30.05.2008
a casa no morro, final
por fim o que todos estavam esperando ansiosamente desde a última sexta-feira! (hah!) eis a parte final do meu conto policial "a casa no morro", no Palavra #31.
se estava esperando sair o final para começar a ler (vai entender), agora é a hora. leia tudo!
primeira parte;
segunda parte;
terceira parte;
quarta parte;
quinta parte, final
e aí?
24.05.2008
a casa no morro, parte 4
chans!
saiu a quarta parte do meu conto policial "a casa no morro", no Palavra #30. hip! penúltima parte. isso quer dizer que sexta que vem sai a última. e aí, woosh.
e pra não perder o hábito, o link para as partes anteriores, pros retardatários:
primeira parte;
segunda parte;
terceira parte.
e leiam!
16.05.2008
a casa no morro, parte 3
saiu no Palavra #29 a terceira parte do meu conto policial "a casa no morro" (pra quem duvidou da minha capacidade de terminar um folhetim começado). buena, agora só faltam duas partes. chans!
quem ainda não sabe do que se trata, leia as outras partes:
primeira parte.
segunda parte.
e mais na próxima sexta.
paf!
09.05.2008
a casa no morro, parte 2
saiu no Palavra #28 a segunda parte do meu conto policial em cinco partes. leiam! e não se esqueçam de comentar e reclamar e enfim. né.
quem acabou de cair de paraquedas pode ler a primeira parte antes, que é assim na ordem que as coisas costumam fazer mais sentido.
e sexta que vem tem mais.
02.05.2008
a casa no morro
enfim!
publicada no Palavra #27 a primeira parte de meu conto-folhetim A casa no morro. é um conto policial de cinco partes. o resto virá aos poucos nas próximas edições. e vou avisando por aqui.
pra mim um desses desafios auto-impostos, porque é sempre difícil driblar minhas idéias mirabolantes e criar algo curto, rápido e eficiente. ou então esse meio-termo. nunca tinha tentado nada parecido antes. ou melhor, tinha. mas não deu certo. o bicho se encompridou e virou um romance.
mas agora entrei nos eixos.
pois leiam! e digam aqui o que acham, e façam essas coisas que leitores decepcionados ou indignados ou satisfeitos fazem. coisa nova assim a gente gosta de saber se funcionou. mas que não esse silêncio.
27.10.2007
porque eu estou por aí
no Le Monde diplomatique Brasil, na seção sobre literatura e afins, Palavra.
começo com um conto e em diante vou colaborar com um texto por mês. hein, hein. nada mal, pra quem não sabe nada de escrever contos. que tal?
13.09.2007
a terceira carta não-enviada
(um conto curto, curtíssimo, com maiúsculas e tudo, para variar um pouco a programação dessa bodega.)
Tenho caminhado mais depois que destruí meu carro. Aquele acidente estúpido que me deu um braço quebrado e me estragou o joelho esquerdo.
Dia desses peguei o metrô para a avenida Paulista e comprei alguns CDs de música irlandesa, evitando com pouco sucesso aqueles artistas irritantes que você gosta; eles estão sempre expostos entre os mais vendidos e meus olhos são mal treinados para abstrair essas intervenções de marketing. E depois desci a Consolação a pé e entrei naquele bar no centro que você odeia. Aqui as pessoas sabem meu nome, o dono me chama de são-paulino porque sabe que não gosto de futebol e acho que vou passar a noite nesse buraco. Sei que você não vai estar sozinha.
Tudo me parece meio despropositado, mas minhas caminhadas agora me servem melhor do que estar preso no trânsito para pensar em você e em tudo aquilo que podia ter acontecido.
Na verdade te escrevi uma carta e rasguei, e depois escrevi outra carta e ela está ao lado do computador para ser digitada e vai continuar ali até que a faxineira pense que é lixo, tão terrível a minha letra e a folha de papel amassada. Vou passar noites assistindo a algum canal de esportes ou pesquisando na internet sobre instrumentos do folk irlandês, e você sabe muito bem onde me encontrar, se quiser.
Em caminhadas para a padaria às sete da manhã vou pensar em abolir a palavra amor de meu vocabulário para não te assustar e quem sabe mostrar que posso ser um pouco como esses homens com quem você sai e por quem você me trocou. Mostrar que também posso ser superficial e conversar sobre o Jornal Nacional, o tempo ou os melhores bares da Vila Madalena. Vou pensar em deixar de uma vez o carro no conserto e mandar trocar a porta, o pára-choque e os vidros. Para então te esperar na saída do trabalho e te ver saindo com algum almofadinha de gravata e gel no cabelo e uma cara cínica.
