sexta-feira, 30/05/2008
a casa no morro, final
por fim o que todos estavam esperando ansiosamente desde a última sexta-feira! (hah!) eis a parte final do meu conto policial "a casa no morro", no Palavra #31.
se estava esperando sair o final para começar a ler (vai entender), agora é a hora. leia tudo!
primeira parte;
segunda parte;
terceira parte;
quarta parte;
quinta parte, final
e aí?
sábado, 24/05/2008
a casa no morro, parte 4
chans!
saiu a quarta parte do meu conto policial "a casa no morro", no Palavra #30. hip! penúltima parte. isso quer dizer que sexta que vem sai a última. e aí, woosh.
e pra não perder o hábito, o link para as partes anteriores, pros retardatários:
primeira parte;
segunda parte;
terceira parte.
e leiam!
sexta-feira, 16/05/2008
a casa no morro, parte 3
saiu no Palavra #29 a terceira parte do meu conto policial "a casa no morro" (pra quem duvidou da minha capacidade de terminar um folhetim começado). buena, agora só faltam duas partes. chans!
quem ainda não sabe do que se trata, leia as outras partes:
primeira parte.
segunda parte.
e mais na próxima sexta.
paf!
sexta-feira, 09/05/2008
a casa no morro, parte 2
saiu no Palavra #28 a segunda parte do meu conto policial em cinco partes. leiam! e não se esqueçam de comentar e reclamar e enfim. né.
quem acabou de cair de paraquedas pode ler a primeira parte antes, que é assim na ordem que as coisas costumam fazer mais sentido.
e sexta que vem tem mais.
sexta-feira, 02/05/2008
a casa no morro
enfim!
publicada no Palavra #27 a primeira parte de meu conto-folhetim A casa no morro. é um conto policial de cinco partes. o resto virá aos poucos nas próximas edições. e vou avisando por aqui.
pra mim um desses desafios auto-impostos, porque é sempre difícil driblar minhas idéias mirabolantes e criar algo curto, rápido e eficiente. ou então esse meio-termo. nunca tinha tentado nada parecido antes. ou melhor, tinha. mas não deu certo. o bicho se encompridou e virou um romance.
mas agora entrei nos eixos.
pois leiam! e digam aqui o que acham, e façam essas coisas que leitores decepcionados ou indignados ou satisfeitos fazem. coisa nova assim a gente gosta de saber se funcionou. mas que não esse silêncio.
sábado, 27/10/2007
porque eu estou por aí
no Le Monde diplomatique Brasil, na seção sobre literatura e afins, Palavra.
começo com um conto e em diante vou colaborar com um texto por mês. hein, hein. nada mal, pra quem não sabe nada de escrever contos. que tal?
quinta-feira, 13/09/2007
a terceira carta não-enviada
(um conto curto, curtíssimo, com maiúsculas e tudo, para variar um pouco a programação dessa bodega.)
Tenho caminhado mais depois que destruí meu carro. Aquele acidente estúpido que me deu um braço quebrado e me estragou o joelho esquerdo.
Dia desses peguei o metrô para a avenida Paulista e comprei alguns CDs de música irlandesa, evitando com pouco sucesso aqueles artistas irritantes que você gosta; eles estão sempre expostos entre os mais vendidos e meus olhos são mal treinados para abstrair essas intervenções de marketing. E depois desci a Consolação a pé e entrei naquele bar no centro que você odeia. Aqui as pessoas sabem meu nome, o dono me chama de são-paulino porque sabe que não gosto de futebol e acho que vou passar a noite nesse buraco. Sei que você não vai estar sozinha.
Tudo me parece meio despropositado, mas minhas caminhadas agora me servem melhor do que estar preso no trânsito para pensar em você e em tudo aquilo que podia ter acontecido.
Na verdade te escrevi uma carta e rasguei, e depois escrevi outra carta e ela está ao lado do computador para ser digitada e vai continuar ali até que a faxineira pense que é lixo, tão terrível a minha letra e a folha de papel amassada. Vou passar noites assistindo a algum canal de esportes ou pesquisando na internet sobre instrumentos do folk irlandês, e você sabe muito bem onde me encontrar, se quiser.
Em caminhadas para a padaria às sete da manhã vou pensar em abolir a palavra amor de meu vocabulário para não te assustar e quem sabe mostrar que posso ser um pouco como esses homens com quem você sai e por quem você me trocou. Mostrar que também posso ser superficial e conversar sobre o Jornal Nacional, o tempo ou os melhores bares da Vila Madalena. Vou pensar em deixar de uma vez o carro no conserto e mandar trocar a porta, o pára-choque e os vidros. Para então te esperar na saída do trabalho e te ver saindo com algum almofadinha de gravata e gel no cabelo e uma cara cínica.
Depois em casa aumento o volume da música irlandesa e o gato continua deitado ao lado de uma das caixas de som. Sei muito bem o que você diria, que só escuto essas coisas porque são estranhas e o que acontece ao meu redor nunca me é o suficiente.
E fico pensando se meu nome ainda surge em suas conversas; se me tornei um ex-namorado ou então um rapaz-que-conheci.
Você não volta. Sei que deve existir alguma lógica por trás de tudo isso. Motivos e desculpas e opiniões e pontos de vista. Que diferença faz?
Acho que essas caminhadas me fazem mal, e estou sem dinheiro para arrumar o carro, gastando com imbecilidades como música irlandesa, cerveja e livros que não leio. Sei que acabou, esse amor que nunca existiu porque você tinha medo de palavras. Acabou, como o pára-choque do carro, e talvez seja minha única saída cuidar do que ainda tem conserto e pode ser substituído, e parar com essas caminhadas estúpidas que só me servem para piorar a lesão no joelho e pensar em você e em tudo aquilo que não aconteceu.
segunda-feira, 01/08/2005
O Curinga v.2
[Reescrita de um conto de 2001, publicado aqui no blog em março de 2004. A primeira versão, aqui.]
O despertador tocava às seis da manhã todos os dias, sábado e domingo, e o homem não o ouvia tocar, acordava dois minutos precisos antes do alarme inevitável e preparava-se para mais um dia. Era e talvez não fosse, dado que sobre ele são escritas essas linhas mais um entre tantos, um número a mais no censo da grande cidade. Suas virtudes no trabalho vinham de falhas fora dele, e levava sua vida solitária sem laços o ligando a nada ou ninguém. Guiava-o a inércia, e todas as alegrias de juventude estavam em um espaço muito escuro de sua mente, esquecidas.
Pois eis que tão desnecessária existência poderia estar em vias de mudar quando, certa feita, a caminho do velho trabalho, andando a pé rumo ao ponto de ônibus, esse homem se perdeu.
O que dizer, como explicar, rota aquela feita e refeita tantas vezes que seu corpo poderia fazê-la sem olhos e sem mente. Era um dia como eram todos os outros, ia com a cabeça em números. E não havia nada de números nas pequenas casas, residências enfileiradas, uma fatia de um lugar distante. Apresentavam-se aos seus olhos como um filme europeu mudo e muito antigo. Entre o silêncio pensou distinguir uma música de um circo remoto, e perguntou-se onde estavam os prédios altos e torres compridas da capital paulista. Um carro ao fundo se afastava, deixando o homem perdido em um mundo que certamente não existia de fato.
