quinta-feira, 18/10/2007

portugal telecom

do Ondjaki, que por um acaso estava na USP ontem:

"ah, depois que anunciaram o terceiro lugar eu tive certeza que não ia ganhar nada mesmo."

terça-feira, 09/10/2007

ah, a glória

viva o mercado editorial.

sexta-feira, 05/10/2007

esse mundo literário

"Quem vive de literatura não faz literatura." -- do Evandro Affonso Ferreira, escritor.

sexta-feira, 14/09/2007

retomar Borges

não terminei de ler o Ficções porque desenvolvi um certo medo de Borges.

esses dias reli o "A forma da espada", um dos contos que mais me assustou. ok, me assustei um pouco menos. talvez Borges não seja tão assustador. talvez eu seja capaz de ler esses contos sem me sentir sendo arrastada para um labirinto do qual eu jamais serei capaz de sair.

talvez seja o momento de retomar Borges.

segunda-feira, 10/09/2007

jogo 3 na copa de literatura brasileira

está no ar a minha resenha para a copa.

o jogo é "Música perdida", do Luiz Antonio Assis Brasil, contra "O segundo tempo", do Michel Laub. acho que todos deveriam ler e comentar e reclamar. e, mais do que isso, ler o livro vencedor. porque vale a pena demais.

segunda-feira, 03/09/2007

o motivo que faltava

mais uma vez a literatura independente, até vocês não agüentarem mais e gritarem "chega!!" enquanto arrancam os cabelos

ou: "a gente só sabe o que vai ficar da literatura atual daqui a seis séculos"

hoje soube quantos exemplares de "Desumano" foram vendidos desde dezembro do ano passado, quando o livro foi lançado.

o livro vendeu muito bem no dia do lançamento, e mesmo a mocinha da Livraria da Vila veio me dizer que era um número surpreendente. agora não me lembro exatamente se era 84 ou 94. tinha um 4. mas sim, um monte. e agora, depois de pouco mais de seis meses? mais ou menos o dobro disso. no total, contando com aqueles do lançamento.

ora, ora.

não vamos entrar no mérito do meu livro. eu mesma sei que o bichinho tem suas falhas, e a cada dia percebo falhas novas.

mas então pra que mil cópias, e pra que todo esse caminho irritante e assinar contrato e receber 8% das vendas? que troço estúpido. que desperdício de papel. é só uma literaturazinha policial sem vergonha que quero mostrar a quem interessar. não tenho vocação para vendedora nem para política. aliás, minha única vocação é escrever.

Alex Castro sempre que comenta de suas muitas vendas e resenhas, termina com um "e daí?". porque o livro não foi publicado por editora, etc, etc. ok, ok. pergunto eu: uh, editora. mil exemplares! vendeu menos de 20%. pra quê?! só mesmo para eu me dar conta que era um troço muito à toa. ritual de passagem? não vale a pena morrer por ele.

reclamo mesmo. porque dá uma raivazinha. porque eu acreditei (em algum momento em acreditei). deixe-me aqui que me viro, eu e meus leitores. há muita literatura muito mais interessante que a minha por aí, não quero ser nenhuma revelação ou a mais nova autora da literatura brasileira. que merda.

fama e reconhecimento todo mundo quer. mas ficar correndo atrás é bem idiota.

como disse meu amigo Rogério, numa discussão de quinta-feira de manhã sobre Homero, Safo e Dante, "a gente só sabe o que vai ficar da literatura atual daqui a seis séculos".

começou a copa de literatura brasileira

a primeira resenha está no ar. "Mãos de cavalo" X "Por que sou gorda, mamãe?", por Renata Miloni.

não li nenhum dos dois, mas claro que fiquei surpresa com o resultado.

de qualquer forma, não tive vontade de ir adiante na leitura de nenhum dos dois livros, quando em livrarias comecei a ler as primeiras linhas. e tenho uma certa mania com as primeiras linhas de um livro.

enfim. leiam a primeira resenha e assinem o feed do site para as próximas. a minha partida é a terceira. em muito breve. uh!

quinta-feira, 30/08/2007

a literatura brasileira

a verdade é que tem certos autores que estão por aí fazendo sucesso, e eu devo dizer que alguns dos meus alunos de ensino médio (ok, não são meus alunos propriamente ditos, mas vou chamar assim para efeito didático) escrevem muito melhor que. não que os que fazem sucesso sejam ruins. é só que não são lá grande coisa. mas é que parecem que não estão se esforçando. parece que querem mesmo é fazer o novo, fazer diferente, etc. ao invés de querer fazer coisa boa. fico pensando, e me lembrando de uma conversa que uma vez tive com um desses novos que fazem sucesso e ele falou que olha só estou tendo essa idéia e quero fazer um texto assim diferente. ou então outra vez que eu mostrei uma idéia minha para um outro e a resposta foi "ah, mas isso já foi feito".

só queria saber isso. estão se esforçando? eu sei que me esforço, e sei que ainda não sou tudo o que ainda gostaria de ser. se vai servir de alguma coisa, o esforço? nem sei. mas como disse Cortázar, para lutar contra o pragmatismo e a horrível tendência à consecução de fins úteis, etc. ah. ontem li esse conto ("perda e recuperação do cabelo", em Histórias de cronópios e de famas) para a quinta-série, foi bem divertido. eles acharam o primo do narrador um idiota inútil, mas enfim. crianças.

mas como eu ia dizendo.

a verdade é que quanto mais ouço falar de literatura brasileira atual mais fico com raiva de querer fazer parte dela (pretensões, pois sim, faço parte). e o que essa gente da mídia fica falando, os "novos autores", a "geração 00", e que blog é literatura e literatura é blog. que horror, que horror.

eu até fico com vontade de ler mais do que há por aqui, mas quase sempre não dá gás continuar a leitura.

o que me salva é que desde que entrei na faculdade de letras me dei conta que era preciso ler apenas aquilo que me interessasse, e que nunca era preciso terminar de ler um livro simplesmente porque comecei. mas vá ver: nunca pensei que fosse ler qualquer livro de literatura angolana e gostar. a literatura angolana em comparação com a brasileira de hoje, ainda, com coloquialidades e essa escrita meio torta, ainda tem a vantagem de aquela linguagem ter algum significado, o que na brasileira já não serve como desculpa. Bom dia camaradas me disse muito mais que, ham, o último livro brasileiro que li, aliás, para a Copa (o resultado da minha partida vocês saberam, em tempo).

mas já estou me desviando.

era mesmo só para dizer que... às vezes eu fico até frustrada. pobre Mário de Andrade.

quarta-feira, 22/08/2007

nas capas de livros

um jeito de perceber o quanto um autor é mais valorizado pelo seu nome do que pela sua obra é medindo o tamanho de seu nome na capa do livro em comparação com o título da obra.

se tanto, é ao menos um indicativo do que a editora tem a dizer sobre o que está publicando.

terça-feira, 21/08/2007

do Bernardo de Carvalho e a entrevista lá

ok, ok. todos já comentaram sobre essa entrevista que Bernardo Carvalho deu para o Rascunho. eu, confesso, comecei a ler pensando: ah, ah, esses escritores que falam, falam, falam. mas aí eu parei de reclamar e li, e vi que a entrevista é toda mesmo muito boa, e muito cheia de verdades, e que vale a leitura.

do final, quando ele responde aquela irritante pergunta do "por que escrevo", colo aqui o que ele disse e que eu poderia ter dito, e que, imagino, muitos outros também. e ele diz, brilhantemente, que é toda a razão para eu continuar insistindo e batendo a cabeça incapaz de fazer qualquer outra coisa, e que também é o motivo pelo qual eu, apesar da birra, fui e li a entrevista até o fim, para me surpreender:

Eu escrevo porque não daria para não escrever. Não sei explicar. Quando eu não escrevo, fico agitado. Mas não é terapia. É fundamental, é a minha vida. É mais importante que qualquer outra coisa. O chato é quando vejo que é uma ilusão. Uma ilusão que eu criei para mim, mas é uma ilusão que dá sentido para a minha vida. Acredito nesse negócio. Tem um negócio meio religioso. Igreja de um homem só. Vou lá, rezo, e acredito naquele negócio. E funciona. Não acredito em Deus, não acredito em nada. Em alguma coisa, eu tinha de acreditar. E, aí, sobrou a literatura. É ótimo. Agora, não dá para ficar sem. Igual a uma pessoa que acredita em Deus e não consegue passar sem essa crença. Tem de acreditar que Deus existe. Eu acredito na literatura. É uma ilusão. Cada um arruma uma forma para viver. A literatura é a minha.

bestas literárias

eu logo saquei que Saramago era uma besta quando assisti a sua ilustre participação no filme "A janela da alma" e ele veio com o mito da caverna. e porque claro que Lobo Antunes tem bastante razão quando disse a um auditório de brasileiros e literatos que "para o Brasil, Saramago está mais que bom".

segunda-feira, 20/08/2007

outras considerações sobre a literatura policial

porque esses dias conversando com o Alex Castro e não chegando a nenhuma conclusão sobre o que é, afinal, a literatura policial, só tive certeza que dificilmente seria possível, de fato, chegar a alguma conclusão sobre o que é literatura policial.

digo: pode ser um gênero demais limitante, que prevê regras estritas, e assim excluímos tudo que há de diferente do modelo de Poe (e meu livro Desumano, certamente, jamais poderia ser um romance policial, e mesmo o romance negro, que Dashiell Hammett inventou, começa a escapar demais do que deveria ser a história de detetive).

e se vamos então expandir a definição para acolher tudo que hoje chamamos literatura policial, vai ser necessário dizer que Hamlet e Édipo Rei eram também histórias policiais. Não?

ou começar a desmembrar o gênero, criar subgêneros: histórias clássicas de detetives, romance noir, crime fiction...? sem contar as histórias de bandido. em inglês, chamam. há detective stories e há crime fiction. e há também um monte de outras coisas, porque eles adoram botar nomes em tudo. mas o que a gente faz com isso que chamam alta literatura e sem querer se encaixar um pouco nos específicos do gênero? o que faz com Édipo Rei, e Hamlet, Crime e castigo, O estrangeiro ou alguns contos do Borges? o que faz com todos os crimes da literatura universal? e com as investigações? e com o mistério e o suspense?

hoje um colega do trabalho me perguntou qual eu achava a melhor história policial de todos os tempos e antes que eu respondesse sugeriu: "Crime e castigo?"

será que história policial é mesmo um troço tão alienígena e periférico? ou então que seja só esse nome, com "polícia" no meio, que faz parecer que não pode ser nada muito digno de uma boa literatura? e será que vale ficar por aí tentando definir ou agrupar coisas diversas, querendo botar Hamlet e O assassinato de Roger Ackroyd no mesmo saco só porque morre gente no meio da narrativa e há um personagem tentando descobrir o que aconteceu?

quarta-feira, 08/08/2007

e a literatura policial

Sobre gêneros, uma vez li do Todorov (em uma edição que ainda bota acento em "êle"):

Poder-se-ia dizer que todo grande livro estabelece a existência de dois grandes gêneros, a realidade de duas normas: a do gênero que ele transgride, que dominava a literatura precedente; a do gênero que ele cria.

Existe, entretanto, um domínio feliz onde essa contradição dialética entre a obra e seu gênero não existe: o da literatura de massa. A obra-prima habitual não entra em nenhum gênero senão o seu próprio; mas a obra-prima da literatura de massa é precisamente o livro que melhor se inscreve no seu gênero. O romance policial tem suas normas; fazer "melhor" do que elas pedem é ao mesmo tempo fazer "pior": quem quer "embelezar" o romance policial faz "literatura", não romance policial.

no capítulo "Tipologia do Romance Policial", em As Estruturas Narrativas, de Tzvetan Todorov

Eu escrevo literatura policial, e acho mesmo que é gênero menor. Ora, é gênero.

Leandro Oliveira escreveu sobre os defeitos da literatura policial. Por resposta Marco Polli fez a defesa. Claro que vou mais concordar com o segundo, ainda que o primeiro tenha lá seus pontos. Nos comentários do Leandro o Osrevni falou: "quando o livro é bom e aborda questões que vão além do mistério, o leitor, e principalmente a crítica, tende a esquecer que é um policial e chamar de outra coisa". Que aí vai pros lados do que falou o Todorov. Não enfeita demais, que aí é outra coisa. E será que não é mesmo?


Não?

Então leiam o Alexandre, em defesa das histórias de detetives.


E no ar o capítulo três do meu folhetim, que agora tem o título temporário "A última peça", até que eu me convença do contrário.

domingo, 05/08/2007

e mais da literatura independente

Do tanto que falei no bate-papo com Julio Daio Borges, tenho certeza que não estou sozinha.

E Branco Leone, uns dias atrás, falando dessa gente baixinha querendo se fazer notada, essa gente que escreve porque não poderia estar fazendo outra coisa e não pode esperar sentada a boa vontade do mercado editorial e da mídia. Depois fez também comentar a entrevista, enquanto não vamos querer deixar o assunto morrer.

Também Valter Ferraz falou um tanto sobre tudo isso.

Mais alguém?

Meu orgulhosinho é que, procurando por "literatura independente" no Google, há lá meu primeiro post sobre o assunto, em terceiro lugar e só depois do site Os Viralata, do Branco. E era post que eu, enquanto escrevia, fiz mandar email pro Tiagón dizendo: "vou fazer um post que tenho certeza que se pensar demais não vou postar coisa nenhuma". A resposta foi: "corre!".

Mas, enfim. Tem que deixar a coisa ecoar.

quarta-feira, 01/08/2007

no digestivo cultural

Julio Daio Borges, do Digestivo Cultural, lançou-me algumas perguntas sobre mercado editorial, publicar em papel e o que eu poderia ter a dizer sobre isso. E publicou as respostas no blog do Digestivo. Leiam lá e deixem comentários. A discussão tem que crescer.

Né.

terça-feira, 31/07/2007

mais copa de literatura brasileira

porque da copa de literatura brasileira claro que era esperado que alguns inconformados se manifestassem contra. dizer que é idiota, que é obaoba, que é oportunismo, vá lá. mas difícil mesmo é conseguir compreender esses motivos (menos o post, mais a discussão, que se segue).

e eu só posso mesmo dizer: vocês não estão entendendo nada. o problema do nome da coisa não é o "copa" e sim o "literatura". seria? é.

mas me parece que quem bate o pé e diz que literatura tem que ser arte é a mesma gente que diz que sua banda preferida precisa ser obscura e não pode cair nas garras da mídia e da ignorância do povo. é gente que diz que não lê os autores novos porque já existem velhos o suficiente e são afinal muito melhores e consagrados pelo tempo. aliás, tenho muitos amigos que dizem isso, mas sabe o que posso concluir? é gente rabugenta, oras, oras. gente chata. deixa essa gente.

ok, ok, literatura pode ser arte. mas não PRECISA ser. quero dizer, só porque literatura é arte a gente não pode brincar com ela? tem coisa que para mim é arte e entretenimento. entretenimento só é um troço estúpido quando é para gente estúpida. gente estúpida se diverte assistindo domingão do faustão. por que eu não posso me divertir com literatura? ah, sim. literatura é arte. não pode. senta aí e lê, porra. em silêncio! shuuush!

a copa é um jogo de opiniões, por que não seria? por que a gente precisa encontrar um jeito para não ser? se alguém ESCOLHE alguma coisa, tem opinião no meio. a gente só vai dar umas justificadas, ou, mais que isso, explicadas. quer dizer, a gente vai dizer: escolho esse, porque isso. pode ser o mesmo motivo que um outro não escolheria, mas que vai fazer? fazendo um paralelo infeliz, imagina a copa de futebol: imagina que o brasil não chegue à final justamente porque saiu em segundo do grupo, sei lá, e dá de topar com a argentina na semi-final, e o roberto carlos se abaixa para arrumar a meia bem no momento que não devia. e o brasil perde! que bosta! se não fosse a argentina podia ser a inglaterra, e vai que a gente ganhava. ou só pegava a argentina na final e ficava em segundo lugar! o livro, coitado, caiu nas mãos de um jurado rabugento e perdeu a viagem.

é que ninguém gosta dos outros escolhendo pela gente, não é? e se for escolher, que seja alguém importante com renome e tudo. aí pode. o antonio candido pode escolher o melhor livro do ano! se não, eu quero escolher o MEU livro do ano, não é? claro que quero. eu sei que eu quero. aí vem esse bando de BLOGUEIRO pretencioso da puta que pariu dizer que vai escolher o melhor livro do ano em um torneiozinho sem-vergonha baseado em gostos e umas justificativas duvidosas de gosto. vá à merda!

ora, ora. tem gente que não acredita no oscar, tem gente que não acredita no jabuti. você pode acreditar no que quiser. o lucas teve a idéia e agora vamos brincar de ser jurado. oba. a quem interessar a discussão, as partidas serão transmitidas. quem leu esse ou aquele livro e acha que ele é sensacional, pode ir atrás das partidas para ver o que um outro fulano está falando sobre ele.

eu entrei porque achei boa a idéia de conhecer um pouco mais os autores novos, já que nunca fico sabendo de nenhum deles. e porque o lucas falou quem já tinha topado e pensei mais ainda: oras, se eles toparam, por que não? com esses caras, o negócio só pode ser bom. maridão achou idiota, eu disse a ele: bah, chato.

não acho que valha a pena o vencedor GANHAR qualquer coisa, justamente porque o prêmio não é democrático e porque não é imparcial e porque quase não é sério. porque a copa na verdade vão ser resenhas comparativas. eu mesma nunca gostei de comparações, ouvir gente dizer, afirmar e bater o pé: james joyce é melhor do que guimarães rosa, ou o contrário. por isso que o prêmio PRECISA ser uma coisa de opiniões, e a única graça dele são as opiniões. as pessoas todas acham que prêmios precisam ser imparciais e que torneios precisam ser baseados em quem é o unanimamente melhor de todos. tem gente que não gosta de beatles e guerra nas estrelas. o que você poderia esperar? pois bem. o lucas fez esse prêmio PELAS opiniões.

aí vem alguém dizer: o vencedor NÃO vai ser o melhor livro do ano. claro que não! o melhor livro do ano talvez tenha sido publicado por uma editora obscura, teve uma distribuição PORCA e você nem ficou sabendo da existência dele. o vencedor desse torneio vai ser um que teve algum mérito e alguma sorte. mas o quê; você esperava diferente?

quarta-feira, 25/07/2007

meus mais queridos escritores

E agora vou falar dos meus escritores mais queridos. Porque hoje é dia do escritor, e esses são os escritores que de um jeito ou outro mudaram um pouco o meu encarar a literatura e a leitura.

(Ok, o dia do escritor está acabando, mas como era só desculpa, ninguém vai nem reparar nesse tão pequeno detalhe.)


do Guimarães Rosa:

Eis o melhor escritor brasileiro. Não penso duas vezes para afirmar que "Grande Sertão: Veredas", é a grande obra literária brasileira. E sei que uns fãs de Machado vão me olhar feio quando eu digo isso. Mas digo, redigo e bato o pé. E olha, que fui ler esse livro agora, nas últimas férias de janeiro.

Conheci Guimarães Rosa no meu terceiro ano do colégio, porque "Primeiras Estórias" estava na lista da Fuvest. Foi na verdade quando comecei a gostar de literatura. Tive um professor sensacional, que estava sempre atrasado em suas análises porque passava metade da aula falando de Proust e do tempo perdido. Foi nas aulas dele que me apaixonei pelo conto Nenhum, nenhuma, mesmo sem entender nada do que estava escrito ali.

"Infância é coisa, coisa?"

Gente, que era aquilo. Recentemente me deparei com um ensaio da Leyla Perrone-Moisés, uma análise psicanalítica do conto chamada "Nenhures: considerações psicanalíticas à margem de um conto de Guimarães Rosa". Está no livro "Flores da escrivaninha", que fui ler quando pedi para minha professora de Literatura Brasileira me passar todas as análises desse conto que ela conhecia. E foi de repente toda aquela sensação que o Guimarães Rosa descreve, aquele quase-lembrar, e todas as minhas aulas de literatura do terceiro ano volta-voltando bem aos poucos. Ah! Meu professor se guiava por aquela análise! Estava tudo lá! E que ela cita, do texto: "Tem horas em que, de repente, o mundo vira pequenininho, mas noutro de-repente ele já torna a ser demais de grande, outra vez. A gente deve de esperar o terceiro pensamento".

Esse terceiro pensamento, toda a obra de Guimarães Rosa. Ah!

Foi nas aulas de Literatura Brasileira II, com essa professora que me apresentou o ensaio da Leyla Perrone-Moisés, que descobri o "Tutaméia". Aí, pirei. E curioso ainda que no começo das aulas estava há muito tempo sem encostar em Guimarães, achando que o amor da professora era só um exagero porque afinal James Joyce já tinha feito tudo aquilo tantos anos antes. Quem diria, então.

"Tutaméia" é o último livro do Guimarães publicado em vida, e o melhor de todos. Tenho ainda um projeto de iniciação científica para provar minha predileção. Porque eu entrei na faculdade muito decidida a me manter bem longe dessa vida acadêmica, a não ser que. A não ser que "Tutaméia", é o que posso dizer. O quê dizer? Um livro de avessos, de não-ditos, feito por possíveis. As terceiras estórias. E as segundas, você pergunta? Eu posso arriscar uma explicação, mas certeza eu só tenho uma: ele sabia muito bem o que estava fazendo.


do Julio Cortázar:

Conheci Cortázar quando minha avó Suzana (a que é cineasta) resolveu que eu devia conhecer Cortázar. Fiquei com essa idéia na cabeça, mui vagamente. Topei com "Histórias de cronópios e de famas" em um sebo ali na Augusta e, apesar da capa horrenda, comprei. Que, eu nem sabia dessas coisas de literatura fantástica, cronópio cronópio. Aquele conto Perda e Recuperação do Cabelo mudou minha vida.

