quinta-feira, 18/10/2007
portugal telecom
do Ondjaki, que por um acaso estava na USP ontem:
"ah, depois que anunciaram o terceiro lugar eu tive certeza que não ia ganhar nada mesmo."
terça-feira, 09/10/2007
ah, a glória
sexta-feira, 05/10/2007
esse mundo literário
"Quem vive de literatura não faz literatura." -- do Evandro Affonso Ferreira, escritor.
sexta-feira, 14/09/2007
retomar Borges
não terminei de ler o Ficções porque desenvolvi um certo medo de Borges.
esses dias reli o "A forma da espada", um dos contos que mais me assustou. ok, me assustei um pouco menos. talvez Borges não seja tão assustador. talvez eu seja capaz de ler esses contos sem me sentir sendo arrastada para um labirinto do qual eu jamais serei capaz de sair.
talvez seja o momento de retomar Borges.
segunda-feira, 10/09/2007
jogo 3 na copa de literatura brasileira
está no ar a minha resenha para a copa.
o jogo é "Música perdida", do Luiz Antonio Assis Brasil, contra "O segundo tempo", do Michel Laub. acho que todos deveriam ler e comentar e reclamar. e, mais do que isso, ler o livro vencedor. porque vale a pena demais.
segunda-feira, 03/09/2007
o motivo que faltava
mais uma vez a literatura independente, até vocês não agüentarem mais e gritarem "chega!!" enquanto arrancam os cabelos
ou: "a gente só sabe o que vai ficar da literatura atual daqui a seis séculos"
hoje soube quantos exemplares de "Desumano" foram vendidos desde dezembro do ano passado, quando o livro foi lançado.
o livro vendeu muito bem no dia do lançamento, e mesmo a mocinha da Livraria da Vila veio me dizer que era um número surpreendente. agora não me lembro exatamente se era 84 ou 94. tinha um 4. mas sim, um monte. e agora, depois de pouco mais de seis meses? mais ou menos o dobro disso. no total, contando com aqueles do lançamento.
ora, ora.
não vamos entrar no mérito do meu livro. eu mesma sei que o bichinho tem suas falhas, e a cada dia percebo falhas novas.
mas então pra que mil cópias, e pra que todo esse caminho irritante e assinar contrato e receber 8% das vendas? que troço estúpido. que desperdício de papel. é só uma literaturazinha policial sem vergonha que quero mostrar a quem interessar. não tenho vocação para vendedora nem para política. aliás, minha única vocação é escrever.
Alex Castro sempre que comenta de suas muitas vendas e resenhas, termina com um "e daí?". porque o livro não foi publicado por editora, etc, etc. ok, ok. pergunto eu: uh, editora. mil exemplares! vendeu menos de 20%. pra quê?! só mesmo para eu me dar conta que era um troço muito à toa. ritual de passagem? não vale a pena morrer por ele.
reclamo mesmo. porque dá uma raivazinha. porque eu acreditei (em algum momento em acreditei). deixe-me aqui que me viro, eu e meus leitores. há muita literatura muito mais interessante que a minha por aí, não quero ser nenhuma revelação ou a mais nova autora da literatura brasileira. que merda.
fama e reconhecimento todo mundo quer. mas ficar correndo atrás é bem idiota.
como disse meu amigo Rogério, numa discussão de quinta-feira de manhã sobre Homero, Safo e Dante, "a gente só sabe o que vai ficar da literatura atual daqui a seis séculos".
começou a copa de literatura brasileira
a primeira resenha está no ar. "Mãos de cavalo" X "Por que sou gorda, mamãe?", por Renata Miloni.
não li nenhum dos dois, mas claro que fiquei surpresa com o resultado.
de qualquer forma, não tive vontade de ir adiante na leitura de nenhum dos dois livros, quando em livrarias comecei a ler as primeiras linhas. e tenho uma certa mania com as primeiras linhas de um livro.
enfim. leiam a primeira resenha e assinem o feed do site para as próximas. a minha partida é a terceira. em muito breve. uh!
quinta-feira, 30/08/2007
a literatura brasileira
a verdade é que tem certos autores que estão por aí fazendo sucesso, e eu devo dizer que alguns dos meus alunos de ensino médio (ok, não são meus alunos propriamente ditos, mas vou chamar assim para efeito didático) escrevem muito melhor que. não que os que fazem sucesso sejam ruins. é só que não são lá grande coisa. mas é que parecem que não estão se esforçando. parece que querem mesmo é fazer o novo, fazer diferente, etc. ao invés de querer fazer coisa boa. fico pensando, e me lembrando de uma conversa que uma vez tive com um desses novos que fazem sucesso e ele falou que olha só estou tendo essa idéia e quero fazer um texto assim diferente. ou então outra vez que eu mostrei uma idéia minha para um outro e a resposta foi "ah, mas isso já foi feito".
só queria saber isso. estão se esforçando? eu sei que me esforço, e sei que ainda não sou tudo o que ainda gostaria de ser. se vai servir de alguma coisa, o esforço? nem sei. mas como disse Cortázar, para lutar contra o pragmatismo e a horrível tendência à consecução de fins úteis, etc. ah. ontem li esse conto ("perda e recuperação do cabelo", em Histórias de cronópios e de famas) para a quinta-série, foi bem divertido. eles acharam o primo do narrador um idiota inútil, mas enfim. crianças.
mas como eu ia dizendo.
a verdade é que quanto mais ouço falar de literatura brasileira atual mais fico com raiva de querer fazer parte dela (pretensões, pois sim, faço parte). e o que essa gente da mídia fica falando, os "novos autores", a "geração 00", e que blog é literatura e literatura é blog. que horror, que horror.
eu até fico com vontade de ler mais do que há por aqui, mas quase sempre não dá gás continuar a leitura.
o que me salva é que desde que entrei na faculdade de letras me dei conta que era preciso ler apenas aquilo que me interessasse, e que nunca era preciso terminar de ler um livro simplesmente porque comecei. mas vá ver: nunca pensei que fosse ler qualquer livro de literatura angolana e gostar. a literatura angolana em comparação com a brasileira de hoje, ainda, com coloquialidades e essa escrita meio torta, ainda tem a vantagem de aquela linguagem ter algum significado, o que na brasileira já não serve como desculpa. Bom dia camaradas me disse muito mais que, ham, o último livro brasileiro que li, aliás, para a Copa (o resultado da minha partida vocês saberam, em tempo).
mas já estou me desviando.
era mesmo só para dizer que... às vezes eu fico até frustrada. pobre Mário de Andrade.
quarta-feira, 22/08/2007
nas capas de livros
um jeito de perceber o quanto um autor é mais valorizado pelo seu nome do que pela sua obra é medindo o tamanho de seu nome na capa do livro em comparação com o título da obra.
se tanto, é ao menos um indicativo do que a editora tem a dizer sobre o que está publicando.
terça-feira, 21/08/2007
do Bernardo de Carvalho e a entrevista lá
ok, ok. todos já comentaram sobre essa entrevista que Bernardo Carvalho deu para o Rascunho. eu, confesso, comecei a ler pensando: ah, ah, esses escritores que falam, falam, falam. mas aí eu parei de reclamar e li, e vi que a entrevista é toda mesmo muito boa, e muito cheia de verdades, e que vale a leitura.
do final, quando ele responde aquela irritante pergunta do "por que escrevo", colo aqui o que ele disse e que eu poderia ter dito, e que, imagino, muitos outros também. e ele diz, brilhantemente, que é toda a razão para eu continuar insistindo e batendo a cabeça incapaz de fazer qualquer outra coisa, e que também é o motivo pelo qual eu, apesar da birra, fui e li a entrevista até o fim, para me surpreender:
Eu escrevo porque não daria para não escrever. Não sei explicar. Quando eu não escrevo, fico agitado. Mas não é terapia. É fundamental, é a minha vida. É mais importante que qualquer outra coisa. O chato é quando vejo que é uma ilusão. Uma ilusão que eu criei para mim, mas é uma ilusão que dá sentido para a minha vida. Acredito nesse negócio. Tem um negócio meio religioso. Igreja de um homem só. Vou lá, rezo, e acredito naquele negócio. E funciona. Não acredito em Deus, não acredito em nada. Em alguma coisa, eu tinha de acreditar. E, aí, sobrou a literatura. É ótimo. Agora, não dá para ficar sem. Igual a uma pessoa que acredita em Deus e não consegue passar sem essa crença. Tem de acreditar que Deus existe. Eu acredito na literatura. É uma ilusão. Cada um arruma uma forma para viver. A literatura é a minha.
bestas literárias
eu logo saquei que Saramago era uma besta quando assisti a sua ilustre participação no filme "A janela da alma" e ele veio com o mito da caverna. e porque claro que Lobo Antunes tem bastante razão quando disse a um auditório de brasileiros e literatos que "para o Brasil, Saramago está mais que bom".
segunda-feira, 20/08/2007
outras considerações sobre a literatura policial
porque esses dias conversando com o Alex Castro e não chegando a nenhuma conclusão sobre o que é, afinal, a literatura policial, só tive certeza que dificilmente seria possível, de fato, chegar a alguma conclusão sobre o que é literatura policial.
digo: pode ser um gênero demais limitante, que prevê regras estritas, e assim excluímos tudo que há de diferente do modelo de Poe (e meu livro Desumano, certamente, jamais poderia ser um romance policial, e mesmo o romance negro, que Dashiell Hammett inventou, começa a escapar demais do que deveria ser a história de detetive).
e se vamos então expandir a definição para acolher tudo que hoje chamamos literatura policial, vai ser necessário dizer que Hamlet e Édipo Rei eram também histórias policiais. Não?
ou começar a desmembrar o gênero, criar subgêneros: histórias clássicas de detetives, romance noir, crime fiction...? sem contar as histórias de bandido. em inglês, chamam. há detective stories e há crime fiction. e há também um monte de outras coisas, porque eles adoram botar nomes em tudo. mas o que a gente faz com isso que chamam alta literatura e sem querer se encaixar um pouco nos específicos do gênero? o que faz com Édipo Rei, e Hamlet, Crime e castigo, O estrangeiro ou alguns contos do Borges? o que faz com todos os crimes da literatura universal? e com as investigações? e com o mistério e o suspense?
hoje um colega do trabalho me perguntou qual eu achava a melhor história policial de todos os tempos e antes que eu respondesse sugeriu: "Crime e castigo?"
será que história policial é mesmo um troço tão alienígena e periférico? ou então que seja só esse nome, com "polícia" no meio, que faz parecer que não pode ser nada muito digno de uma boa literatura? e será que vale ficar por aí tentando definir ou agrupar coisas diversas, querendo botar Hamlet e O assassinato de Roger Ackroyd no mesmo saco só porque morre gente no meio da narrativa e há um personagem tentando descobrir o que aconteceu?
quarta-feira, 08/08/2007
e a literatura policial
Sobre gêneros, uma vez li do Todorov (em uma edição que ainda bota acento em "êle"):
Poder-se-ia dizer que todo grande livro estabelece a existência de dois grandes gêneros, a realidade de duas normas: a do gênero que ele transgride, que dominava a literatura precedente; a do gênero que ele cria.Existe, entretanto, um domínio feliz onde essa contradição dialética entre a obra e seu gênero não existe: o da literatura de massa. A obra-prima habitual não entra em nenhum gênero senão o seu próprio; mas a obra-prima da literatura de massa é precisamente o livro que melhor se inscreve no seu gênero. O romance policial tem suas normas; fazer "melhor" do que elas pedem é ao mesmo tempo fazer "pior": quem quer "embelezar" o romance policial faz "literatura", não romance policial.
no capítulo "Tipologia do Romance Policial", em As Estruturas Narrativas, de Tzvetan Todorov
Eu escrevo literatura policial, e acho mesmo que é gênero menor. Ora, é gênero.
