domingo, 04/03/2007
Olhar, olhares
Faz tempo que não posto aqui qualquer coisa dos meus escritos. Também porque desde o começo das férias estive parada em um pedaço de capítulo de um livro sem nome que já passa da metade e já tem final escrito.
E porque há sempre a influência do que se lê, e nesses últimos dias estive lendo 80 redações de um primeiro ano de colégio. Sobre pedreiros e obras. Mas tomei vergonha na cara e li inteiro em dois dias o Prosa do Observatório que o Tiagón me deu de presente e era muito o que eu mais estava precisando de ler para lembrar que Cortázar sempre vai ser dos meus mestres.
Desse livro que escrevo e do trecho que posto algumas referências ao Que os mortos enterrem porque Michel deu de se intrometer em tudo que crio. E eu não reclamava, até aqui, até agora, este capítulo, fim de capítulo. Que consegui terminar mas ainda não consegui fazer muito sentido, e talvez seja, de certa forma, tudo culpa do Michel.
Não vou explicar a história. Pouco importa a história. A quem interessar.
— Encontrou sua mãe?
Olhei-o, pelo susto da pergunta inesperada. Era esse fechar-se em pensamentos que costumava espantar os outros e suscitar conversas de superfície. Mas Michel tinha um sorriso de preocupação sincera, e naquela hora eu só podia odiá-lo. Diferente de compaixão que eu recebia, por olhares de pena. Por que eu houvesse sofrido o que me era inalcançável. Se sofri; no que parecia justo o uso da palavra, foi por um irmão violento. Resto: circunstâncias. Sofrimento era palavra incômoda. A dor; esse não sentir. Como pode sofrer sem o sentir?
— Não— falei.
Michel me encarava. De um ceticismo conformado, desinsistente. Calou-se. O silêncio era roupa que lhe ficava muito justa.
Que era, isso, o olhar. Olhares. Dessem-me um pedaço de papel em branco e com um lápis na mão dava a rabiscar um desenho de um olho. Sempre olhos brilhantes. E Michel de olhos amarelos como pedras impossíveis, como se a luz errada em um fim de tarde lhe desse aquela coloração. E pensava em olhos. Que pudessem transmitir qualquer coisa a mais do que se vê. Toda essa importância que se dá à visão e o que havia estava sempre por trás, oculto aos olhos, como se inexistente. E de que me servia toda essa compreensão feita em fragmentos? Todos sabiam a mais do que eu.
Ele.
— Sara me contou de seu irmão.
Disse. Súbito. Que ignorasse as próprias palavras e de repente murmurando um love me do. Beatles. E a afirmação fazia-se pergunta no ar, como se esperasse resposta.
Havia uma lagartixa na parede e Michel distraiu-se com ela. Mas em mim algo de coragem e aquela vingança contida guardada por David.
— Por que seu amigo se matou?
Desviou-se da lagartixa mas não me encarou. Eu; havia vencido? Michel sorria. Então uma lembrança, o amigo suicida. Queria poder ver seus olhos e o que havia por trás deles, e tudo aquilo que jamais diria.
— Há um poema do Manuel Bandeira. O último poema.
— Último?
— A cabeça preenche vazios sem que se mande. Às vezes parece que estamos a todo tempo preenchendo vazios.
Ele olhava a lagartixa outra vez e não me deixaria com uma resposta, e era sua vingança pela minha falta de resposta. Tive vontade de falar algum palavrão, mas havia Luciana na sala alheia ao que pudesse haver de uma guerra invisível.
— Levei quarenta anos para entender.
— O quê?
— Existem coisas a serem entendidas depois de quarenta anos.