Sentia um grito preso que ficou onde estava. Onde estava? Estaria atrasado, mas olhava ao redor sem saber de onde veio, e para onde devia ir. Em frentea uma das casas uma mangueira vermelha rodava e molhava o gramado, como se alguém fosse voltar para desligá-la logo em breve. Mas ninguém. Era um pedaço de mundo não-habitado, não-existente. Uma gargalhada percorreu-lhe a espinha, e sentiu um medo que sentia quando tinha cinco anos e a mãe esquecia a porta do armário aberta na hora de dormir. E esqueceu o trabalho.
Um sujeito pequeno então o fitava, com olhos arregalados e o rosto muito pálido, maquiagem e roupa estampada com losangos verdes e vermelhos. Sorria mostrando os dentes brancos, enquanto sacudia o corpo de um lado para o outro, seguido por sons dos guizos presos aos sapatos de pano. Na cabeça um chapéu com três pontas, também com guizos dourados. Olhava o homem com ginga de folião e era mês de setembro e sorria. Sorria tanto que gargalhou, deu um pulo e virou uma cambalhota.
E o homem, paralisado, analisava o que via e transformava inconsistências em números. A figura era um curinga, lembrou-se de jogos de cartas e decidiu que havia uma lógica por trás de todas as cores. Olhou, não tinha as respostas, e tanto questionou que esqueceu todos os seus compromissos e obrigações, perdido em guizos dourados e losangos brilhantes. O curinga o convidava a segui-lo.
Mas o homem não se moveu, pois havia ainda algo a se lembrar. E embora o curinga pulasse e se sacudisse e desse cambalhotas no ar, isso não poderia mudar. Porque o homem pensava em números e sua cabeça tão racional acreditava no mundo de cimento em que vivia. Era uma cidade traiçoeira e todos puxavam tapetes. Afinal, o que ele entendia de curingas? Por que confiar num sujeito pequeno de roupas esquisitas, gargalhando e dando piruetas?
Deu dois passos para trás e havia certeza em seu olhar, recusando o tão suspeito convite de tão inconveniente bufão. Não sabia, não entendia, fez do medo desconfiança e lembrou-se do trabalho. Atribuiu a visão àparte tortuosa e errada de sua mente e lembrou-se que era um homem com muitos compromissos e obrigações, e precisava ir embora. Olhou no relógio; números. O curinga percebeu seu esforço desperdiçado e colocou aquele em sua lista de casos perdidos. Mas haveria outros, e um caso assim entre tantos bem-sucedidos sequer seria lembrado. Um número, entre muitos. Sem mais sons, o curinga desapareceu com a brisa e levou consigo a música circense distante.
Os passos apressados de um homem sem ambições o levavam então ao ponto de ônibus, rumo ao velho trabalho, onde passava os dias, sem se lembrar. Sem se lembrar que um curinga um dia quis mudar sua vida. Mas ele teve medo.
quarta-feira, 06/04/2005
Propósito
ficção levemente baseada em fatos reais
— Acho que me apaixonei.
— Ah é?
Ele achou melhor ignorar a negligência da amiga e sentou-se ao seu lado no banco de concreto, enquanto ela lia um livro velho qualquer que havia emprestado da biblioteca. Ela lia com a mesma negligência com a qual respondeu à afirmação de Luiz, virando as páginas sem prestar atenção em coisa nenhuma.
Formalistas russos. Blá blá blá. Alguma coisa sobre metrificação e ritmo.
— Pô, é sério— ele insistiu.
— Você não se apaixonou por mim, né?— Ana perguntou, erguendo uma vez o olhar.
— Não!
— Ah, bom.
Ela sorriu e colocou o livro de lado, finalmente atenta ao que Luiz tinha a dizer.
— Se apaixonou por quem?
— O problema não é por quem.
— A coreana?
— Argh!
— Você não gostava da coreana?
— Gosto, gosto. É, ela mesmo, mas o problema não é esse. O problema é... Aquele.
— Aquele problema?
— Isso.
— Que problema?
Luiz soltou um tipo de urro comedido, erguendo as mãos aos céus mas na verdade não estava fazendo menção nenhuma a deus nenhum, mesmo porque não acreditava nessas coisas. Ana pegou seu livro outra vez, mas ficou apenas olhando a encadernação verdinha sem título nenhum, pensando como era bonito andar por aí com um livro de capa dura verdinha sem nenhum título aparente. Dava um ar intelectual.
— Ah!— Ana disse, arregalando um pouco os olhos. Havia se lembrado do problema.— Contar pra ela não vai dar certo, né? Mas você ao menos conversou com ela? Quer dizer, perguntou o nome dela e tal...?
— Claro que já. Ontem. Almoçamos juntos e passeamos na praça do Relógio.
— Que bonito.
— É verdade.
E Luiz ficou um pouco com uma cara um tanto boboca, pensando na coreana e em seu rosto largo e suas bochechas fofinhas e o sorriso de anime.
— Mas e aí, rola?
— Ahn?— Luiz não queria perder aqueles pensamentos.
— Luiz!
— Ah, então, é... Não sei. Mas tem aquele problema, é... Poxa, eu sabia que isso ia acontecer.
— Não precisa contar pra ela.
— Mas e se a gente for namorar e casar e depois ter filhos e tal?
— Nossa.
— Pois é, vai ser um problema sério! “Escuta, querida, preciso te contar uma coisa, quando eu estava na faculdade eu”...
— Ai, não seja dramático.
— Melhor seria não ter feito aquilo.
— Ah, vai se arrepender agora? Foi divertido.
— É verdade.
E outra vez Luiz ficou com uma cara meio boboca, porque sua imaginação era mesmo muito fértil e ele estava pensando em sangue, muito sangue, e na sujeira desnecessária que ficou no chão, e no cuidado que eles tiveram pra não deixar pegadas e outras marcas.
— Não sei o que te dizer.
— Nem eu.
— Não sabe o que dizer pra você mesmo?
— Nem pra ela.
— Não diga nada.
— Mas e se a gente for namorar e casar e...
— Se nem a polícia sabe de nada, por que ela tem que saber?
— Por que eu tô apaixonado.
— Ah, é. Que coisa complicada.
— Nem fala. É mais fácil matar do que se apaixonar.
Olharam-se e riram, dois risos cínicos porque a piada não tinha a menor graça.
— Sabe o que a gente podia fazer?— Ana sugeriu, guardando o livro na mochila.
— O quê?
— Matar mais alguém.
— De novo?
— Ah, você tá precisando arejar a cabeça.
— Tem razão.
Levantaram-se e saíram daquele pedaço onde passavam muitas pessoas e cachorros, e foram sentar em um canto afastado, embaixo de umas árvores. Decidiram que iam matar alguém da Física, porque matar gente da FEA podia ser perigoso — vai que o cara tinha contatos ricos e importantes e tal.