Leandro Oliveira escreveu sobre os defeitos da literatura policial. Por resposta Marco Polli fez a defesa. Claro que vou mais concordar com o segundo, ainda que o primeiro tenha lá seus pontos. Nos comentários do Leandro o Osrevni falou: "quando o livro é bom e aborda questões que vão além do mistério, o leitor, e principalmente a crítica, tende a esquecer que é um policial e chamar de outra coisa". Que aí vai pros lados do que falou o Todorov. Não enfeita demais, que aí é outra coisa. E será que não é mesmo?
Não?
Então leiam o Alexandre, em defesa das histórias de detetives.
E no ar o capítulo três do meu folhetim, que agora tem o título temporário "A última peça", até que eu me convença do contrário.
domingo, 05/08/2007
e mais da literatura independente
Do tanto que falei no bate-papo com Julio Daio Borges, tenho certeza que não estou sozinha.
E Branco Leone, uns dias atrás, falando dessa gente baixinha querendo se fazer notada, essa gente que escreve porque não poderia estar fazendo outra coisa e não pode esperar sentada a boa vontade do mercado editorial e da mídia. Depois fez também comentar a entrevista, enquanto não vamos querer deixar o assunto morrer.
Também Valter Ferraz falou um tanto sobre tudo isso.
Mais alguém?
Meu orgulhosinho é que, procurando por "literatura independente" no Google, há lá meu primeiro post sobre o assunto, em terceiro lugar e só depois do site Os Viralata, do Branco. E era post que eu, enquanto escrevia, fiz mandar email pro Tiagón dizendo: "vou fazer um post que tenho certeza que se pensar demais não vou postar coisa nenhuma". A resposta foi: "corre!".
Mas, enfim. Tem que deixar a coisa ecoar.
quarta-feira, 01/08/2007
no digestivo cultural
Julio Daio Borges, do Digestivo Cultural, lançou-me algumas perguntas sobre mercado editorial, publicar em papel e o que eu poderia ter a dizer sobre isso. E publicou as respostas no blog do Digestivo. Leiam lá e deixem comentários. A discussão tem que crescer.
Né.
terça-feira, 31/07/2007
mais copa de literatura brasileira
porque da copa de literatura brasileira claro que era esperado que alguns inconformados se manifestassem contra. dizer que é idiota, que é obaoba, que é oportunismo, vá lá. mas difícil mesmo é conseguir compreender esses motivos (menos o post, mais a discussão, que se segue).
e eu só posso mesmo dizer: vocês não estão entendendo nada. o problema do nome da coisa não é o "copa" e sim o "literatura". seria? é.
mas me parece que quem bate o pé e diz que literatura tem que ser arte é a mesma gente que diz que sua banda preferida precisa ser obscura e não pode cair nas garras da mídia e da ignorância do povo. é gente que diz que não lê os autores novos porque já existem velhos o suficiente e são afinal muito melhores e consagrados pelo tempo. aliás, tenho muitos amigos que dizem isso, mas sabe o que posso concluir? é gente rabugenta, oras, oras. gente chata. deixa essa gente.
ok, ok, literatura pode ser arte. mas não PRECISA ser. quero dizer, só porque literatura é arte a gente não pode brincar com ela? tem coisa que para mim é arte e entretenimento. entretenimento só é um troço estúpido quando é para gente estúpida. gente estúpida se diverte assistindo domingão do faustão. por que eu não posso me divertir com literatura? ah, sim. literatura é arte. não pode. senta aí e lê, porra. em silêncio! shuuush!
a copa é um jogo de opiniões, por que não seria? por que a gente precisa encontrar um jeito para não ser? se alguém ESCOLHE alguma coisa, tem opinião no meio. a gente só vai dar umas justificadas, ou, mais que isso, explicadas. quer dizer, a gente vai dizer: escolho esse, porque isso. pode ser o mesmo motivo que um outro não escolheria, mas que vai fazer? fazendo um paralelo infeliz, imagina a copa de futebol: imagina que o brasil não chegue à final justamente porque saiu em segundo do grupo, sei lá, e dá de topar com a argentina na semi-final, e o roberto carlos se abaixa para arrumar a meia bem no momento que não devia. e o brasil perde! que bosta! se não fosse a argentina podia ser a inglaterra, e vai que a gente ganhava. ou só pegava a argentina na final e ficava em segundo lugar! o livro, coitado, caiu nas mãos de um jurado rabugento e perdeu a viagem.
é que ninguém gosta dos outros escolhendo pela gente, não é? e se for escolher, que seja alguém importante com renome e tudo. aí pode. o antonio candido pode escolher o melhor livro do ano! se não, eu quero escolher o MEU livro do ano, não é? claro que quero. eu sei que eu quero. aí vem esse bando de BLOGUEIRO pretencioso da puta que pariu dizer que vai escolher o melhor livro do ano em um torneiozinho sem-vergonha baseado em gostos e umas justificativas duvidosas de gosto. vá à merda!
ora, ora. tem gente que não acredita no oscar, tem gente que não acredita no jabuti. você pode acreditar no que quiser. o lucas teve a idéia e agora vamos brincar de ser jurado. oba. a quem interessar a discussão, as partidas serão transmitidas. quem leu esse ou aquele livro e acha que ele é sensacional, pode ir atrás das partidas para ver o que um outro fulano está falando sobre ele.
eu entrei porque achei boa a idéia de conhecer um pouco mais os autores novos, já que nunca fico sabendo de nenhum deles. e porque o lucas falou quem já tinha topado e pensei mais ainda: oras, se eles toparam, por que não? com esses caras, o negócio só pode ser bom. maridão achou idiota, eu disse a ele: bah, chato.
não acho que valha a pena o vencedor GANHAR qualquer coisa, justamente porque o prêmio não é democrático e porque não é imparcial e porque quase não é sério. porque a copa na verdade vão ser resenhas comparativas. eu mesma nunca gostei de comparações, ouvir gente dizer, afirmar e bater o pé: james joyce é melhor do que guimarães rosa, ou o contrário. por isso que o prêmio PRECISA ser uma coisa de opiniões, e a única graça dele são as opiniões. as pessoas todas acham que prêmios precisam ser imparciais e que torneios precisam ser baseados em quem é o unanimamente melhor de todos. tem gente que não gosta de beatles e guerra nas estrelas. o que você poderia esperar? pois bem. o lucas fez esse prêmio PELAS opiniões.
aí vem alguém dizer: o vencedor NÃO vai ser o melhor livro do ano. claro que não! o melhor livro do ano talvez tenha sido publicado por uma editora obscura, teve uma distribuição PORCA e você nem ficou sabendo da existência dele. o vencedor desse torneio vai ser um que teve algum mérito e alguma sorte. mas o quê; você esperava diferente?
quarta-feira, 25/07/2007
meus mais queridos escritores
E agora vou falar dos meus escritores mais queridos. Porque hoje é dia do escritor, e esses são os escritores que de um jeito ou outro mudaram um pouco o meu encarar a literatura e a leitura.
(Ok, o dia do escritor está acabando, mas como era só desculpa, ninguém vai nem reparar nesse tão pequeno detalhe.)
do Guimarães Rosa:
Eis o melhor escritor brasileiro. Não penso duas vezes para afirmar que "Grande Sertão: Veredas", é a grande obra literária brasileira. E sei que uns fãs de Machado vão me olhar feio quando eu digo isso. Mas digo, redigo e bato o pé. E olha, que fui ler esse livro agora, nas últimas férias de janeiro.
Conheci Guimarães Rosa no meu terceiro ano do colégio, porque "Primeiras Estórias" estava na lista da Fuvest. Foi na verdade quando comecei a gostar de literatura. Tive um professor sensacional, que estava sempre atrasado em suas análises porque passava metade da aula falando de Proust e do tempo perdido. Foi nas aulas dele que me apaixonei pelo conto Nenhum, nenhuma, mesmo sem entender nada do que estava escrito ali.
"Infância é coisa, coisa?"
Gente, que era aquilo. Recentemente me deparei com um ensaio da Leyla Perrone-Moisés, uma análise psicanalítica do conto chamada "Nenhures: considerações psicanalíticas à margem de um conto de Guimarães Rosa". Está no livro "Flores da escrivaninha", que fui ler quando pedi para minha professora de Literatura Brasileira me passar todas as análises desse conto que ela conhecia. E foi de repente toda aquela sensação que o Guimarães Rosa descreve, aquele quase-lembrar, e todas as minhas aulas de literatura do terceiro ano volta-voltando bem aos poucos. Ah! Meu professor se guiava por aquela análise! Estava tudo lá! E que ela cita, do texto: "Tem horas em que, de repente, o mundo vira pequenininho, mas noutro de-repente ele já torna a ser demais de grande, outra vez. A gente deve de esperar o terceiro pensamento".

Esse terceiro pensamento, toda a obra de Guimarães Rosa. Ah!
Foi nas aulas de Literatura Brasileira II, com essa professora que me apresentou o ensaio da Leyla Perrone-Moisés, que descobri o "Tutaméia". Aí, pirei. E curioso ainda que no começo das aulas estava há muito tempo sem encostar em Guimarães, achando que o amor da professora era só um exagero porque afinal James Joyce já tinha feito tudo aquilo tantos anos antes. Quem diria, então.
"Tutaméia" é o último livro do Guimarães publicado em vida, e o melhor de todos. Tenho ainda um projeto de iniciação científica para provar minha predileção. Porque eu entrei na faculdade muito decidida a me manter bem longe dessa vida acadêmica, a não ser que. A não ser que "Tutaméia", é o que posso dizer. O quê dizer? Um livro de avessos, de não-ditos, feito por possíveis. As terceiras estórias. E as segundas, você pergunta? Eu posso arriscar uma explicação, mas certeza eu só tenho uma: ele sabia muito bem o que estava fazendo.
do Julio Cortázar:
Conheci Cortázar quando minha avó Suzana (a que é cineasta) resolveu que eu devia conhecer Cortázar. Fiquei com essa idéia na cabeça, mui vagamente. Topei com "Histórias de cronópios e de famas" em um sebo ali na Augusta e, apesar da capa horrenda, comprei. Que, eu nem sabia dessas coisas de literatura fantástica, cronópio cronópio. Aquele conto Perda e Recuperação do Cabelo mudou minha vida.
