segunda-feira, 19/12/2005

Que os mortos enterrem, capítulo 2

[Agora o segundo capítulo. Aos poucos conforme o interesse de vocês lindinhos. Mais e capítulo um aqui.]


Do buraco sob meus pés

Sinos. Alguém estava golpeando um sino com uma barra de ferro dentro da minha cabeça. O vizinho ouvia uma marcha fúnebre no último volume como se música clássica fosse desculpa para fazer barulho. Música alta me atordoava. Ouvia jazz em volume mínimo, Monk no piano e quanto menos metais melhor. Michel me condenava porque lhe parecia inumano que alguém não gostasse de música quando até mesmo os animais, seu gato, os pássaros, todos amantes de boa música.

— A Ana vem passar uns dias com a gente semana que vem.

Eu estava brigando com a ressaca para descobrir as horas no meu relógio de ponteiros dançantes.

— Seu filho faz seis meses hoje, sabia?

Datas existem para me confundir. Quando Paula falava de Júlio começando por “seu filho” era porque queria criar em mim algum sentimento de culpa.

As mulheres fazem isso. Paula fazia isso.

Eu ficava pensando como seria quando ele estivesse no colégio. Seu filho tirou um D em química. Eu sempre tirava D em química e meu pai nunca ficava sabendo. Ele achava que sua função era me vestir e me alimentar. Minha mãe devia me educar. Mas ela sempre teve coração mole e nunca me daria a educação que meu pai esperava. E ainda que tenha sido o mesmo para minha irmã e — com menor intensidade — para o meu irmão, acabei me tornando uma pessoa inaceitável. Um desafeto, o filho errado.

Talvez devesse falar de meu pai. Mas havia o almoço a ser preparado e minha cabeça doía e meu pai nunca foi de fato meu assunto favorito.

Não vou falar de Freud. Freud é uma questão de fé, assim como Marx, e nos resta pendurar ou não o retrato na parede. Não quero falar de Freud. Freud não tinha amigos e passava tempo demais com seu charuto.

Fui pra São Paulo porque me parecia lógico sair do interior de Goiás e tentar algo maior. Lá as pessoas sabiam demais da minha vida.

Tinha vinte e dois anos e um diploma de história que para mim era um grande engodo. Havia algo de importante em dizer aos outros que era historiador. Como se isso significasse alguma coisa. Antes tivesse feito filosofia, para falar que era filósofo, economia para falar que era economista. Bons são os cursos que te dão um título para colocar no cartão de visitas.

Era necessário me tornar outro.

Lígia, vou com você.

Minha irmã havia conseguido um emprego como representante de vendas de uma fábrica de tecidos e ia trabalhar em São Paulo. Eu mirava Brasília por uma questão simples de proximidade, mas de repente a capital parecia distante, Goiânia era um campo de batalhas e São Paulo era a solução para todos os meus problemas.

Não me despedi de ninguém. Inútil de meu pai tentar me impedir de fazer qualquer coisa depois dos meus vinte e um anos. Nunca tentei discutir com ele. Fui treinado por anos para abstrair, tal qual minha mãe certamente fazia. O filho errado, o filho torto. Tampouco tentei entender o que esperava de mim. Sabia que precisava sair de lá o quanto antes.

Fiz as malas; roupas, livros e as fitas de vídeo do Indiana Jones.

O que faço com o resto das suas coisas? Ah, mãe, dá pro exército da salvação, vende, queima, enterra no quintal de casa. Não volto mais.

Talvez eu seja mesmo muito medíocre a ponto de precisar provar qualquer coisa pros outros. Mas passei toda adolescência sendo desafiado e depois o acidente me jogou na arena quando pensei que começava minha liberdade. As pessoas não sabem lidar com a perda.

Era preciso forjar um passado saudável.

A cidade de São Paulo era fria demais. Fui dar aulas de história do Brasil em cursinho. Desespero era ver os alunos do fundo gritando e os do meio conversando enquanto meia dúzia queria aprender os nomes dos presidentes da república. Que diabo, decorar nomes de presidentes e atos institucionais. E eu sem amigos nessa cidade cinzenta topei de repente com uma mocinha de um metro e cinqüenta e oito e os olhos como duas bolinhas de gude verde-escuras quase pretas. Paulistana que havia passado tempo demais em uma cidade no interior do estado para o quê?, faculdade, curso; fui incapaz de compreender, tão impressionado que estava com seus olhinhos, seu sorriso e suas mãos pequenas em meu pescoço.

Frustrante descobrir que todas as namoradas que tive antes dela não eram nada, relacionamentos ridículos baseados em desconfiança, sexo e medo de ficar sozinho; amor, nada. A diferença entre falar “eu te amo” por convenção ou convicção. Crença ou conveniência, tal qual Getúlio ao elogiar o fascismo e apoiar os aliados. A história sempre se repete.