Para lutar contra o pragmatismo e a horrível tendência à consecução de fins úteis, meu primo mais velho defende a prática de arrancar um bom fio de cabelo da cabeça, dar-lhe um nó no meio e deixá-lo cair suavemente pelo buraco da pia.

Não é que toda aula de literatura deveria começar com isso? Sim, contra "a horrível tendência à consecução de fins úteis", porque afinal só mesmo por isso que a gente estuda literatura. E não? Mas, assim como "Tutaméia", "História de cronópios e de famas" é um desses livros que nunca acaba. Os contos são muito curtos, e são muitos. A releitura sempre surpreende.

Pois aconteceu que comentei com minha avó que tinha gostado muito do livro, e ela me botou 50 reais na mão e disse que era para eu comprar livros do Cortázar em sebos.

Obedeci.

"Todos os fogos o fogo" é outro livro de contos que todos sempre comentam. Dizem que é o melhor, e capaz de ser mesmo. O conto A auto-estrada do sul te derruba logo no começo. Que diabos esse cara está fazendo?! É sensacional. Também gosto demais do A ilha ao meio-dia. Principalmente do final. Das últimas palavras. Toda vez que leio sinto um arrepio. Dos melhores contos.

Com o Cortázar eu aprendi que não precisava escrever difícil para escrever bem. E isso, para mim, foi fundamental. Porque veja só, é tudo questão de ordenar as palavras. Ah! Ainda que eu nunca consegui ler nada em espanhol e era tudo tradução.

Então uma amiga minha disse que eu tinha que ler "O Jogo da Amarelinha". Eu não queria, não queria. Tinha medo, achava que devia ser uma bobagem. Gostava demais dos contos para estragar com um romance desordenado. Mas. Dia desses fui com ela fazer um tour pelos sebos do centro, e o livro gritou para mim. Comprei. Li.

"O Jogo da Amarelinha" é o livro da minha vida. Não é nada desordenado e essa de que você pode ler numa ordem torta não é assim tão verdade. O que acontece é que você pode intercalar a história com outras partes. Partes que talvez sejam, ham, inúteis. E por isso é tão bom. Quando estava chegando ao final do livro, não queria terminar de jeito nenhum. Estava, as últimas páginas do último capítulo e eu não queria parar de ler, não queria que o personagem acabasse. E o personagem, o Horácio, um tipinho maldito; você só vai começar a gostar dele no final, quando, penso eu, ele começa a enlouquecer. E então de repente o livro está acabando e tudo que eu podia pensar era que não, não, mas não pode acabar agora, o Horácio não pode acabar justo agora. Devo ter levado uns três dias para ler esse último capítulo.

No meu aniversário desse ano ganhei "Prosa do Observatório", do el_Rey Tiagón. E o texto é tão sensacional que eu precisava parar de ler de vez em quando para deixar as frases ecoando na cabeça. Só: "Jai Singh quer ser isso que pergunta, Jai Singh sabe que a sede que se sacia com água voltará a atormentá-lo, Jai Singh sabe que somente sendo a água deixará de ter sede".


do James Joyce:

Ah!

Numa dessas de andar por sebos topei com um livrinho da Penguin chamado "The Essential James Joyce". Nele, "Portrait of the artist as a young man", "Dubliners", uns trechos do "Ulysses" e do "Finnegan's Wake", uma peça chamada "Exiles" e alguns poemas. Pensei que era um bom jeito de conhecer o sujeito. Porque cedo ou tarde eu ia ter que.

Comecei pelo "Dubliners" e achei meio chato. Passei para o "Portrait of the artist as a young man" e o James Joyce logo ganhou lugar na minha lista de escritores favoritos. No começo eu não entendia nada, mas aos poucos fui me dando conta das coisas que aquele cara fazia com o texto. Li mais ou menos ao mesmo tempo em que lia "O Jogo da Amarelinha" e ao mesmo tempo também que arriscava escrever um romance não-policial. Mudou demais o como eu escrevia, essa mania estranha que a gente tem de ficar obedecendo tudo que o Pasquale manda, essas vírgulas todas que aprendemos nas aulas de redação (e que eu, invariavelmente, ainda corrijo nos coitados dos alunos).

Também em algum momento nesse tempo que li o livro do Edmund Wilson, "Axel's Castle", sobre os simbolistas. Há um capítulo sobre James Joyce. James Joyce ainda era vivo e Edmund Wilson conta que Joyce está trabalhando em uma nova obra, que "is to deal with the night and with subconscious". Mas, ah! Esse livro do Edmund Wilson é bom demais, verdade seja dita. O ensaio sobre James Joyce vale muito a pena.

Na verdade o que me encanta no James Joyce é o quanto eu posso pirar nas palavras dele mesmo perdendo um monte do que diabos ele estava querendo dizer. As traduções são todas muito ruins (ou pelo menos limitadoras, como sempre seriam, e no caso do James Joyce fica tudo muito pior) mas nem sempre eu vou conseguir entender aquele inglês torto dele. Depois do "Portrait of the artist as a young man" fui ler o "Ulysses". Ainda não li tudo, mas já reli um monte de coisa. Ah, e passei da página 100, muito obrigado. Também já li todo o monólogo final, porque eu estava curiosa demais e não poderia esperar. Um dos capítulos do meio, Cyclops, é o que mais gosto. Aquele monte de coisa acontecendo, monte de gente falando, e o narrador que pára de repente de narrar para contar alguma história que aparentemente nada tem a ver com o que está se passando, e na verdade ele parece estar só tirando uma com a sua cara. James Joyce é todo linguagem.

E enquanto isso, vou ganhando fôlego e coragem para enfrentar o "Finnegan's Wake" que maridão me deu de presente.


Eis que. Não vou falar do Mario de Andrade agora. Sim, gosto demais de Mario de Andrade, mas muito mais pelo trabalho como crítico e pensador da literatura. Gosto dele como poeta e conheço muito pouco dele como contista.

Mas. São esses três mesmo os meus mais queridos escritores. Porque são também mentores e sempre aprendo alguma coisa em leituras e releituras. E porque, como já nos ensinou Cortázar, vez ou outra é muito importante lutar contra o pragmatismo e a horrível tendência à consecução de fins úteis.

terça-feira, 24/07/2007

de véspera

Em resposta ao chamado do André, e para o dia do escritor (que é amanhã, dizem por aí), minhas respostas, ou os meus 10 gritos para o mundo.

E então também convido vocês aí a responderem também em seus blogs respectivos (eu juro que queria fazer uma chamada personalizada, mas eu estou com uma preguiça tão grande de ficar copiando e colando links). Ou então a escrever sobre seus escritores mais queridos. Ou os dois. Ou então a fazer um comentário simpático, para me deixar feliz.

Né.

(Amanhã é que escrevo sobre os escritores. Mas já entreguei numa das respostas quem são eles. Ok, matei a graça. Ops.)


1. Que livro você está lendo?

Suspeitíssima para responder. Agora estou dividida entre The life and opinions of Tristam Shandy, do Laurence Sterne, Viagens na minha terra, do Garret, e 101 redações de alunos do primeiro ano do ensino médio com uma resenha crítica sobre o filme Othello de 1995, do diretor Oliver Parker. Ops.

E ansiosamente esperando chegar o Prayers for rain, do Dennis Lehane, que comprei pela internet, e vou ler todo de uma vez só assim que aparecer na minha frente.

2. Lembra do seu primeiro livro?

Se foi o primeiro eu não sei, mas o único que eu me lembro é A casa sonolenta, daquele casal Audrey e Don Wood. Eles são sensacionais.

3. No Brasil, sabemos que a leitura não é um hábito da população em geral. Quantos livros, em média, você lê por mês?

Hah! Menos do que eu gostaria, porque eu sou lerda e minha concentração tem prazo de validade curto. Nem posso dizer que é falta de tempo. Em média, acho que leio uns 2 livros por mês.

4. Você tem um gênero favorito? Qual?

Por gênero, eu gosto de policiais. Os outros livros que eu gosto costumam não ter gênero nenhum.

5. Alguns escritores, além de grandes artistas, são vistos como “seres superiores” por alguns leitores. Você tem ídolos escritores? Quais?

Meus seres superiores são James Joyce, Julio Cortázar e Guimarães Rosa. E Mário de Andrade, que toda vez que deixo de fora ele começa a gritar e eu penso duas vezes e digo: ok, ok, entra aí.

6. Você distingue o escritor pelo gênero - poesia, conto, romance, etc - ou acredita que escritor é escritor e ponto?

Ham. Que pergunta traiçoeira. Escritor deve ser escritor, mas um poeta não é a mesma coisa que um cara que escreve romances, e nem deveria ser. Não?

7. A internet pode se transformar em uma ameaça para a leitura de livros?

A internet ameaça a leitura tanto quando a televisão. E antes disso a falta de energia elétrica e o hábito de ler em pé. Ah, esses antigos.

8. Se você pudesse, como acabaria com o analfabetismo no Brasil e como implantaria o hábito de leitura?

Estímulos, incentivos, etc, etc. Ler é hábito e só. E então, literatura de entretenimento! Nenhuma criança obrigada a ler Vidas Secas aos 10 anos de idade pode aprender a gostar de Graciliano Ramos.

Não aguento mais a discussão de que a autora do Harry Potter criou uma geração que só quer ler Harry Potter mesmo, e que na verdade Harry Potter não está fazendo ninguém ler mais, e o que, o que. Bah! Que a geração Harry Potter nunca leia Saramago (ai) ou Gunter Grass (duplo ai). Acho que antes de fazer qualquer coisa a gente precisava mesmo decidir (e depois sair por aí espalhando pra todo mundo) por que é que ler, afinal, é tão importante.

Eu não sei como acabar com o analfabetismo, mas deve ter alguma coisa a ver com governo, educação, professores. Oras!

9. José Saramago declarou recentemente que sempre será comunista, embora saiba que este é um assunto ultrapassado. Um escritor deve manter para sempre seus valores, ou pode mudar de opinião?

Na verdade eu acho que escritor com valores já é um troço muito esquisito.

10. Uma frase para o Dia do Escritor:

Quem mantém os dois pés no chão, não sai do lugar. ~ Tor Åge Bringsværd, escritor norueguês

porque amanhã é dia do escritor

E eu nem sabia que existia dia para escritor.

Eu vou responder o chamado do André, porque depois que ele me botou numa lista de, veja, os melhores escritores (desses que andam pela internet, e que as pessoas, ham, lêem), eu fiquei feliz e aí.


E amanhã publico um texto falando sobre os meus escritores mais queridos, uns tipos perigosos, minha tríade demoníaca, enfim, enfim. Aquela coisa de que livro você levaria para uma ilha deserta e eu que certamente perguntaria antes mesmo de terminarem de falar "mas posso levar 3?"

Sim, farei o post, e já convido todos os leitores, e quem mais, para fazer o mesmo. Sim?

sábado, 21/07/2007

e o que acontece

Idéia de Lucas Murtinho:

Dezesseis livros se enfrentam em quinze jogos. Cada jogo é decidido por um jurado, que explica e justifica sua decisão para o público. O campeão talvez seja o melhor romance brasileiro do ano, talvez não. Provavelmente não. O importante é que o campeonato seja divertido e o debate, inteligente.

A Copa de Literatura Brasileira é inspirada no Tounament of Books, criado em 2005 pela revista eletrônica americana The Morning News em parceria com a livraria Powell's.
E, hah! Participo. Como uma dos 16 jurados.

Leia a idéia toda pelo próprio Lucas, que ele explica tudo muito bem. Muito melhor do que me explicou no email, aliás. Vá pensar que depois de ter que explicar sua idéia para pelo menos 16 jurados ele ia aperfeiçoar sua técnica. No link também a lista completa de jurados e os livros escolhidos para participar.

Está tudo sendo preparado. Aviso aqui quando tiver mais informações.


E, claro. Hoje, hein? Ou como diria o Milton, porque hoje é sábado.

Estarei por lá a partir de umas 10 horas, porque é tão elegante chegar atrasado. Ooo.

(E agora tenho que trabalhar um pouco, porque meu chefe me achou.)

quarta-feira, 18/07/2007

Este sábado

21 de julho, em São Paulo - SP, no bar Canto da Madalena (e o bar fica num canto mesmo, parece que estava fugindo da rua Aspicuelta), rua Medeiros de Albuquerque, 471. Como o nome do bar indica, na Vila Madalena. Mas não muito. Eu diria que o bar fica realmente no canto da Vila Madalena.

E o que diabos vai acontecer lá, você pergunta.

(Na verdade você provavelmente já sabe.)

Vai ser o lançamento dos livros do Alex Castro e do livro novo do Biajoni.

Mais informações em Os Viralata.

O cardápio (que segundo o Bia avisou só vale para os lançamentos no Rio -- que já foi -- e em São Paulo):


[Agora eu volto pro meu mundinho, embaçado que é porque a oftalmologista dilatou minha vista, e sobre o tudo que a gente tem que ver, como a moça no rádio disse, é falta de muito mais do que só vergonha na cara, e eu considerando seriamente trocar minha passagem de avião para o Rio por seis horas dentro de um ônibus. Sim?]

sexta-feira, 06/07/2007

Ambições

Na verdade ambição de escritor é um troço estúpido.

terça-feira, 03/07/2007

Ainda a literatura independente

Biajoni também escreveu sobre.

Porque na verdade é um trabalho tão grande publicar por editora normal, para uma alegria que dura os primeiros três meses. Depois disso, seu livro fica velho e não interessa à mídia. E se não pela mídia, de que serve um livro publicado dessa forma? Será que o reconhecimento (qualquer tipo de reconhecimento) precisa mesmo passar por essa mídia? Se a cada ano escolhem meia dúzia de "novos autores" para colocar na pauta. E não sei se quero entrar na fila, esperar minha vez, acompanhar o ritmo de produção e publicação de uma editora que publica meu livro sabendo que ele mal vai se pagar.

Estou quase certa que não vale a pena.

sexta-feira, 29/06/2007

Pela literatura independente

Eis um post que se eu pensar demais vou acabar não postando.

Não é por ser mal-agradecida. Sei bem, porque está meu livrozinho de estréia pela Brasiliense espalhado em livrarias (teoricamente). E também que vou saber enfim quando esse troço vendeu na semana que vem. Penso.

Mas é que cansa.

Muito mais certa é a literatura independente, cada um publica o que bem entende, vende pra quem interessar. Não sai na Folha nem no Fantástico, mas, convenhamos, muita gente boa publicada também não sai.

Das grandes editoras, são poucas as que tem um bom trabalho de divulgação. A Cia. das Letras e... Buena. A Cia. das Letras faz um bom trabalho de divulgação, é verdade. E a Cia. das Letras, mais do que qualquer outra, não está lá tão interessada em publicar desconhecidos (não é impossível, veja bem, por vezes os astros se alinham e seu original cai nas mãos de um agraciado editor que acordou no humor certo para o seu estilo de escrita, mas isso não é, digamos, o que acontece na maioria das vezes), ainda mais porque essa editora está com o calendário de publicações provavelmente muito bem preenchido até 2011.

Claro. Com sorte, cai-se nas mãos de um editor que realmente está interessado em te ver crescer. Pode acontecer. Mas e achar o caminho?

Quero dizer: você é publicado, cai na graça de meia dúzia de jornalistas de pequenos veículos, alguns amigos te arrumam contatos, etc. E devo imaginar que existam leitores que te descobrem porque você foi citado aqui ou ali.

Mas não é isso.

Esses leitores não chegam em você. E você nunca vai ficar sabendo da existência desses leitores. Será que...?

Afinal, escrever? De que me serve? Escrevo. Depois de Desumano, já escrevi dois, e estou terminando um terceiro. Pensando em publicar? Inevitavelmente, mas tudo isso me dá uma angústia tremenda. Porque eu estou sempre muito mais preocupada em escrever do que publicar. Ou melhor: eu estou sempre muito preocupada em publicar, mas não consigo parar de escrever para fazer dessa preocupação uma ação. E daí, a angústia. Ir atrás de publicação dá muito trabalho e é muito chato e eu não tenho dinheiro para pagar agente literário para fazer isso por mim.

O segundo policial que escrevi se chama Operação P-2 e está prontíssimo. E gosto tanto dele. Queria ver ele por aí, em mãos alheias, em bocas alheias. Mais que os meus amigos próximos. Porque tem pelo menos 75 pessoas que lêem esse blog (ou fingem que, segundo o FeedBurner) e talvez ainda outros que poderiam estar interessados. Sim?

E vejo o Biajoni. Ou o Alex Castro. Literatura independente. Escrevem e têm os seus leitores. Pode não ser o grande oceano pacífico de leitores, mas. Nem sei se eles continuam buscando editoras, mas será que precisa? Na verdade eu vejo os dois e fico mesmo é com vontade de fazer como eles.

É que a internet, etc, etc.

Sabemos bem, nós, que moramos aqui na internet. Não o sabem todos, mas nós.

Pois. Cansa. E eu não tenho a menor paciência e habilidade para ficar por aí buscando publicações. E se eu continuar com esse péssimo hábito de escrever um ou dois livros por ano, a coisa vai começar a ficar feia.

quinta-feira, 28/06/2007

Títulos

Estou a um capítulo de terminar um livro aqui que estou escrevendo.

E o livro está sem título.

Gah!

A última vez que fiz uma lista com palavras que poderiam me dar uma luz para um título foi com o Desumano. Porque Desumano era um título temporário. Pois vejam só.

Sempre assim. Ou tenho certeza do título desde começar a escrever ou nunca terei.

terça-feira, 26/06/2007

Gone, baby, gone

É bom poder ler um livro em três dias com toda a vontade que pode existir para se ler um pocket de 400 páginas em três dias.

Quer dizer, eu estava lendo enquanto dirigia. Ou melhor, quando o farol ficava vermelho, eu botava o livro aberto em cima do volante e lia, com um olho no carro da frente e a marcha engatada.

(E o lado bom disso é que é impossível se irritar com o trânsito quando você começa a torcer para pegar um farol fechado.)

Pois quebrei por fim meu afastamento voluntário de romances do Dennis Lehane e para ler o quarto da sua série de detetives, Gone, baby, gone. Porque li os três primeiros um atrás do outro, depois de ter lido e visto o filme (na minha opinião, uma das melhores adaptações de obra literária, aliás) do Sobre meninos e lobos, e era preciso respirar um pouco, acreditar que o mundo não era tão ruim daquele jeito e coisas assim. Sacred, o terceiro livro da série, é de fazer formar bolas de tênis na garganta de quem lê. Terrível. Não o livro. Os personagens são assustadores, e você termina com medo de olhar pela janela e olhar o mundo.

Não sei se porque agora já estava mais preparada, fui mais capaz de captar os truques literários que ele usa para te fazer sentir junto daqueles personagens. Mas saber os truques não me impediu de sofrer um pouquinho. Dennis Lehane não perdoa; se quiser te jogar uma criança nua e toda esfaqueada na sua cara, ele joga, e te faz sofrer por isso. E sem ficar parecendo aquela coisa Rubem Fonseca escorregando-em-testículos-para-chocar-o-leitor (como mencionou nosso querido Soares Silva). Ele está contando a história como se a gente nem devesse estar ali lendo.

O cara é muito bom.

Terminei o livro com muita raiva. Porque o final é quando você se dá conta que tudo aquilo era uma história, e não há motivo para tanta raiva, e nada daquilo é real. Uh? Afinal, eu faço esse tipo de coisa com meus personagens também. Eu sei os truques. Eu sei tudo que há por trás daquelas palavras. Mas não adianta muito pensar em nada disso, e então me resta aparecer aqui e escrever esse post.

Penso que Dennis Lehane é um dos melhores escritores policiais hoje em dia. Não leio tantos assim, talvez porque fico com medo de cair nas garras de algo como Jeffrey Deaver, um dos que li e achei chatíssimo (li The vanished man, num desses acasos do tipo vamos-ver-se-isso-é-bom). Gosto do Michael Connelly, e do detetive que ele criou, mas ele se repete. Ed McBain ainda não conseguiu me ganhar (comecei um livro dele e parei no meio, isso não pode ser bom). Se alguém tiver sugestões, a caixa de comentários está bem aberta.

Enfim.
Baffled.

sábado, 16/06/2007

Who's dead?

- How's Willy Murray those times, Alf?

- I don't know, says Alf I saw him just now in Capel street with Paddy Dignam. Only I was running after that ...

- You what? says Joe, throwing down the letters. With who?

- With Dignam, says Alf.

- Is it Paddy? says Joe.

- Yes, says Alf. Why?

- Don't you know he's dead? says Joe.

- Paddy Dignam dead! says Alf.

- Ay, says Joe.

- Sure I'm after seeing him not five minutes ago, says Alf, as plain as a pikestaff.

- Who's dead? says Bob Doran.

- You saw his ghost then, says Joe, God between us and harm.

- What? says Alf. Good Christ, only five ... What? ... And Willy Murray with him, the two of them there near whatdoyoucallhim's ... What? Dignam dead?

- What about Dignam? says Bob Doran. Who's talking about... ?

- Dead! says Alf. He's no more dead than you are.

- Maybe so, says Joe. They took the liberty of burying him this morning anyhow.

- Paddy? says Alf.