Depois em casa aumento o volume da música irlandesa e o gato continua deitado ao lado de uma das caixas de som. Sei muito bem o que você diria, que só escuto essas coisas porque são estranhas e o que acontece ao meu redor nunca me é o suficiente.
E fico pensando se meu nome ainda surge em suas conversas; se me tornei um ex-namorado ou então um rapaz-que-conheci.
Você não volta. Sei que deve existir alguma lógica por trás de tudo isso. Motivos e desculpas e opiniões e pontos de vista. Que diferença faz?
Acho que essas caminhadas me fazem mal, e estou sem dinheiro para arrumar o carro, gastando com imbecilidades como música irlandesa, cerveja e livros que não leio. Sei que acabou, esse amor que nunca existiu porque você tinha medo de palavras. Acabou, como o pára-choque do carro, e talvez seja minha única saída cuidar do que ainda tem conserto e pode ser substituído, e parar com essas caminhadas estúpidas que só me servem para piorar a lesão no joelho e pensar em você e em tudo aquilo que não aconteceu.
01.08.2005
O Curinga v.2
[Reescrita de um conto de 2001, publicado aqui no blog em março de 2004. A primeira versão, aqui.]
O despertador tocava às seis da manhã todos os dias, sábado e domingo, e o homem não o ouvia tocar, acordava dois minutos precisos antes do alarme inevitável e preparava-se para mais um dia. Era e talvez não fosse, dado que sobre ele são escritas essas linhas mais um entre tantos, um número a mais no censo da grande cidade. Suas virtudes no trabalho vinham de falhas fora dele, e levava sua vida solitária sem laços o ligando a nada ou ninguém. Guiava-o a inércia, e todas as alegrias de juventude estavam em um espaço muito escuro de sua mente, esquecidas.
Pois eis que tão desnecessária existência poderia estar em vias de mudar quando, certa feita, a caminho do velho trabalho, andando a pé rumo ao ponto de ônibus, esse homem se perdeu.
O que dizer, como explicar, rota aquela feita e refeita tantas vezes que seu corpo poderia fazê-la sem olhos e sem mente. Era um dia como eram todos os outros, ia com a cabeça em números. E não havia nada de números nas pequenas casas, residências enfileiradas, uma fatia de um lugar distante. Apresentavam-se aos seus olhos como um filme europeu mudo e muito antigo. Entre o silêncio pensou distinguir uma música de um circo remoto, e perguntou-se onde estavam os prédios altos e torres compridas da capital paulista. Um carro ao fundo se afastava, deixando o homem perdido em um mundo que certamente não existia de fato.
Sentia um grito preso que ficou onde estava. Onde estava? Estaria atrasado, mas olhava ao redor sem saber de onde veio, e para onde devia ir. Em frentea uma das casas uma mangueira vermelha rodava e molhava o gramado, como se alguém fosse voltar para desligá-la logo em breve. Mas ninguém. Era um pedaço de mundo não-habitado, não-existente. Uma gargalhada percorreu-lhe a espinha, e sentiu um medo que sentia quando tinha cinco anos e a mãe esquecia a porta do armário aberta na hora de dormir. E esqueceu o trabalho.
06.04.2005
Propósito
ficção levemente baseada em fatos reais
— Acho que me apaixonei.
— Ah é?
Ele achou melhor ignorar a negligência da amiga e sentou-se ao seu lado no banco de concreto, enquanto ela lia um livro velho qualquer que havia emprestado da biblioteca. Ela lia com a mesma negligência com a qual respondeu à afirmação de Luiz, virando as páginas sem prestar atenção em coisa nenhuma.
Formalistas russos. Blá blá blá. Alguma coisa sobre metrificação e ritmo.
— Pô, é sério— ele insistiu.
— Você não se apaixonou por mim, né?— Ana perguntou, erguendo uma vez o olhar.
— Não!
— Ah, bom.
Ela sorriu e colocou o livro de lado, finalmente atenta ao que Luiz tinha a dizer.
— Se apaixonou por quem?
— O problema não é por quem.
— A coreana?