Divago.

Sem o historiador o passado se dissolve em uma névoa confusa de ações sem sentido. O que é uma vida às portas da morte?

Talvez eu devesse voltar ao almoço.

— Quando a Ana vem?
— Segunda-feira.

Doze anos convivendo com uma pessoa e a gente acha que sabe de tudo.

Mas um gesto, um olhar.

Paula quando falava de seu tempo na faculdade parecia tão distante. Lembrei de Michel e a viagem pro Mato Grosso porque mesmo bêbado ele falava sério. Não me sentiria confortável com a amiga de faculdade da minha mulher e as conversas de outros anos, nomes, festas, ex-namorados e tudo aquilo que ela foi antes de mim.

Doze anos convivendo com uma pessoa e a gente quer achar que. Mas o tempo.

O tempo deteriora tudo.

Luta entre o passado e o presente, incapaz de me livrar de um e viver o outro. In-between. Uma vida fugindo para depois não saber viver sem fugir. A tranqüilidade pretexto para se estar atento a um ataque surpresa.

Casado, dois filhos, minha menina Marcela tão linda — e eu como pai jamais diria o contrário, assim como não me sentia injusto ao afirmar que era a menina mais inteligente de toda sua turma na escola —, casa própria e tudo aquilo que meu pai nunca imaginou que eu fosse capaz de conseguir e então... o que mais?

Poderia dizer que já sabia o que me aguardava depois da esquina. Não sabia. Percebi o buraco sob meus pés — talvez ainda o mesmo buraco, quem acreditaria que havia me livrado dele? — e aí precisava entender os caminhos tortos que dei de percorrer.

— A Ana está em férias ou vem a trabalho?
— Férias. Queria muito conhecer o Júlio, e não se incomoda em dormir na cama do escritório.
— Preciso trabalhar.
— São quatro dias. Pode usar o meu notebook quando quiser passar a noite. Só você gosta de trabalhar de madrugada.
— A madrugada é mais silenciosa.
— Por isso as pessoas dormem.
— Não durmo mesmo.

Doze anos não fizeram nada a um sorriso.

— Exagero com os remédios. Os químicos e os médicos e toda essa gente que estuda anos pra criar alguma coisa que faça pessoas como você dormir, pra quê?
— Vou acabar me viciando.
— E já não é viciado? Você não dorme sem esses remédios. Importa você estar bem. Dormir é importante.

Júlio balbuciava e batia as mãozinhas no cadeirão porque devia pensar que falávamos com ele. Terminada a licença-maternidade Paula pediu ao chefe mais dois meses trabalhando em casa e ele — essa gente que trabalha com marketing tem uma lógica estranha — lhe deu dez semanas para emendar com as férias. Marcela brincava na casa da vizinha. O cachorro estava sentado na área de serviço porque sabia que não devia entrar na cozinha quando o almoço estava sendo preparado.

E eu estava com dor de cabeça. Queria parar de pensar naquele passado morto porque ele nunca me daria respostas para esse sentimento sem nome e talvez eu devesse parar de culpar os outros por crises minhas. Meu pai, colegas de faculdade, um motorista de caminhão cujo nome já me escapa há muito tempo.

quinta-feira, 01/12/2005

E sobre

Ah, eu ia falar alguma coisa do livro, Que os mortos enterrem, mas aí esqueci o que era. Então vou mesmo é agradecer porque muito mais gente do que eu esperava leu, e muito mais gente do que eu esperava gostou, do senhor primeiro capítulo que postei ali embaixo. Eu por aqui continuo meio obcecada com esse treco e dou uma lidinha em algum capítulo dele todo os dias, e fico fazendo digressões sobre Luciano e até mesmo sobre Michel e a vida e tal, na verdade muitas vezes falando com eles dois já que nem todos os meus amigos têm paciência pra chata aqui ficar falando do próprio livro over and over again. Não sei bem agora o que fazer com ele; ainda esperando resposta para o outro, aquele outro que está nas mãos de uma senhora editora pelas mãos de um senhor escritor, e me resta esperar, sempre esperar, porque senhores editores fazem isso, fazem a gente esperar.

segunda-feira, 28/11/2005

Que os mortos enterrem, primeiro capítulo

[Esse é o primeiro capítulo do tal livro que terminei de escrever esses dias. Coloco aqui porque uma meia dúzia de gatos pingados pediu. E espero que essa meia dúzia leia. Least.]