Para lutar contra o pragmatismo e a horrível tendência à consecução de fins úteis, meu primo mais velho defende a prática de arrancar um bom fio de cabelo da cabeça, dar-lhe um nó no meio e deixá-lo cair suavemente pelo buraco da pia.
Não é que toda aula de literatura deveria começar com isso? Sim, contra "a horrível tendência à consecução de fins úteis", porque afinal só mesmo por isso que a gente estuda literatura. E não? Mas, assim como "Tutaméia", "História de cronópios e de famas" é um desses livros que nunca acaba. Os contos são muito curtos, e são muitos. A releitura sempre surpreende.
Pois aconteceu que comentei com minha avó que tinha gostado muito do livro, e ela me botou 50 reais na mão e disse que era para eu comprar livros do Cortázar em sebos.
Obedeci.
"Todos os fogos o fogo" é outro livro de contos que todos sempre comentam. Dizem que é o melhor, e capaz de ser mesmo. O conto A auto-estrada do sul te derruba logo no começo. Que diabos esse cara está fazendo?! É sensacional. Também gosto demais do A ilha ao meio-dia. Principalmente do final. Das últimas palavras. Toda vez que leio sinto um arrepio. Dos melhores contos.
Com o Cortázar eu aprendi que não precisava escrever difícil para escrever bem. E isso, para mim, foi fundamental. Porque veja só, é tudo questão de ordenar as palavras. Ah! Ainda que eu nunca consegui ler nada em espanhol e era tudo tradução.
Então uma amiga minha disse que eu tinha que ler "O Jogo da Amarelinha". Eu não queria, não queria. Tinha medo, achava que devia ser uma bobagem. Gostava demais dos contos para estragar com um romance desordenado. Mas. Dia desses fui com ela fazer um tour pelos sebos do centro, e o livro gritou para mim. Comprei. Li.
"O Jogo da Amarelinha" é o livro da minha vida. Não é nada desordenado e essa de que você pode ler numa ordem torta não é assim tão verdade. O que acontece é que você pode intercalar a história com outras partes. Partes que talvez sejam, ham, inúteis. E por isso é tão bom. Quando estava chegando ao final do livro, não queria terminar de jeito nenhum. Estava, as últimas páginas do último capítulo e eu não queria parar de ler, não queria que o personagem acabasse. E o personagem, o Horácio, um tipinho maldito; você só vai começar a gostar dele no final, quando, penso eu, ele começa a enlouquecer. E então de repente o livro está acabando e tudo que eu podia pensar era que não, não, mas não pode acabar agora, o Horácio não pode acabar justo agora. Devo ter levado uns três dias para ler esse último capítulo.
No meu aniversário desse ano ganhei "Prosa do Observatório", do el_Rey Tiagón. E o texto é tão sensacional que eu precisava parar de ler de vez em quando para deixar as frases ecoando na cabeça. Só: "Jai Singh quer ser isso que pergunta, Jai Singh sabe que a sede que se sacia com água voltará a atormentá-lo, Jai Singh sabe que somente sendo a água deixará de ter sede".
do James Joyce:
Ah!
Numa dessas de andar por sebos topei com um livrinho da Penguin chamado "The Essential James Joyce". Nele, "Portrait of the artist as a young man", "Dubliners", uns trechos do "Ulysses" e do "Finnegan's Wake", uma peça chamada "Exiles" e alguns poemas. Pensei que era um bom jeito de conhecer o sujeito. Porque cedo ou tarde eu ia ter que.
Comecei pelo "Dubliners" e achei meio chato. Passei para o "Portrait of the artist as a young man" e o James Joyce logo ganhou lugar na minha lista de escritores favoritos. No começo eu não entendia nada, mas aos poucos fui me dando conta das coisas que aquele cara fazia com o texto. Li mais ou menos ao mesmo tempo em que lia "O Jogo da Amarelinha" e ao mesmo tempo também que arriscava escrever um romance não-policial. Mudou demais o como eu escrevia, essa mania estranha que a gente tem de ficar obedecendo tudo que o Pasquale manda, essas vírgulas todas que aprendemos nas aulas de redação (e que eu, invariavelmente, ainda corrijo nos coitados dos alunos).
Também em algum momento nesse tempo que li o livro do Edmund Wilson, "Axel's Castle", sobre os simbolistas. Há um capítulo sobre James Joyce. James Joyce ainda era vivo e Edmund Wilson conta que Joyce está trabalhando em uma nova obra, que "is to deal with the night and with subconscious". Mas, ah! Esse livro do Edmund Wilson é bom demais, verdade seja dita. O ensaio sobre James Joyce vale muito a pena.
Na verdade o que me encanta no James Joyce é o quanto eu posso pirar nas palavras dele mesmo perdendo um monte do que diabos ele estava querendo dizer. As traduções são todas muito ruins (ou pelo menos limitadoras, como sempre seriam, e no caso do James Joyce fica tudo muito pior) mas nem sempre eu vou conseguir entender aquele inglês torto dele. Depois do "Portrait of the artist as a young man" fui ler o "Ulysses". Ainda não li tudo, mas já reli um monte de coisa. Ah, e passei da página 100, muito obrigado. Também já li todo o monólogo final, porque eu estava curiosa demais e não poderia esperar. Um dos capítulos do meio, Cyclops, é o que mais gosto. Aquele monte de coisa acontecendo, monte de gente falando, e o narrador que pára de repente de narrar para contar alguma história que aparentemente nada tem a ver com o que está se passando, e na verdade ele parece estar só tirando uma com a sua cara. James Joyce é todo linguagem.
E enquanto isso, vou ganhando fôlego e coragem para enfrentar o "Finnegan's Wake" que maridão me deu de presente.
Eis que. Não vou falar do Mario de Andrade agora. Sim, gosto demais de Mario de Andrade, mas muito mais pelo trabalho como crítico e pensador da literatura. Gosto dele como poeta e conheço muito pouco dele como contista.
Mas. São esses três mesmo os meus mais queridos escritores. Porque são também mentores e sempre aprendo alguma coisa em leituras e releituras. E porque, como já nos ensinou Cortázar, vez ou outra é muito importante lutar contra o pragmatismo e a horrível tendência à consecução de fins úteis.
terça-feira, 24/07/2007
de véspera
Em resposta ao chamado do André, e para o dia do escritor (que é amanhã, dizem por aí), minhas respostas, ou os meus 10 gritos para o mundo.
E então também convido vocês aí a responderem também em seus blogs respectivos (eu juro que queria fazer uma chamada personalizada, mas eu estou com uma preguiça tão grande de ficar copiando e colando links). Ou então a escrever sobre seus escritores mais queridos. Ou os dois. Ou então a fazer um comentário simpático, para me deixar feliz.
Né.
(Amanhã é que escrevo sobre os escritores. Mas já entreguei numa das respostas quem são eles. Ok, matei a graça. Ops.)
1. Que livro você está lendo?
Suspeitíssima para responder. Agora estou dividida entre The life and opinions of Tristam Shandy, do Laurence Sterne, Viagens na minha terra, do Garret, e 101 redações de alunos do primeiro ano do ensino médio com uma resenha crítica sobre o filme Othello de 1995, do diretor Oliver Parker. Ops.
E ansiosamente esperando chegar o Prayers for rain, do Dennis Lehane, que comprei pela internet, e vou ler todo de uma vez só assim que aparecer na minha frente.
2. Lembra do seu primeiro livro?
Se foi o primeiro eu não sei, mas o único que eu me lembro é A casa sonolenta, daquele casal Audrey e Don Wood. Eles são sensacionais.
3. No Brasil, sabemos que a leitura não é um hábito da população em geral. Quantos livros, em média, você lê por mês?
Hah! Menos do que eu gostaria, porque eu sou lerda e minha concentração tem prazo de validade curto. Nem posso dizer que é falta de tempo. Em média, acho que leio uns 2 livros por mês.
4. Você tem um gênero favorito? Qual?
Por gênero, eu gosto de policiais. Os outros livros que eu gosto costumam não ter gênero nenhum.
5. Alguns escritores, além de grandes artistas, são vistos como “seres superiores” por alguns leitores. Você tem ídolos escritores? Quais?
Meus seres superiores são James Joyce, Julio Cortázar e Guimarães Rosa. E Mário de Andrade, que toda vez que deixo de fora ele começa a gritar e eu penso duas vezes e digo: ok, ok, entra aí.
6. Você distingue o escritor pelo gênero - poesia, conto, romance, etc - ou acredita que escritor é escritor e ponto?
Ham. Que pergunta traiçoeira. Escritor deve ser escritor, mas um poeta não é a mesma coisa que um cara que escreve romances, e nem deveria ser. Não?
7. A internet pode se transformar em uma ameaça para a leitura de livros?
A internet ameaça a leitura tanto quando a televisão. E antes disso a falta de energia elétrica e o hábito de ler em pé. Ah, esses antigos.
8. Se você pudesse, como acabaria com o analfabetismo no Brasil e como implantaria o hábito de leitura?
Estímulos, incentivos, etc, etc. Ler é hábito e só. E então, literatura de entretenimento! Nenhuma criança obrigada a ler Vidas Secas aos 10 anos de idade pode aprender a gostar de Graciliano Ramos.
Não aguento mais a discussão de que a autora do Harry Potter criou uma geração que só quer ler Harry Potter mesmo, e que na verdade Harry Potter não está fazendo ninguém ler mais, e o que, o que. Bah! Que a geração Harry Potter nunca leia Saramago (ai) ou Gunter Grass (duplo ai). Acho que antes de fazer qualquer coisa a gente precisava mesmo decidir (e depois sair por aí espalhando pra todo mundo) por que é que ler, afinal, é tão importante.
Eu não sei como acabar com o analfabetismo, mas deve ter alguma coisa a ver com governo, educação, professores. Oras!
9. José Saramago declarou recentemente que sempre será comunista, embora saiba que este é um assunto ultrapassado. Um escritor deve manter para sempre seus valores, ou pode mudar de opinião?
Na verdade eu acho que escritor com valores já é um troço muito esquisito.
10. Uma frase para o Dia do Escritor:
Quem mantém os dois pés no chão, não sai do lugar. ~ Tor Åge Bringsværd, escritor norueguês
porque amanhã é dia do escritor
E eu nem sabia que existia dia para escritor.
Eu vou responder o chamado do André, porque depois que ele me botou numa lista de, veja, os melhores escritores (desses que andam pela internet, e que as pessoas, ham, lêem), eu fiquei feliz e aí.
E amanhã publico um texto falando sobre os meus escritores mais queridos, uns tipos perigosos, minha tríade demoníaca, enfim, enfim. Aquela coisa de que livro você levaria para uma ilha deserta e eu que certamente perguntaria antes mesmo de terminarem de falar "mas posso levar 3?"