— Argh!
— Você não gostava da coreana?
— Gosto, gosto. É, ela mesmo, mas o problema não é esse. O problema é... Aquele.
— Aquele problema?
— Isso.
— Que problema?
12.03.2005
Destino
Tinham uma relação complicada. Desde o começo fora assim. Ela, demais exigente, ele, demais negligente. As coisas foram virando uma bola de neve... Mas fato era, ele gostava daquela mulher. Esforçava-se, mas as coisas já havia chegada a um ponto. Aquele ponto. Ela havia lhe dado uma última chance. Num lugar movimentado da grande São Paulo, a moça o esperava. Gostava dele? Talvez. Pois afinal, manteve aquilo por tanto tempo... Tolerante na medida do seu possível.
Óculos escuros, sem emoção, arrependida, mexia nos cachos com a ponta dos dedos. Tão frágil, pequena, sem se dar conta da insignificância de seu problema frente ao resto do mundo, e das milhares de vidas que passavam pelos seus olhos, cada uma com uma preocupação. Por um momento até tinha a impressão de que tudo parecia se encaixar, como se todas aquelas vidas fizessem parte da sua, ou de alguma coisa maior ainda, maior até que o próprio planeta. Olhava no relógio. Tinham combinado. Se ele se atrasasse mais de cinco minutos, era o fim. Ela ia para Curitiba, e esqueceria aquele amor mal resolvido.
E o horário. O tempo passava sem piedade, no mesmo ritmo sempre, sempre, tic-tacando o coração daquele jovem desesperado. Olhava os ponteiros cruéis do relógio, não tinha muito tempo e atrasara-se para sair do trabalho. Seu plano era chegar adiantado, e agora estaria entrando no vermelho em dois minutos. Corria, num gesto um tanto inconveniente, passando por lentos transeuntes, senhoras com suas sacolas de feira. Pois parece que o ser humano custa a se dar conta do que tem nas mãos, até que percebe que não o tem mais, ou que em breve não o terá.
21.10.2004
Garoa de fim de mundo
Era uma fazenda distante. Há muito que estava meio abandonada, com teias de aranha que se prendiam nos cantos e embaixo das mesas e cadeiras; a camada de pó sobre os pesados móveis. Um cenário típico, para fantasmas fazerem ranger o piso velho, e vampiros saírem de armários. Brisas confundidas com suspiros, e o som agonizante de gritos por ajuda.
Ao redor da casa, mais para o norte e para o leste, o terreno era cercado por uma densa floresta. E a oeste um carro de motor barulhento subia a estrada de terra que dava na garagem da fazenda. Lentamente, uma música monótona no toca-fitas parecia dar uma piscada de vida às plantas abandonadas na beira da estrada, que morriam logo em seguida, quando o carro seguia em frente.
15.10.2004
Passeio Noturno
O que vi, lhes digo, não era algo que se vê todos os dias. Ou noites. Até hoje me pergunto se de fato vi, ou, quem sabe, ilusão, peça que os olhos pregam pra tornar a vida um inferno. A noite estava clara, tinha lua. Não estava cheia, mas quase. As nuvens ralas passavam velozes por ela dando aquele ar meio sinistro, história de vampiro.
Lembro-me da esquina iluminada por que passei com um ritmo lento. Algo me perturbava na época, crises de homem desiludido, sem propósito na vida. E, afinal, que outro tipo de sujeito andaria sozinho na rua a tal hora da noite? Um sorriso bobo nos lábios, sem razão de existir, e talvez desafiando aquela situação um tanto ridícula. Eu, homem feito e bem sucedido, andando sem rumo pela cidade à noite. E, para tornar tudo ainda mais pitoresco, vi o que vi.
Sob a luz forte do luar, um homem sem sombra.
13.10.2004
Um dia, um palhaço
Sem dúvida aquilo deveria fazer algum sentido. Mas a jovem tinha a mente vazia, e não fazia mais nada além de olhar. Todas aquelas pessoas, prisioneiros de uma rotina de cidade grande, o início de mais um longo dia. Carros, placas, buzinas, ônibus lotados, gente gritando, e o palhaço. Palhaço? De novo, aquilo recomeçava, mais outra vez...