Esperaram a noite chegar e escolheram um funcionário feinho e careca que estava andando meio sem rumo pelo estacionamento. Ela pediu ajuda pra colocar a corrente da bicicleta e ele foi ajudar, todo solícito. Não havia bicicleta nenhuma. Luiz acertou-lhe a cabeça com um pedaço de ferro e então mataram o homem com muito cuidado, fazendo desenhos em seu peito com o canivete depois que ele já estava morto.
Luiz ainda queria escrever alguma coisa na testa da vítima pra deixar a polícia confusa, mas ouviram passos e saíram correndo.
No dia seguinte Luiz conversou outra vez com a coreana. Depois de um mês eles estavam namorando. O namoro durou três meses e no fim Luiz já nem pensava em casar e ter filhos com aquela menina maluca.
A verdade é que Luiz casou, anos depois, com uma chinesa de família rica. Ele não estava apaixonado por ela e não achava tão ruim assim mentir pra ela. Mas continuava tendo amantes orientais; uma por mês, mais ou menos. Ana casou-se e teve filhos e mesmo apaixonada não contou nada ao seu marido. Ela achava que certas coisas não precisavam mesmo ser contadas. Luiz freqüentava a casa de Ana, e os filhos dela achavam que tio Luiz aparecia sempre com a mesma moça, porque todas tinham olhos puxadinhos.
De vez em quando Luiz e Ana se encontravam e bolavam mais um plano para arejar a cabeça.
sábado, 12/03/2005
Destino
Tinham uma relação complicada. Desde o começo fora assim. Ela, demais exigente, ele, demais negligente. As coisas foram virando uma bola de neve... Mas fato era, ele gostava daquela mulher. Esforçava-se, mas as coisas já havia chegada a um ponto. Aquele ponto. Ela havia lhe dado uma última chance. Num lugar movimentado da grande São Paulo, a moça o esperava. Gostava dele? Talvez. Pois afinal, manteve aquilo por tanto tempo... Tolerante na medida do seu possível.
Óculos escuros, sem emoção, arrependida, mexia nos cachos com a ponta dos dedos. Tão frágil, pequena, sem se dar conta da insignificância de seu problema frente ao resto do mundo, e das milhares de vidas que passavam pelos seus olhos, cada uma com uma preocupação. Por um momento até tinha a impressão de que tudo parecia se encaixar, como se todas aquelas vidas fizessem parte da sua, ou de alguma coisa maior ainda, maior até que o próprio planeta. Olhava no relógio. Tinham combinado. Se ele se atrasasse mais de cinco minutos, era o fim. Ela ia para Curitiba, e esqueceria aquele amor mal resolvido.
E o horário. O tempo passava sem piedade, no mesmo ritmo sempre, sempre, tic-tacando o coração daquele jovem desesperado. Olhava os ponteiros cruéis do relógio, não tinha muito tempo e atrasara-se para sair do trabalho. Seu plano era chegar adiantado, e agora estaria entrando no vermelho em dois minutos. Corria, num gesto um tanto inconveniente, passando por lentos transeuntes, senhoras com suas sacolas de feira. Pois parece que o ser humano custa a se dar conta do que tem nas mãos, até que percebe que não o tem mais, ou que em breve não o terá.
Ele amava aquela moça, e o medo de perdê-la o transformara em outra pessoa. Afastava-se ocasionalmente quase sem querer, incontrolável. Tinha medo daquele relacionamento tão frágil. Um vaso de vidro, que podia a qualquer momento cair no chão e se estilhaçar inteiro. Gostava dela, e estava disposto a ter essa chance. Seria uma nova pessoa. Enquanto corria, pensava nela, e um frio lhe subia a espinha quando imaginou que se não chegasse logo, nunca mais a veria. O triste fim...
Com um olhar melancólico ela olhava a rua, e a esquina de onde ele deveria surgir, quase esperançosa. Mas o tempo em sua preguiça passava sem passar, e ela sabia que o moço chegaria na hora, que já era escrita no relógio de pulso. Ou usaria seus créditos para atraso, mas chegaria. Cinco minutos. Abaixou a cabeça, com o peso da vontade de ir embora, espiou a esquina, mas ele não chegava. Chegaria... Tentou pensar em algum motivo para que ele não aparecesse, mas concluiu que aquilo era um absurdo. Ele tinha consciência da gravidade da situação, e ela acreditava em todas as vezes que ele dissera o quanto a amava. Olhou no relógio e mais um minuto havia se passado.
Ele parava então de correr, ia atravessar a rua. E qual foi sua surpresa, quando notou aquela estranha movimentação ao erguer o olhar. Três homens de uniformes, policiais, controlavam o trânsito. Um deles bloqueava a rua que cruzava aquela, e outros dois mantendo os pedestres na calçada, enquanto dúzias e dúzias de viaturas, motos, carros e caminhões passavam em alta velocidade para entrar à direita na perpenticular. O pobre jovem, desespero, olhou aquilo, sentindo uma angústia infernal crescendo em si. Paralisou, jogou os braços ao longo do corpo. Um perdedor. Sentia que carimbavam a testa com a maldita palavra, letra por letra. “Você perdeu.”, cada viatura que passava dizia, com suas ensurdecedoras e desgraçadas sirenes. No poste ao seu lado batia a cabeça com vontade, e ouviu ainda um engraçadinho dizer:
─ Precisa tirar o pai da forca, rapaz?
Uma ou duas gargalhadas. Sim, ele havia perdido. Olhou em desespero a fila de carros que ainda estavam por passar, mas recusava-se a olhar as horas, recusava-se a perder aquela última gota de esperança. Sem saber que, naquele exato instante, ela, já incomodada o bastante com o som daquelas malditas sirenes à distância, olhava uma última vez para a tal esquina, e seguia seu caminha, afastando-se para sempre. Sete minutos. Ele não havia mudado. Azar dele.
E ele... Chegava minuto depois ao ponto de encontro, e lia as horas desconsolado. A esperança ia embora junto do som de sirenes ao longe, e ele estava sozinho. Que são essas ironias do destino, que vez ou outra se metem na vida da gente. Como se estivesse tudo planejado, fosse para estragar ou arrumar a situação. Coincidências. O destino. Sujeito esse, na verdade, sarcástico. Ironia é puro eufemismo.
quinta-feira, 21/10/2004
Garoa de fim de mundo
Era uma fazenda distante. Há muito que estava meio abandonada, com teias de aranha que se prendiam nos cantos e embaixo das mesas e cadeiras; a camada de pó sobre os pesados móveis. Um cenário típico, para fantasmas fazerem ranger o piso velho, e vampiros saírem de armários. Brisas confundidas com suspiros, e o som agonizante de gritos por ajuda.
Ao redor da casa, mais para o norte e para o leste, o terreno era cercado por uma densa floresta. E a oeste um carro de motor barulhento subia a estrada de terra que dava na garagem da fazenda. Lentamente, uma música monótona no toca-fitas parecia dar uma piscada de vida às plantas abandonadas na beira da estrada, que morriam logo em seguida, quando o carro seguia em frente.