Sim, farei o post, e já convido todos os leitores, e quem mais, para fazer o mesmo. Sim?
sábado, 21/07/2007
e o que acontece
Idéia de Lucas Murtinho:
Dezesseis livros se enfrentam em quinze jogos. Cada jogo é decidido por um jurado, que explica e justifica sua decisão para o público. O campeão talvez seja o melhor romance brasileiro do ano, talvez não. Provavelmente não. O importante é que o campeonato seja divertido e o debate, inteligente.E, hah! Participo. Como uma dos 16 jurados.
A Copa de Literatura Brasileira é inspirada no Tounament of Books, criado em 2005 pela revista eletrônica americana The Morning News em parceria com a livraria Powell's.
Leia a idéia toda pelo próprio Lucas, que ele explica tudo muito bem. Muito melhor do que me explicou no email, aliás. Vá pensar que depois de ter que explicar sua idéia para pelo menos 16 jurados ele ia aperfeiçoar sua técnica. No link também a lista completa de jurados e os livros escolhidos para participar.
Está tudo sendo preparado. Aviso aqui quando tiver mais informações.
E, claro. Hoje, hein? Ou como diria o Milton, porque hoje é sábado.

Estarei por lá a partir de umas 10 horas, porque é tão elegante chegar atrasado. Ooo.
(E agora tenho que trabalhar um pouco, porque meu chefe me achou.)
quarta-feira, 18/07/2007
Este sábado
21 de julho, em São Paulo - SP, no bar Canto da Madalena (e o bar fica num canto mesmo, parece que estava fugindo da rua Aspicuelta), rua Medeiros de Albuquerque, 471. Como o nome do bar indica, na Vila Madalena. Mas não muito. Eu diria que o bar fica realmente no canto da Vila Madalena.
E o que diabos vai acontecer lá, você pergunta.
(Na verdade você provavelmente já sabe.)
Vai ser o lançamento dos livros do Alex Castro e do livro novo do Biajoni.

Mais informações em Os Viralata.
O cardápio (que segundo o Bia avisou só vale para os lançamentos no Rio -- que já foi -- e em São Paulo):

[Agora eu volto pro meu mundinho, embaçado que é porque a oftalmologista dilatou minha vista, e sobre o tudo que a gente tem que ver, como a moça no rádio disse, é falta de muito mais do que só vergonha na cara, e eu considerando seriamente trocar minha passagem de avião para o Rio por seis horas dentro de um ônibus. Sim?]
sexta-feira, 06/07/2007
Ambições
Na verdade ambição de escritor é um troço estúpido.
terça-feira, 03/07/2007
Ainda a literatura independente
Biajoni também escreveu sobre.
Porque na verdade é um trabalho tão grande publicar por editora normal, para uma alegria que dura os primeiros três meses. Depois disso, seu livro fica velho e não interessa à mídia. E se não pela mídia, de que serve um livro publicado dessa forma? Será que o reconhecimento (qualquer tipo de reconhecimento) precisa mesmo passar por essa mídia? Se a cada ano escolhem meia dúzia de "novos autores" para colocar na pauta. E não sei se quero entrar na fila, esperar minha vez, acompanhar o ritmo de produção e publicação de uma editora que publica meu livro sabendo que ele mal vai se pagar.
Estou quase certa que não vale a pena.
sexta-feira, 29/06/2007
Pela literatura independente
Eis um post que se eu pensar demais vou acabar não postando.
Não é por ser mal-agradecida. Sei bem, porque está meu livrozinho de estréia pela Brasiliense espalhado em livrarias (teoricamente). E também que vou saber enfim quando esse troço vendeu na semana que vem. Penso.
Mas é que cansa.
Muito mais certa é a literatura independente, cada um publica o que bem entende, vende pra quem interessar. Não sai na Folha nem no Fantástico, mas, convenhamos, muita gente boa publicada também não sai.
Das grandes editoras, são poucas as que tem um bom trabalho de divulgação. A Cia. das Letras e... Buena. A Cia. das Letras faz um bom trabalho de divulgação, é verdade. E a Cia. das Letras, mais do que qualquer outra, não está lá tão interessada em publicar desconhecidos (não é impossível, veja bem, por vezes os astros se alinham e seu original cai nas mãos de um agraciado editor que acordou no humor certo para o seu estilo de escrita, mas isso não é, digamos, o que acontece na maioria das vezes), ainda mais porque essa editora está com o calendário de publicações provavelmente muito bem preenchido até 2011.
Claro. Com sorte, cai-se nas mãos de um editor que realmente está interessado em te ver crescer. Pode acontecer. Mas e achar o caminho?
Quero dizer: você é publicado, cai na graça de meia dúzia de jornalistas de pequenos veículos, alguns amigos te arrumam contatos, etc. E devo imaginar que existam leitores que te descobrem porque você foi citado aqui ou ali.
Mas não é isso.
Esses leitores não chegam em você. E você nunca vai ficar sabendo da existência desses leitores. Será que...?
Afinal, escrever? De que me serve? Escrevo. Depois de Desumano, já escrevi dois, e estou terminando um terceiro. Pensando em publicar? Inevitavelmente, mas tudo isso me dá uma angústia tremenda. Porque eu estou sempre muito mais preocupada em escrever do que publicar. Ou melhor: eu estou sempre muito preocupada em publicar, mas não consigo parar de escrever para fazer dessa preocupação uma ação. E daí, a angústia. Ir atrás de publicação dá muito trabalho e é muito chato e eu não tenho dinheiro para pagar agente literário para fazer isso por mim.
O segundo policial que escrevi se chama Operação P-2 e está prontíssimo. E gosto tanto dele. Queria ver ele por aí, em mãos alheias, em bocas alheias. Mais que os meus amigos próximos. Porque tem pelo menos 75 pessoas que lêem esse blog (ou fingem que, segundo o FeedBurner) e talvez ainda outros que poderiam estar interessados. Sim?
E vejo o Biajoni. Ou o Alex Castro. Literatura independente. Escrevem e têm os seus leitores. Pode não ser o grande oceano pacífico de leitores, mas. Nem sei se eles continuam buscando editoras, mas será que precisa? Na verdade eu vejo os dois e fico mesmo é com vontade de fazer como eles.
É que a internet, etc, etc.
Sabemos bem, nós, que moramos aqui na internet. Não o sabem todos, mas nós.
Pois. Cansa. E eu não tenho a menor paciência e habilidade para ficar por aí buscando publicações. E se eu continuar com esse péssimo hábito de escrever um ou dois livros por ano, a coisa vai começar a ficar feia.
quinta-feira, 28/06/2007
Títulos
Estou a um capítulo de terminar um livro aqui que estou escrevendo.
E o livro está sem título.
Gah!
A última vez que fiz uma lista com palavras que poderiam me dar uma luz para um título foi com o Desumano. Porque Desumano era um título temporário. Pois vejam só.
Sempre assim. Ou tenho certeza do título desde começar a escrever ou nunca terei.
terça-feira, 26/06/2007
Gone, baby, gone
É bom poder ler um livro em três dias com toda a vontade que pode existir para se ler um pocket de 400 páginas em três dias.
Quer dizer, eu estava lendo enquanto dirigia. Ou melhor, quando o farol ficava vermelho, eu botava o livro aberto em cima do volante e lia, com um olho no carro da frente e a marcha engatada.
(E o lado bom disso é que é impossível se irritar com o trânsito quando você começa a torcer para pegar um farol fechado.)
Pois quebrei por fim meu afastamento voluntário de romances do Dennis Lehane e para ler o quarto da sua série de detetives, Gone, baby, gone. Porque li os três primeiros um atrás do outro, depois de ter lido e visto o filme (na minha opinião, uma das melhores adaptações de obra literária, aliás) do Sobre meninos e lobos, e era preciso respirar um pouco, acreditar que o mundo não era tão ruim daquele jeito e coisas assim. Sacred, o terceiro livro da série, é de fazer formar bolas de tênis na garganta de quem lê. Terrível. Não o livro. Os personagens são assustadores, e você termina com medo de olhar pela janela e olhar o mundo.
Não sei se porque agora já estava mais preparada, fui mais capaz de captar os truques literários que ele usa para te fazer sentir junto daqueles personagens. Mas saber os truques não me impediu de sofrer um pouquinho. Dennis Lehane não perdoa; se quiser te jogar uma criança nua e toda esfaqueada na sua cara, ele joga, e te faz sofrer por isso. E sem ficar parecendo aquela coisa Rubem Fonseca escorregando-em-testículos-para-chocar-o-leitor (como mencionou nosso querido Soares Silva). Ele está contando a história como se a gente nem devesse estar ali lendo.
O cara é muito bom.
Terminei o livro com muita raiva. Porque o final é quando você se dá conta que tudo aquilo era uma história, e não há motivo para tanta raiva, e nada daquilo é real. Uh? Afinal, eu faço esse tipo de coisa com meus personagens também. Eu sei os truques. Eu sei tudo que há por trás daquelas palavras. Mas não adianta muito pensar em nada disso, e então me resta aparecer aqui e escrever esse post.
Penso que Dennis Lehane é um dos melhores escritores policiais hoje em dia. Não leio tantos assim, talvez porque fico com medo de cair nas garras de algo como Jeffrey Deaver, um dos que li e achei chatíssimo (li The vanished man, num desses acasos do tipo vamos-ver-se-isso-é-bom). Gosto do Michael Connelly, e do detetive que ele criou, mas ele se repete. Ed McBain ainda não conseguiu me ganhar (comecei um livro dele e parei no meio, isso não pode ser bom). Se alguém tiver sugestões, a caixa de comentários está bem aberta.
Enfim.
Baffled.
sábado, 16/06/2007
Who's dead?
- How's Willy Murray those times, Alf?- I don't know, says Alf I saw him just now in Capel street with Paddy Dignam. Only I was running after that ...
- You what? says Joe, throwing down the letters. With who?
- With Dignam, says Alf.
- Is it Paddy? says Joe.
- Yes, says Alf. Why?
- Don't you know he's dead? says Joe.
- Paddy Dignam dead! says Alf.
- Ay, says Joe.
- Sure I'm after seeing him not five minutes ago, says Alf, as plain as a pikestaff.
- Who's dead? says Bob Doran.
- You saw his ghost then, says Joe, God between us and harm.
- What? says Alf. Good Christ, only five ... What? ... And Willy Murray with him, the two of them there near whatdoyoucallhim's ... What? Dignam dead?
- What about Dignam? says Bob Doran. Who's talking about... ?
- Dead! says Alf. He's no more dead than you are.
- Maybe so, says Joe. They took the liberty of burying him this morning anyhow.
- Paddy? says Alf.
- Ay, says Joe. He paid the debt of nature, God be merciful to him.
- Good Christ! says Alf.