Esfregou os olhos, e olhou novamente para onde vira o tal sujeito. Sim, ele ainda estava lá, parado, como se não estivesse ali. Ignorado pelo resto da multidão, tão normal quanto ela, decerto também sendo ignorada pela multidão. Quem, afinal, haveria de se preocupar com um... Palhaço? E não era a primeira vez o que o via. Era ele mesmo, o tempo todo, sempre ele, sempre imóvel. Sempre despercebido. Seguia-a? Ou talvez seguia alguém, ironia do destino, alguém que acabava por estar no mesmo ponto de ônibus, ou na mesma padaria. Coincidências existiam. E se não existissem as pessoas logo tratavam de inventá-las. A moça sacudiu a cabeça, espantando aqueles pensamentos sem nexo, olhou se seu ônibus já vinha e logo os olhos pararam outra vez sobre o palhaço.
17.09.2004
Desistência
Quando ela disse que queria se matar, João sentiu uma coisa apertando o peito, que ele não sabia explicar o que era. Mas não tinha argumentos, não sabia o que podia dizer para que aquela menina pequena acreditasse que viver valia a pena. Ela já estava cansada daquela farsa, não vivia, não vivia! Queria poder simplesmente desaparecer para sempre.
E ele, que também não sabia porque vivia, inércia talvez. Vivia porque tinha coisas a fazer, e porque tinha alguns pequenos prazeres que o distraíam de uma verdade maior e não tão oculta. Morreria, no final, e tudo que fizera não teria valido de nada. Mas continuava vivendo, porque lhe parecia sensato, e porque o pós-vida devia ser um tanto entediante.
Pensou, enquanto via a menina chorando, que se estivesse em seu lugar, ele também desistiria. Desistir era sempre bem mais fácil.
25.06.2004
A Outra
As luzes do palco se apagavam para serem acesas em seguida, centenas de olhos fixos na moça mascarada. E ela, centro de atenções, esquecia que havia gente observando, os movimentos soltos, e imaginava à sua volta um cenário de sonho, que não existia em lugar nenhum. Quem era, ninguém sabia. Uma personagem curinga entre uma cena e outra, que viria a se explicar no final da peça. Mas isso pouco importa. Aquela máscara guardava atrás de si uma pessoa como poucas, ela, a moça...
Pois entrar no palco lhe pedia aquela nova máscara, e ela se transformava. Cabelos longos e olhos misteriosos, antes, era moça simpática, sorridente. Aquela era a moça. Ou talvez fosse apenas o que ela pensava ser. Sorrisos, olhares, era uma máscara invisível que usava para ser compreendida. Mas não se usam duas máscaras ao mesmo tempo, e tirava uma para pôr aquela que a peça pedia. Por baixo de máscaras, era, aí sim, seu verdadeiro eu. Mas as máscaras... A segunda, tão concreta, ainda que irreal, e ela no meio do palco se encontrava, distinguindo fantasia de realidade, percebendo então que não era a moça sorridente, e sim alguém que nunca chegou a conhecer.
Acabava. O espetáculo tinha fim, ela tirava a máscara, voltava a ser... Quem? Voltava a ser quem não era. O disfarce oculto se agarrava ao seu rosto. E se irritava, pois sabia que aquela verdadeira moça existia, mas ela não conseguia encontrá-la fora do palco. Perdia-a cada vez mais, conforme se sentia na obrigação de ser quem não era, encaixando-se àquilo a que supostamente deveria pertencer. E quando a sensação passava, quando quase acreditava no que não deveria ser, havia novamente o espetáculo, e encontrava mais uma vez aquela pessoa inexistente. A moça.
A moça era, insistia que era, alguém, alguma, aquela que via no espelho. Era? E como poderia ser alguém que insistia em se esconder, sem rosto, aquele alguém que ela deveria ser? Deveria? Ou talvez simplesmente quisesse...
A máscara na frente, o palco, era livre. Ninguém a via, só ela. O corpo em movimentos desconexos, não era mais. Protegida de um mundo cruel, não era mais nada, e quem era a esperava fora do palco. O que era? Doida, doida, por que nunca poderia ser aquilo que representava atrás da máscara?
Escolha? Escolheu quem não era? Mas não se é quem se escolhe? O quão triste pode ser viver a vida que não lhe pertence? Tão presa na vida inventada que não se lembra da outra. Existiu outra?