Riu, e fazia parecer que queria deixar no ar qualquer frase de efeito incompreensível. Como fazia Cristiano, pensando alto o que mais ninguém entendia. Ou estupidez de minha parte, sempre perdendo as entrelinhas. Pouco me importavam os suicidas. De tantas fraquezas me parecia a pior. E então ouvir a voz de padre Tobias falando sobre a morte, em algum qualquer momento genérico quando falava sobre a morte. Sempre é preciso falar sobre a morte e falar sobre todas as coisas. É preciso falar sobre tudo aquilo que fica além da visão, o que se esconde por trás de olhos amarelos ou em sorrisos. Na verdade bastam-me outros minutos a mais para que aquele traço que era um olho feito em grafite se torne todo um rosto de sombras e o branco do papel. Como se da vida só fosse possível tirar o jogo de sombras. Basta que se tenha tempo o suficiente e existirão definições às mais impensáveis manifestações. Mas homem algum jamais chegou ao infinito, aquele ponto onde se unem as retas paralelas. A matemática simplifica as coisas com termos e fórmulas e ainda assim não compreendeu a divisão por zero. Era então meu momento de lucidez, saber que não buscava apenas encontrar minha mãe e então, quê. Não. Oculto aquilo que se faz mais importante, e a isso é necessário dar um nome, inventar palavras, criar discursos, escrever livros. Michel mostrava a lagartixa a Luciana. Contava uma história. E eu continuava parado, deslocado, despatriado. Meu mundo fazia-se todo estático. Que existissem as respostas aos que não tem perguntas. Havia lagartixas na parede e formigas nos cantos dos azulejos da cozinha e um mundo todo existindo fora de mim e fora de todos, e havia o tempo e havia a morte e meu irmão David por trás de olhos amarelos de um professor de história da rede pública de São Paulo.
terça-feira, 13/12/2005
Desenterrado
senhoras e senhores, Gil Tradsky
- Você confia no Diogo?
- Não.
- Você é do tipo que não confia em ninguém; o tipo que não confia na própria mãe.
- Na minha mãe eu confio.
- Ela deve te dar todos os motivos.
- Ela morreu há 23 anos.
- Claro.
terça-feira, 04/10/2005
Julho
Bolas de neve. Fico pensando em bolas de neve, caricaturas de avalanches em desenhos animados e seu uso exagerado em expressão de fala. Sempre preferi a imagem do efeito dominó porque as coisas desabam e tudo se acaba mas de forma tão ordenada e bela.
Fico pensando em bolas de neve porque nunca vi nada do gênero e me pergunto como seria estar presente em uma avalanche.
Eu não gosto do frio, mas bem que podia nevar. Daria algum propósito a esse exagero de agasalhos e cobertas e café quente. Nem isso. Em São Paulo o clima é incerto, quatro estações em uma semana. E meus professores de geografia tentando dizer que no sudeste do país só existiam duas estações bem definidas. Nada é muito definido nessa cidade.
Mas o frio. Não gosto. Há uma certa melancolia em rostos pálidos e aquele céu branco de nuvens adormecidas depois que caiu a chuva. Como se o mundo estivesse pronto para se acabar.
segunda-feira, 18/07/2005
Criatura
um pedaço de qualquer coisa sem começo, meio e fim
Criatura que era não era gente não era bicho não era planta, não era pedra. Era um pouco de tudo e um tanto de nada, e depois do que aconteceu ficou mais nada ainda, um ser de asas grandes demais para ser gente humana.
Mas se é para tratar de aparência só, cara que se vê, eram como os humanos mas um pouco menores, mais magros e finos, como pensaram que seriam todos os humanos, o dia em que foram surgidos e o dia, aquele mesmo dia, que tiveram a missão de guardar a Terra e os limites da natureza com a civilização.
Lita criatura guardiã anjo caído. Anjos! Eram como anjos, quando vistos pela gente, tão raramente. Lita não era mais guardiã, era apenas criatura, tinha asas, não era gente, não era ninguém, não era nada. Expulsa, renegada, matadora de humanos.