Uma moça desceu, com o carro já parado na frente do casarão. Olhava tudo com olhos arregalados e surpresos. O tempo cinza já escurecia o dia antes da hora e alguns pingos de chuva começaram a cair. Garoa. A moça, bem vestida, franziu a testa e terminou de pegar suas coisas no porta-malas do veículo.
Estava ali para avaliar a casa que seria vendida. Os antigos donos nunca mais quiseram saber dela. Sentiu um arrepio lhe percorrendo a espinha conforme subia a escadaria para a entrada principal. Lugar sinistro aquele, enorme casa térrea colonial, aos moldes de um filme de terror. Entrou.
Os pingos da chuva compunham uma entranha e assustadora sinfonia, era o único ruído naquele lugar. A moça virou à direita, pelo corredor que levava aos quartos. Não havia luz. O clique-clique do inútil interruptor e a respiração pesada da jovem mal se faziam ouvidos. Fato. Enquanto a noite chegava lá fora, aquela sensação incômoda, presa na garganta da moça, era medo.
Quando pequena costumava deliciar-se com histórias de fantasmas e casas mal-assombradas, acreditava em todas. Tinha certeza que se aquelas coisas realmente não existissem ninguém se daria o trabalho de falar sobre elas. Mas tinha medo, sim, tinha medo, embora secretamente gostaria de algum dia ser a prova viva de que tudo aquilo existia. Para poder responder com um sorriso enigmático quando lhe perguntassem sobre o assunto. Colocou a mala pequena sobre uma das camas, odiando aquele cheiro de mofo que incomodava, e a falta de luz que mal deixava ver o estado do quarto. Ajeitou o agasalho e vagarosamente andou até a cozinha, achando lá algumas velas sobre o balcão, como se houvessem sido deixadas ali por muito tempo. Ou talvez não... Talvez estivessem ali, apenas esperando por ela.
As mãos foram rapidamente ao bolso da calça, tirando de lá um maço de cigarros, e um isqueiro laranja. Acendeu uma das velas, e a chama dançava, deixando todo o ambiente amarelado, com as sombras se mexendo. E aquele frio na espinha. Deveria ter saído de casa mais cedo, teria chegado durante o dia e poderia até voltar antes de escurecer. Mas teria que passar a noite, se não quisesse perder a viagem. A garoa, incansável, parecia que não ia parar nunca. O ruído de gotas no assoalho por alguns segundos pareciam ocultar vozes abafadas, risos incompreendidos, em meio ao som da chuva na grama e do vento uivando. A moça sentou-se num dos sofás da sala, com a vela do lado, os olhos bem abertos, tentando captar qualquer movimento suspeito nos cantos mais escuros.
Os minutos passaram; a noite havia chegado e ela ficou ali. Via, imaginava, achava que ouvia. A situação era um tanto propícia. Continuava alerta, esperando algo, não sabia bem o que, mas que a surpreenderia, talvez... Sentia como que se estivesse sendo observada, por olhos invisíveis a fitando pela janela e através dos móveis. Apertava a vista mas não via nada, desconfiada.
No assobio do vento teve até a impressão de ouvir uma voz a chamando; ou talvez fossem as folhas das árvores balançando, e o mato alto se sacudindo. Pensou ouvir passos na grama, abafados pela chuva. Encolheu-se e esperou. Com a mente vazia, respirava pouco, esperando o susto que viria na certa, inevitavelmente. E veio. Um som seco na janela, como se alguém a empurrasse, seguido pelo vento mais forte. A moça deu um pulo, encolheu-se mais. O vento, pensou, era apenas o vento. E logo ele ficou mais calmo, e a vela era a única que se agitava na cena toda.
E a chuva continuava, os mesmos sons, como se alguém estivesse aproximando-se infinitamente, sem nunca chegar. Angustiante. Não havia ninguém na janela, ou mesmo atrás da cortina. Só a moça, e a vela, e sua imaginação. Esperava. Tanto que a mente já divagava, ouvia sons e via sombras que não existiam. Enganava a si mesma alimentando um medo que já nem era medo, esperando o desconhecido e nem tanto o temendo, apenas preocupada com um possível susto. A moça não gostava de sustos. E seu medo, só era, não estava lá. Ela já ouvia — sem ouvir nada — tudo que poderia fazer algum som suspeito. Via sombras que não estavam lá e, sim, sabia que eram delírios de uma mente acuada. E adormeceu, encolhida. A vela já tinha acabado.
Não havia mais sombras, só a escuridão quase total, salva pela claridade fraca da noite sem estrelas. A garoa roçando o mato como um fantasma da noite, ao acaso. Fosse o silêncio total, outros ruídos, grilos, o vento... Não fosse a chuva, a água ilhando a moça num lugar sombrio, haveria estrelas no céu, talvez? E os sons da floresta, se fariam ouvidos?
A moça, dormindo; a casa e suas sombras sequer existiam, o que acontecia não aconteceu. O vento na janela assoviava para se fazer ouvido, mas não era mais. A moça dormia, não estava ali. Como sempre estivera sendo aquela casa abandonada, existindo sem existir. A grama encharcada, a lama e a água que entrava por debaixo da porta. Paravam no tempo, sem testemunhas, como há tanto já estavam acostumadas. Não existiam.
Era início de manhã quando a moça abriu os olhos; luz entrando pela janela que tinha perdido a persiana. Tudo era estático como sempre fora, o ar limpo, e o dia sem chuva. O céu estava branco, sem sol aparente, triste. Era a jovem, e a casa, e só. Dividia o ambiente com algumas aranhas.
Andou até o quarto, abrindo um pacote de torradas que levava na mala, e pegou uma caixinha de suco. Tudo tinha aquele aspecto da casa mal-assombrada que não se mostra nos filmes, com luz, e sem as sombras. Uma melancólica alegria, vida. Na moça, um certo ar de decepção, medo à toa desperdiçado. Ela era só o que era, medíocre; para ela não haveriam aparições. Pensou na noite anterior enquanto arrumava os papéis para avaliar a casa. Lembrava de sons e sombras. Os devaneios já estavam perdidos no outro lado da mente, e ela sabia que nada havia acontecido.
Mas é que essas coisas mal existem de verdade. Imaginação fértil, lendas, mitos. Todos os símbolos precisaram ser criados. Fruto da mente das pessoas, obras do inconsciente, um acaso bem direcionado, com objetivo claro. A garoa sem propósito, ou talvez não? Estava ali por um motivo? A moça... A moça acreditava demais. Que inconsciente era aquele, baú aberto? Que consciente podia-se enganar, se já esperava ser enganado?
Porque a gente tem essa mania de ver o que não está lá. E se não é por medo, é o exato contrário. Falta ter o que aprender. A mente... A mente humana é uma coisa engraçada.
sexta-feira, 15/10/2004
Passeio Noturno
O que vi, lhes digo, não era algo que se vê todos os dias. Ou noites. Até hoje me pergunto se de fato vi, ou, quem sabe, ilusão, peça que os olhos pregam pra tornar a vida um inferno. A noite estava clara, tinha lua. Não estava cheia, mas quase. As nuvens ralas passavam velozes por ela dando aquele ar meio sinistro, história de vampiro.