Begob he was what you might call flabbergasted.
o capítulo Cyclops, do Ulysses, de James Joyce.
quarta-feira, 06/06/2007
e de personagens
personagens com passado e personagens-linguagem. limites da escrita, da criação, de fazer existir um ser que não poderia jamais ser existido.
por um equilibrio. por algo do que há e do que houve para além do que será.
que se em um momento de revolução industrial e as máquinas e a velocidade o personagem se perdeu em um mundo absurdo de acontecimentos desconexos e placas e sinais luminosos. e que ainda estamos nos recuperando porque o mundo ainda não soube fazer todo o sentido que sabia fazer, antes, quando fazia sentido. e então nos resta um sentido interno, porque a falta de sentido cansou, e todos sempre querem citar Kafka e Döblin. e então personagens por demais perdidos em si para qualquer consideração sobre o mundo. personagens que jamais poderiam se encontrar. perdidos. que nos resta?
o nunca que só existe na linguagem, tal qual o sempre. quando é.
jamais.
segunda-feira, 26/03/2007
Folhateen

Clica na imagem pra ler. Hein, hein.
A foto foi tirada no sebo do Evandro, umas nove e tantas da manhã da última sexta-feira. E o fotógrafo brigou comigo e com esse outro rapaz, o Tony Monti, porque nenhum dos dois tinha o livro respectivo para a foto. Ele não achou graça quando eu falei que eu podia segurar alguma coisa do Guimarães Rosa.
Aí do lado é a capa do caderno com uns caras pulando.
Hip!
sábado, 24/03/2007
Ironias
Problema de escritor é querer a posteridade no presente. Que a posteridade fique para o futuro, como ela deve ficar.
sábado, 10/03/2007
E jamais dispensar a boa crítica
... uma crítica bem entendida é muito importante para o escritor; ela o auxilia a enfrentar sua solidão.Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz.
Gênova, janeiro de 1965
sexta-feira, 16/02/2007
Manifestações positivas do que não é
De onde tanto que se tira para minha por ora possível, "sempre total, ovo e cálculo, semente, polpas, sua carne de prosseguir, terebentinas*", iniciação científica sobre o livro Tutaméia, de Guimarães Rosa, e seus não-ditos.
Conflui, portanto, que:Os dedos são anéis ausentes?
Há palavras assim: desintegração...
O ar é o que não se vê, fora e dentro das pessoas.
O mundo é Deus estando em toda parte.
O mundo, para um ateu, é Deus não estando nunca em nenhuma parte.
Copo não basta: é preciso um cálice ou dedal com água, para as grandes tempestades.
O O é um buraco não esburacado.
O que é - automaticamente?
O avestruz é uma girafa; só que tem é que é um passarinho.
Haja a barriga sem o rei. (Isto é: o homem sem algum rei na barriga.)
Entre Abel e Caim, pulou-se um irmão começado por B.
Se o tôlo admite, seja nem que um instante, que é nele mesmo que está o que não o deixa entender, já começou a melhorar em argúcia.
A peninha no rabo do gato não é apenas "para atrapalhar".
Há uma rubra ou azul impossibilidade no roxo (e no não roxo).
O copo com água pela metade: esa meio cheio, ou meio vazio?
Saudade é um predomínio do que não está presente, diga-se, ausente.
Diz-se de um infinito - rendez-vous das paralelas todas.
O silêncio proposital dá a maior possibilidade de música.
Se viemos do nada, é claro que vamos para o tudo.
Veja-se, vezes, prefácio como todos gratuito.Ergo:
O livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber.
Quod erat demonstrandum.
Do final do primeiro prefácio de Tutaméia, "Aletria e Hermenêutica"."Tudo se finge, primeiro; germina autêntico é depois.*"
*trechos de "Sobre a escova e a dúvida", quarto e último prefácio do livro.
**o título do post é um trecho do texto "As estórias de Tutaméia", escrito pelo Paulo Rónai.sexta-feira, 09/02/2007
Outras literatices que não tão literárias
muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são
E enquanto isso, Sydney Sheldon morreu.
Sim, já faz um tempo. Mas escrevi esse post já faz um tempo também.
E tudo que pensei aqui eu já tinha pensado antes dele morrer, mas depois pensei ainda com mais força. Sabe, quando se pensa e a cabeça faz tzzzpf!
Mas então o quê? O Brasil precisa de mais escritores? De mais editoras? De mais revistas sobre literatura? Ah! Oras. Não sei bem. Mas me parece que precisa de mais gente interessada em literatura. Em menos gente achando que literatura é uma coisa genial que só os seres superiores podem compreender. Mais leitores! E de onde vamos tirar esses leitores?
Literatura precisava ser uma coisa assim, meio cinema. Quero dizer, muita gente fazendo, muita gente vendo, muita gente fofocando e criticando. Porque aí as grandes obras não iam estar para sempre perdidas no mar de mediocridade. Porque no cinema de cada 100 merdas sempre tem uma coisa genial. Que vá ver o que te interessa! Na universidade ainda iam pesquisar James Joyce e Mário de Andrade do mesmo jeito que numa faculdade de cinema ficam analisando filmes de arte que eu nem vou saber citar.
Que merda de país.
Talvez muitas obras ruins precisavam ser lançadas. Mas muitas mesmo. Aos montes. Obras ruins e agradáveis. Agradavelmente ruins. Como uma novela das sete. E o Fantástico teria fofocas sobre a vida de escritores, e se fulano fez ou não aquele livro em homenagem àquela mulher. E haveria uma espécie de Big Brother literário com escritores e eles ficariam discutindo personagens e a natureza humana de um jeito bem tosco, e tão tosco que você ia pensar que estava ouvindo a conversa de um almoço de natal em família (sei lá, minha família discute a natureza humana). E todos saberiam quem é determinado escritor, mesmo que só tenha lido a contra-capa de um livro dele. Mas saberiam que ele é mulherengo e que bateu no cunhado numa festa literária que aconteceu no último domingo. Ah! Que maravilha.
Disso tudo, existiriam os escritores cults, como sempre existiram. Por quê não? Em fóruns pela internet a gente ia ouvir uns manés dizendo "puta livro chato aeh li umas 20 página e o cara naum saiu da cama, pow".
Seria incrível.
E ainda os escritores reclusos que não dão entrevistas, e os caras do Pânico na TV iam querer botar sandalinha neles. E claro que os escritores reclusos e anti-sociais seriam os escritores que continuam com a mesma mentalidade dos escritores de agora, e ninguém ia gostar deles; só uns intelectuais e alguns perdidos, e na verdade são as mesmas pessoas que gostariam deles hoje em dia, ia dar na mesma, e as vendas para esses escritores não mudariam em nada. Eles só teriam mais do que reclamar, e como todo escritor gosta de reclamar, seriam até mais felizes.
Ou, ainda. Precisamos de mais Marcelinos Freire. Aos montes. Marcelinos a virar a esquina. Por todos os lados. Dando workshops e palestras e reunindo grupinhos por aí. E poetinhas, que seriam os mesmos poetinhas de hoje, mas com revistas e programas de televisão interessados em dar atenção a esses poetinhas.
Ia ser terrível. Fofoca. Só pode ser isso. A literatura precisava mesmo era de fofoca.
Novela. Sydney Sheldon. Jorge Amado. A literatura que os críticos odeiam. Brasileiro talvez leve demais a sério os críticos literários.
(Enquanto isso, a Linda está lendo um livro que estava na mesa do Roger: "Direito das Obrigações". Eu tomaria cuidado com essa gata.)sábado, 13/01/2007
O diabo não há!
Agora, que mais idoso me vejo, e quanto mais remoto aquilo reside, a lembrança demuda de valor - se transforma, se compõe, em uma espécie de decorrido formoso. Consegui o pensar direito: penso como um rio tanto anda: que as árvores das beiradas mal nem vejo... Quem me entende? O que eu queira. Os fatos passados obedecem à gente; os em vir, também. Só o poder do presente é que é furiável? Não. Esse obedece igual - é o que é. Isto, já aprendi. A bobéia? Pois, de mim, isto o que é, o senhor saiba - é lavar ouro. Então, onde é que está a verdadeira lâmpada de Deus, a lisa e real verdade?p. 343E pois.
Terminei.
(E essa edição pequena e quase-de-bolso 608 páginas que comprei na feira de livros da USP.)
De tudo, muito e um nada a dizer. Porque queria mesmo era poder ler esse livro sem saber o final. E lendo o final só pude saber que não sabia o final coisa nenhuma, por que o que é trama, histórinha, estorinha, Guimarães Rosa vira do avesso. E o livro não é só linguagem, sertanejo que fala torto e esquisito como muitos podem fazer parecer quando começam aqueles acadêmicos fazendo listas de neologismos roseanos. Porque só de palavras e linguagem não se faz coisa nenhuma. A linguagem do Guimarães Rosa não é a estrutura, não é tudo que resta.
Porque sim, de uma tradução de Grande Sertão: Veredas para o francês que, dizem, é das piores, muito se perde, é verdade; mas não tudo. Se tudo estivesse irremediavelmente perdido, que valor teria um Guimarães Rosa fora do Brasil? Por que se dar ao trabalho de uma tradução?
Claro que eu me contradigo, eu. Eu, que espalho por aí que não se pode ler James Joyce traduzido, pois sim. Nem se deve. Também não se deve ler Guimarães Rosa traduzido, eu não ia recomendar uma coisa dessas. Tradução é uma coisa toda muito tosca, que devia ser só permitida entre línguas muito irmãs, e com muita cautela. Mas não é bem disso que estou dizendo. De traduções estragadas já basta a que o Houaiss fez de Ulysses.
É que a linguagem é parte, é uma base. Em Grande Sertão: Veredas, ela é fundamental, porque dá o jeito certo e único de se contar alguma coisa. O sertão também. Não é um livro sobre o sertão e sobre jagunços, e regionalismos. Não é Graciliano Ramos. A história tem base em tudo isso, acontece bem ali, no sertão, e são jagunços, e o narrador é um jagunço. Mas é narrativa feita em camadas, para quem quiser olhar onde bem entender.
E pensando assim, não me espantam as pesquisas tantas que se fazem sobre os assuntos tão limitados: a linguagem, o sertão, o amor, a viagem, a travessia, o diabo, os neologismos. Há um formulário da FAPESP a se preencher, que há de ser feito?
Mas pro leitor, leitor que quer ler, eu tenho é impressão de que tudo isso só assusta. Digo, porque eu antes nunca pensei que fosse ler esse livro e gostar, de sair da última página e... PAF. Porque é um bichinho cheio de páginas e ninguém quer mais saber de história de jagunço sofredor andando por um mundão sem fim. E que mais ia se pensar ao se ler um título desses? Foge! Quê, não é nada disso. Não é livro difícil. Vá ler um conto de Tutaméia, de página e meia, e tentar fazer um resumo da estória antes de ler pela segunda vez. GS:V (sigla academicóide) pode ser meio assustador, pra quem nunca encarou um Guimarães Rosa na vida, mas passado o susto, basta prestar atenção no que se lê.
De tudo uma hora certa.
Mas o que acho, não hesito dizer. Que Grande Sertão: Veredas seja a grande obra prima da literatura brasileira? Venha brigar comigo se discordar.