É a história de Lita por quebrar as regras que ditaram uma existência, a existência de um grupo de criaturas místicas - se me é permitido chamá-las místicas, eu tão real e concreto ser humano - regras, limitações. O destino de Lita era desaparecer.
quarta-feira, 01/12/2004
Reencontro
— Vanessa, minha menina!— o rapaz disse, com um cigarro entre os dentes, abrindo os braços.
A jovem desceu da caminhonete com um pequeno sorriso, fitando o outro com o canto dos olhos. Tirou as malas de dentro do carro e colocou-as no chão, fechando a porta em seguida. Seu pai saiu pelo lado do motorista, silenciosamente.
— E aí, meu pequeno criminoso?— ela respondeu, erguendo as sobrancelhas, com a voz tranqüila e uma expressão quase nula no rosto.
Cristiano, seu pai, apenas franziu a testa com aquela frase, um pouco perturbado. Fechou a porta devagar, olhando os dois por um curto momento e logo se afastando, subindo o caminho que levava à pousada.
— Sobe pro almoço, tá Van?— disse à filha, com autoridade sem virar-se.
Vanessa aproximou-se do rapaz, tirando o cigarro de sua boca e jogando no chão de terra, pisando em cima. O outro ainda mantinha os braços abertos, com o sorriso se desfazendo.
— Você vai morrer de câncer, feito o meu avô— ela disse.
— Vou. Com câncer, bêbado e feliz. Se a vida for boa, com uma menina chapada ao meu lado. Sem roupa nenhuma, de preferência. Espero que você não sinta a minha falta— respondeu, sorrindo torto e logo a seguindo para dentro da casa.
— Você não presta, Davi.
Ele apenas continuou sorrindo. Ana, a mãe de Vanessa, havia parado de lavar a louça para cumprimentar a filha que chegava. Abraçaram-se, e Davi permaneceu parado ao lado da porta. Assim que as duas afastaram-se, acenou com a cabeça para a mulher, que o ignorou, voltando a sua atividade.
A casa era pequena e logo estavam no quarto de Vanessa. O rapaz largou as malas no chão e jogou o corpo sobre a cama. Vanessa abriu o armário, que estava quase vazio. Ao contrário de Davi, ela havia permanecido na cidade para as comemorações dos formandos, e mais uma semana extra para ficar a toa com os amigos antes de voltar para casa. Davi puxou outro cigarro do bolso.
— Você não vai fumar no meu quarto— ela disse, sequer virando-se para ele.
Davi encolheu os ombros e guardou o cigarro.
— E aí, como é que tá o povo?— ele perguntou, sentando-se na ponta da cama.— Como é que tá a minha gangue?— completou, com ironia.
Vanessa riu. O riso para ela parecia algo mecânico, um pouco forçado. Como alguém que simplesmente não estava acostumado a rir.
— O Johnny disse que você não presta. O Patrício foi pra São Paulo morar com o avô ou qualquer coisa assim. O Renato continua igual e não parece que ele tem qualquer plano pra vida, e o resto foi viajar. Acho. Não sei, parece que o Toni e o Lucas tavam planejando ir pra Argentina. Uma coisa meio idiota de se fazer, principalmente pr’aqueles dois.
Davi riu.
— O Johnny falou que eu não presto? Eu não presto?— arregalou os olhos, numa indignação forçada.— Você sabe que a maior parte daquele esquema todo foi idéia dele, né?
— Ah, certo. E desde quando você faz tudo que ele manda?
— Você tá brava comigo?
Vanessa negou com a cabeça. Abriu uma das malas e começou a guardar a roupa limpa.
— Eu tô falando sério, Van. Você tá brava comigo? Eu podia esperar isso da sua família, do meu pai, mas não de você!— De repende ele estava tão sério quando Vanessa, e quase um pouco bravo, embora mantivesse a voz num tom mais tranqüilo.
