domingo, 23/01/2005

Carteado

[Leia a parte um e a parte dois.]

parte três

— Pôquer é jogo de gente frouxa— o mesmo velho que antes estivera questionando o forasteiro resolveu vocalizar sua opinião quando um curto silêncio se fez no boteco.

Ninguém pareceu lhe dar ouvidos. Um homem saiu de lá com a expressão preocupada. O dono do bar decidiu que deveria enxugar copos, que é mesmo o que havia para se fazer quando a situação ficava complicada e havia copos molhados esperando por ele. Ainda haveria um dia em que ele seria capaz de domar a filha. Mas desde que a mãe morrera, homem algum conseguia fazer aquela menina se comportar como uma moça.

O filho ele sabia que vivia se metendo em encrenca desde que deu a aprender esse novo jogo. Pôquer. Dizia que aquele sim era jogo de gente esperta.

Aparentemente, ele não era muito esperto.

Rios estava encarando Lavinha, apenas porque ela o encarava. Um homem muito vermelho, de pinga ou de sol, colocou um baralho — quase — novo sobre a mesa em que estivera sentado Rios e onde ainda estava seu prato de comida. Olhava os colegas com o rosto confuso, e percebeu que todos os outros também tinham uma expressão muito parecida. Ninguém sabia o que Sávio fazia quando ficava dias fora da vila. Às vezes ele voltava com dinheiro. Às vezes ele voltava com umas histórias estranhas de pescarias numa cidade que ficava há uns cem quilômetros dali.

Pescarias.

A moça ajeitou a gola da camisa, fechando um dos últimos botões, que havia se soltado durante aquela agitação. Rios achou graça naquilo. Na verdade, estava achando graça em tudo naquela moça, embora estivesse claro que ela não via graça nenhuma em coisa alguma.

— Eu preciso comer— Rios disse.
— Eu num tô segurando sua mão pra te impedir— ela retrucou.

Ele sorriu o seu sorriso que lhe era mais natural. Um sorriso meio torto e um pouco cínico. Ninguém gostava daquele sorriso, e na verdade nem mesmo Rios gostava dele, quando o via no espelho.

Não gostava de comer com tanta platéia. Todos, com exceção de Beto, o dono do bar, olhavam para ele e para as reações de Lavinha. Beto estava muito ocupado enxugando copos, e quando não havia mais copos para enxugar começou a limpar o balcão com um pano sujo embebido em álcool.

Tião entrou, e os olhos pousaram sobre ele.

— Cadê aquele lazarento?
— Ói, Lavinha, eu olhei as ruas todas, não achei ele não.
— Larga de ser mentiroso. Ele me disse que não podia fugir, não podia fugir. Como é que vai resolver fugir agora?

Rios havia parado de comer e estava rindo.

— Seu irmão tem alguns truques na manga— murmurou.

Ela levantou-se, quase derrubando a cadeira para trás, não fosse um dos homens segurá-la. Esfregou uma mão na outra e encarou Tião.

— Que foi que ele te prometeu?

Tião negou com a cabeça, mas quando abriu a boca para falar, foi interrompido.

— Fala, homem!
— Juro que ele tava lá não, Lavinha. Juro pra ti.

Ela dirigiu-se para a porta.

— Ei, aonde você vai?— Rios perguntou, com uma certa autoridade na voz.
— Atrás daquele infeliz.
— E o nosso jogo?

Lavinha se virou, cruzando os braços.

— Essa merda não serve de nada sem o Savinho. `Ocê não quer o homem?
— Se eu ganhar, você vem comigo pra achar o Sávio. Não vou descartar um bom jogo.

[Continua no Lenda Urbana. Eu aviso quando o Dudu postar.]

quarta-feira, 19/01/2005

Carteado

parte dois

Já se encontra no Lenda Urbana, porque o Dudu escapou dos olhares do pai dele e se enfiou na frente do computador quando não deveria. Leiam.

E a outra parte continuará aqui no Forsit, quando eu escrever e postar. O que pode acontecer a qualquer momento. Só estou um pouco atordoada com a minha cabeça de louca. É. Atordoada é uma palavra boa.

