que você era um covarde. Eu avisei o Inspetor Marlowe. Ele já deve estar aqui, idiota. Você vai apodrecer na cadeia e...

Com um estrondo, um homem entra do quarto com a arma em riste. Marlowe, descabelado e com os olhos injetados aponta a arma para Vincent.

- Vincent! Solte a Sra. Morrisson, agora! Relíquia e Arma no chão! Parado!

Vincent obedeceu lentamente. E levantou os braços. Louise, ao seu lado, tentava se cobrir com o lençol.

- Eu já sei de tudo, Vincent. Os responsáveis serão punidos. A lei não pode mais resolver essa situação, resolvo eu. Sra Morrison, venha até aqui.

Louise, sorrindo foi caminhando até o Inspetor, murmurando agradecimentos. Marlowe, andava de costas, para abrir a passagem para mulher, quando Vincent mergulhou no chão, pegou a arma e deu três tiros nas costas da mulher. O cabelo louro e lençol empapados de sangue.

- Vincent!

E Marlowe correu até ele, em pânico.

- Você já devia te-la matado! Para que tanta demora?
- Ela é louca, já te disse.

Vincent guarda a arma e abraça ternamente o Inspetor Marlowe.

- A relíquia, está bem?
- Já está no cofre, faz tempo. Deixe a falsa aqui. Despistará a polícia por algum tempo.
- As passagens do Bateau Omina?
- Devem estar no malão da louca, reviste enquanto eu limpo nossas impressões digitais.

Comprei duas garrafas de Strasbourg para nós dois.

- Elas são uma fortuna!
- É para nossa Lua de Mel, meu bem. E não esqueça, a partir de agora somos ingleses. E ricos.

terça-feira, 03/05/2005

Conto desafio - IV

E hoje é terça-feira, e é a vez do Ulisses descobrir o que aconteceu com o homem no quarto do hotel e coisa e tal. Sexta-feira tem mais, tem mais.

Parabéns pra você, nessa data querida.

[Por Ulisses]

O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.

Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.

Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.

Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela.

Os passos aproximavam-se com a mesma velocidade que ele empregava no arrumar do quarto, mas com um cuidado um pouco maior. Mal o silêncio estatelara-se no asfalto, sendo em seguida atropelado por um caminhão de médio porte transportando galinhas caipiras, os tocs-tocs já eram ouvidos por ele enquanto tratava de exterminar todas aquelas sombras, empurrando suas coisas para debaixo da cama. Levantou-se rápido e abotoou a camisa encardida, tocs-tocs, Já vai!, mãos ajeitando rapidamente o possível dos cabelos, dedos removendo remelas, tocs-tocs, tocs-tocs, to... ele abre a porta.

Há poucos metros dali, - ou muitos, dependendo do ponto de vista – ela comprava um bolo. Tentou fazer antes, mas o expediente havia sido puxado, segundo suas próprias palavras ao padeiro que afirmava ter tido ela sorte de encontrar a padaria aberta. Ela sorriu como fazia tantas outras vezes, mesmo sem vontade, e pagou. Era seu aniversário e decerto ficaria feliz em ser lembrado. Claro que sim. Embrulhou a coisa toda meio chocolate meio morango e saiu da padaria pisando contente, com seu semblante iluminado contrastando com a noite fria na periferia da metrópole. No meio do caminho lembrou que ele hospedara-se ao lado daquele lugar horrível - um puteiro, deixem-me dizer. – e pensou mesmo que talvez ele não merecesse, depois de tudo... além do mais, haviam as putas e as náuseas que sentia com aquele néon verde... Embora houvesse mesmo cogitado desistir não interrompeu os movimentos que a conduziam. Seguiu e logo esqueceu a idéia.

Ninguém. Não há ninguém na porta. Olha para direita, corredor vazio. Olha para esquerda e vê os dois moleques filhosdumaputa correndo e rindo alto - Isso era um fato muito comum e corriqueiro no hotel Lençóis, local onde há mais de um mês estava hospedado o triste e pobre inquilino - Tinha que ser preto! Gritou antes de entrar e fechar a porta lentamente, cabisbaixo. Três passos e já está novamente na cama, na mesma posição de outrora. Só o silêncio não voltou, o movimento entre as prostitutas aumentara.