Um começo

Não tenho tanto medo de doenças com nomes difíceis quanto tenho de dirigir um carro, com os claros riscos que essa atividade envolve. Deve existir um nome para isso, uma fobia qualquer; carrofobia, autofobia, meu latim me escapa e nunca aprendi grego. Assim como os lingüistas, os médicos têm a necessidade de nomear cada manifestação classificável do dito objeto de estudo e eu, como historiador, limito-me a examinar os fatos e faço o possível para não me prender a nomenclaturas porque elas de nada me servem como definição, pouco me importa o que dizem os filósofos ou o último aluno de Saussure. Revoluções, revoluções, tudo são revoluções! Formalidades.

As palavras só me servem para confundir.

Sempre tive a impressão de que médicos e lingüistas agarram-se a nomenclaturas como se elas possuíssem algum tipo de verdade.

Lingüistas me irritam e não gosto de médicos, então meu julgamento é duvidoso. Talvez eu tenha lido os livros errados.

I fear we are not getting rid of God because we still believe in grammar...

E por que começar com um acidente de carro? Cigarro e vodca, não podia deixar de lembrar do maldito acidente. Seria exagero dizer que tudo começou com ele e responsabilizar um segundo de distração por toda uma vida torta, mas é de se esperar que exista um começo. Porque em momentos outros as coisas não são como acidentes com duração bem clara e definida — há um impacto e há um pós-impacto — e sim pequenas mudanças acontecendo tão devagar que olhos e mente distraídos como os meus são incapazes de registrar o processo e só se dão conta do estrago quando já tomou proporções exageradas, ou quando há um acidente de carro. E minha única lógica é começar do momento em que percebi de fato o buraco sob meus pés, e quão fundo estava, e já era hora de começar a sair dali.

Qualquer lógica que fosse essa, de álcool e nicotina.

In order to look for beginnings one becomes a crab. The historian looks backwards; at last he also believes backwards. Nietzsche em inglês por pura falta de critérios. Ou um escritor francês em espanhol. Da minha falta de critérios. Estava me repetindo, talvez estivesse bêbado.

Estava bêbado. Não estou falando do acidente, vou deixar o acidente para depois. A própria visão de meu amigo Michel sentado no chão da sala por entre a fumaça do cigarro já era um indicativo de bebedeira, como se fosse ilógico estar com ele em silêncio sem se estar bêbado; ele, e sua arte da tagarelice sem fim, mas acho que pensava no que falar, ou preparava um cigarro de maconha.

Marx tinha cara de louco, aquele bigode negro por sobre a barba branca. Michel também tinha cara de louco, dois olhos amarelos como topázios redondos com um anel castanho no limite da íris.

Bêbado, citando filósofos que nunca tive paciência para ler mais de meio livro, pensando em Marx e... ah! Esses marxistas da década de noventa.

Paul McCartney cantava Penny Lane pela terceira vez na noite porque Michel esquecera o CD em repeat no aparelho de som e na verdade isso jamais o incomodaria; se há mais de trinta anos os Beatles se separaram e — vê-se que mesmo bêbado ainda mantenho minhas noções de lógica — pararam de produzir novas músicas, há mais de vinte anos Michel escuta aquelas mesmas duzentas e tantas, quase todo tempo, sem nunca se cansar.

Bela maneira de começar: bêbado! Estava ficando obcecado com começos. Minha mulher ia reclamar quando eu chegasse em casa — se eu chegasse em casa — e os ponteiros do meu relógio dançavam.

Michel tinha curativos no rosto de apanhar de marido traído e começou a falar da sua velha teoria, sempre tão conveniente quando apanhava e quando não tinha razão.

— Homem não presta,— como se essa fosse a justificativa para todos os seus erros.

Eu era casado, ele destruía casamentos e vangloriava-se disso. Às vezes dizia que não tinha culpa e apaixonava-se pelas mulheres erradas. Mentira.

Existiria a mulher certa? A minha...

De que me adiantou a mulher certa? Ouvia as histórias de Michel, e era uma questão de ponto de vista, porque havia ele e havia a mulher, mas havia também um marido traído; assim como é possível estar do lado dos gregos ou dos troianos também se pode apoiar Hitler ou Fidel ou Stalin ou Getúlio, ninguém quer saber de Hegel, Hume e a verdade — absoluta, universal? Que importam os filósofos? — quando há interesses em jogo.

Perdido em desenhos na fumaça do meu cigarro e nas velhas teorias de meu amigo, pensando que Hitler devia ter tido algo de simpático; comparando Hitler e Getúlio — a Getúlio faltava classe e talvez um pouco mais convicção; acho que uma certa germanidade, essa herança de povo feudal.

Talvez seja mais fácil comparar Getúlio com Mussolini, mas nunca fiz nada pelo caminho mais fácil.