segunda-feira, 17/01/2005

Carteado

primeira parte

      A placa na entrada daquela vila queria dizer pouco. Um nome conhecido apenas de tanto ser repetido na cabeça, mais nada. Havia conseguido evitar a cidade vizinha, margeando o município pela estrada, e após cinco horas, em um percurso que ele com certeza faria em uma hora se estivesse de carro, chegou. Água ele ainda tinha, no cantil, porque economizava. Mas estava com fome.
      Ouvia o som de grilos e outros ruídos da roça que desconhecia. Àquela hora da noite, os habitantes daquele pedaço de terra dormiam. Os cavalos dormiam, as vacas dormiam — as galinhas, aparentemente, estavam acordadas — e o cachorro que viu encostado na parede da primeira casa também dormia.
      Olhou no relógio. Onze e alguns minutos.
      Havia dias em que estaria acordando nesse horário.
      Desceu para o que lhe disseram ser a rua principal. Principal, talvez, por ter uma venda e um boteco. O boteco era seu destino, e era a única luz acesa que encontrou naquela rua. Andou até ele, com os passos sofridos de quem passou as últimas cinco horas caminhando. Homens falavam em voz alta. Jogavam truco.
      O lugar era uma casa feia pintada de alguma cor qualquer que ele não distinguia com a luz azulada da lua. Em uma placa sobre a porta estreita estava escrito “bar da vila”. Pensou que era um nome até que original, mas não entendeu o próprio raciocínio. Original? Bar da vila? Ele poderia ter um bar com esse nome sem pensar muito na hora de encomendar a placa.
      Entrou.

      Já esperava que olhasse para ele com espanto. Só não estava contando com aquele silêncio mortal que pareceu desabar sobre sua cabeça no momento em que colocou o corpo para dentro da casa feia. Seus olhos pousaram imediatamente sobre o grupo que jogava cartas e percebeu que um deles aproveitava a distração dos colegas para tirar, literalmente, uma carta da manga. Amador.
      O homem barrigudo atrás do balcão que falou:
      — Pois não?
      Percebeu que seria de qualquer jeito o centro das atenções nos próximos minutos. Sorriu, um sorriso que pensava ser simpático, mas não recebeu nenhuma reação positiva.
      — Eu andei cinco horas. Preciso me sentar e comer alguma coisa.
      O homem apontou uma mesa vazia — a única mesa vazia — no canto mais afastado dos jogadores de truco.
      — Tem muita coisa pra comer a essa hora não, seu moço— o dono do bar disse.
      — Qualquer coisa me serve— respondeu, um tanto rude.
      Porque era de sua natureza. Ele queria ser simpático, mas lhe era difícil demais.
      O homem fez uma careta de desgosto, torcendo o bigode grisalho, e entrou em uma porta ainda mais estreita e feia do que a porta de entrada. Os outros homens no boteco continuaram com suas conversas, mas em um tom mais baixo, e lançando olhares não tão discretos na direção do forasteiro. Os jogadores pararam o jogo para beber mais um pouco. Um deles pediu licença se levantou e saiu de cabeça baixa, sem nem sequer espiar aquela mesa afastada.
      — Qual teu nome?— um velho perguntou ao recém-chegado, sentando-se numa cadeira de frente para dele, tendo nas mãos um copo pequeno com uma bebida qualquer. Ele tinha cheiro de álcool.
      — Rios.
      — E isso é nome?
      — É nome o suficiente— retrucou.
      — Como é que tu veio parar aqui a pé?— o velho continuou.— Ninguém vem parar aqui a pé a não ser que esteja muito perdido ou saiba muito bem o que quer.
      — Eu sei muito bem o que eu quero.
      O jogo de cartas havia acabado com a saída daquele sujeito esquisito. Um dos jogadores brincava com o baralho e os outros bebiam, conversando no mesmo tom de voz receoso do resto do pessoal.
      Foi quando Rios percebeu que havia uma mulher entre os homens. Ela estava sentada atrás de um dos jogadores e tinha os cabelos curtos. Usava uma camisa larga e xadrez, e só parecia uma mulher porque tinha os traços do rosto delicados e seus olhos a denunciavam. Ela o fitava com ares de desconfiada.
      O velho sentado à sua frente também.
      — Eu tô atrás de uma pessoa— Rios disse.
      — Quem?— A curiosidade do velho era irritante.
      — De onde eu venho ele é conhecido por Três. Ouvi dizer que o seu nome verdadeiro é Sávio Barbosa.
      O segundo silêncio não apenas desabou sobre sua cabeça dessa vez. Atingiu-lhe a cara e socou-lhe o estômago, sem piedade. Era um silêncio dos mais cruéis. Rios estava prestando atenção na moça e percebeu que algo em sua expressão mudara, e ia além da surpresa nos olhos daquele bando de homens bêbados. Ela se levantou abruptamente e saiu pela porta da entrada, quebrando o silêncio em pedacinhos.
      — Que ocê quer co’ Savinho?
      O homem que perguntou não tinha os dentes da frente e falou com um desdém e fúria exagerados, deixando Rios um pouco desconcertado.
      — É dívida? Se for dívida, entra na fila— um outro falou.
      — É dívida— Rios afirmou.— Mas não o tipo de dívida que vocês estão pensando.
      — Ih...
      — Ninguém precisa estar vendo pro moleque se meter em encrenca.
      O dono do bar voltou com um prato quente de comida.
      — Ô, Beto, o homem tá dizendo que veio atrás do seu Savinho— alguém lhe disse.
      — Veio à toa, rapaz— o dono do bar respondeu, colocando o prato na mesa.— Savinho sumiu faz mais de um mês. Até capaz de voltar, porque ele era de sumir assim de vez em quando, mas nunca por tanto tempo.
      — Ninguém sabe pra onde ele foi?
      — Disse nada não— Beto continuou, com o olhar triste.— Eu sou pai dele e pra mim não disse.