— Eu não falei nada, falei?— ela disse, sorrindo aquele sorriso fraco.— Eu só achei que você fosse mais esperto. Ah, vai, o Johnny escapou da polícia. E como você mesmo disse, a idéia foi dele. Eu sei que foi. Até o Renato sabe que foi. E você é mais esperto que o Johnny!
A raiva estampada no rosto de Davi logo desapareceu, e ele estava sorrindo mais uma vez. Encostando-se na parede, puxou o cigarro do bolso e colocou na boca, sem acendê-lo.
— Eu tava... Um pouco fora.
—Sei. Não fosse por isso, o delegado já tinha pegado você pelo rabo.
Davi concordou.
— O que eu tô dizendo é que se não fosse por isso, eu não teria feito o que eu fiz. Como é que tá o cara?
Ela deu de ombros.
— Sei lá. O Renato viu ele na praça outro dia. O que quer dizer que ele saiu do hospital, mas ninguém tem visto ele desde o que aconteceu. Ele... Bom, ele tá vivo, pelo menos.
— É um começo. Quem sabe aquele povo acaba me esquecendo.
— Duvido.
— Vamos dar uma volta, Van. Meu pai levou os hóspedes pra trilha oeste, o lago tá livre. Ainda tem uma hora até o almoço.
segunda-feira, 09/08/2004
A Saída
- O lugar era lindo! Bom no centro tinha uma lagoinha bem pequena e rasa, de água cristalina, onde você podia enxergar o fundo, cheio de pedrinhas coloridas. Logo ao lado, uma árvore enorme, com folhas verde claras e tronco forte, que dava pra escalar.
Os dois meninos arregalavam os olhos a cada palavra do rapaz. Já havia contado aquela história dezenas de vezes, e os dois nunca se cansavam de ouvir de novo. Cada um estava deitado em sua cama, com a coberta até o queixo. Um abajur bem no meio do quarto iluminava o quarto com uma luz amarelada. Luís costumava ir à casa deles sempre que os pais precisavam sair, ou quando os dois pediam, simplesmente porque os meninos adoravam sua companhia.
- Assim, os dois namorados estavam livres dos olhares do conselho de guardiões. Se eles descobrissem, a pena ia ser muito grava. Onde já se viu? Um guardião se apaixonar por uma guardiã! O conselho ficaria muito bravo. Mas com as habilidades místicas do Trevor, os dois construíram aquela dimensão mágica.
- E a cabana?- um dos meninos perguntou.
- Sim, a cabana... Trevor e Dala construíram uma cabana azul no lado leste, e encheram tudo em volta com flores e plantas. Era um lugar muito alegre. Tiravam muitas fotos, apesar de esse ser um hábito dos mortais.
- Eu tiro foto!- disse o mais velho dos irmãos, de cinco anos.
- Você é mortal, não é, Tiago?
- Sou!- respondeu, ajeitando o travesseiro e puxando um pouco mais o cobertor.
O outro fez o mesmo, um vento frio entrava pela janela. O contador de histórias levantou-se e fechou o vidro. Sentou-se novamente e continuou, sempre falando baixo e gesticulando muito. Sua voz dava sono, propositalmente, sempre na mesma freqüência. Mas os dois estavam interessados demais para dormir.
- E tudo parecia dar certo... Os dois passavam um bom tempo lá, mas quando voltavam, era exatamente o mesmo horário de quando tinham saído do nosso mundo, e ninguém percebia. Era como se o tempo não passasse! Trevor carregava o portal com ele, no bolso da calça, sempre. Nada prejudicava o trabalho como guardiões dos mortais.
Márcio colocou parte do rosto debaixo das cobertas. Tinha apenas três anos, e logo completaria quatro. Já sabia o que vinha depois daquela parte da narrativa, mas sempre tinha uma pequena esperança que daquela vez a história fosse diferente. Tiago ajeitou-se na cama. Luís passou os olhos pelo quarto antes de continuar a história. Na parede da porta havia diversas fotos, a família inteira reunida, sorrindo. Involuntariamente, sorriu também, mas logo ficou sério. A vida era injusta, pensou.