O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos... Viver - não é? - é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo. O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca... O senhor crê minha narração?p. 585sexta-feira, 29/12/2006
Das leituras de 2006
Verdade que 2006 foi um tanto mais longo do que o imaginado, então fica até difícil descobrir que livros eu li ainda esse ano e que livros são de 2005. Na verdade sempre tenho esse problema. Era para ser um post das melhores leituras; se não são as melhores, são ao menos as que mais marcaram, ou as mais recentes, que são as que ainda não desapareceram da memória. Mas vamos lá.
Para começar, e tão insuspeito, Tutaméia, do Guimarães Rosa: o melhor. O livro é de 1967, mas quem se importa com isso? Eu faço faculdade de letras; naquele lugar, 1967 foi ontem. Estou ainda para encontrar alguém que desgoste de Guimarães com motivo que me convença. Para mim isso é coisa de quem leu crítico demais ou, pior, ficou ouvindo falar de diz-que-diz sobre Guimarães Rosa e a linguagem e os jagunços e o Museu da Língua Portuguesa.
Os passos em volta, Herberto Helder: louco de tudo, mas genial. Preciso comprar esse livro urgentemente. Li da biblioteca e já sinto a falta de alguns contos. E contos! Tenho pouquíssima paciência para contos que não sejam do Guimarães ou do Cortázar. Um conto que li esperando o atraso de meia hora da professora de latim (e acho que ela acabou não aparecendo) foi feito tapa na cara. Mas ah, transcrevi uns trechos melhores em um email para o Tiagón. O jeito é caçar o email.
(E aliás, emails do Tiagón, também, de melhores leituras, e aquele viado foi embora, desempregou-se, e que faço com os surtos de limão, agora, hein?!)
Mas ah, acho que não li muito do Cortázar esse ano, que não releituras do Histórias de Cronópios e de Famas e Todos os Fogos o Fogo. Ou foi? Comecei algumas coisas, dele, sortidas. E o Eduardo está com meu Jogo da Amarelinha.
Li um monte de Michael Connelly, porque o Alberto Tamer -- aquele economista, um doido, alguém aí lembra dele? -- me recomendou e insistiu, e porque não bastando a recomendação também me deu uns pockets do Connelly de presente. Tudo mesmo muito interessante, mas aquela ladainha de policial-bonzinho perseguido pelo resto da corporação-malvada chega hora que cansa. O Harry Bosch, detetive protagonista está sempre contra tudo e todos, a um passo de perder sua gun & badge, e no final tudo se resolve mas nem tanto, que ele acaba tendo que ser mandado em férias compulsórias para o México ou qualquer coisa assim.
Estou tentando lembrar o que li no primeiro semestre. Parece que foi no ano passado. Li um monte de coisa do Mário de Andrade, e sobre o modernismo, e... Foi. Tinha um do Mário da Silva Brito, esqueci o nome, e depois, também... Ah! Axel's Castle; O Castelo de Axel, do Edmund Wilson. Mas foi esse ano? Foi, só pode ter sido. Porque li quando apaixonei pelo modernismo e dei de caçar simbolistas. Magic! Ah, Edmund Wilson é um cara mui engraçadinho. Dei de encarar o Ulysses do Joyce por causa dele. Proust, ainda não.
Deixa pra lá tentar lembrar o que li no primeiro semestre. A partir do ano que vem vou fazer um balanço semestral de leituras, senão não rende.
Raimundo Carrero foi um que me surpreendeu. E na verdade li livro dele sem saber daquelas baboseiras de how to write a best selling novel in three days. Ou qualquer coisa próxima disso. Ah, sim. Não chega a tanto. Enfim. Li uma das três novelas de O Delicado Abismo da Loucura. Qual era mesmo? Sei que comecei lendo uma e pulei, mas aí a do meio, As Sementes do Sol. Sim. (Roubei, fui olhar na estante.)
(Nota: botar os óculos ao escrever posts que requerem a consulta de referências externas, que eu não enxergo mais nada a mais de trinta centímetros da fuça.)
Lembrei agora de uma novela que li em um dia, porque uma amiga da faculdade estava lendo para uma aula de literatura portuguesa, e fiquei curiosa. Chama-se Os Teclados, da Teolinda Gersão (belo nome, heh). Do tema, sei lá, a gente vôa por cima do tema. E tão singelozinho, que depois em um sebo vi outro livro da mesma dita, e era gordo e cheio de firulas descritivas, que saí correndo.
Também li muita coisa não-ficção, para a faculdade e não tanto, incluindo um livro muito bom do sô Schiller sobre tragédia, Teoria da Tragédia. Que não terminei, ainda, porque me desviei nessa de fechar o ano e fazer provas, mas como não conto não-ficção por leitura completa, boto na lista. Li muito não-ficção quando estava começando a escrever um tal livro que estou escrevendo ainda.
O melhor -- e mesmo uma das melhores leituras desse ano, livro que já estava me devendo a muito tempo -- foi o Mito de Sísifo, do Camus. Filosofia, que seja. Camus me veio na hora certa. Ano passado (tenho certeza, foi ano passado) eu tinha lido O Estrangeiro, da biblioteca, e agora estou querendo arrumar um para mim, que é para ter aqui e reler quando der na telha.
E nessa onda outros, tantos. Sobre tragédia, suicídio, psicologia, loucura. Porque o livro, seja. Outra coisa muito boa que é livro esgotado e encontrei um PDF foi o A Nau do Tempo-Rei, de um Peter Pál Pelbart. Tive que ler um dos ensaios para uma aula de literatura brasileira. Que não é bem ensaio de psiquiatria nem mesmo literário, mas fica em alguma faixa entre esses os dois e acho que a beleza está aí. E sobre loucos e anjos, como uma gente que não é bem gente e vive em um espaço entre-tudo. Alheados e desencaixados.
E desisto, porque quanto mais me esforço mais vou lembrando de outros que esqueci e vai ver nem era assim tão importante. Tem o Malone Morre, do Beckett, que eu praticamente levei o ano inteiro para ler, lendo, lendo aos poucos, e terminei ainda esses dias, quando estava esperando alguém me buscar ou, enfim. É um livro meio história-sem-fim, acaba nunca, e faz você se sentir um pouco como alguém da família daquele velho morrendo. E sendo da família você já nem dá tanta corda para o que ele fala, mas finge que está super interessado naquela história estranha do homem deitado na chuva com o chapéu na terra; você com um sorriso complacentíssimo. E então -- vou contar o final agora, mas eu juro que isso não muda em nada -- de repente o velho pira e na história que estava contando um dos personagens vai e mata todo mundo com uma machadinha e você pára e, huh? Aí acabou o livro. Beckett, ladies and gentlemen.
Mas, sim, ah, desisto. Não sirvo para memória cronológica de leituras. Porque livros que li da biblioteca ou emprestado nem estão aqui nas estantes para conferir, e não vou me lembrar jamais. Eu bem que podia ter nascido zeiner. Wisnar!
2006 acabou. Repara só. Acabou mesmo.
Ainda não terminei de ler o Ulysses. Depois de vergonhosamente pular parte de um capítulo que não vou contar qual, mas garanto que meu cérebro não desenvolveu capacidade mental o suficiente. Milton Ribeiro me apoiou e me senti melhor. Agora Bloom está mui bêbado, e vou ver se agarro o livro depois de umas Smirnoffs, se eu tiver coordenação motora para manter o bicho aberto.
Estou lendo Grande Sertão: Veredas. E estou lendo, mesmo, página 440 e tantos. Esse queria poder ler sem saber o final. Sem saber o tudo que já sei. (Se você ainda não sabe o final, corre ler antes que alguém te conte.) E esse Guimarães Rosa é incrível. Quando de repente você acha que ele vai começar uma narração chata de coisas repetitivas e jagunçagens, e tiros, e o-que-mais, o narrador solta então um 'ah, mas isso tudo não preciso contar', e vai divagando e te pegando leitor pela gola da camisa, e quando você se dá conta ele contou todo aquele trecho que era para ser uma chatisse e você nem percebeu.
Agora, chega. Teve baladinha-família ontem e eu tomei uns vinhos que me contra-atacaram hoje de tarde. Oopsy. Neosaldina!
E feliz ano novo a todos vocês.domingo, 03/12/2006
Os três homens e o boi e o autor que inventou todos eles
Enquanto eu fico aqui maxilar doendo de ansiedade bruxista porque terça-feira é só depois de amanhã (e também porque preciso entregar a prova de Literatura Portuguesa na terça e eu nem sei que diabos vou escrever), coloco aqui o meu trabalho de análise do conto "Os três homens e o boi" do livro Tutaméia, do Guimarães Rosa.
De um tanto pode parecer repeteco de coisa já postada. Mas porque se aquilo era o iniciar-se de idéias, isso agora já é idéia mais bem ajeitada. O possível. Ainda tem estrada pela frente.
E obrigada para a Renata pela revisão antes de eu colocar o bicho nas mãos da professora. Heh!
Pois.
A quem interessar Guimarães Rosa e Tutaméia eu peço opiniões. Coragem!
(A quem não interessar, pula uns posts e lê o release do meu livro Desumano, mor legal. E anota na agenda o lançamento, dia cinco, dia cinco, olha ali em cima!
ahhh! oooft.)
(O texto é grande. A professora pediu cinco páginas e eu fiz oito. Ela me perdoou.)
- * -
Guimarães Rosa abre o livro Tutaméia com o prefácio intitulado “Aletria e Hermenêutica”, que coloca ênfase em um definir de coisas pela negação, em chistes de anedotas. Abre: “A estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História” — e aqui com a maiúscula, a História ciência que se estuda, a História que busca a Verdade — “A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota”.
Esse prefácio ainda se fecha com: “O livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber”.
Ao leitor algo é proposto. Um encarar do livro pelo avesso. Nada é o que parece ser e, mais, nada é o que deveria ser; nada é o que o leitor espera que seja. O livro vale por aquilo que jamais poderia caber dentro dele.
Assis Brasil começa seu estudo sobre o livro dizendo:
Por uma coincidência muito estranha, João Guimarães Rosa deixa-nos, no último livro publicado em vida, Tutaméia (Terceiras Estórias), a chave estética de sua obra, um resumo “didático” de sua criação, através de quatro prefácios, onde o ficcionista “explica” o mecanismo de sua arte.1Irene Gilberto Simões aponta o estranhamento inicial que o livro causou quando foi lançado, em 1967, devido a um “’hermetismo’ da linguagem e da dificuldade de leitura que os contos ofereciam”2. As experimentações e “esquisitices” lingüísticas de Guimarães sempre estiveram no centro das atenções dos críticos e estudiosos do autor; por vezes fazendo-os criar listas de neologismos e expressões do autor. Mas, mais que isso, e principalmente em Tutaméia, parece-me que Guimarães utiliza essa sua linguagem particular como seu modo de mostrar — demonstrar — um mundo, de maneira que somente distorcendo a língua e causando o espanto e estranhamento poderia se provocar um abrir de olhos por parte do leitor; porque é esse espanto que cria a necessidade de uma releitura para que se capte o que existe por trás do que é narrado, o que está escondido no não-dito. Essa inversão ele nos propõe nesse primeiro prefácio, citando diversos exemplos que seguem a linha de uma definição de “metafísica”, atribuída a Voltaire: “É um cego, com olhos vendados, num quarto escuro, procurando um gato preto... que não está lá”.