Estava há cinqüenta metros do velho prédio quando lembrou: era do outro lado. Avistar a putarada ajudou um bocado a memória. Durante a travessia, um vento forte abriu o embrulho do bolo e ela, proferindo um caramba, pôs-se a ajeitar o papel numa cena patética. Não viu o Ford Fiesta prata. Foi atropelada, morreu na hora.

O barulho da freada não lhe causou nenhum efeito. Só depois de alguns segundos que levantou e foi até a janela, ver o que acontecera. Um acidente. Viu o aglomerado de pessoas e pensou que a solidão é uma coisa estranha mesmo. Uma porção de idéias foram denunciadas por seus olhos e seu sorriso que indicavam um resquício de esperança. Pegou seu casaco velho e desceu rapidamente as escadas. Na saída do prédio ouviu alguns comentários sobre de quem era a culpa no acidente, algumas putas chorando... Atravessou rapidamente a rua e viu sangue no asfalto enquanto enfiava a mão no bolso direito para pegar o cartão telefônico com a imagem publicitária de algum filme americano. Encontrou o telefone desocupado e discou logo o número. Caixa postal. Tentou novamente. Caixa postal. Caixa postal. Relógio: 23:48h. Ela não vem, concluiu. Ligou de novo e deixou o recado: Filha da puta. Voltou para o apartamento levando uma puta bem gostosa e loira, bem branquinha mesmo, de presente.

sexta-feira, 29/04/2005

Conto desafio - III

Agora é a vez do meu Roger, e a sua continuação pro começo que eu escrevi. E depois a gente vai dominar o mundo. Mas não hoje. Hoje tá bom pra não fazer nada.

[Por Roger]

O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.

Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.

Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.

Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela.

- Pereira, seu cretino! Abre essa porra.- A voz grave de Melécio ainda o assutava, não somente no tom a ela imposta, mas também na impressão causada em seu corpo franzino, arrepiado. Abre, caralho! Até quando vai ficar aí? Já são dez e quarenta.

Melécio era seu companheiro no setor de carimbos da prefeitura. Vizinhos de mesa e cúmplices de almofada para tinta de carimbo. Iam juntos para a repartição pela manhã e, ao meio dia, trocavam vogais durante o almoço em fugazes exposições sobre o vencimento mirrado, qualidade da borracha dos carimbos, quantidade de comida nas marmitas, dentre outros assuntos que nem sequer eles mesmos se lembravam ao final do dia. Pereira não gostava de Melécio, eram poucas as pessoas pelas quais sentia algo, e Melécio o incomodava.

- Deixa de ser infantil, Pereira. A gente precisa conversar. Dividimos muita coisa nessa vida pra você fazer isso comigo. Não merecemos estar assim.

A inconveniência de Melécio era assutadora aos olhos de pessoa tão reservada feito Pereira. Achava-o inconveniente, pois tratava de seus problemas com a mesma facilidade com que pressionava seus instrumentos de trabalho sobre selos e papéis. Pereira chegou a considerar que estava sendo por demais ranzinza com outros quando sua esposa Lucia começou a reclamar de tédio comum. Pouco tempo depois, a mesma Lucia, antes desafiadora e insaciável em sua compulsiva vontade de gozar, tornara-se distante, inacessível. Pensou em matá-la quando a presenciou conversando no telefone: “é verdade que ando sem vontade para nada, mas gostaria de transar por horas e horas. É só me ligar, Melécio!”

Pereira não esperou Lucia se despedir de seu interlocutor para sair de casa. Por uma coincidência polar ártica, sua fuga aconteceu na noite em que chovia gelado naquela cidade insistentemente seca e de horizontes vermelhos. Sentia mais frio do que ódio, e já não sabia o que eram lágrimas e o que eram gotas de água em seu rosto.

Entrou no hotel de néon barato sem pensar em dormir há dois dias atrás. Comia na padaria próxima, comprava cigarros na banca de jornal logo em frente. Dois, quatro maços por vez.