Getúlio tinha algo de simpático, era possível e até muito fácil gostar dele e ainda assim o homem esteve às portas de apoiar Hitler, por crença ou conveniência. Eu admirava Hitler independente de fatos, louco, insensato, artista frustrado com manias de grandeza. Uma admiração cientifica, assim como o médico admira um câncer. Toda a história da humanidade não era mais do que isso. Para mim, mais de quatro anos estudando um câncer. Sinto tanta falta da faculdade quanto sinto de um gesso em minha perna, de duas vezes que quebrei a mesma perna, o mesmo osso. O ser humano é o câncer do mundo.

Ouvia a batida, vidros se despedaçando, sangue no meu ouvido direito e um silêncio de quarto de hospital. Dois dias em um segundo. Eric gritou um palavrão. Morte instantânea, disseram, como se isso fosse me servir de consolo. Dezoito anos. Antes de morrer ele gritou e dois dias depois quando acordei ainda gritava e grita até hoje. Meus pesadelos me traem, não distingo fato de ficção. Um caminhão descontrolado ultrapassando o sinal vermelho.

O acaso não existe, existe a sorte e a falta dela.

Uma questão de ponto de vista. É impossível enxergar qualquer coisa com o nariz grudado nos fatos. Minha vida era meu maior mistério.

Era necessário se afastar, ser outro, olhar de fora. A vida é areia-movediça. Aforismos pós-meia-noite por Luciano Almeida. Filosofia de porta de banheiro.

— Homem não presta;— Michel estava mais alto do que eu. Parecia um disco velho repetindo e chiando. E de repente me olhava e caía na gargalhada.— Vamos viajar, Luciano.

Hitler e Getúlio. Pãos, pães, quem tinha dito isso mesmo?

— Vamos pro Mato Grosso, Aripuanã, ver cachoeira.

Hitler era órfão e não me lembrava onde havia nascido. Bela memória a minha, historiador bêbado de merda.

— Luciano, me ouve— e quando ria doíam-lhe os machucados no rosto. Cantarolando em seguida com a música— you keep all your money in a big brown bag, inside a zoo. Apanhar no dia do meu aniversário, um jeito ótimo de pular o muro dos quarenta. Apanho e todo mundo fica feliz, sou aquele coadjuvante anti-herói que fica sozinho no fim do filme porque ele é mau.

Parecia-me absurdo que o marido ao se descobrir traído fosse tirar satisfações com o amante e não com a própria esposa porque nunca poderia me imaginar nessa situação, mas a vida é aquele último bote salva-vidas que está indo embora enquanto você sobrou no navio afundando.

— Hitler e Getúlio têm muito em comum, não é?— perguntei, não tanto para Michel, ainda que isso talvez o interessasse em momento mais sóbrio. Ele era antropólogo e dava aulas de história para quinta série em uma escola pública. Insensato.

Inútil discutir com a vodca e a maconha e meia dúzia de neurônios. Se escutasse outra vez All you need is love eu acabaria chutando a caixa de som ao meu lado.

Hitler, Getúlio e o motorista do caminhão até que se fundissem em um só homem com um bigode de mau gosto (pleonasmo: bigode de mau gosto) e a figura loira de Michel que dissertava sobre Machado de Assis — de alguma forma isso estava relacionado à minha pergunta, e imaginei que fosse algo com o bigode — de repente ariano, gritando “heil!” com olhos injetados de sangue.

Eu não sabia o que me aguardava, como se de desgraças bastasse o que já havia acontecido até esses meus trinta e cinco anos, como se esse momento fosse a minha calmaria depois da tempestade; um raio não cai no mesmo lugar duas vezes, até que você é atingido ao se abrigar em uma árvore que já foi alvo e aí, paf, chega a ser ridículo.

Hitler e a década de quarenta, bomba atômica, o câncer do mundo. A fumaça do cigarro dava piruetas no ar.

— Homem não presta, Luciano. Meu copo tá seco.

sábado, 19/11/2005

Dilema

Fico pensando em colocar por aqui o primeiro capítulo do sr. meu livro pra aí vocês darem uma olhadinha e falarem o que acham mas acho que na verdade ninguém está interessado.

Non?
            (esse foi um momento Olivia carente de comentários, patrocinado pelo sol lá fora e pelo grande jardim que um dia talvez em 2037 vai ser as margens do rio Tietê)

quinta-feira, 17/11/2005

Que os mortos enterrem

Terminei.

Em um mês e meio.
Escrevi essa droga em um mês e meio.

Cazzo.

Um livro. Um mês. E meio.

Tem noção?

Muitas folhas riscadas em um caderno.

E um trabalho de IELP para fazer.
Hm. Fazer trabalho de IELP.

 

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