- Chega por hoje- disse.
- Ah, não, eu quero o final!- Tiago reclamou.
- Eu também!- e o pequeno levantou-se da cama, sentando na beirada.
Luís sorriu. Fez o mais novo deitar-se e o cobriu. Olhou em volta novamente, pensativo. Seus olhos se mostravam alerta apesar do horário e não apresentava sinal algum de cansaço. Ajeitou a franja de lado e fitou os meninos revoltados.
- Vocês conhecem o final e já é muito tarde. O que seus pais vão pensar se chegarem e encontrarem os dois acordados? Não vão mais deixar eu vir aqui ficar com vocês- falou.
- Ah não!- Márcio disse, levantando a cabeça.
Bocejou. Pediu o final da história novamente e o rapaz sentou-se.
- Tá bom- falou.- Vou encurtar um pouco...
- Conta tudo!
- Certo... Bom... Trevor e Dala não esperavam que o conselho começasse a desconfiar que alguma coisa estava errada... Logo,- segurou o fôlego por um instante e logo continuou- descobriram tudo.
- Como?- Tiago perguntou.
- Um mistério. Trevor nunca entendeu muito bem o que aconteceu. Como castigo, ele foi expulso da comunidade de guardiões, e virou um humano, como todos nós. Dala continuou como uma guardiã, e os dois nunca mais se viram. E o lugar... Trevor ainda voltou outras vezes, mas o portal começou a pirar e ele finalmente desistiu. Ninguém sabe o que aconteceu com Trevor depois e muito menos para onde ele foi. A dimensão ficou abandonada, e dizem...- fez um pouco de suspense, esperando a reação dos meninos- que ficou mal-assombrada, com formas místicas rondando o lugar... Quem poderia saber? Como dizer o que aconteceu com a cabana, o lago e as flores, depois que o portal se perdeu e Trevor desistiu de procurar?
- O conselho estraga tudo...
- Eles estavam fazendo o que era melhor para a humanidade, Tiago. Como guardiões eles tinham tarefas importantes e aquilo podia distraí-los... Isso poderia provocar uma tragédia no nosso mundo. Distraindo-se por um segundo que fosse... Entendeu?
O garoto ainda fez careta. Estava numa fase que duvidava de tudo que lhe contavam. Márcio, por sua vez, concordava com o conselho. Se Luís dizia que estavam certos, ele acreditava. O rapaz levantou-se e despediu-se de cada um dos meninos, acariciando-lhes a cabeça.
- Agora durmam. Não quero saber de ninguém ficando acordado até seus pais chegarem, viu? Depois quem leva bronca sou eu. Entenderam?
A resposta não veio. Já deviam estar dormindo, ou então quase. Luís apagou a luz do abajur e saiu devagar, encostando a porta e acendendo a luz do corredor.
terça-feira, 29/06/2004
Achado - Teatro 8ª série - I
CENA 1
1980 - Nascimento das Crianças
Personagens:
Júlio - Angelo
Sílvia - Olivia
Carlos - André
Regina - Taissa
Mulher 1 - Luisa
Mulher 2 - Maíra
Mulher 3 - Luciana
Renato - Guilherme
Sônia - Guingue
Eduardo - Fernando
Flávia - Marina
===>>>
Cenário: Do lado direito, uma mesa com bancos em volta, e do lado esquerdo, um sofá. A mesa servirá como cama na maternidade.
Júlio entra ao som de música e fica parado, de costas, no meio do palco, na frente do cenário. Ao fundo, voz de pessoas conversando. A música abaixa.
Júlio: Tá todo mundo louco. Bom, nessa rua, todos são loucos. Mas ultimamente... Estão ainda piores. O que aconteceu, parece até praga. Quatro crianças... Dá pra acreditar que quatro mulheres aqui da rua ficaram grávidas praticamente ao mesmo tempo?