- Pereira! Seu cusão. Pensa que vai ficar aí para sempre? Um dia vai sair, desgraçado. E estarei te esperando, tá me ouvindo? Filho da puta!

terça-feira, 26/04/2005

Conto desafio - II

Entra o rei Tiagón underground para escrever a continuação do meu começo.

Sexta-feira, ou sábado, tem o texto de outra cobaia humana pessoa super legal.

Tiagón anda meio underground. Ele não sabe se isso é bom ou não. Talvez sejam as más-companhias. Mas como disse Cortázar, "talvez seja o diabo quem diz essas coisas, e talvez você acredite nelas porque quem as diz é um rei".

Xadrez chinês

[Por Tiagón]

O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.

Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.

Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.

Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela. Ele esperava tanto tempo por esse momento. Era a hora do dia que ele mais gostava. Quando ela chegava. Há quatro meses era assim, toda noite tinha um momento especial. A hora de sentir-se em casa. De sentir-se amado e seguro. Ainda que no fundo ele soubesse que jamais estamos seguros. A segurança é um broche de lapela em forma de joaninha. Ela não vai pra Assunção com ele de jeito nenhum. A segurança é uma tatuagem de escorpião no pescoço. Abriu a porta suando frio. “Entra”, “Cheguei cedo, hoje”, “Que bom, tava ansioso”. Ele sorrindo infantil, ela olhando distante. “Tira logo a roupa”, “Primeiro, um beijo”, ” Primeiro, a grana”. Tirou do bolso os seiscentos paus. E como sempre ela contou e sorriu e beijou e lambeu e sentou e fez tudo aquilo que um dia ela fez de graça para ele no tempo em que ele era seu namorado até o dia em que ela descobriu na faculdade uma nova carreira além da Psicologia. Seiscentos paus pra que ele se sentisse em casa, um pouquinho, de novo. “Vem pra Assunção comigo não vai te faltar nada grana amor sexo droga”, “Cala a boca eu já disse que nunca seu nojento feioso”, “Tu me amava”, “Eu tô noutra cai fora goza de uma vez”. A amava tanto que não queria gozar senão acabava mas sempre gozava acabava em poucos minutos. E ela sorria chamando de trouxa e de otário passando a toalha dele na vagina pra limpar o lubrificante da camisinha. Vestiu-se rapidamente e voltou a ser a putinha mais linda da faculdade e caiu fora dizendo sarcástica “Me liga amanhã? Claro, cedinho tu liga, tu sempre liga bem cedinho, todo dia”, deixando a porta aberta e sacudindo bastante a bunda. Ele levantou vagarosamente e lacrou o quarto com força. O prédio todo tremeu. Ele sentiu-se tremer. Sentou-se na cama. Tentou encontrar o silêncio outra vez. Não conseguiu. Desenhou uma carreira sobre um livro e cheirou fundo. A luz tremulava em sua retina e ela doía, mas ele não fechava os olhos. Era muita zoeira naquele bairro. E ele ia ter que descer. Achava uma merda, ter que descer. Mas precisava fazer dinheiro pra pagar o aluguel no outro dia. Acertar as contas com a dona do muquifo. Amanhã ele vai embora. Precisa fazer a grana pra passagem. Custa caro porque é ônibus clandestino, o negão Saul explicou. Amanhã, Assunção, ele pensa. É caro mas é seguro e vale a pena. Quer livrar-se desse lugar, dessa puta, desse horror. Precisa fazer grana pra passar os primeiros dias, se aclimatar, encontrar os canais pra depois vender o pó. O negão Saul conhece o cara, sai ônibus quase todo o dia. Chega dessa sujeira e da puta e das luzes saindo dela. As ambulâncias passam em frente aos cartazes dos topos dos prédios, voando baixo com suas sirenes ligadas. Ele precisa de um pouco de soro. E alguns pontos no supercílio que abre constantemente durante o sono. O sangue escorre e as nas cavidades oculares forma poças de líquido encarnado e viscoso. Os olhos afogam-se e, nos sonhos, ele não enxerga nada.