A moça, em casa, passou os dedos pela face lentamente, via alguém em seu reflexo, e mentalmente a mandava embora. Aquela, olhos verdes e enormes... Os olhos lhe diziam algo, como a nostalgia de um passado mais velho que ela mesma, algo que a moça não compreendeu.
- Eu sou.- disse, num tom de sussurro, para ninguém ouvir.- Eu sou eu.- continuou, mais alto, mas ainda se lembrava da sensação sobre o palco, e era tudo tão diferente...- Eu sou... Eu...- fechou os olhos, não era. Nunca fora. Seria, um dia, talvez? Isolada da sociedade, de tudo e de todos, quem sabe? A louca. Aí, então, seria quem era, apenas.
14.05.2004
O Último Sensato
O Menino achava que vivia num mundo diferente. O Menino achava que as coisas aconteciam de um jeito, daquele jeito que ele um dia pensou que elas deviam acontecer.
O Menino ficava bravo quando as coisas não aconteciam do jeito que ele tinha pensado.
Ele vivia preocupado de tudo. As horas, o tempo, o trânsito. As pessoas. O Menino às vezes tinha medo das pessoas. Quando as pessoas falavam com ele, ele se preocupava com o medo que tinha das pessoas e se confundia. Não queria que soubessem que ele tinha medo. As palavras saíam enroladas ou pretensiosas.
O Menino nunca teve muito jeito com as pessoas. Mas ele achava que as pessoas que não tinham jeito com ele.
Se preocupava que talvez fosse ele que tinha algum problema. Mas chegava à conclusão que não era, que não podia ser. O mundo inteiro tinha um problema, sério, sério.
Ele não sabia.
O Menino não sabia, e nunca chegou a pensar, que talvez ele também fizesse parte daquele mundo que não acontecia como ele esperava. E talvez ele fosse igual a todas as outras pessoas, sem jeito com Meninos e Meninas que se sentiam a parte de tudo.
Ah.
O Menino ficava sempre muito bravo e preocupado. Ele não sabia o que era ser feliz, porque achava que só os burros eram felizes, e tinha medo de ser feliz e ficar burro. Achava que as preocupações eram normais e necessárias, senão ia perder sua inteligência.
A Felicidade vivia em volta dele, porque ela acreditava que um dia ele ia esquecer de levar tudo tão a sério. E ser feliz.
Mas o Menino tinha medo de ser feliz. Tinha medo de ser feliz e se esquecer o quanto era trabalhoso ser feliz. E emburrecer. E tinha muito medo que as pessoas o vissem, e dissessem "lá vai o Menino, ele é bobo e não é muito esperto".
Ele achava que ser feliz era uma grande bobagem.
Continuou, ele, então, o Menino. A Felicidade sacudiu a cabeça, meio decepcionada, e foi olhar o nascimento de um bebê de uma mãe triste e preocupada. O bebê nasceu feliz. A mãe também, depois, não era mais tão triste, assim, como era antes.
E o Menino...
Ah, o Menino.
O Menino achava que o mundo estava todo errado. E não mudou de opinião. Ele nunca mudava de opinião, no fundo, no fundo. Um dia, ele falava, ia mostrar ao mundo como era ser certo. Ia mostrar ao mundo que estava tudo tão errado, com sua sensatez comedida.
Seguiu, reclamando, bravo e preocupado. Pois era apenas um menino. Existiam outros, como ele. Exatamente como ele. Mas ele não sabia. Nem nunca saberia.
06.04.2004
Foco
Quando se olhou no espelho, foi como se tivesse passado alguns anos sem se ver. Foi como reencontrar um colega da escola depois de décadas, e descobrir que aquele menino magrelo que gostava de jogar futebol havia se transformado num gorducho grisalho, que leva sempre um pano no bolso para secar o suor do rosto.
Os fios brancos ainda eram poucos, perdidos nos cabelos claros, mas via algumas rugas que havia esquecido que existiam. Os olhos eram de um castanho claro amarelado, de uma cor surreal e quase inexistente, que intrigava muitos. E pela primeira vez, o intrigava também. Que cor era aquela?
Muito prazer, quem é você? logo pensou, e quis repetir em voz alta, mas não conseguiu. Tinha medo de bancar o louco, mesmo ali, sozinho no quarto do hotel. O espelho era velho e enferrujado nas bordas. Talvez fosse a luz fosforescente que deixava tudo com um ar esquisito, e ele não se reconhecia no próprio reflexo. Não era possível.