Júlio vira-se e sai andando, para o lado direito, chutando pedras no chão. Na mão, um mini-game. Vai jogando e andando entediado. Entra Sílvia pelo outro lado.
Sílvia: Ah! Você tá ai, Julinho! Seu pai acabou de ligar do hospital. Sua mãe foi a segunda a ter o bebê. Uma menina! Seu pai disse que ela é linda!
Júlio: Bebê tem cara de joelho...
Sílvia: Oras, Julinho, é a sua irmãzinha! Você não tá feliz?
Júlio: Claro que tô.
Sílvia olha no relógio.
Sílvia: Nossa, já são quase quatro horas! Seu pai falou que as cinco ele vai passar na sua casa pra te buscar. Eu vou agora na casa da Regina, ver o bebê. Quer ir comigo? A essa hora é capaz dele estar acordado.
Júlio faz que sim com a cabeça. Saem de cena pelo lado esquerdo. Júlio vai jogando o mini-game. Ouve-se o som da campainha. Do lado direito vem Carlos, tropeçando nas cadeiras, para atender. Abre a porta (que é fora do palco, do lado esquerdo)
Carlos: Oi Sílvia, oi Julinho! Vieram ver a Íris?
Entram em cena, Júlio ainda está com o mini-game, jogando.
Sílvia: Como é que ela está?
Carlos: Ótima, ótimas... Vamos entrando. Rê! Visita! A Íris já dormiu?
Regina (de fora): Mesmo se tivesse você já teria acordado!
Carlos aponta o sofá, Júlio e Sílvia sentam-se. Carlos puxa uma cadeira. (Quase derrubando a mesa, sempre desajeitado) e senta-se.
Carlos: E a sua mãe, Julinho, como ela está?
Júlio: Não sei... Provavelmente deitada...
Entra Regina com o bebê no colo. Levantam todos para ver.
Sílvia: Que linda! Posso segurar?
Regina põe Íris no colo de Sílvia. Júlio fica olhando. Toca a campainha.
Carlos: Eu atendo.
Sai correndo, desajeitado.
Regina: Quer segurar, Julinho?
Ele faz uma cara de dúvida.
Regina: Senta no sofá que eu coloco ela no seu colo.
Júlio senta. Regina pega o bebê e da para Júlio. Entram Mulher 1 e Mulher 2.
Mulher 1: Oi Regina, tudo bem? Sílvia, Julinho, como vão?
Júlio não tira os olhos do bebê. Regina e Sílvia sentam-se no sofá. Mulher 1 e Mulher 2 sentam-se nas cadeiras.
Mulher 2: Sua irmã já nasceu, sabia, Julinho?
Ele afirma com a cabeça, ainda olhando o bebê.
Mulher 1 (mal-humorada): E então, pra quando vai ser o próximo bebê da geração 80?
Carlos entra durante a fala da mulher 1.
Carlos: Como?
Mulher 1: É 1980, não é não? Gente, eu posso até esquecer o mês, mas o ano eu não esqueço não, né?!
Sílvia: Provavelmente vai ser o bebê da Marta. Porque o da Sônia, que por sinal parece que vai ser o único menino, vai nascer só no fim do mês...
Carlos : Menino, é? A Marta vai ter uma menina?
Mulher 2: Ela diz que vai chamar Jaqueline. Eu não gosto muito do nome, mas a família dela aprovou...
Toca a campainha.
Carlos: Eu atendo...
Sai de cena. Júlio ainda segura o bebê. Entra Mulher 3. Ela olha as outras duas, com desprezo, e senta entra elas.
Mulher 3: Oi pessoal. Como vai, Regina?
Regina: Tudo ótimo.
Mulher 3: Eu já acertei quase tudo, gente. Quando nascer o último bebê, o da Sônia, né? Vai ter uma festa na casa do Renato.