Guimarães Rosa ainda nos deixa muito claro a necessidade de uma releitura — de uma reflexão sobre o que foi lido — quando apresenta os dois sumários do livro com duas epígrafes de Schopenhauer, sugerindo de maneira bastante explícita uma segunda leitura. O todo só pode ser compreendido a partir da segunda leitura, e a primeira deve ser feita com paciência e certeza de que “na segunda, muita coisa, ou tudo, se entenderá sob luz inteiramente outra”. Ele nos afirma que há mais por trás do que a primeira percepção pode nos dizer. E ainda assim achava graça criar uma perplexidade nos críticos, como disse Paulo Rónai em “Os prefácios de Tutaméia”.
Para o trabalho será feita uma análise do conto “Os três homens e o boi dos três homens que inventaram o boi”. Impossível fazê-lo, porém, sem algumas passagens rápidas por outros aspectos de contos significativos do conjunto.
E ao primeiro conto, “Antiperipléia”: a estória — com “e”, como manda o autor — é narrada em primeira pessoa por um guia de cegos que, após a morte de seu antigo patrão, pergunta a um suposto senhor se ele pretende levá-lo às cidades. Como narrado pelo guia de cegos, pode se supor que esse senhor é também um cego. E o guia, depois de lhe contar os ocorridos — existem desconfianças de que esse narrador tenha sido aquele que matou seu antigo patrão —, pergunta se aquele senhor ainda pretende levá-lo. E imagina-se que a resposta é sim, pois o narrador termina: “vou, para guia de cegos, servo de dono cego, vagavaz, habitual no diferente, com o senhor, Seô Desconhecido”. E aqui não seria o nosso autor nos pegando — o leitor, o senhor, o cego — pelo braço e dizendo venha, que te levarei por esses caminhos? Ele nos acompanharia pelas estórias que se seguem, aquele que enxerga, contando o que só se pode ouvir.
Cabe a nós confiar, ou não, nesse guia.
Um conto bastante comentado do livro, reconhecido por metalinguagem de toda uma literatura, é o “Desenredo”. A estória se faz por negativas. Jó Joaquim cria a inocência da mulher por uma decisão, e daí parte a des-falar o que, ao que sabíamos, havia acontecido. Ele cria uma verdade, sua, e expande-a para o povoado, até que a própria mulher também passa a conhecer essa verdade. E ela volta, livre de culpas. Ao mostrar o modo de criação de verdade de Jó Joaquim, Guimarães estaria nos indicando seu próprio modo de criação, sutilmente; negando aos contos uma participação na Verdade da História. O que existe é a Estória como verdade oculta de um outro plano da vida, um plano em que ela é algo de releitura da vida e da própria literatura, releitura do passado da tradição.
Há o parágrafo: “Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam-se. Deu-se a entrada dos demônios.” Os tempos são, aqui, releitura, reinterpretação, de tempos passados. Mais para frente: “Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente.” Sente-se reincidente de um crime coletivo, de um crime que a humanidade repete e sempre repetiu, pela história. E aqui a história com minúscula: a história que é também de tradições, da literatura e do mito. “Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fazer de louco.” Aqui a referência a Ulisses, personagem do plano mítico. E o narrador nos diz: “sábio sempre foi Ulisses”; e esse sempre indica algo de continuidade, das reverberações do mito na vida e na literatura.
O narrador de “Desenredo” nos apresentou, de início, uma verdade, para depois mostrar o desenvolvimento de sua negação, que cria uma segunda verdade. “Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?” Ele nos pergunta, intrometido que é. Mais certa? Talvez seja possível imaginar o narrador com um sorriso no rosto, dizendo que assim como o povoado acredita na realidade que Jó inventou, estamos também acreditando. Estivemos acreditando, todo esse tempo.
O conto “Os três homens e o boi dos três homens que inventaram o boi” também tem um narrador em terceira pessoa que acompanha a estória com alguns momentos de intromissão. Um boi inventado por três vaqueiros acaba por fazer-se lenda, acreditada. Ao final da estória, seus criadores se separam: um morre, outro vai embora para “afastado canto, onde homem cobrava melhores pagas” e um terceiro — que no começo não viu graça naquele inventar de bicho — permanece no foco do narrador, para chegar-se a uma roda de vaqueiros, e ouvir uma estória de um tal boi desafiado só por “três propostos vaqueiros”.
O conto começa: “Ponha-se que estivessem, à barra do campo, de tarde, para descanso”. Ao leitor que procura Verdades, não as encontrará aqui. Trata-se de uma suposição desde o início. “Então que, um quebrou o ovo do silêncio”. A imagem do ovo persiste. No conto “Curtamão”: “Todo ovo é uma caixinha?” Esse “ovo” pode ser encarado como algo da anedota proposta no primeiro prefácio: o ovo como um guardador de possíveis, com o que há dentro não-visto, mas previsto. No prefácio “Sobre a escova e a dúvida”, ele cria a imagem de uma manga, relembrando árvore de Tio Cândido: “Mais, qualquer manga em si traz, em caroço, o maquinismo de outra, mangueira igualzinha, do obrigado tamanho e formato”. E então: “cada mangueira dessas, e por diante, as corações-de-boi, sempre total ovo e cálculo, semente, polpas, sua carne de prosseguir, terebentinas”.
É, portanto, de um plano de possíveis — um plano do verossímil — que surge a figura do boi. “Assim o boi se compôs, ant’olhava-os.”
Nhoé, o terceiro vaqueiro do grupo, repele a criação, “por susto do real”. Nhoé está por demais preso à sua realidade para deixar-se aceitar uma criação de um imaginário, plano de referentes, que já lhe parece bastante complicado3. Ele teme a mistura desses dois planos, porque percebe que já a convivência exige “quentes falsidades”, e que “só por não perceberem uns dos outros o escondido é que venciam conviver com os afetos de concórdia”. Nhoé é homem de “severossimilhanças”.
Mas a figura do boi é contada a outros, em “prosa de gabanças e proezas”. Contam de um boi “desafiado só pelos três”, no que então o narrador afirma: “Se alguém ouviu o visto, ninguém viu o ouvido.” A posição do leitor, privilegiada pelo narrador em terceira pessoa, mescla-se por alguns instantes com a posição do povo que ouve a estória de Jerevo e Jelázio. Voltando ao primeiro conto, “Antiperipléia”, pode-se dizer que somos colocados diante da mesma posição daquele que precisa do guia de cegos para saber as verdades. Assim como o povo ouve a estória, o narrador a conta a um “ouvinte”; nós, leitores.
E a respeito desse do boi, “vero boi, recente, singular, descrito e desafiado só pelos três”, o povo desacredita, toma como mentira. Por outro lado, podiam crer em um boi-mito, “bicho-duende, sombração; nisso podiam crer, o vento no ermo a todos concerne”. Crê-se no boi se ele não estiver preso ao plano do real — plano este ao qual Nhoé encontra-se tão amarrado — e sim em um plano do que não pode ser visto, “o vento no ermo”; a estória. O que diz muito sobre o leitor, outra vez identificado com esse povo, que acredita no que é contado enquanto parte do imaginário.
Pode-se pensar que o próprio conto se nega, enquanto metalinguagem da criação. A narrativa nega-se como pertencente a um plano de Verdade, mas afirma-se como estória. Da mesma maneira que a palavra “hipotrélico”, assunto do segundo prefácio de Tutaméia, nega-se com neologismo. Do prefácio: “tratando-se de palavra inventada, e, como adiante se verá, embirrando o hipotrélico em não tolerar neologismos, começa ele por se negar nominalmente a própria existência”. Benedito Nunes usa a expressão “existência autonegada” e escreve: “Pois o hipotrélico, por ser o que é, nega-se a ser o que é. Antipodático, afirma-se ao negar-se e nega-se ao afirmar-se”4. Também sobre isso, Oliveira diz: “Dos episódios, do contexto do prefácio e suas glosas, da interligação mais ampla de todos os prefácios deduz-se que, para uma palavra existir, da mesma forma que uma narrativa, basta que ela seja dita”5. As estórias de Tutaméia desenvolvem-se dentro desse campo das palavras. O mesmo mecanismo que torna possível a criação de palavras — o “ovo do silêncio” — faz possível a criação de estórias e fábulas, e se elas foram criadas, elas podem existir.
Deveríamos então ficar surpresos quando, no final de “Os três homens e o boi” o personagem Nhoé encontra-se outra vez com aquele boi criado, na narrativa de outros vaqueiros?
Os contos de Tutaméia permitem um paralelo com as “Teses sobre o conto” de Ricardo Piglia. No início do ensaio, diz: “um conto sempre conta duas histórias”. E mais adiante:
O conto é um relato que encerra um relato secreto. Não se trata de um sentido oculto que dependa de interpretação: o enigma não é outra coisa senão uma história contada de um modo enigmático. A estratégia do relato é posta a serviço dessa narração cifrada. Como contar uma história enquanto se conta outra?6Piglia se refere a um tipo de conto que chama “conto clássico”. Sua tese não pode ser de todo enquadrada nas narrativas roseanas, mas penso que delas pode se tirar algum proveito. Paulo Rónai, quando comenta os contos em “As Estórias de Tutaméia”, menciona essa dualidade. Ele fala de um “inexistente” que “entremostra a vontade de se materializar”, “noutras peças, o que não é passa a influir efetivamente no que é” e também de outro grupo de estórias nas quais “por trás do enredo se delineia outra que poderia ter havido”. Guimarães Rosa cria planos de estórias. No conto “Os três homens e o boi” existe uma estória dos vaqueiros, contada pelo narrador, e existe a estória criada por esses vaqueiros. A nós é mostrado como elas se relacionam ao longo da narrativa.
Porque há o enquadramento da narrativa dos vaqueiros a respeito de um tal boi, e há o enquadramento do narrador, contando a estória dos vaqueiros. E isso fica ainda mais claro no título, que é um quando apresentado no sumário e outro quando na página do conto. No sumário: Os três homens e o boi. Aqui o narrador nos apresenta o seu enquadramento: trata-se da estória de três homens e do boi. Ainda não sabemos que boi é esse, mas dado o artigo definido “o” supõe-se que seja um boi específico, e não qualquer boi, comum. Em um segundo momento, com o título estendido, temos uma segunda parte: o boi dos três homens que inventaram um boi. Sabemos que boi é esse. É o enquadramento dentro do enquadramento; é a estória dos vaqueiros dentro da estória do narrador.
Irene Gilberto Simões propõe ainda uma leitura em três camadas desse título7, representando o caráter de fábula em “Os três homens e o boi”, a invenção da estória feita pelos vaqueiros em “O boi dos três homens” e a narrativa dessa estória pelo narrador em terceira pessoa em “Os três homens que inventaram um boi”.