- Ay, says Joe. He paid the debt of nature, God be merciful to him.

- Good Christ! says Alf.

Begob he was what you might call flabbergasted.

o capítulo Cyclops, do Ulysses, de James Joyce.

quarta-feira, 06/06/2007

e de personagens

personagens com passado e personagens-linguagem. limites da escrita, da criação, de fazer existir um ser que não poderia jamais ser existido.

por um equilibrio. por algo do que há e do que houve para além do que será.

que se em um momento de revolução industrial e as máquinas e a velocidade o personagem se perdeu em um mundo absurdo de acontecimentos desconexos e placas e sinais luminosos. e que ainda estamos nos recuperando porque o mundo ainda não soube fazer todo o sentido que sabia fazer, antes, quando fazia sentido. e então nos resta um sentido interno, porque a falta de sentido cansou, e todos sempre querem citar Kafka e Döblin. e então personagens por demais perdidos em si para qualquer consideração sobre o mundo. personagens que jamais poderiam se encontrar. perdidos. que nos resta?

o nunca que só existe na linguagem, tal qual o sempre. quando é.

jamais.

segunda-feira, 26/03/2007

Folhateen

folhateen - 26/03/2007
tchans.
capa da folhateen - 26/03/2007Clica na imagem pra ler. Hein, hein.

A foto foi tirada no sebo do Evandro, umas nove e tantas da manhã da última sexta-feira. E o fotógrafo brigou comigo e com esse outro rapaz, o Tony Monti, porque nenhum dos dois tinha o livro respectivo para a foto. Ele não achou graça quando eu falei que eu podia segurar alguma coisa do Guimarães Rosa.

Aí do lado é a capa do caderno com uns caras pulando.

Hip!

sábado, 24/03/2007

Ironias

Eu pedi, não foi?

Problema de escritor é querer a posteridade no presente. Que a posteridade fique para o futuro, como ela deve ficar.

sábado, 10/03/2007

E jamais dispensar a boa crítica

... uma crítica bem entendida é muito importante para o escritor; ela o auxilia a enfrentar sua solidão.
Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz.
Gênova, janeiro de 1965
sexta-feira, 16/02/2007

Manifestações positivas do que não é

De onde tanto que se tira para minha por ora possível, "sempre total, ovo e cálculo, semente, polpas, sua carne de prosseguir, terebentinas*", iniciação científica sobre o livro Tutaméia, de Guimarães Rosa, e seus não-ditos.

Conflui, portanto, que:

Os dedos são anéis ausentes?
Há palavras assim: desintegração...
O ar é o que não se vê, fora e dentro das pessoas.
O mundo é Deus estando em toda parte.
O mundo, para um ateu, é Deus não estando nunca em nenhuma parte.
Copo não basta: é preciso um cálice ou dedal com água, para as grandes tempestades.
O O é um buraco não esburacado.
O que é - automaticamente?
O avestruz é uma girafa; só que tem é que é um passarinho.
Haja a barriga sem o rei. (Isto é: o homem sem algum rei na barriga.)
Entre Abel e Caim, pulou-se um irmão começado por B.
Se o tôlo admite, seja nem que um instante, que é nele mesmo que está o que não o deixa entender, já começou a melhorar em argúcia.
A peninha no rabo do gato não é apenas "para atrapalhar".
Há uma rubra ou azul impossibilidade no roxo (e no não roxo).
O copo com água pela metade: esa meio cheio, ou meio vazio?
Saudade é um predomínio do que não está presente, diga-se, ausente.
Diz-se de um infinito - rendez-vous das paralelas todas.
O silêncio proposital dá a maior possibilidade de música.
Se viemos do nada, é claro que vamos para o tudo.
Veja-se, vezes, prefácio como todos gratuito.

Ergo:

O livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber.

Quod erat demonstrandum.

Do final do primeiro prefácio de Tutaméia, "Aletria e Hermenêutica".

"Tudo se finge, primeiro; germina autêntico é depois.*"



*trechos de "Sobre a escova e a dúvida", quarto e último prefácio do livro.
**o título do post é um trecho do texto "As estórias de Tutaméia", escrito pelo Paulo Rónai.

sexta-feira, 09/02/2007

Outras literatices que não tão literárias

muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são

E enquanto isso, Sydney Sheldon morreu.

Sim, já faz um tempo. Mas escrevi esse post já faz um tempo também.

E tudo que pensei aqui eu já tinha pensado antes dele morrer, mas depois pensei ainda com mais força. Sabe, quando se pensa e a cabeça faz tzzzpf!

Mas então o quê? O Brasil precisa de mais escritores? De mais editoras? De mais revistas sobre literatura? Ah! Oras. Não sei bem. Mas me parece que precisa de mais gente interessada em literatura. Em menos gente achando que literatura é uma coisa genial que só os seres superiores podem compreender. Mais leitores! E de onde vamos tirar esses leitores?

Literatura precisava ser uma coisa assim, meio cinema. Quero dizer, muita gente fazendo, muita gente vendo, muita gente fofocando e criticando. Porque aí as grandes obras não iam estar para sempre perdidas no mar de mediocridade. Porque no cinema de cada 100 merdas sempre tem uma coisa genial. Que vá ver o que te interessa! Na universidade ainda iam pesquisar James Joyce e Mário de Andrade do mesmo jeito que numa faculdade de cinema ficam analisando filmes de arte que eu nem vou saber citar.

Que merda de país.

Talvez muitas obras ruins precisavam ser lançadas. Mas muitas mesmo. Aos montes. Obras ruins e agradáveis. Agradavelmente ruins. Como uma novela das sete. E o Fantástico teria fofocas sobre a vida de escritores, e se fulano fez ou não aquele livro em homenagem àquela mulher. E haveria uma espécie de Big Brother literário com escritores e eles ficariam discutindo personagens e a natureza humana de um jeito bem tosco, e tão tosco que você ia pensar que estava ouvindo a conversa de um almoço de natal em família (sei lá, minha família discute a natureza humana). E todos saberiam quem é determinado escritor, mesmo que só tenha lido a contra-capa de um livro dele. Mas saberiam que ele é mulherengo e que bateu no cunhado numa festa literária que aconteceu no último domingo. Ah! Que maravilha.

Disso tudo, existiriam os escritores cults, como sempre existiram. Por quê não? Em fóruns pela internet a gente ia ouvir uns manés dizendo "puta livro chato aeh li umas 20 página e o cara naum saiu da cama, pow".

Seria incrível.

E ainda os escritores reclusos que não dão entrevistas, e os caras do Pânico na TV iam querer botar sandalinha neles. E claro que os escritores reclusos e anti-sociais seriam os escritores que continuam com a mesma mentalidade dos escritores de agora, e ninguém ia gostar deles; só uns intelectuais e alguns perdidos, e na verdade são as mesmas pessoas que gostariam deles hoje em dia, ia dar na mesma, e as vendas para esses escritores não mudariam em nada. Eles só teriam mais do que reclamar, e como todo escritor gosta de reclamar, seriam até mais felizes.

Ou, ainda. Precisamos de mais Marcelinos Freire. Aos montes. Marcelinos a virar a esquina. Por todos os lados. Dando workshops e palestras e reunindo grupinhos por aí. E poetinhas, que seriam os mesmos poetinhas de hoje, mas com revistas e programas de televisão interessados em dar atenção a esses poetinhas.

Ia ser terrível. Fofoca. Só pode ser isso. A literatura precisava mesmo era de fofoca.

Novela. Sydney Sheldon. Jorge Amado. A literatura que os críticos odeiam. Brasileiro talvez leve demais a sério os críticos literários.



(Enquanto isso, a Linda está lendo um livro que estava na mesa do Roger: "Direito das Obrigações". Eu tomaria cuidado com essa gata.)

Linda reads Law books
sábado, 13/01/2007

O diabo não há!

Agora, que mais idoso me vejo, e quanto mais remoto aquilo reside, a lembrança demuda de valor - se transforma, se compõe, em uma espécie de decorrido formoso. Consegui o pensar direito: penso como um rio tanto anda: que as árvores das beiradas mal nem vejo... Quem me entende? O que eu queira. Os fatos passados obedecem à gente; os em vir, também. Só o poder do presente é que é furiável? Não. Esse obedece igual - é o que é. Isto, já aprendi. A bobéia? Pois, de mim, isto o que é, o senhor saiba - é lavar ouro. Então, onde é que está a verdadeira lâmpada de Deus, a lisa e real verdade?
p. 343

E pois.

Terminei.

(E essa edição pequena e quase-de-bolso 608 páginas que comprei na feira de livros da USP.)

De tudo, muito e um nada a dizer. Porque queria mesmo era poder ler esse livro sem saber o final. E lendo o final só pude saber que não sabia o final coisa nenhuma, por que o que é trama, histórinha, estorinha, Guimarães Rosa vira do avesso. E o livro não é só linguagem, sertanejo que fala torto e esquisito como muitos podem fazer parecer quando começam aqueles acadêmicos fazendo listas de neologismos roseanos. Porque só de palavras e linguagem não se faz coisa nenhuma. A linguagem do Guimarães Rosa não é a estrutura, não é tudo que resta.

Porque sim, de uma tradução de Grande Sertão: Veredas para o francês que, dizem, é das piores, muito se perde, é verdade; mas não tudo. Se tudo estivesse irremediavelmente perdido, que valor teria um Guimarães Rosa fora do Brasil? Por que se dar ao trabalho de uma tradução?

Claro que eu me contradigo, eu. Eu, que espalho por aí que não se pode ler James Joyce traduzido, pois sim. Nem se deve. Também não se deve ler Guimarães Rosa traduzido, eu não ia recomendar uma coisa dessas. Tradução é uma coisa toda muito tosca, que devia ser só permitida entre línguas muito irmãs, e com muita cautela. Mas não é bem disso que estou dizendo. De traduções estragadas já basta a que o Houaiss fez de Ulysses.

É que a linguagem é parte, é uma base. Em Grande Sertão: Veredas, ela é fundamental, porque dá o jeito certo e único de se contar alguma coisa. O sertão também. Não é um livro sobre o sertão e sobre jagunços, e regionalismos. Não é Graciliano Ramos. A história tem base em tudo isso, acontece bem ali, no sertão, e são jagunços, e o narrador é um jagunço. Mas é narrativa feita em camadas, para quem quiser olhar onde bem entender.

LeiturasE pensando assim, não me espantam as pesquisas tantas que se fazem sobre os assuntos tão limitados: a linguagem, o sertão, o amor, a viagem, a travessia, o diabo, os neologismos. Há um formulário da FAPESP a se preencher, que há de ser feito?

Mas pro leitor, leitor que quer ler, eu tenho é impressão de que tudo isso só assusta. Digo, porque eu antes nunca pensei que fosse ler esse livro e gostar, de sair da última página e... PAF. Porque é um bichinho cheio de páginas e ninguém quer mais saber de história de jagunço sofredor andando por um mundão sem fim. E que mais ia se pensar ao se ler um título desses? Foge! Quê, não é nada disso. Não é livro difícil. Vá ler um conto de Tutaméia, de página e meia, e tentar fazer um resumo da estória antes de ler pela segunda vez. GS:V (sigla academicóide) pode ser meio assustador, pra quem nunca encarou um Guimarães Rosa na vida, mas passado o susto, basta prestar atenção no que se lê.

De tudo uma hora certa.

Mas o que acho, não hesito dizer. Que Grande Sertão: Veredas seja a grande obra prima da literatura brasileira? Venha brigar comigo se discordar.

O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos... Viver - não é? - é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo. O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca... O senhor crê minha narração?
p. 585
sexta-feira, 29/12/2006

Das leituras de 2006

Verdade que 2006 foi um tanto mais longo do que o imaginado, então fica até difícil descobrir que livros eu li ainda esse ano e que livros são de 2005. Na verdade sempre tenho esse problema. Era para ser um post das melhores leituras; se não são as melhores, são ao menos as que mais marcaram, ou as mais recentes, que são as que ainda não desapareceram da memória. Mas vamos lá.

Para começar, e tão insuspeito, Tutaméia, do Guimarães Rosa: o melhor. O livro é de 1967, mas quem se importa com isso? Eu faço faculdade de letras; naquele lugar, 1967 foi ontem. Estou ainda para encontrar alguém que desgoste de Guimarães com motivo que me convença. Para mim isso é coisa de quem leu crítico demais ou, pior, ficou ouvindo falar de diz-que-diz sobre Guimarães Rosa e a linguagem e os jagunços e o Museu da Língua Portuguesa.

Os passos em volta, Herberto Helder: louco de tudo, mas genial. Preciso comprar esse livro urgentemente. Li da biblioteca e já sinto a falta de alguns contos. E contos! Tenho pouquíssima paciência para contos que não sejam do Guimarães ou do Cortázar. Um conto que li esperando o atraso de meia hora da professora de latim (e acho que ela acabou não aparecendo) foi feito tapa na cara. Mas ah, transcrevi uns trechos melhores em um email para o Tiagón. O jeito é caçar o email.

(E aliás, emails do Tiagón, também, de melhores leituras, e aquele viado foi embora, desempregou-se, e que faço com os surtos de limão, agora, hein?!)

Mas ah, acho que não li muito do Cortázar esse ano, que não releituras do Histórias de Cronópios e de Famas e Todos os Fogos o Fogo. Ou foi? Comecei algumas coisas, dele, sortidas. E o Eduardo está com meu Jogo da Amarelinha.

Li um monte de Michael Connelly, porque o Alberto Tamer -- aquele economista, um doido, alguém aí lembra dele? -- me recomendou e insistiu, e porque não bastando a recomendação também me deu uns pockets do Connelly de presente. Tudo mesmo muito interessante, mas aquela ladainha de policial-bonzinho perseguido pelo resto da corporação-malvada chega hora que cansa. O Harry Bosch, detetive protagonista está sempre contra tudo e todos, a um passo de perder sua gun & badge, e no final tudo se resolve mas nem tanto, que ele acaba tendo que ser mandado em férias compulsórias para o México ou qualquer coisa assim.

Estou tentando lembrar o que li no primeiro semestre. Parece que foi no ano passado. Li um monte de coisa do Mário de Andrade, e sobre o modernismo, e... Foi. Tinha um do Mário da Silva Brito, esqueci o nome, e depois, também... Ah! Axel's Castle; O Castelo de Axel, do Edmund Wilson. Mas foi esse ano? Foi, só pode ter sido. Porque li quando apaixonei pelo modernismo e dei de caçar simbolistas. Magic! Ah, Edmund Wilson é um cara mui engraçadinho. Dei de encarar o Ulysses do Joyce por causa dele. Proust, ainda não.

Deixa pra lá tentar lembrar o que li no primeiro semestre. A partir do ano que vem vou fazer um balanço semestral de leituras, senão não rende.

Raimundo Carrero foi um que me surpreendeu. E na verdade li livro dele sem saber daquelas baboseiras de how to write a best selling novel in three days. Ou qualquer coisa próxima disso. Ah, sim. Não chega a tanto. Enfim. Li uma das três novelas de O Delicado Abismo da Loucura. Qual era mesmo? Sei que comecei lendo uma e pulei, mas aí a do meio, As Sementes do Sol. Sim. (Roubei, fui olhar na estante.)

(Nota: botar os óculos ao escrever posts que requerem a consulta de referências externas, que eu não enxergo mais nada a mais de trinta centímetros da fuça.)

Lembrei agora de uma novela que li em um dia, porque uma amiga da faculdade estava lendo para uma aula de literatura portuguesa, e fiquei curiosa. Chama-se Os Teclados, da Teolinda Gersão (belo nome, heh). Do tema, sei lá, a gente vôa por cima do tema. E tão singelozinho, que depois em um sebo vi outro livro da mesma dita, e era gordo e cheio de firulas descritivas, que saí correndo.

Também li muita coisa não-ficção, para a faculdade e não tanto, incluindo um livro muito bom do sô Schiller sobre tragédia, Teoria da Tragédia. Que não terminei, ainda, porque me desviei nessa de fechar o ano e fazer provas, mas como não conto não-ficção por leitura completa, boto na lista. Li muito não-ficção quando estava começando a escrever um tal livro que estou escrevendo ainda.

O melhor -- e mesmo uma das melhores leituras desse ano, livro que já estava me devendo a muito tempo -- foi o Mito de Sísifo, do Camus. Filosofia, que seja. Camus me veio na hora certa. Ano passado (tenho certeza, foi ano passado) eu tinha lido O Estrangeiro, da biblioteca, e agora estou querendo arrumar um para mim, que é para ter aqui e reler quando der na telha.

E nessa onda outros, tantos. Sobre tragédia, suicídio, psicologia, loucura. Porque o livro, seja. Outra coisa muito boa que é livro esgotado e encontrei um PDF foi o A Nau do Tempo-Rei, de um Peter Pál Pelbart. Tive que ler um dos ensaios para uma aula de literatura brasileira. Que não é bem ensaio de psiquiatria nem mesmo literário, mas fica em alguma faixa entre esses os dois e acho que a beleza está aí. E sobre loucos e anjos, como uma gente que não é bem gente e vive em um espaço entre-tudo. Alheados e desencaixados.

E desisto, porque quanto mais me esforço mais vou lembrando de outros que esqueci e vai ver nem era assim tão importante. Tem o Malone Morre, do Beckett, que eu praticamente levei o ano inteiro para ler, lendo, lendo aos poucos, e terminei ainda esses dias, quando estava esperando alguém me buscar ou, enfim. É um livro meio história-sem-fim, acaba nunca, e faz você se sentir um pouco como alguém da família daquele velho morrendo. E sendo da família você já nem dá tanta corda para o que ele fala, mas finge que está super interessado naquela história estranha do homem deitado na chuva com o chapéu na terra; você com um sorriso complacentíssimo. E então -- vou contar o final agora, mas eu juro que isso não muda em nada -- de repente o velho pira e na história que estava contando um dos personagens vai e mata todo mundo com uma machadinha e você pára e, huh? Aí acabou o livro. Beckett, ladies and gentlemen.

Mas, sim, ah, desisto. Não sirvo para memória cronológica de leituras. Porque livros que li da biblioteca ou emprestado nem estão aqui nas estantes para conferir, e não vou me lembrar jamais. Eu bem que podia ter nascido zeiner. Wisnar!

2006 acabou. Repara só. Acabou mesmo.

Ainda não terminei de ler o Ulysses. Depois de vergonhosamente pular parte de um capítulo que não vou contar qual, mas garanto que meu cérebro não desenvolveu capacidade mental o suficiente. Milton Ribeiro me apoiou e me senti melhor. Agora Bloom está mui bêbado, e vou ver se agarro o livro depois de umas Smirnoffs, se eu tiver coordenação motora para manter o bicho aberto.

Estou lendo Grande Sertão: Veredas. E estou lendo, mesmo, página 440 e tantos. Esse queria poder ler sem saber o final. Sem saber o tudo que já sei. (Se você ainda não sabe o final, corre ler antes que alguém te conte.) E esse Guimarães Rosa é incrível. Quando de repente você acha que ele vai começar uma narração chata de coisas repetitivas e jagunçagens, e tiros, e o-que-mais, o narrador solta então um 'ah, mas isso tudo não preciso contar', e vai divagando e te pegando leitor pela gola da camisa, e quando você se dá conta ele contou todo aquele trecho que era para ser uma chatisse e você nem percebeu.

Agora, chega. Teve baladinha-família ontem e eu tomei uns vinhos que me contra-atacaram hoje de tarde. Oopsy. Neosaldina!


E feliz ano novo a todos vocês.

domingo, 03/12/2006

Os três homens e o boi e o autor que inventou todos eles

Enquanto eu fico aqui maxilar doendo de ansiedade bruxista porque terça-feira é só depois de amanhã (e também porque preciso entregar a prova de Literatura Portuguesa na terça e eu nem sei que diabos vou escrever), coloco aqui o meu trabalho de análise do conto "Os três homens e o boi" do livro Tutaméia, do Guimarães Rosa.

De um tanto pode parecer repeteco de coisa já postada. Mas porque se aquilo era o iniciar-se de idéias, isso agora já é idéia mais bem ajeitada. O possível. Ainda tem estrada pela frente.

E obrigada para a Renata pela revisão antes de eu colocar o bicho nas mãos da professora. Heh!

Pois.

A quem interessar Guimarães Rosa e Tutaméia eu peço opiniões. Coragem!

(A quem não interessar, pula uns posts e lê o release do meu livro Desumano, mor legal. E anota na agenda o lançamento, dia cinco, dia cinco, olha ali em cima!

ahhh! oooft.)

(O texto é grande. A professora pediu cinco páginas e eu fiz oito. Ela me perdoou.)



- * -


Guimarães Rosa abre o livro Tutaméia com o prefácio intitulado “Aletria e Hermenêutica”, que coloca ênfase em um definir de coisas pela negação, em chistes de anedotas. Abre: “A estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História” — e aqui com a maiúscula, a História ciência que se estuda, a História que busca a Verdade — “A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota”.

Esse prefácio ainda se fecha com: “O livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber”.

Ao leitor algo é proposto. Um encarar do livro pelo avesso. Nada é o que parece ser e, mais, nada é o que deveria ser; nada é o que o leitor espera que seja. O livro vale por aquilo que jamais poderia caber dentro dele.