(Continua no Lenda Urbana, quando eu avisar.)

domingo, 16/01/2005

Projeto a quatro mãos com linhas de novelos de lã

Porque a gente já tinha um projeto antes, eu e o Dudu (também conhecido como Bruno, pela mãe dele). Só que o vestibular, o cursinho, a Fuvest, todas essas entidades malígnas me impediram de continuar o que ele tinha escrito, porque aquilo ia exigir demais da minha pobre cabecinha, porque ele me colocou no meio do deserto com um cantil de água pela metade.

E eu não sabia como continuar aquilo. De qualquer forma, a gente vai recomeçar. E eu vou começar.

Eu posto no meu blog, ele posta no dele, mas eu aviso sempre quando ele postar e todos os interessados podem continuar felizes e contentes com alguma linearidade. Espero.

Tá, vou escrever. Temos algumas linhas de novelo de lã que ele jogou ali no chão para que eu tivesse uma idéia de por onde seguir. Mas como as linhas são enroscáveis eu vou mexer nelas um pouco. Daqui a pouco eu posto a primeira parte.

Olivia
17:33
 

e que mais

Este é um blog verbeat, e lá eu sou amiga do rei.

também escevo

   folhetim // um romance policial folhetinesco ou uma experiência quase literária, que dei de inventar. Capítulo novo toda semana.
  
atmosfera // o que o vento traz.
   über geek // um blog sobre tecnologia, software e internet. Para geeks e não-tão-geeks. Windows, Linux e Mac. Techloucos e desencontrados.

eu estou por aí

    orkut /
    facebook /
    Pownce /
    Twitter /
    del.icio.us /
    StumbleUpon /
    last.fm /
    YouTube /

do blog

    myBlogLog /
    technorati /
    BlogBlogs /

e música!

o que acontece

das fotos

www.flickr.com
e mais:
minhas fotos
fotos da Linda, a gata

links // del.icio.us

estão dizendo

  » laiscorreia em download de livros: gostaria de livros gratis (...)
  » Bruno Porto em coisas estranhas: Quando bem assistido o segundo é o melho (...)
  » Samyle em super tutorial passo-a-passo para estampar camisetas com stencil: Caramba!! Se eu soubesse q era tão fácil (...)
  » Marília em coisas estranhas: hehehehe... deve ser esse o motivo... (...)
  » Rodrigo Reis em coisas estranhas: Eu tinha um VHS com o um e o 2. Nós (eu (...)
  » Tarsis Salvatore em dos dilemas da literatura de gênero no Brasil: Pensar no amplo termo literatura, bons e (...)
  » Fábio em dos dilemas da literatura de gênero no Brasil: Não, Olivia, ele apenas cita as palavras (...)
  » Olivia em dos dilemas da literatura de gênero no Brasil: fábio, na verdade ele parte da literatur (...)
  » Fábio em dos dilemas da literatura de gênero no Brasil: Faltou falar da ficção científica, que a (...)
  » Patricia Carvoeiro em and yes I said yes I will Yes: Ah, eu ia falar do final do Grande Gatsb (...)
  » Claudia Lyra em operação estante: Ai, puxa... queria desmantelar uma tenta (...)
  » Alessandra em and yes I said yes I will Yes: Não olhei a lista, mas imagino que o fin (...)
  » Fábio em and yes I said yes I will Yes: "I wrote at the start that this was a re (...)
  » Gabriela em nas entrelinhas: Blogs são uma plataforma de publicação, (...)
  » Tuca Hernandes em nas entrelinhas: Nossa, quanta teoria. Blogar não seria s (...)

arquivos

posts de antes

as categorias

- Bobagens e etc -
Abnei in Crazy Town (5); Andanças (81); Badaiocas (250); Balaio de Gatos (2); Conclusões (98); Desenhos e criações (15); Desvarios (94); Foda-se (20); Huh? (97); Letras, aquele antro (47); Maias, Rezendes e afins (31); The Sims (8);
- Ficção -
Carteado (4); Contos (13); Desumano (23); Diversos (9); Dos outros (6); Fichamentos (1); Idéias e personagens (30); Megaliga (12); Operação P-2 (13); Pedaços (8); Projetos (24); Pseudo-contos e crônicas (10); Que os mortos enterrem (5);
- Mais -
Arte (12); Cinema (37); Informática (44); Linkagem (72); Literatura (125); Mundo (83); Música (6); Orkut (7); Web (36);
- Umbigo -
Crises (40); Existencialismos (19); Mau-humor (29); Minhas vidas (131); Quizzes (7); Remoinhando (49);

por mês


Está perdido? Fugiu o rumo? Veja todos os arquivos.