Lembro-me da esquina iluminada por que passei com um ritmo lento. Algo me perturbava na época, crises de homem desiludido, sem propósito na vida. E, afinal, que outro tipo de sujeito andaria sozinho na rua a tal hora da noite? Um sorriso bobo nos lábios, sem razão de existir, e talvez desafiando aquela situação um tanto ridícula. Eu, homem feito e bem sucedido, andando sem rumo pela cidade à noite. E, para tornar tudo ainda mais pitoresco, vi o que vi.
Sob a luz forte do luar, um homem sem sombra.
Pois é bem verdade que minha própria mente entra em conflito com minha memória quando me vem essa lembrança. Divagava, quem sabe, os devaneios de um homem moderno. Um homem que não encontra outro horário ou lugar para desligar a cabeça racional e simplesmente ser. Sem fazer. Não pensava sequer no caminho. Era um fato que no final dessas caminhadas eu precisava tomar um táxi para casa. Nunca parava de andar, e às vezes mal olhava o caminho.
Aquele dia, porém, parei. E olhei. A visão do absurdo entrava em conflito com o cérebro de um homem tão racional. Como uma folha que por um momento parece suspensa no ar, girando, até que se nota um fino fio de teia de aranha segurando-a. Mas no homem à minha frente não surgiu sombra. Nem explicação.
Olhei para cima outra vez e assim permaneci, fitando a quase bola, branca, dona do céu, iluminando os cantos escuros da cidade. Voltei ao homem, que tinha o rosto azulado pela luz da lua, mas de seus pés não saía sombra alguma. Ele fitava o infinito adiante, sem me notar na rua deserta. Uma figura estática, cujo silêncio era cutucado pela minha respiração pesada.
Tive medo, e não me movi. Os olhos continuavam em busca da sombra que não existia, buscando acalmar aquele pedaço do cérebro que ia pirar se alguém pudesse dizer que dois mais dois não é quatro.
Mas não. Dois mais dois é quatro, e quando a luz incide num objeto, acontece a sombra. Todos sabem disso tão bem que a própria lua deveria saber. E ele, alheio, continuou sem me notar. Apertei a vista, esfreguei os olhos e no fim só pude mesmo constatar que estava diante de uma assombração. Só podia ser. Só assim para a luz passar por ele sem encontrar obstáculo algum.
Confesso que não fui capaz de deixar de observá-lo por mais tempo, sem mover um dedo, sem coçar a orelha. Perguntava-me se veria o sujeito esvaecendo, virando pó. Ou lobisomem. Nunca se sabe, era quase lua cheia. Permaneci, feito um bobo, procurando a sombra alheia. Quem era, ou fora, aquele moço? Era? Alguém como eu, desiludido, perdido, e tão fora de si que mal tinha sombra? Ou um alguém do passado, que volta ao mundo dos vivos para apreciar o luar? Ele não olhava para cima, reparei. Olhava em frente apenas, e por isso não me viu.
Tanto olhei, e tanto questionei, que já não via a rua, ou o luar, e mal ouvia os ruídos da cidade que nunca dorme. Só o homem, e sua maldita falta de sombra. Inserido no meu mundo como uma colagem mal feita de computador. Tão exclusivo que parecia não estar mais ali, e sim num plano paralelo onde não havia luz incidente e, portanto, não havia sombra. Um plano onde só havia ele, e eu, preso entre dois, pois não ousaria tirar os pés do meu mundo real, onde se tem certeza de que tudo, sempre, tem sombra quando atingido pela luz. O mundo da razão mantinha a minha sanidade, e pareceu demais sensato acreditar que aquele homem não pertencia a ele, mas eu sim.
Mais tempo se passou. Eu ainda estava imóvel, perdido em pensamentos e explicações diversas, absurdas ou não, quando o homem virou-se para mim. Seu rosto era claro, o olhar brilhava com uma luz assustadora e era como se eu pudesse ver através dele. Sem sombra, e sem massa. Eu estava ficando louco.
Foi um momento curto; senti que meus pés deixavam o meu mundo da razão, e não existia mais rua. Não existia mais luar, ou sombras, ou números. Existia eu, sem sombra, e o olhar que via à minha frente sorrindo, rindo, quase gargalhando, quase me desafiando. Resisti, fechei os olhos, ignorei a pergunta que ouvi clara em minha mente e com esforço sacudi a cabeça. Estava na rua à noite outra vez, mas estava sozinho.
Olhei para minha sombra com satisfação; eu era uma pessoa normal, um ser humano. Pisei no chão com firmeza e voltei a andar, respirando fundo. Meus passeios eram loucos sempre. Talvez bobagens do meu inconsciente, quem vai saber? Pois a verdade é essa, a resposta à pergunta que ouvi:
Eu não seria capaz de viver sem sombra.
quarta-feira, 13/10/2004
Um dia, um palhaço
Sem dúvida aquilo deveria fazer algum sentido. Mas a jovem tinha a mente vazia, e não fazia mais nada além de olhar. Todas aquelas pessoas, prisioneiros de uma rotina de cidade grande, o início de mais um longo dia. Carros, placas, buzinas, ônibus lotados, gente gritando, e o palhaço. Palhaço? De novo, aquilo recomeçava, mais outra vez...
Esfregou os olhos, e olhou novamente para onde vira o tal sujeito. Sim, ele ainda estava lá, parado, como se não estivesse ali. Ignorado pelo resto da multidão, tão normal quanto ela, decerto também sendo ignorada pela multidão. Quem, afinal, haveria de se preocupar com um... Palhaço? E não era a primeira vez o que o via. Era ele mesmo, o tempo todo, sempre ele, sempre imóvel. Sempre despercebido. Seguia-a? Ou talvez seguia alguém, ironia do destino, alguém que acabava por estar no mesmo ponto de ônibus, ou na mesma padaria. Coincidências existiam. E se não existissem as pessoas logo tratavam de inventá-las. A moça sacudiu a cabeça, espantando aqueles pensamentos sem nexo, olhou se seu ônibus já vinha e logo os olhos pararam outra vez sobre o palhaço.
A figura permanecia sem expressão alguma, parada apenas, nem triste, tampouco alegre, nem mesmo pensativa. E sim, coloria de certa forma a calçada cinzenta e as pessoas sérias que compunham a paisagem. Todo de azul, amarelo, vermelho e todos os derivados imagináveis, parecia uma estátua pintada com guache, em pé, com os braços soltos ao longo do corpo e a cabeça reta, olhando para lugar nenhum. Por um momento, a jovem pensou ter visto-o piscando. Parecia, por um curto instante, alguém como todos aqueles outros.