Assis Brasil começa seu estudo sobre o livro dizendo:

Por uma coincidência muito estranha, João Guimarães Rosa deixa-nos, no último livro publicado em vida, Tutaméia (Terceiras Estórias), a chave estética de sua obra, um resumo “didático” de sua criação, através de quatro prefácios, onde o ficcionista “explica” o mecanismo de sua arte.1

Irene Gilberto Simões aponta o estranhamento inicial que o livro causou quando foi lançado, em 1967, devido a um “’hermetismo’ da linguagem e da dificuldade de leitura que os contos ofereciam”2. As experimentações e “esquisitices” lingüísticas de Guimarães sempre estiveram no centro das atenções dos críticos e estudiosos do autor; por vezes fazendo-os criar listas de neologismos e expressões do autor. Mas, mais que isso, e principalmente em Tutaméia, parece-me que Guimarães utiliza essa sua linguagem particular como seu modo de mostrar — demonstrar — um mundo, de maneira que somente distorcendo a língua e causando o espanto e estranhamento poderia se provocar um abrir de olhos por parte do leitor; porque é esse espanto que cria a necessidade de uma releitura para que se capte o que existe por trás do que é narrado, o que está escondido no não-dito. Essa inversão ele nos propõe nesse primeiro prefácio, citando diversos exemplos que seguem a linha de uma definição de “metafísica”, atribuída a Voltaire: “É um cego, com olhos vendados, num quarto escuro, procurando um gato preto... que não está lá”.

Guimarães Rosa ainda nos deixa muito claro a necessidade de uma releitura — de uma reflexão sobre o que foi lido — quando apresenta os dois sumários do livro com duas epígrafes de Schopenhauer, sugerindo de maneira bastante explícita uma segunda leitura. O todo só pode ser compreendido a partir da segunda leitura, e a primeira deve ser feita com paciência e certeza de que “na segunda, muita coisa, ou tudo, se entenderá sob luz inteiramente outra”. Ele nos afirma que há mais por trás do que a primeira percepção pode nos dizer. E ainda assim achava graça criar uma perplexidade nos críticos, como disse Paulo Rónai em “Os prefácios de Tutaméia”.

Para o trabalho será feita uma análise do conto “Os três homens e o boi dos três homens que inventaram o boi”. Impossível fazê-lo, porém, sem algumas passagens rápidas por outros aspectos de contos significativos do conjunto.

E ao primeiro conto, “Antiperipléia”: a estória — com “e”, como manda o autor — é narrada em primeira pessoa por um guia de cegos que, após a morte de seu antigo patrão, pergunta a um suposto senhor se ele pretende levá-lo às cidades. Como narrado pelo guia de cegos, pode se supor que esse senhor é também um cego. E o guia, depois de lhe contar os ocorridos — existem desconfianças de que esse narrador tenha sido aquele que matou seu antigo patrão —, pergunta se aquele senhor ainda pretende levá-lo. E imagina-se que a resposta é sim, pois o narrador termina: “vou, para guia de cegos, servo de dono cego, vagavaz, habitual no diferente, com o senhor, Seô Desconhecido”. E aqui não seria o nosso autor nos pegando — o leitor, o senhor, o cego — pelo braço e dizendo venha, que te levarei por esses caminhos? Ele nos acompanharia pelas estórias que se seguem, aquele que enxerga, contando o que só se pode ouvir.

Cabe a nós confiar, ou não, nesse guia.

Um conto bastante comentado do livro, reconhecido por metalinguagem de toda uma literatura, é o “Desenredo”. A estória se faz por negativas. Jó Joaquim cria a inocência da mulher por uma decisão, e daí parte a des-falar o que, ao que sabíamos, havia acontecido. Ele cria uma verdade, sua, e expande-a para o povoado, até que a própria mulher também passa a conhecer essa verdade. E ela volta, livre de culpas. Ao mostrar o modo de criação de verdade de Jó Joaquim, Guimarães estaria nos indicando seu próprio modo de criação, sutilmente; negando aos contos uma participação na Verdade da História. O que existe é a Estória como verdade oculta de um outro plano da vida, um plano em que ela é algo de releitura da vida e da própria literatura, releitura do passado da tradição.

Há o parágrafo: “Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam-se. Deu-se a entrada dos demônios.” Os tempos são, aqui, releitura, reinterpretação, de tempos passados. Mais para frente: “Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente.” Sente-se reincidente de um crime coletivo, de um crime que a humanidade repete e sempre repetiu, pela história. E aqui a história com minúscula: a história que é também de tradições, da literatura e do mito. “Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fazer de louco.” Aqui a referência a Ulisses, personagem do plano mítico. E o narrador nos diz: “sábio sempre foi Ulisses”; e esse sempre indica algo de continuidade, das reverberações do mito na vida e na literatura.

O narrador de “Desenredo” nos apresentou, de início, uma verdade, para depois mostrar o desenvolvimento de sua negação, que cria uma segunda verdade. “Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?” Ele nos pergunta, intrometido que é. Mais certa? Talvez seja possível imaginar o narrador com um sorriso no rosto, dizendo que assim como o povoado acredita na realidade que Jó inventou, estamos também acreditando. Estivemos acreditando, todo esse tempo.

O conto “Os três homens e o boi dos três homens que inventaram o boi” também tem um narrador em terceira pessoa que acompanha a estória com alguns momentos de intromissão. Um boi inventado por três vaqueiros acaba por fazer-se lenda, acreditada. Ao final da estória, seus criadores se separam: um morre, outro vai embora para “afastado canto, onde homem cobrava melhores pagas” e um terceiro — que no começo não viu graça naquele inventar de bicho — permanece no foco do narrador, para chegar-se a uma roda de vaqueiros, e ouvir uma estória de um tal boi desafiado só por “três propostos vaqueiros”.

O conto começa: “Ponha-se que estivessem, à barra do campo, de tarde, para descanso”. Ao leitor que procura Verdades, não as encontrará aqui. Trata-se de uma suposição desde o início. “Então que, um quebrou o ovo do silêncio”. A imagem do ovo persiste. No conto “Curtamão”: “Todo ovo é uma caixinha?” Esse “ovo” pode ser encarado como algo da anedota proposta no primeiro prefácio: o ovo como um guardador de possíveis, com o que há dentro não-visto, mas previsto. No prefácio “Sobre a escova e a dúvida”, ele cria a imagem de uma manga, relembrando árvore de Tio Cândido: “Mais, qualquer manga em si traz, em caroço, o maquinismo de outra, mangueira igualzinha, do obrigado tamanho e formato”. E então: “cada mangueira dessas, e por diante, as corações-de-boi, sempre total ovo e cálculo, semente, polpas, sua carne de prosseguir, terebentinas”.

É, portanto, de um plano de possíveis — um plano do verossímil — que surge a figura do boi. “Assim o boi se compôs, ant’olhava-os.”

Nhoé, o terceiro vaqueiro do grupo, repele a criação, “por susto do real”. Nhoé está por demais preso à sua realidade para deixar-se aceitar uma criação de um imaginário, plano de referentes, que já lhe parece bastante complicado3. Ele teme a mistura desses dois planos, porque percebe que já a convivência exige “quentes falsidades”, e que “só por não perceberem uns dos outros o escondido é que venciam conviver com os afetos de concórdia”. Nhoé é homem de “severossimilhanças”.

Mas a figura do boi é contada a outros, em “prosa de gabanças e proezas”. Contam de um boi “desafiado só pelos três”, no que então o narrador afirma: “Se alguém ouviu o visto, ninguém viu o ouvido.” A posição do leitor, privilegiada pelo narrador em terceira pessoa, mescla-se por alguns instantes com a posição do povo que ouve a estória de Jerevo e Jelázio. Voltando ao primeiro conto, “Antiperipléia”, pode-se dizer que somos colocados diante da mesma posição daquele que precisa do guia de cegos para saber as verdades. Assim como o povo ouve a estória, o narrador a conta a um “ouvinte”; nós, leitores.

E a respeito desse do boi, “vero boi, recente, singular, descrito e desafiado só pelos três”, o povo desacredita, toma como mentira. Por outro lado, podiam crer em um boi-mito, “bicho-duende, sombração; nisso podiam crer, o vento no ermo a todos concerne”. Crê-se no boi se ele não estiver preso ao plano do real — plano este ao qual Nhoé encontra-se tão amarrado — e sim em um plano do que não pode ser visto, “o vento no ermo”; a estória. O que diz muito sobre o leitor, outra vez identificado com esse povo, que acredita no que é contado enquanto parte do imaginário.

Pode-se pensar que o próprio conto se nega, enquanto metalinguagem da criação. A narrativa nega-se como pertencente a um plano de Verdade, mas afirma-se como estória. Da mesma maneira que a palavra “hipotrélico”, assunto do segundo prefácio de Tutaméia, nega-se com neologismo. Do prefácio: “tratando-se de palavra inventada, e, como adiante se verá, embirrando o hipotrélico em não tolerar neologismos, começa ele por se negar nominalmente a própria existência”. Benedito Nunes usa a expressão “existência autonegada” e escreve: “Pois o hipotrélico, por ser o que é, nega-se a ser o que é. Antipodático, afirma-se ao negar-se e nega-se ao afirmar-se”4. Também sobre isso, Oliveira diz: “Dos episódios, do contexto do prefácio e suas glosas, da interligação mais ampla de todos os prefácios deduz-se que, para uma palavra existir, da mesma forma que uma narrativa, basta que ela seja dita”5. As estórias de Tutaméia desenvolvem-se dentro desse campo das palavras. O mesmo mecanismo que torna possível a criação de palavras — o “ovo do silêncio” — faz possível a criação de estórias e fábulas, e se elas foram criadas, elas podem existir.

Deveríamos então ficar surpresos quando, no final de “Os três homens e o boi” o personagem Nhoé encontra-se outra vez com aquele boi criado, na narrativa de outros vaqueiros?

Os contos de Tutaméia permitem um paralelo com as “Teses sobre o conto” de Ricardo Piglia. No início do ensaio, diz: “um conto sempre conta duas histórias”. E mais adiante:

O conto é um relato que encerra um relato secreto. Não se trata de um sentido oculto que dependa de interpretação: o enigma não é outra coisa senão uma história contada de um modo enigmático. A estratégia do relato é posta a serviço dessa narração cifrada. Como contar uma história enquanto se conta outra?6

Piglia se refere a um tipo de conto que chama “conto clássico”. Sua tese não pode ser de todo enquadrada nas narrativas roseanas, mas penso que delas pode se tirar algum proveito. Paulo Rónai, quando comenta os contos em “As Estórias de Tutaméia”, menciona essa dualidade. Ele fala de um “inexistente” que “entremostra a vontade de se materializar”, “noutras peças, o que não é passa a influir efetivamente no que é” e também de outro grupo de estórias nas quais “por trás do enredo se delineia outra que poderia ter havido”. Guimarães Rosa cria planos de estórias. No conto “Os três homens e o boi” existe uma estória dos vaqueiros, contada pelo narrador, e existe a estória criada por esses vaqueiros. A nós é mostrado como elas se relacionam ao longo da narrativa.

Porque há o enquadramento da narrativa dos vaqueiros a respeito de um tal boi, e há o enquadramento do narrador, contando a estória dos vaqueiros. E isso fica ainda mais claro no título, que é um quando apresentado no sumário e outro quando na página do conto. No sumário: Os três homens e o boi. Aqui o narrador nos apresenta o seu enquadramento: trata-se da estória de três homens e do boi. Ainda não sabemos que boi é esse, mas dado o artigo definido “o” supõe-se que seja um boi específico, e não qualquer boi, comum. Em um segundo momento, com o título estendido, temos uma segunda parte: o boi dos três homens que inventaram um boi. Sabemos que boi é esse. É o enquadramento dentro do enquadramento; é a estória dos vaqueiros dentro da estória do narrador.

Irene Gilberto Simões propõe ainda uma leitura em três camadas desse título7, representando o caráter de fábula em “Os três homens e o boi”, a invenção da estória feita pelos vaqueiros em “O boi dos três homens” e a narrativa dessa estória pelo narrador em terceira pessoa em “Os três homens que inventaram um boi”.

No que as estórias de Guimarães Rosa divergem das teses de Piglia, penso que Guimarães, além dos dois relatos, apresenta, sim, um “sentido oculto”, dependente de interpretação. Piglia nega esse terceiro sentido. Trata-se de um plano simbólico da narrativa, existente entre os planos de real e imaginário. Ou, usando as próprias palavras do autor, no conto “Nenhum, Nenhuma”, de Primeiras Estórias: “o terceiro pensamento”.

Vê-se que o narrador do conto “Os três homens e o boi” se intromete no narrar, propondo reflexões. Esse processo permite ao leitor afastar-se da narração propriamente dita, para um outro plano, esse plano do simbólico. A respeito desse afastamento necessário, Schiller escreve, em um ensaio chamado “Acerca do uso do coro na tragédia”: “O coro abandona o estreito círculo da ação para se estender ao passado e ao futuro, a longínquas épocas e povos, a todo o humano em geral”8. Em um livro como Tutaméia, feito de não-ditos e de possíveis, onde o autor propõe ao leitor desde o início uma segunda leitura para que se faça compreender o que está escrito, a fala de Schiller me parece adequada.

No conto em análise, temos os momentos em que o narrador pára a narração dos fatos para apresentar comentários: “um quebrou o ovo do silêncio”, “de rês semi-existida diferente”, “o vento no ermo a todos concerne”, “ainda bem que o escrúpulo da gente regra as quentes falsidades”, “no de-dentro, as criaturas todas era igualadas; no de-fora, só pode não perceberem uns dos outros o escondido é que venciam conviver com afetos de concórdia”, “como não se remexe em restos”, “naquele certo lugar em ermo notável”. Também o modo que apresenta os acontecidos não o deixa isento de posicionamento. Para exemplo, tomo a frase que abre o conto como principal e outras: “Então que”, “Entanto, por arte de logo”, “De em diante”, “De certo modo. Mais para adiante, o Jelázio morreu, com efeito”, “Tão cedo aqui as coisas arrancavam as barbas”.

A pausa para a intromissão do narrador cria a possibilidade de uma outra leitura do texto, atraindo o leitor para o simbólico, para o terceiro plano da estória. Nunes escreve sobre uma espécie de ensinamento, o que coloca as estórias de Tutaméia em um plano de fábula ou mito: “Isso, se dermos a fábula o sentido de ensinamento indireto, que se extrai, por via de ações de pessoas, animais ou coisas, e se por mito entendermos, respeitando a etimologia, história que personaliza verdades ou princípios essenciais”9.

Simões afirma que a “realidade” da estória está ligada à “realidade” do narrar. O simples narrar é o poder para se fazer da estória realidade; outra realidade. Guimarães Rosa duvida da “realidade sensível aparente”, como diz no último prefácio, “Sobre a escova e a dúvida”. Ele nega a História porque cria a ela uma alternativa. Seria, então, outra realidade, como bem dito no conto Desenredo. “Mais certa?” Porque se trata do autor a todo o momento discutindo a relação do real com o imaginário, partindo em direção ao simbólico. A aceitação do simbólico é uma transcendência do que houve; do real.

Ao final do conto, é isso que faz o personagem sobrevivente Nhoé. Ele, que de início não estava interessado na criação do boi, achando ruim a inventação, é aquele escolhido pelo narrador para personagem central. Estando de fora, é ele que tem a capacidade de perceber o acontecido como um todo, desde a criação até o que é feito dela. E de certa forma, por ser nele que o narrador se prende, faz possibilitar ao leitor-ouvinte que perceba a fábula como um todo. O narrador tem o objetivo de nos mostrar algo, e não é à toa que a narrativa acompanha Nhoé. Também a escolha do nome não pode ser sem significação. Há a semelhança sonora com o nome do personagem bíblico Noé, sendo ele aquele que sobrevive ao dilúvio. Também: Nho-é. Quase como se esse personagem transcendesse sua função de simples personagem: aquele que é.

Há de se notar que, no final do conto dos “Os três homens e o boi”, o boi inventado acaba por tornar-se ainda mais real do que os vaqueiros. Enquanto eles envelhecem, morrem ou vão embora, o boi engrandece-se. Nhoé sequer possui qualquer tipo de poder sobre a criação dos companheiros. Resta a ele esvaziar-se: “suspirou se esvaziando”, e “Se prazia — o mundo era enorme”. O boi, criado suposição, da mesma forma que o narrador nos apresenta os vaqueiros, foi feito tão “real” quanto esses vaqueiros. E termina por torna-se mais real. Torna-se mito.

Piglia, ainda em suas “Teses sobre o conto”, menciona uma “teoria do iceberg de Hemingway”, em que “o mais importante nunca se conta. A história é construída de não-ditos, com o subtendido e a alusão”10. A estória paralela do mito do boi desenvolveu-se por esse não-dito — elemento recorrente em Tutaméia, como já comentei — enquanto o narrador nos acompanhava pelo “real” do personagem Nhoé. Mas Nhoé reencontra-se com o mito. O narrador fecha o conto com: “Inda que para o mister mais rasteiro, ali ficava, com socorro, parava naquele certo lugar em ermo notável”. Seria esse “ermo” o mesmo aquele no qual o vento “a todos concerne”? Porque esse ermo, no conto, esteve no começo como o lugar ao qual pertence o mito — o lugar onde pode se crer naquele boi “sombração”. E é nesse ermo “notável” que Nhoé se reencontra com o mito e aceita o simbólico da criação dos companheiros.
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1 BRASIL, p. 57.
2 SIMÕES, p. 19.
3 OLIVEIRA, p. 116.
4 NUNES, p. 206.
5 OLIVEIRA, p. 108.
6 PIGLIA, p. 91.
7 SIMÕES, p. 90.
8 SCHILLER, p. 79.
9 NUNES, p. 203.
10 PIGLIA, p. 91.
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Bibliografia e Referências Bibliográficas

ANDRADE, Ana Maria Bernardes de. A velhacaria nos paratextos de Tutaméia: terceiras estórias. Disponível em: http://libdigi.unicamp.br/document/?code=vtls000317257
Acesso em 14/11/2006

BRASIL, Assis. Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Simões, 1969.

NOVIS, Vera. Tutaméia: Engenho e Arte. São Paulo, Perspectiva/Edusp, 1989

NUNES, Benedito. O Dorso do tigre. São Paulo, Perspectiva, 1969

OLIVEIRA, Luiz Cláudio Vieira de. “Com quantas palavras se faz um boi”. In. Via Atlântica, n. 4, p. 107-116, out. 2000.

PIGLIA, Ricardo. Formas Breves. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

RÓNAI, Paulo. "Os Prefácios de Tutaméia" e "As Estórias de Tutaméia". In: ROSA, João Guimarães. Tutaméia (Terceiras Estórias). 8ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

ROSA, João Guimarães. Tutaméia (Terceiras Estórias). 8ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

___________________. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

SANTOS, Adilson dos. “Os três homens e o boi dos três homens que fizeram o boi”: um conto metalingüístico. Disponível em: http://gel.org.br/4publica-estudos-2006/sistema06/46.pdf
Acesso em 14/11/2006

SCHILLER, Friedrich. Teoria da Tragédia. São Paulo: EPU, 1992.

SIMÕES, Irene Gilberto. Guimarães Rosa: as paragens mágicas. São Paulo: Perspectiva; MCT; CNPq, 1988.

sexta-feira, 24/11/2006

De livros: Domingo.

E tenho sim minhas manias, quando se trata de literatura. Tenho cada vez mais o que gosto e o que desgosto, e o que de novos me parece inventação despropositada, para dizer que faz nova literatura e o passado está morto e esses que dormem abraçados com seus Bukowskis. Que se mereçam.

Li o livro Domingo., do Francisco Slade. É da editora 7Letras. Ah, o livro é bom. Tem umas coisas de livro cru, como que dando umas mostras de que ainda não é o melhor do autor. Ou então digo isso porque conheço o blog, e o blog faz a prova. Depois que mandei email para ele e ele respondeu mandando também umas sinopses de outros livros.

O Francisco escreve bem. Começar que acho que não adianta querer fazer literatura tendo uma história só bonita para contar. Porque história bonita e caso interessante meu porteiro Remildo também conta (nada se entende do que o Remildo conta, é verdade, mas ele conta). Não vou aqui dizer o que diabos é escrever bem, mas é coisa que se percebe. O livro -- primeira pessoa -- conta de um matador com um histórico meio torto de febres e um estranhamento com os domingos. Não gosta de trabalhar nos domingos. E é num domingo que precisa matar um sujeito e lhe vem uma febre. Aí, paf.

Mas o que é melhor mesmo é que o livro é tanto diferente de tudo que se vê por aí dessa gente publicando livro. Essas revisitações de Rubem Fonseca, que por si já é a todo tempo revisitação dele mesmo. E o Francisco Slade, penso, alguém a se ficar de olho para o que ainda pode fazer.



E pra constar: comecei a ler o Grande Sertão: Veredas. Ah! Problema é que com livro muito pesado minha mão começa a formigar e nunca encontro posição boa para ler. Aí não duro muito mais de 50 páginas por vez. Escritor brasileiro bom é o Guimarães Rosa. De literatura.

quarta-feira, 22/11/2006

Portugal Telecom e a feira de livros da FFLCH

Ricardinho Lísias ganhou o Portugal Telecom. Em terceiro lugar. Hoh; well. Eu quero mesmo é saber se ele foi pro prêmio com o figurino que eu planejei para ele, todo muito moderno e descolado. Oras.

O livro -- Duas Praças -- eu li até a metade. Depois li o fim. Perdi, em algum lugar, no caminho, e me aborreci um pouco quando começou no meio da história aquela mulher louca xingando deus e tudo e todos.