Vestiu o capote verde-musgo, pegou a mochila preparada e saiu pela janela. Era escuro e estava úmido. Cruzou o telhado e tomou a escada de segurança. Desceu vagarosamente, luz intermitente no rosto, observando pelas janelas muito próximas as vidas farrapas que esquadrinhavam-se como um xadrez chinês de peças coloridas entrelaçadas. Ele tinha medo de tudo aquilo. Ele temia as pessoas, sobretudo as pessoas felizes. Com sorrisos acoplados como máscaras de festa infantil. Não fazia sentido pra ele. Se lhe olhavam esgueirando-se na escada, freqüentemente achavam que era um lagarto enorme. As crianças até brincavam com ele, chamando-o de Senhor Lagarto. Era um dos motivos pelos quais não costumava descer de dia.

A saída da escada dava num beco, um dos muitos Brooklyns particulares da avenida industrial. Os caminhões e ônibus que ousavam circular por ali à noite estavam sempre apressados e preferiam não notar o festival de ilicitudes que acontecia todos os dias em cada um dos pequenos mocós entre os blocos do imenso conjunto residencial perdido entre as fábricas mais poluentes da cidade. Polícia só quando aparece alguém morto. No Beco da Gazela, ficavam as putas mais fodidas da zona e os viciados em crack. Alguns habitués já conheciam a figura que descia serpenteando pela escada do bloco C, e o apelidaram de Homem-Aranha. Ele também não gostava, mas era melhor que Senhor Lagarto. Passava sem olhar pra ninguém. Tudo era motivo pra tiroteio. Que lhe chamassem do que quisessem. Três becos depois achou o negão Saul. Cumprimentaram-se numa conversa de números – “Três” “Quinze” “Vinte” “Dezessete” “Fechado” – e a mochila trocou de mãos, foi esvaziada, e então recheada de dinheiro, em notas amassadas. Saul estende quatro, ambos cafungam, e então barulho de sirenes e as ambulâncias coloridas como mariposas na lâmpada. Cumprimentam-se outra vez e ele sai dizendo “Amanhã te ligo pra ver o esquema de Assunção” e o negão Saul ri “Certo, claro, amanhã, tu diz isso sempre, rê rê, liga certo claro” e ele sai cabeceando furioso esbarra numa puta e leva uma bifa nos beiços pra deixar de ser filho da puta. Sobe a escada correndo pra não ouvir os gritos de Homem-Aranha mas é inútil. Ele aracneia pelos degraus com as pernas bem abertas e as costas em corcunda, para movimentar-se entre as sombras. E as putas riem dele enquanto vendem pedras de crack por três reais para os viciados.

Ele sobe veloz correndo os degraus estalando em metal velho e mal chega ao telhado, já encontra companhia – engatilhada, e em direção ao rosto. Tá te achando mui esperto, diz o Telha, braço esticado fazendo mira, uma hora a gente ia te achar, diz o Guigo, segurando as sacolas de viagem, as que ele guardou embaixo da cama por quatro meses, por quatro meses nesse inferno imundo de hotel lazarento, dormindo em cima de uma fortuna de quilos e quilos em cocaína, pensando a cada noite que no dia seguinte iria embora, pegaria o ônibus e se mandava pra Assunção, pra ficar longe desse inferno e num lugar em que os homens do Afonso nunca o achariam, mas aí ao acordar de manhã cedo ele só pensava na puta, naquela puta filha da puta que não sai da cabeça e então era mais uma noite esperando pra ficar quinze minutos em casa com ela cadela que não quis de jeito nenhum ir morar com ele no Paraguai porque ele é o Senhor Lagarto e o Telha diz te fodeu, compadre, e dispara a pistola na cara dele, duas vezes, e ele ainda pode ver as pessoas no xadrez chinês pela luz intercalada do beco que agora percorre em vôo descendente, chamem-no de Senhor Morcego, ele tá voando pra Assunção e podem dizer praquela puta que amanhã ela não precisa vir.

domingo, 24/04/2005

Conto desafio - I

Eu escrevi um começo de um conto. Aí, assim como fez o Dr. Rinogas certa vez, enviei esse começo de conto a algumas pessoas para que elas terminassem como bem entendessem. O primeiro da lista é o David, o estragador de contos que não sabe escrever metafísica, com as palavras dele mesmo.