No que as estórias de Guimarães Rosa divergem das teses de Piglia, penso que Guimarães, além dos dois relatos, apresenta, sim, um “sentido oculto”, dependente de interpretação. Piglia nega esse terceiro sentido. Trata-se de um plano simbólico da narrativa, existente entre os planos de real e imaginário. Ou, usando as próprias palavras do autor, no conto “Nenhum, Nenhuma”, de Primeiras Estórias: “o terceiro pensamento”.
Vê-se que o narrador do conto “Os três homens e o boi” se intromete no narrar, propondo reflexões. Esse processo permite ao leitor afastar-se da narração propriamente dita, para um outro plano, esse plano do simbólico. A respeito desse afastamento necessário, Schiller escreve, em um ensaio chamado “Acerca do uso do coro na tragédia”: “O coro abandona o estreito círculo da ação para se estender ao passado e ao futuro, a longínquas épocas e povos, a todo o humano em geral”8. Em um livro como Tutaméia, feito de não-ditos e de possíveis, onde o autor propõe ao leitor desde o início uma segunda leitura para que se faça compreender o que está escrito, a fala de Schiller me parece adequada.
No conto em análise, temos os momentos em que o narrador pára a narração dos fatos para apresentar comentários: “um quebrou o ovo do silêncio”, “de rês semi-existida diferente”, “o vento no ermo a todos concerne”, “ainda bem que o escrúpulo da gente regra as quentes falsidades”, “no de-dentro, as criaturas todas era igualadas; no de-fora, só pode não perceberem uns dos outros o escondido é que venciam conviver com afetos de concórdia”, “como não se remexe em restos”, “naquele certo lugar em ermo notável”. Também o modo que apresenta os acontecidos não o deixa isento de posicionamento. Para exemplo, tomo a frase que abre o conto como principal e outras: “Então que”, “Entanto, por arte de logo”, “De em diante”, “De certo modo. Mais para adiante, o Jelázio morreu, com efeito”, “Tão cedo aqui as coisas arrancavam as barbas”.
A pausa para a intromissão do narrador cria a possibilidade de uma outra leitura do texto, atraindo o leitor para o simbólico, para o terceiro plano da estória. Nunes escreve sobre uma espécie de ensinamento, o que coloca as estórias de Tutaméia em um plano de fábula ou mito: “Isso, se dermos a fábula o sentido de ensinamento indireto, que se extrai, por via de ações de pessoas, animais ou coisas, e se por mito entendermos, respeitando a etimologia, história que personaliza verdades ou princípios essenciais”9.
Simões afirma que a “realidade” da estória está ligada à “realidade” do narrar. O simples narrar é o poder para se fazer da estória realidade; outra realidade. Guimarães Rosa duvida da “realidade sensível aparente”, como diz no último prefácio, “Sobre a escova e a dúvida”. Ele nega a História porque cria a ela uma alternativa. Seria, então, outra realidade, como bem dito no conto Desenredo. “Mais certa?” Porque se trata do autor a todo o momento discutindo a relação do real com o imaginário, partindo em direção ao simbólico. A aceitação do simbólico é uma transcendência do que houve; do real.
Ao final do conto, é isso que faz o personagem sobrevivente Nhoé. Ele, que de início não estava interessado na criação do boi, achando ruim a inventação, é aquele escolhido pelo narrador para personagem central. Estando de fora, é ele que tem a capacidade de perceber o acontecido como um todo, desde a criação até o que é feito dela. E de certa forma, por ser nele que o narrador se prende, faz possibilitar ao leitor-ouvinte que perceba a fábula como um todo. O narrador tem o objetivo de nos mostrar algo, e não é à toa que a narrativa acompanha Nhoé. Também a escolha do nome não pode ser sem significação. Há a semelhança sonora com o nome do personagem bíblico Noé, sendo ele aquele que sobrevive ao dilúvio. Também: Nho-é. Quase como se esse personagem transcendesse sua função de simples personagem: aquele que é.
Há de se notar que, no final do conto dos “Os três homens e o boi”, o boi inventado acaba por tornar-se ainda mais real do que os vaqueiros. Enquanto eles envelhecem, morrem ou vão embora, o boi engrandece-se. Nhoé sequer possui qualquer tipo de poder sobre a criação dos companheiros. Resta a ele esvaziar-se: “suspirou se esvaziando”, e “Se prazia — o mundo era enorme”. O boi, criado suposição, da mesma forma que o narrador nos apresenta os vaqueiros, foi feito tão “real” quanto esses vaqueiros. E termina por torna-se mais real. Torna-se mito.
Piglia, ainda em suas “Teses sobre o conto”, menciona uma “teoria do iceberg de Hemingway”, em que “o mais importante nunca se conta. A história é construída de não-ditos, com o subtendido e a alusão”10. A estória paralela do mito do boi desenvolveu-se por esse não-dito — elemento recorrente em Tutaméia, como já comentei — enquanto o narrador nos acompanhava pelo “real” do personagem Nhoé. Mas Nhoé reencontra-se com o mito. O narrador fecha o conto com: “Inda que para o mister mais rasteiro, ali ficava, com socorro, parava naquele certo lugar em ermo notável”. Seria esse “ermo” o mesmo aquele no qual o vento “a todos concerne”? Porque esse ermo, no conto, esteve no começo como o lugar ao qual pertence o mito — o lugar onde pode se crer naquele boi “sombração”. E é nesse ermo “notável” que Nhoé se reencontra com o mito e aceita o simbólico da criação dos companheiros.
____________________________________1 BRASIL, p. 57.
2 SIMÕES, p. 19.
3 OLIVEIRA, p. 116.
4 NUNES, p. 206.
5 OLIVEIRA, p. 108.
6 PIGLIA, p. 91.
7 SIMÕES, p. 90.
8 SCHILLER, p. 79.
9 NUNES, p. 203.
10 PIGLIA, p. 91.
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Bibliografia e Referências Bibliográficas
ANDRADE, Ana Maria Bernardes de. A velhacaria nos paratextos de Tutaméia: terceiras estórias. Disponível em: http://libdigi.unicamp.br/document/?code=vtls000317257
Acesso em 14/11/2006BRASIL, Assis. Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Simões, 1969.
NOVIS, Vera. Tutaméia: Engenho e Arte. São Paulo, Perspectiva/Edusp, 1989
NUNES, Benedito. O Dorso do tigre. São Paulo, Perspectiva, 1969
OLIVEIRA, Luiz Cláudio Vieira de. “Com quantas palavras se faz um boi”. In. Via Atlântica, n. 4, p. 107-116, out. 2000.
PIGLIA, Ricardo. Formas Breves. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
RÓNAI, Paulo. "Os Prefácios de Tutaméia" e "As Estórias de Tutaméia". In: ROSA, João Guimarães. Tutaméia (Terceiras Estórias). 8ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
ROSA, João Guimarães. Tutaméia (Terceiras Estórias). 8ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
___________________. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
SANTOS, Adilson dos. “Os três homens e o boi dos três homens que fizeram o boi”: um conto metalingüístico. Disponível em: http://gel.org.br/4publica-estudos-2006/sistema06/46.pdf
Acesso em 14/11/2006SCHILLER, Friedrich. Teoria da Tragédia. São Paulo: EPU, 1992.
SIMÕES, Irene Gilberto. Guimarães Rosa: as paragens mágicas. São Paulo: Perspectiva; MCT; CNPq, 1988.
sexta-feira, 24/11/2006
De livros: Domingo.
E tenho sim minhas manias, quando se trata de literatura. Tenho cada vez mais o que gosto e o que desgosto, e o que de novos me parece inventação despropositada, para dizer que faz nova literatura e o passado está morto e esses que dormem abraçados com seus Bukowskis. Que se mereçam.
Li o livro Domingo., do Francisco Slade. É da editora 7Letras. Ah, o livro é bom. Tem umas coisas de livro cru, como que dando umas mostras de que ainda não é o melhor do autor. Ou então digo isso porque conheço o blog, e o blog faz a prova. Depois que mandei email para ele e ele respondeu mandando também umas sinopses de outros livros.
O Francisco escreve bem. Começar que acho que não adianta querer fazer literatura tendo uma história só bonita para contar. Porque história bonita e caso interessante meu porteiro Remildo também conta (nada se entende do que o Remildo conta, é verdade, mas ele conta). Não vou aqui dizer o que diabos é escrever bem, mas é coisa que se percebe. O livro -- primeira pessoa -- conta de um matador com um histórico meio torto de febres e um estranhamento com os domingos. Não gosta de trabalhar nos domingos. E é num domingo que precisa matar um sujeito e lhe vem uma febre. Aí, paf.
Mas o que é melhor mesmo é que o livro é tanto diferente de tudo que se vê por aí dessa gente publicando livro. Essas revisitações de Rubem Fonseca, que por si já é a todo tempo revisitação dele mesmo. E o Francisco Slade, penso, alguém a se ficar de olho para o que ainda pode fazer.
E pra constar: comecei a ler o Grande Sertão: Veredas. Ah! Problema é que com livro muito pesado minha mão começa a formigar e nunca encontro posição boa para ler. Aí não duro muito mais de 50 páginas por vez. Escritor brasileiro bom é o Guimarães Rosa. De literatura.quarta-feira, 22/11/2006
Portugal Telecom e a feira de livros da FFLCH
Ricardinho Lísias ganhou o Portugal Telecom. Em terceiro lugar. Hoh; well. Eu quero mesmo é saber se ele foi pro prêmio com o figurino que eu planejei para ele, todo muito moderno e descolado. Oras.
O livro -- Duas Praças -- eu li até a metade. Depois li o fim. Perdi, em algum lugar, no caminho, e me aborreci um pouco quando começou no meio da história aquela mulher louca xingando deus e tudo e todos.
Do Hatoum -- que ganhou o primeiro lugar com o livro Cinzas do Norte -- eu comecei o Dois Irmãos -- minha irmã que se foi para a terra dos coalas deixou aqui alguns livros, e não faço idéia de por que ela tinha esse; vá lá que tivesse uns Gil Vicente e José de Alencar, que ela gostava de coisas estranhas -- mas, oh. É bom, o livro; sim, com uns momentos de "blanghr?" porque parece por vezes que brasileiro tem umas de se orgulhar de coisas feias e ficar expondo elas por aí. Não, mas veja; quero dizer. Não li o livro todo porque de repente começou uma digressão sobre um personagem que não me interessava, aí desisti.
E, ah. Feira de livros na FFLCH. Comprei A Montanha Mágica, O Homem Sem Qualidades e um Grande Sertão: Veredas. E Domingo., do Francisco Slade do blog Seu dinheiro de volta. O blog é bom. O livro, saberei.
Mas! Todos esses livros da editora Nova Fronteira metade do preço de livraria. Lindo.
E cena que você não vai ver
Olivia
não tem acento. Olivia não tem critérios. Olivia não existe. Olivia talvez
seja fruto da sua imaginação. 

(E essa edição pequena e quase-de-bolso 608 páginas que comprei na feira de livros da USP.)