Ela olhou no relógio, já ficando impaciente. O ônibus, maldito, faria com que ela se atrasasse. Tinha a impressão que aquelas coisas só aconteciam com ela, enquanto via dezenas de ônibus passando. E o palhaço já começava a deixá-la irritada. Parado, quieto, intocável, invisível. Talvez nem estivesse lá. Talvez não devesse estar. De fato, não deveria. Irritava-a, tal sujeito tão alheio. Irritava-a por deixar a impressão de que era a única que o via, e se achava uma louca, vendo coisas por aí. Pensou que logo avistaria uma figura de azul e vermelho voando no céu, do jeito que sua cabeça estava. Por sorte morava no Brasil, e não era por ali que sujeitos daqueles viviam.
E o palhaço.
O palhaço era como que parte dela, absorto em seu tédio absoluto, como que se não pensasse ou mesmo soubesse o que era pensar. A menina ajeitou os livros nos braços, tirando um pouco de franja dos olhos, ainda perturbada, como se ele, sem mesmo encará-la, quisesse lhe dizer alguma coisa, quisesse perguntar alguma coisa ou talvez... Talvez dar alguma resposta.
Olhou, ele piscava. Um ser humano, pintado, com estranhas roupas? E tudo em volta dele ganhava um novo tom de cor, um cinza triste, sem graça, em contraste com suas vestes, que ainda assim eram tão melancólicas quanto sua expressão niilista. E tudo que ela lia em seus olhos era algo que dizia "sou um palhaço", mas sem explicações extras, como se aquilo bastasse.
Até que - surpresa - o palhaço se mexeu. A moça arregalava os olhos, enquanto ele movia lentamente a cabeça na direção do inicio da rua, depois da curva. O trânsito já era maior, os carros passavam lentos e vozes de motoristas estressados já tomavam o ambiente, entre a mistura de sons de música e de noticiários nos diferentes toca-fitas. O palhaço olhava; parecia até respirar o ar fino e frio da manhã; olhava como se esperasse um ônibus. E mexeu-se novamente. Um, dois, três passos à frente. Passos lentos, medidos, e assim mesmo desengonçados, os passos de um palhaço. Sorria? Não. Mas algo em sua expressão havia mudado, como se já estivesse cansado de esperar. Na verdade, como qualquer outra pessoa sorria sem sorrir, de objetivo alcançado.
Virou-se para a moça, encarando-a com as sobrancelhas bem arqueadas e balançou a cabeça, numa misteriosa afirmação. Dizia sim, sou real, ou talvez o extremo contrário, ou mesmo nada daquilo e apenas afirmava. Para a moça, com a moça, e pareceu por aquele momento que dizia que, fosse ele real ou não, ela o via, e ele estava ali de algum jeito. O que era real, de qualquer forma? Que diferença fazia?
Ela não entendeu. Apenas continuou fitando-o, olhos em desespero.
O palhaço.
O palhaço voltou a olhar a rua, e com movimentos pesados aproximava-se dos carros. Um último passo, sumia entre o tráfego, deixava de existir, como se pegasse carona com um vento qualquer. A moça, pasma, mal notou seu ônibus que passava lotado.
sexta-feira, 17/09/2004
Desistência
Quando ela disse que queria se matar, João sentiu uma coisa apertando o peito, que ele não sabia explicar o que era. Mas não tinha argumentos, não sabia o que podia dizer para que aquela menina pequena acreditasse que viver valia a pena. Ela já estava cansada daquela farsa, não vivia, não vivia! Queria poder simplesmente desaparecer para sempre.
E ele, que também não sabia porque vivia, inércia talvez. Vivia porque tinha coisas a fazer, e porque tinha alguns pequenos prazeres que o distraíam de uma verdade maior e não tão oculta. Morreria, no final, e tudo que fizera não teria valido de nada. Mas continuava vivendo, porque lhe parecia sensato, e porque o pós-vida devia ser um tanto entediante.
Pensou, enquanto via a menina chorando, que se estivesse em seu lugar, ele também desistiria. Desistir era sempre bem mais fácil.
Então, o que ele podia dizer? Não é culpa sua, ela dizia, não fique triste. E ele sabia, sabia que não era culpa dele, e sabia que mesmo assim precisava fazer alguma coisa. Tentou falar algumas palavras, tentou fazer algum sentido, mas ela não queria mudar de idéia. João chorou, num ato desesperado. Se ela desistisse, ele desistiria também!
Você não tem porquê desistir, você gosta da sua vida, ela disse.
Estava certa. João mordeu o lábio ao ouvir as palavras verdadeiras. Ele estava mentindo! Que o prendessem por aquilo, mas achara que deveria impedi-la de se suicidar, como um bom menino que era. E se para aquilo precisasse recorrer a hipóteses drásticas, recorreria.
Você não me conhece, ele respondeu, aprofundando-se na mentira, como já havia feito em outros momentos.
Ela balbuciava métodos e idéias. Ninguém vai sentir minha falta, tudo bem, não tem problema.
Ele sentiria, achou, mas depois pensou que preferia vê-la bem e sorrindo, e vê-la sofrendo era demais de ruim. Depois pensou também que talvez não fosse sentir a falta dela tanto assim, e logo a esqueceria. Deixaria sua lembrança bem guardada, numa caixinha de madeira num canto escuro da mente.
Que ela se matasse então.
Sim, ele pensou, que se matasse, se aquilo a deixaria aliviada de todos os seus problemas. Disse a ela que desistia de tentar ajudar, que ela não queria ser ajudada. Foi rude, tinha que ser! E quando ela virou as costas para ir embora, ele não conseguiu conter um pequeno sorriso que se formou em seu rosto cheio de lágrimas. Ela estaria livre, então. Mas o sentimento maior era o mais egoísta.
Ele, João, estaria livre também.
sexta-feira, 25/06/2004
A Outra
As luzes do palco se apagavam para serem acesas em seguida, centenas de olhos fixos na moça mascarada. E ela, centro de atenções, esquecia que havia gente observando, os movimentos soltos, e imaginava à sua volta um cenário de sonho, que não existia em lugar nenhum. Quem era, ninguém sabia. Uma personagem curinga entre uma cena e outra, que viria a se explicar no final da peça. Mas isso pouco importa. Aquela máscara guardava atrás de si uma pessoa como poucas, ela, a moça...
Pois entrar no palco lhe pedia aquela nova máscara, e ela se transformava. Cabelos longos e olhos misteriosos, antes, era moça simpática, sorridente. Aquela era a moça. Ou talvez fosse apenas o que ela pensava ser. Sorrisos, olhares, era uma máscara invisível que usava para ser compreendida. Mas não se usam duas máscaras ao mesmo tempo, e tirava uma para pôr aquela que a peça pedia. Por baixo de máscaras, era, aí sim, seu verdadeiro eu. Mas as máscaras... A segunda, tão concreta, ainda que irreal, e ela no meio do palco se encontrava, distinguindo fantasia de realidade, percebendo então que não era a moça sorridente, e sim alguém que nunca chegou a conhecer.