Espero publicar duas pessoas por semana, mas se essas pessoas não forem boazinhas o negócio complica. Terça ou quarta não percam o texto do Tiagón.

[A parte em itálico é minha. O resto foi escrito pelo David.]

O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.

Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.

Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.

Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela.

Ele peidou. O silêncio agradeceu por ter pulado pela janela, do contrário estaria morrendo, asfixiado. Foi um pensamento tolo, porque o silêncio caiu sobre o capô de um velho Corcel II, sem motor, sem rádio, sem lanternas e sem rodas, abandonado na calçada havia tempos. Foi um pensamento tolo porque o silêncio morreu com o baque sobre o capô. Os adjetivos ficaram chocados, e se transformaram em interjeições de exclamação.

Os passos sumiram no final do corredor. Só então ele se sentiu seguro o suficiente para abrir a porta. Um movimento por vez, a mão na maçaneta, a descoberta da porta trancada, os dedos deslizando sobre as chaves, o giro, outro giro, o chaveiro do candidato à vereador batendo no espelho da fechadura, a maçaneta novamente, mais um giro, com um gemido gostoso da mola da fechadura, uma leve pressão, uma fresta de luz, enfim, a porta aberta. O barato de uma ressaca, pensava ele, era ver a vida ficar metódica, seguindo o compasso das marteladas na cabeça. O triste era acordar em lugares estranhos, talvez com pessoas estranhas, em situações certamente estranhas. Pelo menos não estava todo cagado, como já acontecera antes.

- Jubalbino?
- Hein?

Ah, estava descalço. Descobriu porque pisou em algo viscoso que estava de tocaia no corredor, ali, bem na porta dele.

- Pow Jubalbino, ainda não se trocou? A gente tá arrumando as coisas pra ir embora já!

Que porra de nome é esse, Jubalbino? - Indagava a si mesmo. - O que será que Jubalbino fez comigo?

- Vambora, a unidade móvel ufulógica já tá lá fora.
- Ah, claro. Peraí.

Voltou pro quarto. Resquícios de seu flátulo flutuavam pelo ar, comentando a morte do silêncio. Unidade móvel ufológica? Foi até a janela, e atrás de um Corcel II com o capô amassado, havia uma kombi prateada, ocupado por algumas pessoas vestindo sacos de lixo. No chão, meias e um par de sandálias de couro. Ah, Jubalbino, como você é brega. Já estava vestido, dormiu assim. Não entendeu por que perguntaram se ainda não havia se trocado, até ver um saco de lixo na cabeceira da cama. - Já cheguei até aqui mesmo... - Vestiu-se, à caráter.

- Juba!
- 'Dia...
- Posso te chamar de Juba, né?
- Claro, sem problema...

As marteladas mudaram o ritmo da sinfonia. Tentava lembrar o próprio nome.

- Juba, esse é o Astrogildo - o motorista acenou pra ele - e essa é a Vanessa.

Vanessa! A loirinha com peitinhos durinhos e empinadinhos cobertos por um saco de lixo preto de 100l apareceu em sua memória. Sim, depois da terceira tequila, ela falou de um drink diferente, sangue de enguia venusiana ou algo assim, e depois uma tal reunião interdimensional, e então um convite pra ir pro quarto dela, e não conseguia lembrar de mais nada. Ah, lembrou de ter vomitado o sangue da enguia venunsiana na porta do quarto.

- Bom dia, Juba...
- Então pessoal, todos prontos pra reunião? Que sorte a nossa, hein, encontrar o embaixador arquiliano no bar!
- Vamos agradecer em arquilianês!
- Azublapiuuuuuuup! - Os três agradeceram Jubalbino em arquilianês. Todos sorriam alegremente, embora o sorriso do motorista parecesse um tanto insano, fato que deixou Jubalbino levemente alarmado. Só não ficou mais alarmado com o fato porque já estava suficientemente alarmado por estar numa kombi ridicualmente prateada com pessoas que vestem sacos de lixo falando arquilianês. E estavam indo para fora da cidade, mais precisamente para um canavial.