Júlio: Na minha casa?
Mulher 3: Ah, oi Julinho, tudo bem? Seu pai disse que não tinha problema nenhum. É até melhor lá, tem mais espaço.
Regina pega o bebê do colo de Júlio.
Sílvia: Ah... eu até já vejo as crianças brincando de esconde-esconde, jogando futebol...
Mulher 1 (levantando-se): Escondendo as bonecas das outras...
Mulher 2 (levantando-se também): Ahá! Era você que sumia com a minha Mimi!? Eu sabia!
Mulher 1: Sabia nada!
Mulher 3 levanta e faz as duas sentaram novamente. Continuam a discutir. Júlio olha no relógio.
Júlio: Opa! Quatro e trinta e dois! Preciso ir!
Levanta e sai de cena pelo lado da porta.
Regina: Gente, a Íris dormiu... Vamos levar ela pro berço...
Saem todas pelo outro lado.
Hospital. Flávia, mãe de Júlio, deitada na cama, (que antes era a mesa) lendo uma revista. Batem na porta de leve. Entram Júlio, Renato, Sônia e Eduardo, marido de Sônia, pelo lado esquerdo. Sônia está grávida.
Júlio: Oi mãe!
Flávia senta-se. Júlio olha para os lados, procurando por sua irmã.
Flávia: Oi pessoal.
Júlio (olhando para os lados): Cadê a minha irmã?
Renato: Calma, a Alessandra só vem lá pelas seis horas.
Júlio: Ah...
Júlio senta-se no sofá, entediado. Renato senta-se. Fica fazendo cócegas em Júlio para fazê-lo rir. O menino continua emburrado.
Sônia: Então, tá tudo certo com você?
Flávia: Tudo ótimo. O seu é pra quando?
Sônia: Ihhh, pelo jeito vai ser o último. Vai se chamar Maurício.
Eduardo: O pessoal lá da rua tá organizando uma festa...
Renato: Lá em casa.
Flávia: Vocês já foram ver a Regina? Eu só vi ela no hospital.
Eduardo: Nós passamos lá ontem.
Flávia: E você, Renato?
Renato levanta-se.
Renato: Ainda não. O Julinho disse que foi lá hoje, com a Sílvia.
Júlio: O bebê não vai chegar não?
Sônia e Eduardo sentam-se.
Renato: Quer ir comigo no berçário, Julinho? Ver a Alessandra.
Júlio levanta-se e sai rapidinho.
Renato: Já voltamos, amor.
Vão para a frente do palco. A cena atrás continua, eles conversando. Júlio e Renato dirigem-se para o público como se fosse o berçário.

Júlio: Qual é ela pai?
Renato faz uma cara confusa.
Renato: Tô procurando.
Júlio (para o público): Eu falei, bebê é tudo igual, tudo tem cara de joelho...
Renato (apontando com a cabeça): Aquela de rosa.
Júlio olha para o pai (a resposta é inútil, como se houvessem várias de rosa). Renato olha de novo para conferir.
Renato: Ela mesmo, a número 213, ali. (aponta)
Júlio: Ah... Ela é careca...
Renato ri.
Renato: Você vai ser o irmãozão de todas essa crianças que vão nascer lá da rua. Não só da Alessandra, como da Íris, da... Jaqueline e do Maurício... E...
Júlio: Como? Já que vai ser assim é melhor eu começar a decorar os nomes desde já...
Renato: Eu até entendo que no começo pode ser chato, mas quero só ver quando elas começarem e andar, falar, brincar. Imagina só o que é ter um monte de 'irmãozinhos', querendo brincar com você o tempo todo com você!
Júlio olha para o público assustado.
FIM DE CENA//
Olivia
não tem acento. Olivia não tem critérios. Olivia não existe. Olivia talvez
seja fruto da sua imaginação.