Do Hatoum -- que ganhou o primeiro lugar com o livro Cinzas do Norte -- eu comecei o Dois Irmãos -- minha irmã que se foi para a terra dos coalas deixou aqui alguns livros, e não faço idéia de por que ela tinha esse; vá lá que tivesse uns Gil Vicente e José de Alencar, que ela gostava de coisas estranhas -- mas, oh. É bom, o livro; sim, com uns momentos de "blanghr?" porque parece por vezes que brasileiro tem umas de se orgulhar de coisas feias e ficar expondo elas por aí. Não, mas veja; quero dizer. Não li o livro todo porque de repente começou uma digressão sobre um personagem que não me interessava, aí desisti.

E, ah. Feira de livros na FFLCH. Comprei A Montanha Mágica, O Homem Sem Qualidades e um Grande Sertão: Veredas. E Domingo., do Francisco Slade do blog Seu dinheiro de volta. O blog é bom. O livro, saberei.

Mas! Todos esses livros da editora Nova Fronteira metade do preço de livraria. Lindo.

E cena que você não vai ver com freqüência na vida:

- Por favor, me dá um Montanha Mágica.
- Dá um para mim também.
- Ah, também quero um. Aproveita pega três.

Que estudante de Letras não pode ver um estande de editora com uma meia dúzia de livros de Guimarães Rosa com edições especiais por metade do preço que já começam a ter convulsões e aproveita que estou aqui, me vê um Montanha Mágica, por favor; não precisa embrulhar que vou comer no caminho.

Eu queria demais a edição comemorativa de Corpo de Baile, que era 40 reais, toda linda e vermelha, mas do que gastei, e do que disso me toma tempo de leitura, a tudo seu tempo, e a paciência. Pois sim.

quarta-feira, 11/10/2006

Por um iniciar-se de idéias

Esse é um texto longo que interessa a poucos. Trata-se de idéias que tive até agora nas leituras do livro de contos Tutaméia, de Guimarães Rosa. Incompleto, assim, fugindo com freqüência do que é estreito ao texto e permitindo-me divagações.

Achei por certo passar para o concreto os pensamentos e anotações desconexos. E também colocar aqui, a quem interessar. Quem nunca leu o livro, recomendo, muito mesmo. E olha que ainda não li Grande Sertão: Veredas. Digo isso porque acho bobagem querer encarar qualquer autor procurando a obra por qualquer cronologia. Às vezes é o mais recente que serve para criar curiosidade para o mais antigo. Para mim, como exemplo, foi pelo modernismo que cheguei no simbolismo, e não o contrário, como fazem os professores de literatura do colégio.

Tutaméia me parece um pouco síntese de toda a obra do Guimarães Rosa, como se fosse inevitável que aparecesse, tal qual. Mas que isso não seja motivo para acanhamento. E também ainda nem li todos os contos desse livro, (e também não todos do próprio Primeiras Estórias, que é preciso deixar alguns para nos surpreender em outro tempo) e já estou aqui dando palpites.

Sugiro também olhar aqui o prefácio de Paulo Rónai, chamado Os prefácios de Tutaméia (está pra baixo, depois das ladainhas vestibulentas). E enfim. Minhas divagações, que não são coisa pronta de se apresentar aos acadêmicos, mas é reprodução quase fiel do que se passa na minha cabeça.



- * -




Guimarães Rosa abre o livro Tutaméia com um prefácio que coloca ênfase no definir de coisas por uma negação, nos chistes de anedotas. Abre: “A estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História” — e aqui com a maiúscula, a História ciência que se estuda, a História que busca a Verdade — “A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota”. E então ao que chama anedota prioriza a graça que se tira desse definir-se pela negação, pelo não-ser. E disso não se foge, com o final do prefácio primeiro: “O livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber”.

Ao leitor algo é proposto. Um encarar o livro pelo avesso. Nada é o que parece ser, e mais, nada é o que devia ser; nada é o que o leitor espera que seja. O livro vale por aquilo que jamais poderia caber dentro dele.

E ao primeiro conto, Antiperipléia. A estória — com “e”, como manda o autor — é narrada em primeira pessoa por um guia de cegos que, após a morte de seu antigo patrão, pergunta a um suposto senhor se ele pretende levá-lo às cidades. Como narrado pelo guia de cegos, pode se supor que esse senhor é também um cego. E o guia, depois de lhe contar os ocorridos, pergunta se esse senhor ainda pretende levá-lo. E imagina-se que a resposta é sim, pois o narrador termina: “vou, para guia de cegos, servo de dono cego, vagavaz, habitual no diferente, com o senhor, Seô Desconhecido”. E aqui não seria o nosso autor nos pegando — o leitor, o senhor, o cego — pelo braço e dizendo venha, que te levarei por esses caminhos? Ele nos acompanha pelas estórias que se seguem, aquele que enxerga, contando o que só se pode ouvir. Mostrar uma verdade pelo não-dito, e mais que a Verdade — porque a busca pela Verdade pertence à História —, o verossímil.

Tutaméia seria uma tese que procura demonstrar uma teoria? Que se sim, por métodos pouco convencionais, como de se esperar. Mas impossível é não perceber essa ligação entre todos os contos e que vai além de uma simples análise da linguagem de Guimarães Rosa, porque aqui vejo a linguagem como instrumento de trabalho, o seu modo de mostrar — demonstrar — as coisas, e que somente distorcendo a língua e causando o espanto e estranhamento poderia se causar um abrir de olhos, e porque cria a necessidade de uma releitura para que se capte o por trás, o que está escondido no não-dito. E isso Guimarães ainda deixa claríssimo em epígrafes de Schopenhauer.

Edmund Wilson, em Axel’s Castle, fala de como James Joyce superestimou os leitores — diz ele — ao sobrepor camadas de sentido em Ulysses. Joyce nos dá diversas leituras para cada um de seus capítulos, e isso sem contar as leituras possíveis que Joyce não poderia ter previsto. E isso vai além do paralelo com a Odisséia que, segundo Edmund Wilson, foi o que houve de bem sucedido por dar à obra todo um sentido mais universal. E Joyce tem a linguagem, como Rosa, para nos conduzir em direção aos seus propósitos.

Rosa, ao contrário de Joyce, não nos deixou esquemas e tabelas que permitiriam entender com a lógica do próprio autor as “camadas” que compõe seus contos. E daqui portanto é preciso ater-se a três dessas camadas. A linguagem, sempre tão presente em tudo que se diz e que se dirá sobre Rosa; aquilo que é de fato narrado, as estórias e os personagens; e aquilo que está por trás: o que tudo isso pode representar. Ou, usando as próprias palavras do autor, no conto Nenhum, Nenhuma: “o terceiro pensamento”. O plano da representação. Onde, penso, está o grande mérito de Guimarães.

Porque como sempre é o três o número de Rosa, o que não é o real nem o imaginário, a terceira margem do rio.

Edmund Wilson nos diz que, ao se ler Ulysses, é impossível captar em uma só leitura tudo que o autor nos propunha. Se prestamos atenção ao que está acontecendo na narrativa, perdemos uma sátira que fazia a determinado autor ou estilo, se prestamos atenção na linguagem e nas imagens, acabamos sem entender o que se passa na ação. Não é produtivo comparar Joyce com Rosa, mas é importante notar que, partindo de contos muito curtos e, ainda, propondo ao leitor mais de uma leitura “na certeza que, na segunda, muita coisa, ou tudo, se entenderá sob luz inteiramente outra”, ele nos deixa bem claro que há mais por trás do que a primeira percepção pode nos dizer. E ainda assim achava graça criar uma perplexidade nos críticos, como disse Paulo Rónai em Os prefácios de Tutaméia.

Rosa, como Joyce, acredita em seus leitores, ainda que se veja, talvez em favor do chiste, na necessidade de fazer-se guia de cegos para apresentar os contos. E nos deixa pistas, pelos contos, pelos prefácios, em livros anteriores.

(Divago, agora volto).

Veja-se de alguns contos. Porque me parece que Rosa espalha aspectos de uma literatura pelo livro, indicando o que pretende cheio de sutilezas e ironias.

Em Desenredo — e daqui nem tanto se precisa comentar as possíveis menções a James Joyce, apontadas por Vera Novis — a estória se faz por negativas, toda. Jó Joaquim cria a inocência da mulher por uma decisão, e daí parte a desfalar o que, ao que sabíamos, havia acontecido. Ele cria uma verdade, sua, e expande-a para o povoado, até que a própria mulher também passa a conhecer essa verdade, e volta, livre de culpas.

O que se apresenta nesse conto não seria então algo de metáfora de toda uma literatura do autor? Rosa poderia estar mostrando — com um sorriso de criança que roubou biscoitos de chocolate antes do almoço — sua “função” como narrador. E isso, sim, em todo o livro, estendendo-se para livros anteriores. Ao mostrar o modo de criação de verdade desse tal Jó Joaquim, não estaria nos indicando seu próprio modo, sutilmente; negando todos os contos como participantes da Verdade da História. O que existe é a Estória como verdade oculta de um outro plano da vida, um plano em que ela é releitura da vida e da própria literatura, releitura do passado da tradição.

Há um parágrafo:

“Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam-se. Deu-se a entrada dos demônios.”

Os tempos são, aqui, releitura, reinterpretação, de tempos passados. Mais para frente:

“Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente.” Sente-se reincidente de um crime coletivo, de um crime que a humanidade repete e sempre repetiu, pela história. E aqui a história com minúscula, que pretendo dizer, essa história que é também a história de tradições, da literatura, também do que é ficção.

E dá-se que James Joyce enfia-se nesse meio outra vez, quando de: “Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fazer de louco.”

Essa frase tem, ao menos, três portas de entrada. Vera Novis diz que, do tempo de Tutaméia, ainda não havia tradução de Ulysses, de Joyce. O que não nos impede de imaginar que Rosa tenha tido contato com o livro, de uma forma ou de outra. Ela fala apenas de Finnegans Wake. Mas considerando que a narrativa conta uma história de traição — traições — permito-me a divagação. O Ulysses de Joyce já é, por si, um recontar da história mítica, uma aproximação desse mito aos tempos modernos, comprovando e reafirmando o que existe nela de universal. Rosa nos garantiu que toda palavra está bem em seu lugar e nada pode ser mudado em todo o Tutaméia. Disso, sim, talvez um exagero de autor apegado demais à própria obra. Mas importa-me aqui acreditar no que Rosa disse e afirmar que não é em vão que faz uma comparação usando o personagem homérico Ulisses, que além de pertencer ao plano mítico, pertence também a uma outra paráfrase, feita no começo do século por James Joyce. Os tempos, a vida, a literatura, parafraseiam-se, a ponto de fazerem-se paráfrase de paráfrase? Além disso tudo, uma palavra na frase deveria chamar a atenção. Porque o narrador nos diz: “sábio sempre foi Ulisses”; o sempre que indica algo de continuidade, das reverberações do mito na vida e na literatura. O que há é sempre o recontar-se.

E o conto termina: “pôs-se a fábula em ata”. A estória termina aqui, mas, além, ela começa aqui, sempre. A partir do final desenredado fica pronta uma história, estória final, que é o que deve ser contado em diante.

O narrador nos mostrou uma verdade, e depois a negação dessa verdade, que cria uma segunda verdade. “Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?” Ele nos pergunta, intrometido que é. Mais certa? Mas se falsa... falsa? O narrador com um sorriso no rosto, dizendo, talvez, que assim como o povo acredita na realidade que Jó inventou, estamos também acreditando naquela que ele contou. Estivemos acreditando, todo esse tempo.

Em Tutaméia tudo parece metalinguagem, de sentidos ocultos e não-ditos, explicitados pela escolha ultraconsciente das palavras dos contos.

Do não-dito, Rosa nos mostra o conto Curtamão. O conto é metáfora de todos os outros, e a casa é metáfora da estória. “Dizendo, formo é a estória dela, que fechei redonda e quadrada.” O que se conta é o que convém contar; o verossímil, o que não cabe o rótulo de realidade. E acreditamos, leitores, ouvintes, nesse narrador? O tempo todo ele nos vem com aquilo que não diz: “Tirada a licença completa, e o que não digo”; “E o que não digo, meia palavra”; “Saiba eu o que não digo”; e o final, que não nos pode escapar, o que nos resta para eco de todo o conto: “e o que não dito”. O conto pronto, como a casa, nos mostra o que está aparente. O narrador nos nega tornar explícito o que há de motivos e razões. Ao leitor é negado o que existe do verossímil que poderia nos levar a uma realidade. Ele nos nega qualquer parte na História. A casa, também, não é de se mostrar por dentro.

De Guimarães Rosa, outro ponto para sua tese? A estória é o que é contado, com seus não-ditos. O conto é desafio, faz-se adivinha. Uma anedota.

Rosa faz nos dizer, imagino, que não procurem nesses contos qualquer realidade. Aqui, apenas, a estória. O que não se precisa de explicações para se crer, o que se conta. Estão acreditando nisso? Ele está rindo, ele, o guiador de cegos.

No conto Os três homens e o boi dos três homens que inventaram um boi, é o narrador outra vez achando graça no se criar das estórias, tapinha nas costas do crente ouvinte. Um boi inventado acaba por fazer-se lenda, acreditada. Seus criadores velhos, um que morreu, outro que se foi, e um terceiro, Nhoé que no começo não viu graça naquele inventar de bicho, e viu perigo no que podia se misturar com uma realidade já complicada; Nhoé permanece no foco do narrador, para chegar-se a uma roda de vaqueiros e ouvir uma estória de um tal boi desafiado só por “três propostos vaqueiros”.

O conto começa: “Ponha-se que estivessem, à barra do campo, de tarde, para descanso”. Ao leitor que procura Verdades, não as encontrará aqui.

E, ainda, por imagens repetidas, temos o ovo, aparecido no conto Curtamão em: “Todo ovo é uma caixinha?” Aqui, os vaqueiros reunidos, o narrador nos diz: “um quebrou o ovo do silêncio”. Esse ovo poderia ter algo da adivinha que Rosa nos propõe no primeiro prefácio? Um ovo como guardador de possíveis?

É Rosa mostrando ao leitor de que se fazem as estórias, que nada é o real do leitor, e que ali ele não há de querer encontrar real algum. O próprio conto se nega, de certa forma, sendo metalinguagem da criação. Porque há o enquadramento da narrativa dos vaqueiros a respeito de um tal boi, e há o enquadramento do narrador, contando a estória dos vaqueiros. E isso fica ainda mais claro no título, que é um no sumário e outro na página do conto. No sumário: Os três homens e o boi. Aqui o narrador nos apresenta o seu enquadramento, da estória de três homens e do boi. Em um segundo momento, o título estendido, temos uma segunda parte: o boi dos três homens que inventaram um boi. Sabemos que boi é esse. É o enquadramento dentro do enquadramento; a estória dos vaqueiros dentro da estória do narrador; narrador este que ao principiar sua estória manda o leitor supor que.

Mas ao mesmo tempo em que o conto se nega como pertencente a um plano de Verdade, reafirma-se como estória; reafirma o que Rosa e seus narradores vêm nos dizendo por todo o Tutaméia e por todos os outros livros antes dele: que nada ali é do nosso real; que o que fizeram esses vaqueiros e o que recontaram os outros vaqueiros, da roda onde Nhoé chega-se, é o que faz o autor, e assim as estórias se fazem.

De absurdos

E finalmente encontrei o livro O Mito de Sísifo, de Albert Camus, num momento em que eu tinha dinheiro para ele, e devo dizer que é demais. Estou dando cambalhotas enquanto leio. E todo o mais que eu poderia dizer não serve de coisa nenhuma; só que recomendo.

segunda-feira, 25/09/2006

Temam Borges

E por falar em Borges (porque na minha cabeça estavam falando de Borges), sabiam que uma tal estudante de letras encontrou na biblioteca um tal Pierre Menard? Ele tinha um acento, Ménard, acho, mas era um Pierre Menard e era assustadoramente parecido com o Pierre de Borges, em todos os sentidos e com uma obra igualmente extensa e variada e com coisas sobre jogos de xadrez (ou não, mas enfim, parecido, por demais, muito mais do que deveria). Pierre esse que não constava na biblioteca de Borges, o próprio, e então, quê? Tenho medo de Borges.

quinta-feira, 14/09/2006

Outra vez, outra

O Ulysses do Joyce é mesmo livro pra se ler na velhice, quando já com conhecimentos todos de uma vida. O problema é que se deixar para ler esse livro quando ele deveria mesmo ser lido, você provavelmente está velho o suficiente para morrer antes de chegar na página 100.

(E vai perder o capítulo do Cidadão, que é genial. Pity.)

"Nenhum, nenhuma"

"Infância é coisa, coisa?"

. . . . . . . do conto Nenhum, nenhuma, de Guimarães Rosa, do livro Primeiras Estórias.

sábado, 05/08/2006

Oras, L-i-t-e-r-a-t-u-r-a

Isso de que crítico faz crítica porque não sabe escrever é a maior bobagem que existe no mundo. Quem diz isso é escritor frustrado incapaz de aceitar crítica.

E Joyce nunca foi difícil de se ler. O que aconteceu (com Ulysses) foi uma tradução terrivelmente difícil de se ler. Com Finnegans, uma impossibilidade de tradução. Se joyce é hermético, é tão hermético quanto Guimarães Rosa.

Porque se Finnegans é difícil e é o último de Joyce, Guimarães tem Tutaméia que é tão disléxico quanto. Deve ser da idade.

Eu gosto de guimarães. Não prefiro um ao outro, porque comparar (pra saber qual é melhor) é a coisa idiota que estou dizendo que alguns críticos fazem, e fazendo são idiotas. Eu disse que Joyce já tinha feito tudo aquilo muito antes. O que não quer dizer nada. Era só um pensamento diante de uma professora com uma adoração exagerada.

A crítica existe porque existe arte, e porque existe literatura. E, convenhamos, vice-versa. Mas enquanto fulano da Silva disser que X é ruim porque ele preferia estar lendo Y, fulano da Silva é idiota e nem tem o nome em maiúscula. Porque se X é ruim porque ele preferia estar lendo Y, vá ler Y. Gosto é gosto. Tem gente que gosta de Clara Averbuck e Márcia Denzer. Hooray.

O problema é a balança. Existe um outro mundo na literatura. Existe uma zona média que fica entre Sabrina das bancas e Joyce (deixa eu aqui com meu Joyce querido) e aqueles outros tantos que se esforçam para ser Joyce (ou Kafka, ou Beckett, whatever). Paulo Coelho talvez esteja nessa zona. Literatura policial. Ficção científica. Etc. Mas a crítica não está pronta.

(Oh, oh, mas é possível escrever literatura policial e ser elegante, e escrever bem, e blablababa. Claro que é. Mas hoje em dia escritores se esforçam demais. Ninguém quer ler o futuro Kafka. Só os amigos do futuro Kafka e a turma da universidade. E algum editor suicida. E a patota da Vila Madalena. E assim é um grupo suficientemente grande pra uma publicação e nós aqui continuamos importando a literatura popular e de entretenimento porque nenhum escritor e editor quer começar o trabalho sujo.)

(E na verdade, nem eu.)

terça-feira, 01/08/2006

A crítica não está pronta

        pra mim? não, pra mim também não. uh.
        pra muita coisa.
        a crítica é idiota.

Na verdade, digamos.

Que enquanto existir alguém (crítico, blogueiro, menino de 9 anos com ranho, que como diria o professor Arhur do Anglo, é tudo--- . Não, espera. Onde era?)

Enquanto existir gente dizendo que tal coisa é ruim porque não é Proust, e porque prefere ler Beckett, e não é nenhum Joyce.

         (nem Joyce era um James Joyce.)

Eu estou falando de literatura, pode olhar. A categoria, ali embaixo. Perto do meu nome. Da hora. Do link de comentários.

             é.

  (minha professora de literatura brasileira II acha Guimarães Rosa tão genial que dá calafrios. "Mas professora, o Joyce não tinha feito tudo isso, uns 20 anos antes?" pelo menos. ara.)

Não era isso que ia dizer.

Ia dizer: e daí?

Ninguém me entende.

Nem eu me entendo.

           (esquece literatura, literatura morreu. escreve aí, mas esquece literatura. faz sua coisa aí.

isso. faz sua coisa aí. me deixa em paz.)

     Pára de tentar ser o novo Proust, o novo Joyce. Fica feliz com o Nobel aí.
Kafkas são pior ainda. Baratonas. Baratonas da finada literatura.

Clarice Lispector gostava de baratonas.

É que eu estava falando da crítica. Clarice ficava deprimida.

terça-feira, 06/06/2006

Do poeta

Não consigo entender qual é a do Oswald de Andrade. Na verdade me parece que é desses caras que não estão falando sério nunca, sempre ironizando tudo, sempre fazendo um discurso elegante com um sorriso tortinho no canto do lábio e rindo por dentro.

terça-feira, 02/05/2006

Uh, inventora de vivências

   Ê!

Revista Entrelivros do mês de maio (uh, é esse mesmo). Capa com Drummond e João Cabral (que é pra eu ficar bem acompanhada: Drummondito). Tem uma Olivia na página 86, toda pimpona. Vai olhar na banca!

Uh! Estou mui feliz. E totalmente fã do Julián Fuks, que fez o texto de apresentação.

   E agora vai.

quinta-feira, 20/04/2006

Escola

A palavra do dia é anfigurismo.

Vou criar uma nova escola literária.

                                                                                                Anfigurismo.

   Seguidores! Em fila!

domingo, 16/04/2006

Romance 101

Aos romancistas frustrados, Baudelaire:

Começo de um romance, principiar um assunto seja em que ponto for, e, para ter desejo de ir ao fim, começar por frases muito belas.