- A reunião interdimencional desse ano vai ser fantástica!
- É, depois que os greys se renderam, as raças do lado setentrional da galáxias finalmente puderam voltar a se comunicar com a gente!
- Ainda me lembro da primeira mensagem telepática que recebi dos zarulianos!

O motorista estava realmente emocionado, lembrando dos seus longos diálogos telepáticos com os zarulianos. Agora Jubalbino sabia porque Astrogildo tinha aquele sorriso meio insano. De qualquer maneira, haviam chegado ao canavial, era melhor pensar sobre como Astrogildo é estranho mais tarde. O canavial, estavam numa clareira no meio do canavial.

Haviam outras kombis prateadas no canavial, e Jubalbino percebeu que eram numeradas. Ele veio na unidade ufológica móvel 04. Eram ao total seis unidades ufológicas móveis. Outras pessoas com sacos de lixo os saudaram.

- Gente, esse é o embaixador arquiliano!
- Azublapiúúúúúúúúúp! - Jubalbino não conseguia distinguir a variação tonal existente entre uma saudação e um agradecimento em arquiliano.
- Er... obrigado, obrigado.

Não puderam continuar os diálogos, porque do céu desceu uma calota com luzes coloridas e piscantes. A calota era muito grande, cobria toda a área onde estavam estacionadas as unidades ufológicas móveis. Também era prateada como elas. Mas com luzes coloridas e piscantes, e pairava a poucos centímetros do solo. Uma porta apareceu de um ponto improvável da calota. Todos os trazidos pelas unidades ufológicas móveis estavam ansiosos para conhecer os zarulianos. Astrogildo se adiantou e correu em direção à porta, que emanava uma luz cegante.

- Astrogildo, não! - Vanessa percebera formas familiares se destacando na luz ofuscantes. Ela já vira essas formas antes, aos doze anos, quando fora abduzida. Eram greys!

Astrogildo não teve tempo de perceber seu erro - um raio invisível dos greys o fez virar fuligem. O pequeno grupo vestindo sacos plásticos começou a correr desesperadamente em círculos, virando fuligem antes de poderem entrar no canavial. Restaram apenas Vanessa e Jubalbino. Dois baixinhos cabeçudos se aproximaram dele, com armas de raios invisíveis greys nas mãos.

- Não, o embaixador arquiliano não!

O grito de Vanessa surpreendeu os greys. Entreolharam-se, surpresos, e falaram alguma coisa em arquiliano para Jubalbino. Ele ficou em silêncio, não entendia a situação. Sua mente funcionou melhor quando um dos greys lhe apontou uma daquelas armas de raios invisíveis. Fez um esforço mental incrível, e conseguiu balbuciar a única palavra que conhecia do idioma arquiliano:
- Azu... Azubla... Azublapiúuup!

Os greys ficaram chocados. O embaixador arquiliano acabara de declarar guerra aos greys e ao lado meridonal da galáxia! Precisavam sobreviver para contar aos seus conterrâneos, antes que um ataque surpresa arquiliano acabasse com sua civilização. Correram em direção à calota gigante com luzes coloridas e piscantes.

Jubalbino suspirava aliviado, quando Vanessa saiu correndo atrás dos greys.

- Nunca os perdoarei, malditos!

Um terceiro grey, que cobria a retirada dos outros dois companheiros, transformou Vanessa em fuligem com sua arma de raios invisíveis. Os greys entraram na calota, a porta desapareceu, e a coisa voltou pro céu, desaparecendo em seguida. Seis unidades ufológicas móveis, e um monte de fuligem no chão. Jubalbino de repente se lembrou que seu nome era Jocelino, não Jubalbino. Também percebeu que suas meias estavam sujas com toda aquela fuligem. Entrou na unidade ufológica móvel 04 e voltou pra cidade. Mais tarde, após virar a quarta tequila, lembrou-se que falava arquiliano, e bradou em alta voz, aos seus companheiros do bar:
- Azublapiúúuúp!

Foi fulminado por um agente grey disfarçado que só tomava água, no outro canto do bar.

 

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