Levou uma mão ao rosto, tocou a pele. Havia rugas em volta dos olhos. Os olhos lhe pareciam menores do que costumavam ser. Sem desviar a atenção do estranho que o observava, tateou o bolso da camisa e colocou os óculos. Era miopia, astigmatismo e o escambau, mas ele tinha preguiça de ficar limpando a lente a toda hora, e acabava por preferir ver as coisas todas embaçadas mesmo.
E a imagem, agora nítida, não saiu da sua estranheza inicial, um desconhecido. Aquele nariz, reto e duro, era seu? A boca de lábios finos, o queixo pequeno e aquele maxilar arredondado... Os cabelos... Ah, os cabelos, ele tinha certeza, eram dele. Lembrava dos poucos fios brancos disfarçados, mãos delicadas o acariciando e contando fios grisalhos para passar o tempo. Olha só, achei mais um aqui, dizia, e achava graça um sujeito com quase quarenta anos não ter tantos cabelos brancos.
Aposto que você tingiu.
Fixou-se nos olhos. Queria reconhecê-los, e por um momento, quase conseguiu, mas a idéia pareceu escorregar e escapar pelo ralo como um anel que ficou largo demais no dedo. Tirou os óculos. Sem eles, via melhor, via com mais liberdade. Nada era nítido, mas tudo parecia fazer mais sentido.
Quantos anos haviam se passado sem que ele parasse alguns cinco minutos para se olhar no espelho e ver o que muitos viam todos os dias? Por que o ato de se olhar no espelho era sempre visto como um sinal de vaidade? Que vaidade havia naquilo, afinal, de querer saber quem é? E o bebê, quando começa a brincar com os próprios pés, ou enfiar o dedo - e a mão inteira - na boca? Não é a mesma coisa?
Prazer, meu nome é Eric. Pensou, e não disse, não era louco e não falava sozinho. E se a figura no espelho não era ele, talvez pudesse falar com ela? A testa tinha algumas marcas antigas de acne da adolescência. O maxilar tinha uma marca de catapora da infância. Não era feio. A barba estava mal-feita, era bem verdade, o que lhe dava um aspecto quase sujo. Mas não era feio. Feliz aniversário, Eric. Quarenta anos, meu amigo.
Você parece tão mais jovem.
E aquelas rugas? E aquelas linhas ao lado dos olhos? Fez uma careta, comprimindo os músculos do rosto. E quase se assustou, quis se assustar mas não conseguiu, pois a razão já falava mais forte e dizia que era absurdo se assustar com a própria imagem. Não era feio, mas não estava satisfeito com aquela figura esquisitona que apresentava-se na frente de si.
Sentia-se sozinho. Sentia-se velho e sozinho, embora soubesse que ainda estava na metade da vida, embora soubesse que o amigo havia prometido uma festa no sábado à noite. Não estava velho demais para festas?
Deu um passo para trás, e a figura embaçou-se ainda mais, um monstro com dois pontos escuros no lugar dos olhos, como um cartão com uma imagem disforme em uma sessão de terapia. Deu outro passo, e poderia ser qualquer um, qualquer um dos irmãos, ou poderia ser o pai, que não faria a menor diferença.
Podia ser, e era, qualquer um, um sujeito desconhecido que passou por você na rua ontem, enquanto você estava demais ocupado em achar as chaves do carro no bolso. Um sujeito qualquer que a televisão focalizou num jogo de futebol, mas você não prestou atenção porque a torcedora ao seu lado era bem mais bonita e estava pulando com um cartaz na mão.
E ele pareceu reconhecer aquela imagem. Finalmente sabia que era ele, e não o pai, ou os irmãos, ou qualquer outro sujeito que ele vira na rua. Reconheceu, aquela imagem mesmo, desfocada como era, sem detalhes, sem cicatrizes de acne ou de catapora. Era o que era.
Desfocado.
Havia desaprendido a enxergar com nitidez.
30.03.2004
O Curinga
O despertador tocava às seis da manhã todos os dias, fosse ou não meio de semana. Aquele homem mal o ouvia tocando, acordava ao mesmo tempo e preparava-se para mais um dia de trabalho. Ele era, e não era, apenas mais um entre tantos, um número a mais no censo da cidade grande. Sujeito amargurado, desconfiado. Suas qualidades no trabalho vinham de seus defeitos fora dele, e ele levava sua vida solitária sem qualquer laço afetivo o ligando a nada. Ia, a inércia o guiava. Qualquer coisa que houvesse aprendido quando jovem sobre aproveitar a vida esquecera.