Meu coração desnudado, Ed. Nova Fronteira, pág. 41

Modernismo, futuristas!

Ah, sempre tão bom contradição alheia.

Inda mais quando o tal sujeito que se contradiz já morreu e mal pode se defender.

Inda mais quando tal sujeito é um que admiro, e afinal ninguém é perfeito, e na verdade Mário de Andrade é dos meus queridos por ser assim como é tão cheio de falhas e tão gente tão humano, tão cheio de vezes que quebrou a cara ou quebraram sua cara por ele, e tão cheio de mudar de idéias, de olhar pra trás e dizer, é, não foi como devia ter sido.

Eis que diz em artigo de 1931, falando sobre novos livros encantadores de poesia:

Devia ser proíbido por lei indivíduo menor de idade, quero dizer, sem pelo menos 25 anos, publicar livro de versos. A poesia é um grande mal humano. Ela só tem o direito de existir como fatalidade que é, mas esta fatalidade apenas se prova a si mesma depois de passadas as inconveniências da aurora. Os moços têm muitos caminhos por onde tornar eficazes as suas falsas atividades: conversem com o povo e o relatem, descrevam festas de região bem detalhadamente, ou se inundem de artigos de louvor aos poetas adorados. Poesia não. Escrevam se quiserem, mas não se envolumem. O resultado dessa envolumação precipitada das inconveniências da aurora, refletindo bem, foi desastrosa no movimento contemporâneo da nossa poesia. Uma desritmação boba, uma falta pavorosa de contribuição pessoal, e sobretudo a conversão contumaz a pó de traque, da temática que os mais idosos estavam trabalhando com fadiga, hesitações e muitos erros.

Mas me dá uma vontadezinha de perguntar e então, e Rimbaud, o vagabundo genial, aquele adolescentezinho bêbado que de repente começou nuns delírios a ver grande coisa na palavra, a palavra, a palavra, o verso, passarinho roxo dando piruetas na janela ou o que sei. Ah!

Bem que eu queria Mário aqui pra mandar cartinha, ele que sempre respondia todas cartinhas, e receber dele uma explicação toda detalhada e trabalhada e explicada.

Rimbaud é overrated.

            (Proust e Chico Buarque também, mas não vou entrar nesse assunto agora.)

Claro que Rimbaud não se encaixaria no tipo que o Mário de Andrade está descrevendo (porque se Mário não pode me responder a provocação eu vou ter que responder sozinha), quando na verdade diz que o metro livre de repente abriu espaço pra uns moços espertinhos que começaram a achar que poesia era coisa fácil de se fazer e era só dizer qualquer porcaria que estava mui bom para uns moderninhos futuristas.

De certa forma pode-se dizer isso de todos e o que diria Menotti Del Picchia achando tudo muito lindo e genial e a pátria, a pátria, a renovação! (Toda época, toda arte, todo movimento tem seu agitadorzinho.) O tempo diria, o tempo disse. Uns ficam com nome escrito na história, outros com nomes para todo o futuro da literatura. Cada qual sua vocação.

           (Esse Del Picchia me irrita, confesso. Ele achava tudo muito lindo e encantador e revolucionário etc e tal.)

E nem posso mais reclamar que é coisa do modernismo, porque isso aconteceu também no parnasianismo, tudo meio que às avessas. Aí era só fazer umas coisas metrificadinhas e rimandinho que tava belezinha, supimpa, pouco importa se tem alguma alma no que se escreve. Alma, alma. Acontece sempre, qualquer escola; alguém um infeliz sem talento em busca de fama segue os preceitos bonitinhos e faz uma obra encaixadinha.

História do mundo.

Fato é que sempre existiram e sempre vão existir os bons e os maus, os verdadeiros e aqueles que pegam carona na moda do momento. No modernismo foi assim como também foi em épocas anteriores. É tão fácil falar mal do modernismo. Mário de Andrade pediria um pouco mais ponderação e nisso coloca a idade, tendo como esperado que depois de uns 25 anos o sujeito tenha um tanto mais senso crítico para inventar de escrever poesia.

Mário de Andrade era um que tinha muita fé na humanidade.

Ah, Mário, meu querido poeta futurista.

           (E agora ele faz uma careta e respira fundo, sacudindo a cabeça e fazendo tsc tsc.)

quarta-feira, 07/12/2005

Peter Pan

Porque eu comprei Peter Pan em inglês no sebo naquela vilazinha da Augusta, e também um livro do Alejo Carpenter e tenho que ler Pedro Páramo e contos gostosinhos do Graciliano Ramos além de livros dessa gente toda que fica por aí publicando e lançando livros, e o Mirisola já reclamou que eu não fui no lançamento do livro dele mas também fiquei sabendo assim em cima da hora por causa de uns spams aí que recebo todos os dias com umas literatices.

E na verdade eu vou ler mesmo é Peter Pan e o resto depois, depois, (se eu conseguir ler um livro a cada três dias como talvez eu consiga se o livro em questão não for Ulysses, oh, tantas coisas que quero ler) sinto cheiro de férias e Franca me chama.

Peter Pan é uma coisinha muito boa de se ler; recomendo e aos que têm paciência para ler na tela ou então papel e tinta sobrando na impressora, ei-lo aqui graças ao nosso tão amado Project Gutenberg, e também colo aqui o primeiro parágrafo porque eu sou mesmo tão boazinha que é para aqueles que vêem um link e uma onda de preguiça se espalha pela mão que usa o mouse e clicar, quê, nada.

All children, except one, grow up. They soon know that they will grow up, and the way Wendy knew was this. One day when she was two years old she was playing in a garden, and she plucked another flower and ran with it to her mother. I suppose she must have looked rather delightful, for Mrs. Darling put her hand to her heart and cried, "Oh, why can't you remain like this for ever!" This was all that passed between them on the subject, but henceforth Wendy knew that she must grow up. You always know after you are two. Two is the beginning of the end.
sexta-feira, 02/12/2005

Sobre Dalton Trevisan

Após aberto, consumir imediatamente.

quinta-feira, 01/12/2005

"Ninguém vai saber que é você"

"Escrever é uma forma de matar o que já está morto."
                  Do último livro do Marcelo Mirisola, Joana a contragosto. Huur.

(E chove.)

segunda-feira, 07/11/2005

Sexo Anal

não é o que você está pensando

Trata-se do livro do nosso querido e agora além de querido também grávido, Luiz Biajoni.

      Eu ia postar isso hoje.

         Ahn, estou postando isso hoje, mas, bem. Ia postar mais cedo. Mas vovó me levou no cinema.

Enfim. Eu li. E serei chata, irremediavelmente chata. Tão chata que é capaz de você desistir desse post no meio e ficar com vontade de ler o livro do Bia só pra poder dizer que tudo que eu disse aqui é uma grande bobagem.

Mas eu faço o que eu sei fazer (ser chata).

Não tem como negar que o livro é bom. Comecei a ler à uma da manhã para ver se pegava no sono. Parei por alguns minutos porque estava pegando fogo num carro lá na esquina e fiquei espiando da janela. Depois dessa, ia ser mais difícil dormir. Continuei lendo. Fui parar de ler quando cheguei ao fim do livro, lá pelas cinco e meia da manhã. Não podia parar antes de chegar no fim (tem coisas que não é bom parar no meio, né).

A idéia, a trama, os personagens, a linguagem; impecável. Mas o livro ainda não está pronto. Ainda não está pronto para ser mandado para uma editora e publicado, porque falta nele um cuidado com o texto que vai muito além da questão da linguagem coloquial, uso de gírias ou o estilo do Bia. Eu diria que faltam algumas revisões. Mas talvez dizer isso seja pouco.

O Evandro Affonso Ferreira vez ou outra reclama que eu coloco um palavrão em algum texto meu e diz que isso acaba com a literatura. Tudo bem, é um ponto de vista mais exagerado. Não é o meu. Aí ele me mostra João Antonio, para dizer que é possível usar gírias e ser malandro e ainda assim escrever bem. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. E isso é estilo.

Certo, ótimo. Estamos de acordo quanto a isso?

O Bia me falou que seu livro estaria mais próximo do Nelson Rodrigues e o Plinio Marcos (porque o João Antonio é carioca demais). Aí foi lá a Olivia então ler esses dois um pouquinho pra saber melhor do que ela está falando.

E continuei achando que o livro ainda não está pronto. Faltam revisões.

O que mais me incomodou foi o uso das vírgulas. Pareceu que faltam alguns conectivos. Em alguns momentos vão sendo enumeradas informações, jogadas uma atrás da outra. Como isso acontece sempre, começa a parecer um eco.

   "Ele estava totalmente perdido, a cabeça rodava, não sabia mais o que esperar da história."

   "Fez a imagem da namorada de jaleco azul sendo enrabada pelo médico de camisa branca, a calça arreada."

   "O pessoal do escritório o conhecia, sabia que tinha algo errado, alguns tentaram mesmo se aproximar e ajudar."

   "Deixava o trabalho, ia pro apê, bebia um pouco, via TV e não tinha nem tesão pra se masturbar."

   "O pai deu tchau na porta, um beijo na menina, e sentou para beber mais com Luiz."

   "Sentou no sofá, olhou para o relógio."

   "Ana fez um gesto de stop, mão espalmada."

   "O Mário olhava com aquele olhar escroto dele, bolsas embaixo dos olhos, sobrancelhas desgrenhadas, um louco!"

Vá, chega. Só para dar um exemplo. Isso acontece muitas vezes. Na minha opinião, enfraquece o texto. Independente de ser uma coisa coloquial ou o que seja. E com o meu parco conhecimento do mundo editorial, esse tipo de coisa acaba sendo um ponto a menos pro Bia na hora de botar o livro à prova.

Falando de ecos, uma revisão também poderia ser útil para se livrar de certas repetições. Não tenho exemplos aqui, mas foi uma sensação que tive enquanto eu lia.

Sei que o livro não tem pretensões literárias. Não é esse o problema. Não estou tentando fazer o livro ficar com pretensões literárias. Do jeito que está ele agrada sim, muita gente. Mas o objetivo não é colocar nas mãos de uma editora?

Além disso, algumas vezes me peguei fazendo careta para alguns advérbios. Em muitos momentos eles são completamente desnecessários. (Assim como eu poderia agora ter dito "em muitos momentos eles são desnecessários".) E em outros eles são cliches. Uma revisão pra eliminar cliches e advérbios desnecessários poderia ser útil. Afinal, se o objetivo é um texto simples e coloquial e sem pretensões literárias, por que ficar enfeitando com o que é prescindível? (Por que dizer "rápida como um raio"?)

Já os adjetivos não chegam a ser um problema. Mas assim como no caso dos tipos de advérbios, algumas caracterizações me parecem bobas, por serem um tipo de cliche literário.

   "só lhe vinham pequenos fragmentos": um fragmento de idéia é, sempre será, pequeno. O ajetivo é redundância.

Só um exemplo pra ilustrar a minha idéia.

(E uma coisinha mais insignificante, por que o exagero do uso da palavra "ambos(as)"? Na maioria das vezes elas são bem inúteis. Principalmente quando em "ambos os dois".)

Isso tudo são coisinhas. Coisinhas que podiam ser resolvidas com uma revisão, sem mudar em nada o estilo ou a trama ou qualquer tipo de caracterização dos personagens e dos cenários, nem mesmo o efeito que o Bia pretende com esse livro - uma novela marrom. Acho isso possível e muito válido. Porque o livro é ótimo e tem futuro. Você fica próximo dos personagens. Sente com eles, por eles. E isso por causa do uso dos diálogos: a gente aprende sobre os personagens conforme eles vão se mostrando pros outros, como num filme mesmo. Sem psicologismos ou literatices. Como eu disse ali no começo, não pude deixar de ler até que tivesse terminado. Isso é algo a ser considerado, ainda mais que eu sou chata e nunca gosto de nada.

Mas são por esses motivos - principalmente - que acho que o livro ainda não está pronto. E a única pessoa que pode mesmo fazer essa revisão é o Bia. Justamente para não sair do trilho, não perder de vista o que ele pretende (ou o que não pretende) com o Sexo Anal.

segunda-feira, 31/10/2005

Nesse mundo de literaristas

missão

Convencer as pessoas de que Memórias Póstumas de Brás Cubas do Machado de Assis, O Jogo da Amarelinha do Cortázar e Ulisses do James Joyce são livros gostosinhos de se ler, acima de tudo.

questão de gosto

Agora me explica como é que alguém que acha Proust magnífico pode achar James Joyce um porre?

   Sei lá.
      Cada um com suas manias.
(Tem gente que cheira livro, tem gente que morde livro.)

Eu, por exemplo, acho o Saramago um engodo.
      (disse António Lobo Antunes, simpatia em pessoa: pra vocês brasileiros, Saramago tá muito bom.)

Assim como os romances do Rubem Fonseca. Engodo.

(Eu também mordo livros. Mas isso não vem ao caso.)

  Mas gosto, né. Até um ponto, é tudo uma questão de gosto. Tem gente que curte Safo.
Tem gente que curte Álvares de Azevedo. Hoje saindo da faculdade ouvi a conversa:

- Quem é melhor, Álvares de Azevedo ou Guimarães Rosa?
- Álvares de Azevedo, com certeza!
            e exclamações de concordância.

Medo.

terça-feira, 11/10/2005

Então

O livro do lançamento de ontem desse tio aqui me parece bom. Eu quero. Alguém me dá de presente?

terça-feira, 04/10/2005

Verdices

Menina dos olhos verdes
Por que me não vêdes?

Estou querendo descobrir se Camões realmente tinha uma obsessão com alguma donzelazinha de olhos verdes ou então ele gostava mesmo muito de "verdes", porque rima com um monte de coisa, inclusive um monte de verbos.

Latest news

Há algo de pobre no reino da Dinamarca.

Polonius tinha chulé. Hamlet: "Excellent well. You are a fishmonger."

quinta-feira, 29/09/2005

Sorry

      History is a nightmare from which I am trying to awake.

Uh.

sexta-feira, 23/09/2005

Trágico

"tormentos daqueles a quem a morte governa"

(Estudando coisas que eu não preciso estudar.)

"Todo o trágico se baseia numa contradição inconciliável. Tão logo aparece ou se torna possível uma acomodação, desaparece o trágico." - Göethe ao Chanceler von Müller

"O homem, em seu trágico destino, não pode fazer outra coisa senão gritar, não se lamentar nem se queixar, mas gritar a plenos pulmões aquilo que nunca foi dito, aquilo que antes talvez nem soubesse, e para nada: somente para dizê-lo a si mesmo, para ensinar-se a si mesmo." - Jean Anouilh, Antígone

"É muito bem ordenada a tragédia. Tudo é seguro e tranquilizador. (...) No fundo, são todos finalmente inocentes. (...) Além disso, a tragédia é especialmente tranquilizadora, porque desde o começo já se sabe que não há esperança, essa esperança suja... (...) aqui tudo é absurdo. Tudo é vão. Ao fim, não há mais nada a tentar." - Jean Anouilh, Antígone

[Do livro A Tragédia Grega, de Albin Lesky, editora Perspectiva.]

terça-feira, 20/09/2005

James Joyce

Hm, bom.

(Não, ainda não atentei ler Ulysses. Uma coisa de cada vez. Eu chego lá, mas pelo jeito que anda minha vontade de abrir o senhor tijolo e estar na página 100 e o cara fazendo a barba depois de acordar, é capaz de ler Em busca do tempo perdido muito antes - não que esse seja muito diferente, convenhamos.)

segunda-feira, 05/09/2005

Ontem

Logo não mais me restava em que pensar, restavam somente coisas em que não queria pensar. Bem que eu gostaria de chorar um pouco, mas não podia, porque não havia motivo algum para isso.

***

(...) então paro na calçada, virando as costas a uma loja grande, olho as pessoas entraram e saírem e penso que as que saem deveriam ficar lá dentro e que as que entram deveriam ficar de fora, isso economizaria um bocado de cansaço e movimentos.

Ontem, Agota Kristof
terça-feira, 30/08/2005

O livro da minha vida

Julio sem acento cronópio

E eu ainda estou no capítulo 18 (de cento e tantos, mas é que tem que ir pulando). Luiza, nem sei como te agradecer, só não pede dinheiro que eu tenho dois reais na carteira e tô devendo trinta.

E do capítulo 18, que não quero que acabe nunca:

(...) Pureza como a do coito dos jacarés, não a pureza de oh maria mãe de todos com os pés sujos; a pureza do teto de ardósia com pombos que naturalmente cagam sobre a cabeça das senhoras frenéticas de cólera e de punhados de rabanetes. A pureza de... Horacio, Horacio, por favor.

Pureza.

(Já chega. Vá embora. Vá para um hotel, tomar um banho, ler Nossa Senhora de Paris ou As lobas de Machecoul, acabe já com esse pileque. Extrapolação, nada menos!)

Pureza. Que palavra horrível! Purê e, depois, zá! Repare um pouco nessa palavra! Que suco poderia Brisset ter tirado dela! E por que você está chorando? Quem chora, afinal?"

Entender o purê como uma epifania. Damn the language. Entender.. Não inteligir: entender. Uma suspeita de paraíso recuperável: Não é possível que estejamos aqui para não poder ser. Brisset? O homem descende das rãs... Blind as a bat, drunk as a butterflu, foutu, royalement foutu devant les portes que peut-être... (um pedaço de gelo na nuca, ir dormir. Problema: Johnny Dodds ou Albert Nicholas? Dodds, quase certo. Nota: perguntá-lo a Ronald). Um verso ruim, esvoaçando na clarabóia: "Antes de cair no nada uma última diástole..." Que bebedeira, meu pai. The doors of perception, by Aldley Huxdous. Get yourself a tiny bit of mescalina, brother, the rest is bliss and diarrhoea. Mas sejamos sérios (sim, era Johnny Dodds, chegamos sempre à comprovação por via indireta. O baterista só podia ser o próprio Zutty Singleton, ergo o clarinete era Johnny Dodds, jazzologia, ciência dedutiva, facílima depois das quatro da manhã. Desaconselhável para senhores e sacerdotes). Sejamos sérios, Horacio, antes de nos endireitarmos, muito pouco a pouco, e de apontar para a rua, perguntemos-nos com a alma na ponta da mão (na ponta da mão? Na palma da língua, amigo, ou algo semelhante. Toponomia, anatologia descriptológica, dois volumes i-lus-tra-dos), perguntemos-nos se a tarefa tem de ser cumprida por cima ou por baixo (mas que ótimo, estou pensando muito claramente, a vodca nos prega como mariposas no cartão, A é A, a rose is a rose is a rose, April is the cruellest month, cada coisa no seu lugar e um lugar para cada rosa é uma rosa é uma rosa...)

cap. 18, O Jogo da Amarelinha, do Julio Cortázar
segunda-feira, 29/08/2005

Coisas que acontecem e as leituras perigosas

De repente em uma página perdida de O Jogo da Amarelinha, do Julio Cortázar, que eu comprei em um sebo lá no centro:

Muito boa notícia para você. Todo esse tempo em que plantou já está no fim. A hora da colheira se aproxima. Valeu todo o empenho e esforço. Esse grande amor está a um passo para ser verdade.
Em um cartãozinho com detalhes cor-de-rosa. E logo abaixo:
Curiosidade Mística: A essência de baunilha serve como estimulante, fortificante e eleva o bem estar.
Como o mundo que me acontece às vezes parece um pouco torto, não posso deixar de registrar cartões cor-de-rosa por aqui, antes de voltar para a leitura - perigosa leitura - do livro-labirinto, sem ficar pensando que só eu mesmo encontro cartões cor-de-rosa com previsões para o meu futuro ou uma mini carta de baralho (um valete de paus que já fez as vezes de marcador de página) no meio dos livros.

E antes que me perguntem o que diabos esse post está fazendo na categoria de literatura, peço que vá tomar uma água-de-coco ali na piscina atrás da plantação de ratos.

A Luiza falou que se eu lesse O Jogo da Amarelinha eu ia ficar maluca. E nem sempre é um bom momento para se ficar maluca. Eu já comecei a pirar lendo Ficções, do Borges (e ainda não consegui ler tudo, começa a me dar piripaques e acessos esquizofrênicos) e piro sempre que um livro de repente me vira de ponta-cabeça e diz que o mundo, o meu mundo, na verdade não é nada disso que eu achava que era, e as palavras, as palavras que eu encontro ali no dicionário, são maiores, tão maiores. E eu preciso sair por aí dizendo pro mundo "olha, olha isso, olha só!" como se um simples ato de grifar o trecho com o lápis não fosse o suficiente.

Daí uma certa relação perigosa minha com a literatura, e que me impede de ler tanto quanto gostaria ou deveria, sim, sim. Trata-se da minha sanidade mental e social e da minha incapacidade de se aprofundar num só assunto sem achar que os outros assuntos vão ficar com ciúmes.

quarta-feira, 24/08/2005

Saudosismo

Inteiro é o que tem começo, meio e fim. Começo é aquilo que, de per si, não se segue necessariacmente a outra coisa, mas após o quê, por natureza, existe ou se produz outra coisa; fim, pelo contrário, é aquilo que, de per si e por natureza, vem após outra coisa quer necessária, quer ordinariamente, mas após o quê não há nada mais; meio o que de si vem após outra coisa e após o quê outra coisa vem.
Aristóteles, Poética

Ah, os antigos.

sexta-feira, 19/08/2005

O mestre dos começos

Li O Falecido Mattia Pascal, de Luigi Pirandello e agora estou lendo outro romance dele, chamado Um, nenhum e cem mil. Tinha lido num dos livros da coleção Mar de Histórias que o forte do Pirandello eram os começos dos contos. Ele considerava o começo muito mais importante do que o meio ou o final. O final pouco importava (ao contrário do sr. Edgar Allan Poe, o freak por finais).