Acabava. O espetáculo tinha fim, ela tirava a máscara, voltava a ser... Quem? Voltava a ser quem não era. O disfarce oculto se agarrava ao seu rosto. E se irritava, pois sabia que aquela verdadeira moça existia, mas ela não conseguia encontrá-la fora do palco. Perdia-a cada vez mais, conforme se sentia na obrigação de ser quem não era, encaixando-se àquilo a que supostamente deveria pertencer. E quando a sensação passava, quando quase acreditava no que não deveria ser, havia novamente o espetáculo, e encontrava mais uma vez aquela pessoa inexistente. A moça.
A moça era, insistia que era, alguém, alguma, aquela que via no espelho. Era? E como poderia ser alguém que insistia em se esconder, sem rosto, aquele alguém que ela deveria ser? Deveria? Ou talvez simplesmente quisesse...
A máscara na frente, o palco, era livre. Ninguém a via, só ela. O corpo em movimentos desconexos, não era mais. Protegida de um mundo cruel, não era mais nada, e quem era a esperava fora do palco. O que era? Doida, doida, por que nunca poderia ser aquilo que representava atrás da máscara?
Escolha? Escolheu quem não era? Mas não se é quem se escolhe? O quão triste pode ser viver a vida que não lhe pertence? Tão presa na vida inventada que não se lembra da outra. Existiu outra?
A moça, em casa, passou os dedos pela face lentamente, via alguém em seu reflexo, e mentalmente a mandava embora. Aquela, olhos verdes e enormes... Os olhos lhe diziam algo, como a nostalgia de um passado mais velho que ela mesma, algo que a moça não compreendeu.
- Eu sou.- disse, num tom de sussurro, para ninguém ouvir.- Eu sou eu.- continuou, mais alto, mas ainda se lembrava da sensação sobre o palco, e era tudo tão diferente...- Eu sou... Eu...- fechou os olhos, não era. Nunca fora. Seria, um dia, talvez? Isolada da sociedade, de tudo e de todos, quem sabe? A louca. Aí, então, seria quem era, apenas.
sexta-feira, 14/05/2004
O Último Sensato
O Menino achava que vivia num mundo diferente. O Menino achava que as coisas aconteciam de um jeito, daquele jeito que ele um dia pensou que elas deviam acontecer.
O Menino ficava bravo quando as coisas não aconteciam do jeito que ele tinha pensado.
Ele vivia preocupado de tudo. As horas, o tempo, o trânsito. As pessoas. O Menino às vezes tinha medo das pessoas. Quando as pessoas falavam com ele, ele se preocupava com o medo que tinha das pessoas e se confundia. Não queria que soubessem que ele tinha medo. As palavras saíam enroladas ou pretensiosas.
O Menino nunca teve muito jeito com as pessoas. Mas ele achava que as pessoas que não tinham jeito com ele.
Se preocupava que talvez fosse ele que tinha algum problema. Mas chegava à conclusão que não era, que não podia ser. O mundo inteiro tinha um problema, sério, sério.
Ele não sabia.
O Menino não sabia, e nunca chegou a pensar, que talvez ele também fizesse parte daquele mundo que não acontecia como ele esperava. E talvez ele fosse igual a todas as outras pessoas, sem jeito com Meninos e Meninas que se sentiam a parte de tudo.
Ah.
O Menino ficava sempre muito bravo e preocupado. Ele não sabia o que era ser feliz, porque achava que só os burros eram felizes, e tinha medo de ser feliz e ficar burro. Achava que as preocupações eram normais e necessárias, senão ia perder sua inteligência.
A Felicidade vivia em volta dele, porque ela acreditava que um dia ele ia esquecer de levar tudo tão a sério. E ser feliz.
Mas o Menino tinha medo de ser feliz. Tinha medo de ser feliz e se esquecer o quanto era trabalhoso ser feliz. E emburrecer. E tinha muito medo que as pessoas o vissem, e dissessem "lá vai o Menino, ele é bobo e não é muito esperto".
Ele achava que ser feliz era uma grande bobagem.
Continuou, ele, então, o Menino. A Felicidade sacudiu a cabeça, meio decepcionada, e foi olhar o nascimento de um bebê de uma mãe triste e preocupada. O bebê nasceu feliz. A mãe também, depois, não era mais tão triste, assim, como era antes.
E o Menino...
Ah, o Menino.
O Menino achava que o mundo estava todo errado. E não mudou de opinião. Ele nunca mudava de opinião, no fundo, no fundo. Um dia, ele falava, ia mostrar ao mundo como era ser certo. Ia mostrar ao mundo que estava tudo tão errado, com sua sensatez comedida.
Seguiu, reclamando, bravo e preocupado. Pois era apenas um menino. Existiam outros, como ele. Exatamente como ele. Mas ele não sabia. Nem nunca saberia.
terça-feira, 06/04/2004
Foco
Quando se olhou no espelho, foi como se tivesse passado alguns anos sem se ver. Foi como reencontrar um colega da escola depois de décadas, e descobrir que aquele menino magrelo que gostava de jogar futebol havia se transformado num gorducho grisalho, que leva sempre um pano no bolso para secar o suor do rosto.
Os fios brancos ainda eram poucos, perdidos nos cabelos claros, mas via algumas rugas que havia esquecido que existiam. Os olhos eram de um castanho claro amarelado, de uma cor surreal e quase inexistente, que intrigava muitos. E pela primeira vez, o intrigava também. Que cor era aquela?
Muito prazer, quem é você? logo pensou, e quis repetir em voz alta, mas não conseguiu. Tinha medo de bancar o louco, mesmo ali, sozinho no quarto do hotel. O espelho era velho e enferrujado nas bordas. Talvez fosse a luz fosforescente que deixava tudo com um ar esquisito, e ele não se reconhecia no próprio reflexo. Não era possível.
Levou uma mão ao rosto, tocou a pele. Havia rugas em volta dos olhos. Os olhos lhe pareciam menores do que costumavam ser. Sem desviar a atenção do estranho que o observava, tateou o bolso da camisa e colocou os óculos. Era miopia, astigmatismo e o escambau, mas ele tinha preguiça de ficar limpando a lente a toda hora, e acabava por preferir ver as coisas todas embaçadas mesmo.
E a imagem, agora nítida, não saiu da sua estranheza inicial, um desconhecido. Aquele nariz, reto e duro, era seu? A boca de lábios finos, o queixo pequeno e aquele maxilar arredondado... Os cabelos... Ah, os cabelos, ele tinha certeza, eram dele. Lembrava dos poucos fios brancos disfarçados, mãos delicadas o acariciando e contando fios grisalhos para passar o tempo. Olha só, achei mais um aqui, dizia, e achava graça um sujeito com quase quarenta anos não ter tantos cabelos brancos.
Aposto que você tingiu.
Fixou-se nos olhos. Queria reconhecê-los, e por um momento, quase conseguiu, mas a idéia pareceu escorregar e escapar pelo ralo como um anel que ficou largo demais no dedo. Tirou os óculos. Sem eles, via melhor, via com mais liberdade. Nada era nítido, mas tudo parecia fazer mais sentido.
Quantos anos haviam se passado sem que ele parasse alguns cinco minutos para se olhar no espelho e ver o que muitos viam todos os dias? Por que o ato de se olhar no espelho era sempre visto como um sinal de vaidade? Que vaidade havia naquilo, afinal, de querer saber quem é? E o bebê, quando começa a brincar com os próprios pés, ou enfiar o dedo - e a mão inteira - na boca? Não é a mesma coisa?