Pois eis que tão triste vida poderia estar em vias de mudar quando, certa feita, a caminho do velho trabalho, andando a pé em direção ao ponto de ônibus, esse homem se perdeu. O que dizer, como explicar, rota aquela feita e refeita até o corpo ser capaz de segui-la com olhos fechados. Não havia razões para ter se desviado, não pensava em nada fora do comum. As pequenas casas, residências, um pedaço de sonho, uma fatia de um lugar distante, apresentavam-se aos seus olhos com a imponência de um monumento europeu. Onde estavam os altos prédios e torres da capital paulista? A rua de paralelepípedos, direto de um filme antigo, e o vazio, silêncio preenchendo a atmosfera. Um som de motor de carro ao fundo afastava-se, deixando aquele homem perdido num mundo que não lhe parecia real.
Sentia aquela estranha sensação na garganta, um berro preso ou um grito por socorro. Onde estava? Estaria atrasado se não pegasse o ônibus em menos de cinco minutos, mas olhava ao redor sem mais saber de onde viera, e para onde tinha que ir. À sua frente, uma mangueira vermelha rodava, jorrando água no gramado como se alguém a houvesse esquecido ligada. Mas ninguém. Aquele pedaço de mundo não parecia habitado. Uma gargalhada percorreu-lhe a espinha, o medo o possuía, e ele esqueceu o trabalho.
Um sujeito então o fitava, os olhos arregalados e o rosto muito pálido, olhos pintados e roupa estampada com losangos verdes e vermelhos. Sorria mostrando os dentes brancos, enquanto sacudia o corpo de um lado para o outro, seguido pelo som dos guisos presos aos sapatos de pano. Na cabeça, um chapéu com três pontas, também com guisos dourados. Fitava o homem com ginga de folião - em pleno mês de setembro! - e sorria. Sorria tanto que soltou outra gargalhada, tão aguda e tão sinistra que o homem sentiu os pulmões congelados.
E o homem, paralisado, analisava o que via, incrédulo, tomando aquela figura por um curinga, tal qual se vê nos jogos de cartas. Olhou, perguntava, não tinha respostas, e de fato estava um tanto intrigado. Tanto questionou, que esqueceu todos os seus compromissos e as obrigações, perdido nos guisos dourados do curinga, que continuava pulando e convidava o homem a segui-lo. Mas o outro permaneceu parado, pois havia ainda algo que ele não havia esquecido. Algo que, embora o curinga tentasse e se sacudisse, não seria capaz de mudar. E era no que aquele homem tão sério acreditava e seu jeito racional de pensar. Era uma cidade traiçoeira, todos eram muito bem capazes de puxar tapetes e poucos - se algum - não o faziam. Afinal, o que ele entendia de curingas? Por que ele haveria de confiar num sujeito com roupas esquisitas, gargalhando e dando piruetas? Como ele poderia saber que, em meio ao inferno paulistano, aquela estranha criatura só queria fazê-lo ver?...
O homem colocava os pés no chão, com firmeza. Afastou-se com certeza no olhar, recusando o tão suspeito convite de tão inconveniente bufão. Ele não sabia... Não entendia, transformou o medo em pura e simples desconfiança, e lembrou-se do trabalho. Desviou o olhar, atribuindo aquela visão à parte tortuosa de sua mente e lembrou-se de que era um homem com muitos compromissos e obrigações, e precisava ir logo embora. Olhou no relógio, impaciente. O curinga percebeu que seu trabalho havia sido em vão, estava dada a prova de que aquele era um caso perdido. Mas haveria outros, e um caso mal-sucedido entre tantos que dão certo sequer seria lembrado. Sem mais sons, o curinga desapareceu com a brisa.
Os passos apressados de um homem sem ambições o levavam então ao ponto de ônibus, para de lá dirigir-se ao velho trabalho, lugar onde passava os dias, sem se lembrar. Sem sequer se lembrar de que um dia um curinga lhe oferecera a chance de mudar sua vida. E ele tivera medo.
Medo?
olivia
não tem acento. olivia não tem critérios. olivia não existe. olivia talvez
seja fruto da sua imaginação.