Aí com a minha mente brilhante e precoce eu concluí que essa coisa de gostar de começos se extendia também aos romances. Os começos desses dois que li são geniais. Você quer, você precisa ler o resto. Ele não te dá outra saída.

Como sou muito boazinha e acho que nunca é demais apresentar um bom autor pras pessoinhas que caem por aqui, eis os começos de O Falecido Mattia Pascal e Um, nenhum e cem mil.

Então arrume uma posição confortável e clica aí embaixo em "continue lendo..." coisa e tal. Se você já leu Pirandello e já leu esses dois romances que eu falei, esse é o momento para ler de novo. Alguns autores nunca cansam.

O Falecido Mattia Pascal

1. Premissa

Uma das poucas coisas, talvez a única, que eu sabia com certeza era esta: que me chamava Mattia Pascal. E tirava partido dela. Todas as vezes que algum dos meus amigos ou conhecidos demonstrava haver perdido o juízo, a ponto de vir me procurar, em busca de conselhos ou opiniões, eu erguia os ombros e respondia:

— Eu me chamo Mattia Pascal.
— Obrigado, meu caro. Eu já sei.
— E acha pouco?

Para ser sincero, eu também não achava muito. Porém, naquela época, ignorava o que significa não saber sequer isso, ou seja, não poder mais responder, em caso de necessidade, como antigamente.

— Eu me chamo Mattia Pascal.

Com certeza, alguém vai desejar condoer-se comigo (custa tão pouco), imaginando a dor cruel de um infeliz ao qual ocorra, de repente, descobrir que... sim, nada, enfim: nem pai, nem mãe, nem como foi ou deixou de ser; e também vai desejar indignar-se (custa ainda menos) da corrupção dos costumes, dos vícios e da malvadeza dos tempos que podem causar tamanha desgraça a um pobre inocente.

Pois bem, fique à vontade para fazê-lo. Mas é meu dever avisá-lo de que não se trata exatamente disso. Poderia aqui expor, numa árvore genealógica, a origem e a descendência da minha família e provar que não apenas conheci meu pai e minha mãe, mas também todos os meus antepassados e seus atos, durante um longo período de tempo, nem todos, na verdade, louváveis.

E então?

Aí está: meu caso é bem mais estranho e diferente, tão diferente e estranho que vou logo contá-lo.

Fui, durante dois anos, não sei se caçador de ratos mais do que guardador de livros na biblioteca que um certo monsenhor Boccamazza, ao falecer, em 1803, houve por bem deixar para o nosso município. É evidente que o monsenhor devia conhecer pouco a índole e os hábitos de seus concidadãos; ou talvez alimentasse a esperança de que seu legado deveria, com o tempo e a comodidade que representava, despertar no espírito deles o amor pelo estudo. Até aqui, posso testemunhá-los, não despertou; e o digo em louvor dos meus concidadãos. O município, aliás, mostrou-se tão pouco agradecido a Boccamazza que nem sequer quis lhe erguer ao menos um meio-busto e deixou os livros empilhados, durante muitos e muitos anos, num amplo e úmido depósito, de onde, depois, os tirou, podem imaginar em que estado, para guardá-los na igrejinha, fora de mão, de Santa Maria Liberal, dessagrada não sei por que razão. Ali os confiou, sem o menor critério, a título de benefício e como sinecura, a algum vadio bem recomendado, que, por suas liras ao dia, ficando ao olhar para eles ou, mesmo, sem os olhar, suportasse, durante algumas horas, seu cheiro de bolor e velharia.

Essa sorte coube também a mim; e, desde o primeiro dia, concebi tão escassa estima pelos livros, quer impressos, quer manuscritos (como eram alguns, antiqüíssimos, da nossa biblioteca) que jamais teria começado a escrever, como o faço agora, se, como disse, não considerasse meu caso realmente estranho e capaz de servir de ensinamento a algum leitor curioso que, por acaso, tornando-se finalmente realidade a antiga esperança de monsenhor Boccamazza, viesse a esta biblioteca, à qual deixo meu manuscrito, com a obrigação, no entanto, de que ninguém possa abri-lo senão cinqüenta anos depois da minha terceira, última e definitiva morte.

Porque, no momento (e Deus sabe quanto o deploro), já morri, sim, duas vezes, mas a primeira, por engano, e a segunda... ficarão sabendo.

Um, nenhum e cem mil

1. Minha mulher e o meu nariz

— O que você está fazendo?— perguntou minha mulher ao me ver demorar estranhamente diante do espelho.
— Nada,— respondi— só estou olhando aqui, dentro do meu nariz, esta narina. Quando aperto, sinto uma dorzinha.

Minha mulher sorriu e disse:

— Pensei que estivesse olhando para que lado ele cai.

Virei-me para ela como um cachorro a quem tivessem pisado o rabo.

— Cai? O meu nariz?

E minha mulher respondeu, placidamente:

— Claro, querido. Repare bem: ele cai para a direita.

Eu tinha 28 anos e sempre, até então, havia considerado o meu nariz, se não propriamente belo, pelo menos bastante decente, assim como todas as outras partes da minha pessoa. Por isso era fácil admitir e sustentar o que normalmente admitem e sustentam todos os que não tiveram a desgraça de nascer num corpo disforme: que é uma idiotice se preocupar com as próprias feições. A descoberta repentina e inesperada daquele defeito me irritou como um castigo imerecido.

Talvez minha mulher tenha percebido muito melhor do que eu a minha irritação, pois acrescentou logo em seguida que, se eu estava tranqüilo na certeza de não ter defeitos, podia ir desfazendo minhas ilusões, porque meu nariz caía para a direita, assim...

— E o que mais?

Ah, mais, bem mais! As minhas sobrancelhas pareciam dois acentos circunflexos, ^ ^, sobre os olhos, e minhas orelhas eram mal grudadas, uma mais saliente que a outra; e outras imperfeições...

— Mais ainda?

Ah, mais: nas mãos, o dedo mindinho; e nas pernas (não, tortas, não!), a direita, um pouquinho mais arqueada que a esquerda: na altura do joelho, só um pouquinho.

Depois de um exame atento, tive de reconhecer todos esses defeitos. E só então, depois que minha irritação foi substituída por espanto e, logo em seguida, por dor e abatimento, minha mulher tentou consolar-me dizendo que eu não precisava me preocupar tanto com isso, porque, apesar de tudo, eu continuava sendo um belo homem.

Difícil não se irritar quando recebemos como generosa concessão o que antes nos foi negado por direito. Lancei um venenosíssimo “obrigado” e, seguro de não ter motivos para sofrer ou me depreciar, não sei nenhuma importância àqueles leves defeitos. Mas dei um peso extraordinário ao fato de ter vivido por tantos anos sem nunca ter trocado de nariz, sempre com aquele, e com aquelas sobrancelhas e aquelas orelhas, aquelas mãos e aquelas pernas. E dizer que precisei ter uma mulher para me dar conta de que eram defeituosos!

domingo, 07/08/2005

Ah, esses argentinos

Cansaram? Eu não canso nunca.

Basta perguntar por que determinado conto é ruim. Não é ruim pelo tema, porque em literatura não há temas bons nem temas ruins, há somente um tratamento bom ou ruim do tema. Também não é ruim porque os personagens careçam de interesse, já que até uma pedra é interessante quando dela se ocupam um Henry James ou um Franz Kafka. Um conto é ruim quando é escrito sem essa tensão que se deve manifestar desde as primeiras palavras ou desde as primeiras cenas.

Julio Cortázar, "Alguns aspectos do conto"

Diálogos

Sensacional, fantástico, genial.

Borges e Sabato, os dois escritores argentinos, não se bicavam por razões políticas e tal. Borges eu já li, Sabato ainda não, mas tenho aqui um livro dele que vou pagar só no mês que vêm porque eu já gastei demais com livro esse mês. Aí, então, né, eles não se bicavam. Veio Orlando Barone e organizou esses encontros onde os dois falavam sobre tudo. Até sobre Beatles. Chega um momento em que Sabato diz:

"Acredito que se continuarmos falando vamos concordar em muitas coisas. Que perigo!"

O livro é genial, genial. Diálogos Borges/Sabato, que saiu esse ano pela editora Globo. O livro é de 1976, mas parece que ainda não tinha tradução. Comprei lá no sebo do Evandro*. Na verdade ele estava lendo o livro e eu meio que decretei que queria pra mim. Heh.

Enfim, enfim. Estou lendo coisas demais, acho que estou ficando meio compulsiva. Peguei aqui uns trechos do livro pra dar vontade.

BORGES: Ninguém pensa que deve se lembrar do que está escrito em um jornal. Um jornal, digo, é escrito para o esquecimento, deliberadamente para o esquecimento.

SABATO: Seria melhor publicar um periódico a cada ano, ou a cada século. Ou quando acontece alguma coisa verdadeiramente importante: " O Senhor Critóvão Colombo acaba de descobrir a América". Título em letras garrafais.

BORGES: Ocorreu-me uma coisa. Suponhamos que Esopo existiu e que escreveu suas fábulas. Mas provavelmente a idéia de animais que falam como homenzinhos o divertia mais do que a moral da história.
BORGES: Uma obra só não vale quando cumpre os propósitos do autor...

SABATO: Na época da Revolução Francesa, havia livros que tinha títulos como Virgem e republicana, com moral já a partir do título. Já podemos imaginar o que valeriam. Mas todas as revoluções são moralistas e puritanas. Na Rússia, foram escritas obras de teatro com títulos como A tratorista exemplar... As revoluções são conservadoras na arte. A Revolução Francesa não tomou Delacroix como paradigma, o da pintura passional e rebelde, mas, sim, o acadêmico David, o dos pompiers.

BARONE: Os senhores acham que há escritores para escritores?

SABATO: Claro: Joyce, Borges.

BORGES: (surpreso) Eu?

SABATO: E André Gide, também, um pouco.

BORGES: Alguém disse sobre o poeta Edmund Spenser: The poet's poet. "O poeta dos poetas", o que é uma limitação, não?

SABATO: Não sei, mas acho que o senhor é um escritor para escritores. O senhor lhes proporciona um deleite que não sei se o leitor comum sente.

BORGES: No entanto, acredito que quando uma frase está bem, serve para todos.

SABATO: Nem sempre.

BORGES: Um poema longo que só constasse de frases poéticas seria intolerável. Os poetas do século XVIII, não é mesmo? Existe um limite. Mesmo nos contos, é melhor que não se note demais o ofício.
BORGES: Eu tenho cinco ou seis amigos íntimos. Nós nunca chegamos a um consenso sobre a primeira vez que nos vimos. Porque na primeira vez a gente entrevê ou não vê essa pessoa. Então, com o Mastronardi resolvemos a dúvida jogando cara ou coroa. Com o Bioy aconteceu a mesma coisa: sei que nos conhecemos na casa da Victoria Ocampo, mas ele teima em negá-lo. Veremos o que a moeda decidirá. Acontece que a primeira impressão que as pessoas que são importantes na nossa vida causam costuma ser bastante vaga. Depois crescem sobre a gente e aqueles instantes vão se apagando.
BORGES: É um absurdo supor que um subsecretário é mais real do que um sonho... E, além disso, o subsecretário é destituído tão rapidamente... Eu disse muitas vezes que seria preciso saber se o Universo pertence à literatura realismo ou à fanstástica.

SABATO: À fantástica, sem sombra de dúvida. Existe alguma coisa mais fantástica do que um universo? Existe alguma coisa mais fantástica do que um homem com dois olhos na cara em vez de um só?

Ah, e também lendo O Falecido Mattia Pascal, do Pirandello, que já é motivo de outro post. O começo, o começo. O que é aquele começo? Estou delirando. Estava delirando na primeira aula de Introdução aos Estudos Literários, quando o professor só apresentou o que a gente ia estudar. Delirando. Poft. Woosh. 135 reais, nove livros, só porrada. Aí vendi uns livros de arquitetura pro sebo ali do lado e ganhei 100. Pra mim, saí ganhando, hein?

Borges, Borges é genial.

*O sebo é na Pedroso de Morais, 809, na frente da Fnac. É ótimo. Um perigo.

quinta-feira, 04/08/2005

Todorov desocupado e literatura de entretenimento

Também já havia concluído que Tzeran Todorov não tinha muito mais o que fazer. Claro, modo de dizer, porque esperto era ele que ficava o dia lendo e escrevendo o que ele pensava do que lia.

Ali do blog do Danton - novo na área, não vão espantar o moço -, uma fala genial do Todorov:

O romance policial tem suas normas, fazer 'melhor' do que elas pedem é ao mesmo tempo fazer 'pior': quem quer 'embelezar' o romance policial faz 'literatura', não romance policial.

E sim, aí tudo se resolve. Esse livro, Estruturas Narrativas, é um dos que tinha aqui em casa e sabe-se lá sua origem, mas achei muito bom.

Vi a referência a essa passagem enquanto lia o truta do Evandrinho, José Paulo Paes (eu tô ficando tão cult que não me agüento), A Aventura Literária. Ok, péssima escolha de título. Mas o livro é muito bom. Li sobre policiais em um capítulo chamado - eu acho, agora decorar nome de capítulo é pedir demais, só lembro porque era um título legal - "Por uma literatura brasileira de entretenimento (ou: o mordomo não é o único culpado)". (Roubei, peguei o livro e conferi o título, enganei todo mundo.)

Não acho ruim que o gênero policial seja um gênero menor, ou mesmo um subgênero. É e ponto. Mas não é só de Proust e Homero que vivem os leitores, e isso vale pros mais intelectuais. Eu acho ótimo que dona Diva minha avó tenha trocado as novelas da Globo por um livro com uma capa horrorosa da Jane Austen. "Olivia, é super emocionante, você não consegue parar de ler, quer saber o que vai acontecer, quando eu terminar vou te emprestar!"

Danton é um truta (eu gosto dessa palavra, mas escrita ela não tem metade do poder de quando é pronunciada) meu, aliás, um desses que eu convenci a fazer blog e se exibir. Veremos se o blog dele continua como começou.

terça-feira, 19/07/2005

Nos bastidores

o movimento e os escritores e a Olivia dando opiniões, de graça

E aí eu fui no lançamento do livro do Marcelino, ver rostos que eu tenho certeza que já vi antes mas não faço idéia de quem seja, conversar com Evandrinho e morrer de rir com sua língua afiada, com pontinha dividida em dois. Evandro passa e orelhas esquentam. Quero morrer amiga dele.

E ainda ouvi uma de mensalão da literatura, pra essa do Movimento Literatura Urgente.

Mas deixa eu falar sério. Uma boa lida das tais das propostas do movimento deixa claro que a intenção é ótima. Se conseguirem algumas das coisas dali, e aumento no incentivo a leitura e coisa e tal, muito bom, muito bem. Mas algo me incomoda. Algo não cheira bem.

Essa de bolsas para escritores se dedicarem unicamente aos seus projetos eu ainda acho (e ao que tudo indica, continuarei achando) uma grande bobagem. Não porque eu ache que escritor é vagabundo e não merece ganhar dinheiro do governo, e nem tanto, como disse Alex Castro, que os escritores estão vendendo a alma ao governo. Nah, que, alma? Alma é aquilo que as máquinas fotográficas roubam (roubam, roubam, eu posso provar! O governo ainda estava se oferecendo pra comprar, pá!).

Pois o que eu acho é um tantinho mais simples. Se a lei do audiovisual já não funciona porque esse país é torto, ela poderia sim funcionar, se tudo fosse arrumado e tal, e essas coisas que ele estuda, e não eu. Mas não era isso que eu ia falar.

Quando um cineasta apresenta um projeto para ser avaliado para uma possível bolsa, ele já tem tudo pronto. Ele tem um roteiro, ele tem (deveria ter) o elenco, orçamento, e todo o resto de coisas que ele vai precisar, ele já sabe. Porque o projeto está pronto. Com o dinheiro nas mãos, resta ao cineasta executar o trabalho e pronto, estamos todos felizes e contentes.

Mas, com um escritor? Como isso poderia funcionar? Como um escritor pode apresentar um projeto de romance ou que seja, pronto? Quando um projeto de um escritor está pronto? Ora! Se estivesse pronto o livro estaria escrito, bastava publicar. Um escritor com uma idéia na cabeça não quer dizer nada. Mesmo que seja uma idéia muito boa.

E como saber se a idéia boa vai ser bem executada? E um projeto péssimo bem executado? Falou Evandro, já imaginou Dante apresentando seu projeto? "Olha, tenho um projeto de romance que vai ser assim, um cara vai passar por vários níveis do céu pra buscar a sua amada." Lixo!

E outra, um projeto de romance não continua o mesmo conforme o romance vai sendo escrito. Imaginem um autor recebendo seu mensalãozinho todo mês para escrever, e de repente ele acha que aquele projeto é uma merda, precisa mudar tudo, precisa mexer na base!

Não pode! Ele está recebendo para escrever aquilo lá que ele apresentou! Como é que faz? Oh não!

O processo de criação de um escritor varia de escritor pra escritor, é muito certo. Cada um faz as coisas de acordo com suas manias. Mas, é bem certo, raramente alguém começa com um projeto e dá cabo a ele do jeitinho que era quando começou. Não, isso é impossível, o cara precisa ser um robô.

E se for ver, comparando isso com o cinema, o cineasta quando apresenta o projeto ele já tem o roteiro pronto. A história, a idéia, está concluída, finalizada. E no caso do que é proposto para o Movimento Literatura Urgente, as coisas não funcionam assim. Não poderiam funcionar, de qualquer jeito, porque um autor com um projeto concluído não precisa executar mais porra nenhuma, o seu roteiro é sua obra final.

Pá, falei.

sábado, 09/07/2005

De narrativas e narradores

De repente a tomada de um narrador como um de terceira pessoa externo e ao mesmo tempo presente para relatar com suas imprecisões de ser humano acontecimentos alheios. Colocar-se acima sem se afastar, narrar o que não é seu mas também não é exageradamente distante, genérico. Narrador borgeriano se me é permitida comparação tal com tão pouco conhecimento. Contador de histórias o narrador, não o escritor. Narrador alguém.

Fica por visualizar ainda com toda essa clareza de pensamentos o tempo da narração, mistério pra mim, de primeira e terceira pessoa também, sempre então que um narrador se faz presente e existente de alguma maneira. Um passado, um presente, uma mera possibilidade atemporal, recordação, memória. E até onde vai a capacidade humana de memória, capacidade física, incapacidade?

Lembro-me de um narrador de desenho animado, incitando crianças a continuar na história e não trocar televisão por carrinho de rolimã, tela de cinema por pipoca com manteiga e a pipoca se espalhando pelo chão pisada por sapatos no escuro. Um narrador curioso, onipresente assistindo o que acontece com toda gente, autor transfigurado em voice-over-narrativa, parcial, sempre com aquela parcialidade que é comum a nós pessoas reais e criadoras; escritores, autores.

Qual o espaço físico e o tempo da existência do narrador? E quanto disso nos importa, afinal, com um outro centro narrativo — aquele o qual narra o narrador.

Pois me cabe por fim aceitar que nem tudo se faz claro de uma só vez e é de revelações de livros por livros a livros que se fazem precisos certos comentários imprecisos de pessoas outras que já quiseram me convencer. Se o narrador me toma uma forma e se isso de fato acontece então não é nunca demais esperar que outras perguntas pouco certeiras também apresentem elas mesmas respostas que espero, um dia; uma leitura, uma criação.

sexta-feira, 08/07/2005

O supérfluo descartável

considerações em um só período sobre uma crítica de tal forma conservadora que nunca me convenceu

Como que vêm me dizer que o problema é a sociedade moderna que não tem mais paciência para apreciar as histórias mais longas e lentas, com mais apresentações de detalhes desse ou daquele caráter ou situação, coisas que a "nossa sociedade" moderna considera exagero supérfluo desnecessário, se já Aristóteles e Horácio do meu livrinho vermelhinho da Cultrix A Poética Clássica que dei de ler enquanto o doutor escrevia sua monografia, já diziam — esses dois moços-senhores — que a concisão é algo a se mirar, e o que pode ser eliminado deve, afinal, ser eliminado, e a história — fábula — final deve ser uma que seja uma e completa de tal maneira que tirado um de seus mais banais elementos ela se desfaça por completo?

e uma consideração final

Não nego, por outro lado, essa dita sociedade moderna que tem preguiças do que é mais lento e coisa e tal — mas tantos já disseram a mesma coisa. Apenas reitero uma opinião de que o desnecessário é sempre enfeite e pode e deve ser chutado do meio do caminho. E longe de isso ser qualquer tipo de lição tirada dos antigos, já que é uma opinião muito minha e coisa que ouço sempre da minha avó, fui buscar no tal livrinho a comparação que precisava para dizer que a culpa não é de uma sociedade moderna sendo coisa já pensada quando as pessoas ficavam cinco horas assistindo a uma peça e achavam tudo muito sucinto.

Diz a dona Suzana, o menos é mais, e eu ainda não consegui terminar de ler Agosto, do Sr. Rubem Fonseca, mas lerei, porque algumas recomendações a gente não descarta nunca.

sexta-feira, 17/06/2005

Fome de quê?

Sinceramente?

Acho uma grande bobagem.

Se é essa a única saída, vou me disfarçar de samambaia e se alguém perguntar eu não tenho nada a ver com isso, eu sou uma diplomata da Coréia.