Prazer, meu nome é Eric. Pensou, e não disse, não era louco e não falava sozinho. E se a figura no espelho não era ele, talvez pudesse falar com ela? A testa tinha algumas marcas antigas de acne da adolescência. O maxilar tinha uma marca de catapora da infância. Não era feio. A barba estava mal-feita, era bem verdade, o que lhe dava um aspecto quase sujo. Mas não era feio. Feliz aniversário, Eric. Quarenta anos, meu amigo.
Você parece tão mais jovem.
E aquelas rugas? E aquelas linhas ao lado dos olhos? Fez uma careta, comprimindo os músculos do rosto. E quase se assustou, quis se assustar mas não conseguiu, pois a razão já falava mais forte e dizia que era absurdo se assustar com a própria imagem. Não era feio, mas não estava satisfeito com aquela figura esquisitona que apresentava-se na frente de si.
Sentia-se sozinho. Sentia-se velho e sozinho, embora soubesse que ainda estava na metade da vida, embora soubesse que o amigo havia prometido uma festa no sábado à noite. Não estava velho demais para festas?
Deu um passo para trás, e a figura embaçou-se ainda mais, um monstro com dois pontos escuros no lugar dos olhos, como um cartão com uma imagem disforme em uma sessão de terapia. Deu outro passo, e poderia ser qualquer um, qualquer um dos irmãos, ou poderia ser o pai, que não faria a menor diferença.
Podia ser, e era, qualquer um, um sujeito desconhecido que passou por você na rua ontem, enquanto você estava demais ocupado em achar as chaves do carro no bolso. Um sujeito qualquer que a televisão focalizou num jogo de futebol, mas você não prestou atenção porque a torcedora ao seu lado era bem mais bonita e estava pulando com um cartaz na mão.
E ele pareceu reconhecer aquela imagem. Finalmente sabia que era ele, e não o pai, ou os irmãos, ou qualquer outro sujeito que ele vira na rua. Reconheceu, aquela imagem mesmo, desfocada como era, sem detalhes, sem cicatrizes de acne ou de catapora. Era o que era.
Desfocado.
Havia desaprendido a enxergar com nitidez.
terça-feira, 30/03/2004
O Curinga
O despertador tocava às seis da manhã todos os dias, fosse ou não meio de semana. Aquele homem mal o ouvia tocando, acordava ao mesmo tempo e preparava-se para mais um dia de trabalho. Ele era, e não era, apenas mais um entre tantos, um número a mais no censo da cidade grande. Sujeito amargurado, desconfiado. Suas qualidades no trabalho vinham de seus defeitos fora dele, e ele levava sua vida solitária sem qualquer laço afetivo o ligando a nada. Ia, a inércia o guiava. Qualquer coisa que houvesse aprendido quando jovem sobre aproveitar a vida esquecera.
Pois eis que tão triste vida poderia estar em vias de mudar quando, certa feita, a caminho do velho trabalho, andando a pé em direção ao ponto de ônibus, esse homem se perdeu. O que dizer, como explicar, rota aquela feita e refeita até o corpo ser capaz de segui-la com olhos fechados. Não havia razões para ter se desviado, não pensava em nada fora do comum. As pequenas casas, residências, um pedaço de sonho, uma fatia de um lugar distante, apresentavam-se aos seus olhos com a imponência de um monumento europeu. Onde estavam os altos prédios e torres da capital paulista? A rua de paralelepípedos, direto de um filme antigo, e o vazio, silêncio preenchendo a atmosfera. Um som de motor de carro ao fundo afastava-se, deixando aquele homem perdido num mundo que não lhe parecia real.
Sentia aquela estranha sensação na garganta, um berro preso ou um grito por socorro. Onde estava? Estaria atrasado se não pegasse o ônibus em menos de cinco minutos, mas olhava ao redor sem mais saber de onde viera, e para onde tinha que ir. À sua frente, uma mangueira vermelha rodava, jorrando água no gramado como se alguém a houvesse esquecido ligada. Mas ninguém. Aquele pedaço de mundo não parecia habitado. Uma gargalhada percorreu-lhe a espinha, o medo o possuía, e ele esqueceu o trabalho.
Um sujeito então o fitava, os olhos arregalados e o rosto muito pálido, olhos pintados e roupa estampada com losangos verdes e vermelhos. Sorria mostrando os dentes brancos, enquanto sacudia o corpo de um lado para o outro, seguido pelo som dos guisos presos aos sapatos de pano. Na cabeça, um chapéu com três pontas, também com guisos dourados. Fitava o homem com ginga de folião - em pleno mês de setembro! - e sorria. Sorria tanto que soltou outra gargalhada, tão aguda e tão sinistra que o homem sentiu os pulmões congelados.
E o homem, paralisado, analisava o que via, incrédulo, tomando aquela figura por um curinga, tal qual se vê nos jogos de cartas. Olhou, perguntava, não tinha respostas, e de fato estava um tanto intrigado. Tanto questionou, que esqueceu todos os seus compromissos e as obrigações, perdido nos guisos dourados do curinga, que continuava pulando e convidava o homem a segui-lo. Mas o outro permaneceu parado, pois havia ainda algo que ele não havia esquecido. Algo que, embora o curinga tentasse e se sacudisse, não seria capaz de mudar. E era no que aquele homem tão sério acreditava e seu jeito racional de pensar. Era uma cidade traiçoeira, todos eram muito bem capazes de puxar tapetes e poucos - se algum - não o faziam. Afinal, o que ele entendia de curingas? Por que ele haveria de confiar num sujeito com roupas esquisitas, gargalhando e dando piruetas? Como ele poderia saber que, em meio ao inferno paulistano, aquela estranha criatura só queria fazê-lo ver?...
O homem colocava os pés no chão, com firmeza. Afastou-se com certeza no olhar, recusando o tão suspeito convite de tão inconveniente bufão. Ele não sabia... Não entendia, transformou o medo em pura e simples desconfiança, e lembrou-se do trabalho. Desviou o olhar, atribuindo aquela visão à parte tortuosa de sua mente e lembrou-se de que era um homem com muitos compromissos e obrigações, e precisava ir logo embora. Olhou no relógio, impaciente. O curinga percebeu que seu trabalho havia sido em vão, estava dada a prova de que aquele era um caso perdido. Mas haveria outros, e um caso mal-sucedido entre tantos que dão certo sequer seria lembrado. Sem mais sons, o curinga desapareceu com a brisa.
Os passos apressados de um homem sem ambições o levavam então ao ponto de ônibus, para de lá dirigir-se ao velho trabalho, lugar onde passava os dias, sem se lembrar. Sem sequer se lembrar de que um dia um curinga lhe oferecera a chance de mudar sua vida. E ele tivera medo.
Medo?
Olivia
não tem acento. Olivia não tem critérios. Olivia não existe. Olivia talvez
seja fruto da sua imaginação.