Depois vem chorar que os filmes brasileiros que mais recebem publicidade são muito comerciais.

Just think about it.

Três mil reais mensais! Pfff. Professor não ganha isso. Professor não ganha isso! Céus, sensato é o Roberto Jefferson.

Ah, vai pastar.

quinta-feira, 16/06/2005

Assassinato e as Belas Artes

Um bloco grande e muito quadrado de texto - o conhecido método Saramago de nocautear leitores com tijolos de parágrafos - costuma desanimar, é verdade, e na maioria das vezes eu nem leio. Mas digo, prestem atenção, leiam isso.

Quando um assassinato está no tempo paulo-post-futurum - não executado, nem sequer (segundo o purismo moderno) sendo executado, mas apenas prestes a ser executado - e um rumor dele nos chega aos ouvidos, tratêmo-lo moralmente. Mas suponhamos que terminou, foi executado, e que se possa dizer dele, Tetélestai, está acabado, ou (no molosso duro como diamante, de Medéia) eirgastai, feito está: é um fato consumado; suponhamos que o pobre homem assassinado já não sofre mais e que o vilão que praticou o ato partiu como uma flecha, ninguém sabe para onde; suponhamos, finalmente, que fizemos o melhor que podíamos, esticando as pernas para fazer tropeçar o ladrão em sua fuga, mas tudo em vão - "abiit, evasit, excessit, erupit", etc... Qual será então, passado tal momento, a utilidade de qualquer dispêndio de virtude? Já bastante foi dado à moralidade; chegou a vez do Gosto e das Belas Artes. Passou-se um acontecimento triste, muito triste, sem dúvida; mas não podemos remediá-lo. Portanto, que nos seja permitido tirar o melhor partido de um mau assunto; e, se é impossível extrair dele alguma coisa para propósitos morais, que o tratemos esteticamente, e verifiquemos se o podemos aproveitar dessa maneira. Tal é a lógica de um homem sensato, e o que se segue? Secamos as nossas lágrimas, e gozamos talvez da satisfação de descobrir que uma transação que, considerada moralmente, era chocante, e de tal forma perneta que não podia ficar de pé, se for julgada pelos princípios do Gosto, revela-se uma obra muito meritória. Assim, todo mundo fica contente e justifica-se o velho provérbio de que "para bom mestre não há má ferramenta"; o amador, de parecer muito bilioso e carrancudo, por prestar uma atenção muito grande à virtude, começa a colher as migalhas; e prevalece uma geral hilariedade. A virtude teve o seu momento; e de então em diante Virtù, palavra tão aparentada que da outra não difere mais do que por duas letras (coisa a respeito da qual não vale a pena regatear ou disputar) - Virtù, repito, e a arte do Connaisseur podem entrar em cena. Segundo esse princípio, cavalheiros, proponho-me a guiar-vos os estudos, desde Cain até o Senhor Thurtel. Através dessa grande galeria do assassinato, portanto, que nos seja permitido vagar, de mãos dadas, juntos, em admiração deliciada, enquanto eu procuro chamar-vos a atenção para os objetos de crítica proveitosa.

Trecho do começo do livro "Do Assassinato como uma das Belas Artes", de Thomas De Quincey
Comprei o livro hoje no pseudo-sebo que fica em frente ao prédio da Letras. Depois ainda achei em outro sebo as poesias completas do Mário de Andrade. E a correspondência de Mário de Andrade com Drummond. Oh, o prazer de ler correspondência alheia, Olivia, get a life.

Mas o De Quincey, o De Quincey. Comprei pelo título e por algum parágrafo aleatório que li ao abrir o livro.

Woosh.

Trezentos e cincoenta e um

enquanto eu mergulho, um pouco

Disse Mário de Andrade, em sua crise de genialidade no Prefácio Interessantíssimo ("apesar de interessante, inútil") da Paulicéia Desvairada:

Já raciocinou sobre o chamado belo horrível, é pena. O belo horrível é uma escapatória criada pela dimensão da orelha de certos filósofos para justificar a atração exercida, em todos os tempos, pelo feio sobre os artistas. Não me venham dizer que o artista, reproduzindo o feio, o horrível, faz obra bela. Chamar de belo o que é feio, horrível, só porque está expressado com grandeza, comoção, arte, é desvirtuar ou desconhecer o conceito da beleza. Mas feio = pecado... Atrai. Anita Malfatti falava-me outro dia no encanto sempre novo do feio. Ora Anita Malfatti ainda não leu Emílio Bayard: "O fim lógico dum quadro é ser agradável de ver. Todavia comprazem-se os artistas em exprimir o singular encanto da feiúra. O artista sublima tudo".
Em carta a Manuel Bandeira, de abril de 1927, Mário se desmente um pouco:
Palavra que sinto pena de publicar em seguida o Clã e Macunaíma que são livros de que eles vão gostar porque "divertem". No fundo essa moçada deve estar ainda buscando arte-pura, querem se divertir, paciência. Pra gente gostar dum livro esse livro deve divertir a gente senão o livro é ruim. Eis a lei.
Mas ele andava meio ranzinza, meio que nem eu, querendo escrever umas coisas mas com falta de vontade, tempo, elementos, desgosto de si mesmo. Ou talvez não tenha se desmentido nada, impressão minha. Há um pouco de verdade nas duas falas, sejam meio contraditórias. Mas nada que a gente vá censurar, em alguém que é "trezentos, trezentos-e-cinquenta".
quinta-feira, 02/06/2005

Avalovara

tudo, principalmente literatura

evandroFui hoje no sebo do Evandro, Avalovara, na Pedroso de Morais. Pra quem mora em São Paulo, é dos bons. Tudo, principalmente literatura é o que diz uma placa vermelhinha com letras brancas colocada na calçada.

Eu tinha ido ontem no lançamento do livro Zaratempô! na Livraria da Vila e fui intimidada a aparecer lá no sebo e então resolvi aparecer. No fim nem era assim tão difícil estacionar o carro e antes pagar zona azul do que estacionamento sete reais uma hora.

E agora volto lá outros dias, porque nada como um sebo que de tão arrumadinho não dá alergia de fazer coçar o nariz, e ainda tem todos os livros que você quer, no lugar em que deveriam estar.

Sim, sim. Se livro bom é questão de gosto, não tenho como garantir que lá só tem livro bom. Mas garanto que o que você quiser de livro bom pode muito bem encontrar por lá.

Isso aqui eu peguei do Marcelino:

COM SEBOS E MEGASTORE, PEDROSO SE TORNA A AVENIDA DA PALAVRA
Por Gilberto Amendola - O Estado de S. Paulo
Quer tirar o livreiro e escritor Evandro Affonso Ferreira, de 60 anos, do sério? Entre no sebo Avalovara, na Avenida Pedroso de Moraes, em Pinheiros, zona oeste, e pergunte se ele tem O Código da Vinci. "Claro que não! Aqui eu só trabalho com literatura. Alta literatura", diz. Você vai receber a mesma resposta atravessada se questioná-lo sobre os best-sellers, de Paulo Coelho a Jô Soares. "Para esse tipo de coisa eu indico a FNAC, que, aliás, fica na frente da minha loja".
evandro2E só na uma hora que fiquei lá jogando conversa fora entraram duas moças gordinhas querendo livros da Zibia Gasparetto, coitado do Evandro, respondendo com um sorriso simpático "eu não trabalho com auto-ajuda..."

Bom é poder conversar com alguém que pensa literatura de um jeito tão diferente e não precisar ficar se defendendo, se explicando, ou pulando no pescoço alheio. Se não for pra gastar dinheiro, vale a pena passar no sebo Avalovara mesmo que seja pra bater um papo com o Evandro. Quando o assunto é literatura, ele tá no meio.

Sebo Avalovara: Av. Pedroso de Morais, 809. No quarteirão da FNAC, do outro lado, pouco antes da Cardeal Arcoverde.

quinta-feira, 28/04/2005

Mais sobre aquilo lá

Porque eu não consigo ficar quieta, vou cutucar o bicho mais um pouco. Daquela discussão sobre literatura que começou aqui, veio pra cá, continuou ali e depois aqui e aqui, cheguei a uma conclusão muito mais simples.

uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa

(...) a confusão terminológica de "estudos literários" com "crítica" induz o estudioso de literatura a substituir a descrição dos valores intrínsecos de uma obra literária por um veredito subjetivo, censório. A designação de "crítico literário" aplicada a um investigador de literatura é tão errônea quanto o seria a de "crítico gramatical (ou léxico)" aplicada a um lingüísta. (...) nenhum manifesto, impingindo os gostos e opiniões próprios do crítico à literatura criativa, pode substituir uma análise científica e objetiva da arte verbal.
Roman Jakobson, em Lingüística e Comunicação

Ora, meu caro Jakobson, quem diria que logo o senhor, um lingüísta narigudo, me traria a iluminação? Na verdade, tanto a Dani quanto o Leandro have a point. Mas cada um está falando de uma coisa diferente.

Na maior parte das discussões, o grande problema é só uma questão de nomenclatura. O Leandro falou em "o bom crítico", mas isso já me parece uma coisa muito profética, do tipo "no futuro, todos os críticos serão bons, e o bom crítico será assim e assim". Mas divago. No fundo no fundo, é só uma questão de nomenclatura, como já haviam previsto outros lingüístas.

Só não me culpem por estar começando a gostar de Lingüística.

segunda-feira, 25/04/2005

Escrever, escrever

sobre

A Dani fez um post-resultado-de-uma-conversa-telefônica sobre escrever, e sobre escritores, os contemporâneos, e sobre críticos, e umas coisas aí. Leiam. Comentem. Arrumem encrenca. Woosh, bagunça!

leram? Ok, então vai minha parte.

Sobre críticos, discordo. Antonio Candido, genial. Só pra citar um, mesmo porque eu tenho uma memória de passarinho burro. E o Antonio Candido vale por uns dez. Invejinha do meu professor Pedro do colégio e do Inagaki que tiveram aula com ele (não sei se o Inagaki teve aula com ele, mas disse que trocou idéias, tá bom pra mim).

E de qualquer forma, nesses meus meses de Letras, lendo um tanto de crítico sem noção, que te fazem dizer "ããihn?!" com uma careta feiosa, tem coisa boa, sim. Só que são duas coisas diferentes. Literatura e crítica literária. Arte e teoria da arte. Tanto que na livraria estão em estantes separadas. Oh!

Mas há o que o Soares Silva falou, que faz sentido (como tudo que ele fala, ainda que você ache um h-o-r-r-o-r), de um jeito tortinho e elegante. Eu pelo menos não queria Platão e Aristóteles no meu romance.

Enfim, dos críticos, achei que a Dani exagerou um tanto, mas o caminho segue por aí. O negócio é escrever. Escrever, escrever. E, principalmente, se quiser publicar, é só ir atrás. Juro. É só querer. Não adianta ficar sentado esperando pra ser descoberto por um editor errante e genial. Não é tão difícil assim, quando você realmente quer que aconteça. Tem que ir pulando de contato em contato, e colar em quem acredita em você e pode, talvez, fazer alguma coisa acontecer.

Um pouquito de sorte não faz mal a ninguém.

Sempre digo pro Abner, em seus momentos de crises e lutas com seus demônios interiores, que existe leitor para qualquer tipo de literatura. Mesmo aquela que não tem tanto apelo comercial. Escreva aí sobre as moças distintas que viram ratazanas, seres que vivem em bueiros e aqueles outros bichos que moram no seu armário. Depois você se preocupa com publicação.

Mas o Greenberg, gente. O Greenberg era um chato. "All profoundly original art looks ugly at first." (Ah, vai pastar.)

sexta-feira, 22/04/2005

Sobre gêneros

por Abner Dmitruk

Fantástico: Céus, tem um duende no meu freezer.
Absurdo: Ei, vó, desça daí deste tanque de guerra e me encare como homem.

Sobre amor e amantes, Freud e Marx

Uma coisa horrível que existe no mundo é o fato dos jovens não terem liberdade para amar. Mas pior ainda do que isso é que eles não sabem amar; e no entanto foram feitos para o amor.
O amor é generosidade, compreensão, ausência de egoísmo, mas no entanto os amantes são egoístas, mesquinhos e intolerantes, porque essa é a condição humana. Acontece que na faze de aguda excitação psíquica que caracteriza todo amor essas coisas não aparecem com muita nitidez. Olha aqui, eu já estou meio cansado para poder lhe explicar esse ponto direito e o pior é que ninguém explica. Freud foi um sujeito que nunca amou, eu não acredito em Freud, o senhor acredita? Freud é uma questão de fé, ou a gente crê nele ou não crê. Eu não creio. A mesma coisa com Marx. A única coisa que a gente pode fazer com eles é botar, ou não botar, o retrato na parede.

Do conto "Gazela", de Rubem Fonseca (Os Prisioneiros, 1963).

domingo, 27/03/2005

Frustração

55 páginas sobre a Lírica, pra depois Emil Staiger dizer que "de uma canção não se deduz nada" e o poeta "não pensa, nem pressupõe coisa alguma". Que "as canções não se fazem necessárias" e "a poesia lírica nada domina, não tem objeto em que incidir qualquer espécie de força, e que, enfim, é cheia de alma mas não tem espírito". "Suas poucas linhas 'não apresentam coisa alguma'".

Muito bem.

Eu já desconfiava.

(Eu adoro estudar, quando eu quero estudar, e, na maioria das vezes, o que eu não tenho que estudar.)

sexta-feira, 18/03/2005

Último dia

e outras histórias

Bom, eu avisei.

Hoje é o último dia do Marco Literário, no SESC Consolação. Tem sido muito legal, apesar de uns momentos "ai, Creuza" que rolaram na quarta-feira. Mas essas coisas fazem parte, fazem parte. Eu vou hoje de qualquer jeito, pra encher o saco do Marcelino Freire.

(Ah, é segredo.)

E se vocês ainda não foram dar uma olhada no Aquele, tá na hora, hein? Eu sei que vocês estão de saco cheio desse povo de blog que escreve bem (eu sei que eu estou e, ah, eu vou me incluir aqui, posso?, hoje eu tô me achando), mas vale a pena, vale sim.

Mas, ah, minha cabeça não pára de pensar. Tantos pensamentos que mudam, novos sentidos. Tanta gente, tanta gente, tanta coisa. Tanto texto pra ler na semana santa e um resumo de um monstro de umas 40 páginas do Emil Staiger.

Eu quero é segunda-feira, às três e meia da tarde, Olivia chegando na rodoviária de Franca pra ver seu amorzinho de terno.

quinta-feira, 17/03/2005

The Great Gatsby

Os motivos pelos quais eu gostei tanto desse livro tão todos resumidos nos primeiros parágrafos da narrativa. Ah, e tem aquela coisa toda da futilidade, mas deixa pra lá.

("Look, I hurt it.")

E também não falo muito mais porque acho que o texto vale por si só.

In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I've been turning over in my mind ever since.

"Whenever you feel like criticizing any one," he told me, "just remember that all the people in this world haven't had the advantages that you've had."

He didn't say any more, but we've always been unusually communicative in a reserved way, and I understood that he meant a great deal more than that. In consequence, I'm inclined to reserve all judgments, a habit that has opened up many curious natures to me and also made me the victim of not a few veteran bores. The abnormal mind is quick to detect and attach itself to this quality when it appears in a normal person, and so it came about that in college I was unjustly accused of being a politician, because I was privy to the secret griefs of wild, unknown men. Most of the confidences were unsought - frequently I have feigned sleep, preoccupation, or a hostile levity when I realized by some unmistakable sign that an intimate revelation was quivering on the horizon; for the intimate revelations of young men, or at least the terms in which they express them, are usually plagiaristic and marred by obvious suppressions. Reserving judgments is a matter of infinite hope. I am still a little afraid of missing something if I forget that, as my father snobbishly suggested, and I snobbishly repeat, a sense of the fundamental decencies is parcelled out unequally at birth.

And, after boasting this way of my tolerance, I come to the admission that it has a limit. Conduct may be founded on the hard rock or the wet marshes, but after a certain point I don't care what it's founded on. (...)

Não sou eu que não entendo o mundo.

segunda-feira, 14/03/2005

Um evento e um comentário que eu não vou fazer

Essa semana, no SESC Consolação. Eu vou. E o Abner vai escapar da aula de matemática.

E eu ia falar uma coisa sobre The Great Gatsby e sobre como é gostosinho ser fútil, mas fica pra outra vez.

sexta-feira, 11/03/2005

De clássicos

"A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos" - Calvino

Próximo passo: ler Em Busca do Tempo Perdido nos próximos dois meses.

sexta-feira, 21/01/2005

Leitura

eu escrevo posts durante a tarde pra postar de noite, não reparem

Minha sugestão de leitura para quem curte literatura policial são todos os livros do Dennis Lehane que têm a dupla de detetives particulares Patrick Kenzie e Angela Gennaro. Seguindo a ordem. E eu já falei deles aqui outra vez, tenho certeza.

Depois de ler o segundo livro da série, Darkness, take my hand (Apelo às Trevas), eu precisei dar uma parada com o vício, porque eu ia acabar ficando louca, e o Lehane sabe deixar a gente louco quando quer. Esse segundo realmente é pesado. Agora, depois de uns seis meses passando longe dele na livraria, tomei coragem e comprei o terceiro, Sacred (Sagrado). Estou lendo compulsivamente.

(Pausa para continuar lendo.)

Terminei de ler.

Jesus. (Tem que ler com a pronúncia em inglês, senão fica sem graça.)

Isso sim é literatura policial. O Dennis Lehane segue a linha do Raymond Chandler quando escrevia os livros do Philip Marlowe. O Patrick por si só já é quase que uma versão reformulada do Marlowe. Eu adoro o Patrick. Quando eu crescer eu quero escrever que nem o Lehane.

quarta-feira, 29/12/2004

Anacrônicos

Espirituosa, sim. É de ler Raymond Chandler. Culpa de um Philip Marlowe, espirituoso. Era por causa dele que eu queria achar a lapiseira. Queria marcar uns trechos espirituosos.

The call had come at 10.08. Marriot had talked maybe two minutes. Another four had got us out of the house. Time passes very slowly when you are actually doing something. I mean, you can go through a lot of movements in very few minutes. Is that what I mean? What the hell do I care what I mean? Okey, better man then me have meant less. Okey, what I mean is, that would be 10.15, say. The place was about twelve minutes away. 10.27. I get out, walk down in the hollow, spend at the most eight minutes fooling around and come on back up to get my head treated. 10.35. Give me a minute to fall down and hit the ground with my face. The reason I hit it with my face, I got my chin scraped. No, I can’t see it. I don’t have to see it. It’s my chin and I know whether it’s scraped or not. Maybe you want to make something of it. Okey, shup up and let me think. What with?...

The watch showed 10.56 p.m. That meant I had been out for twenty minutes.

Twenty minutes’ sleep. Just a nice doze. In that time I had muffed a mob and lost eight thousand dollars. Well, why not? In twenty minutes you can sink a battleship, down three or four planes, hold a douple execution. You can die, get married, get fired and find a new job, have a tooth pulled, have your tonsils out. In twenty minutes you can even get up in the morning. You can get a glass of water at a night club — maybe.

Céus, esse meu livro está se desfazendo. Um bloco com as primeiras 90 páginas acabou de se soltar, e a capa está quase escapando do resto do livro. Se eu deixar no sol por uns quinze minutos acho que ele vira farofa.

Mas tudo bem, porque eu paguei 5 reais por ele num sebo lá perto de casa. E eu adoro comprar livros por 5 reais. E eu até posso ler no sol, porque as páginas são laranjas, e não daquele branco que cega os olhos quando reflete a luz. Isso, claro, se o livro não virar farofa enquanto eu estiver lendo.

Vou botar isso na categoria Literatura, just for the helluvit. Senão, no meu estado de espírito hoje, vai acabar indo tudo parar em Badaiocas, e aí perde a graça.

Olivia
02:43
terça-feira, 02/11/2004

Memórias Póstumas

O Brás Cubas é genial.

Ou o Machado de Assis. Não sei. Um dos dois é genial. Estou tentando descobrir se eu tenho algum problema por não achar o Brás Cubas arrogante. Segundo o professor de Literatura ele é – sim – arrogante e outros adjetivos negativos que eu já me esqueci (além de contraditório, mas isso não vale, todos nós somos).

terça-feira, 07/09/2004

Blogs e Literatura

Vejam, vejam. Vai ter um Jogo de Idéias no Itaú Cultural discutindo a relação entre literatura e blog, essa quarta-feira, amanhã, dia 8 de... Hm, em que mês estamos? Setembro. Isso. Claro, Independência e etc, claro.

Alexandre Soares Silva e outros. Falo outros porque afinal, é o Alexandre que eu conheço, então me deixa.

Fui no Jogo de Idéias quando o Joaquim Nogueira e o Luiz Alfredo Garcia-Roza foram entrevistados, pra falar sobre os livros deles e a literatura policial no Brasil. O esquema é legal, se você não contar o fato da fita (o programa é filmado) ter enrolado no começo da entrevista e aí teve que começar tudo de novo.

Mas nem sei se vou nesse aí. Esses papos de arte e literatura costumam me irritar. Tenho a impressão que ninguém tem nada de novo para ser dito. Até falar que os clichês são clichês já virou um clichê.

quarta-feira, 28/07/2004

Matarás, mas como manda o figurino

Mandei pro Joaquim Nogueira aquele meu post Quem matou Henrique Ritcher?, com algumas modificações (mas só pra parecer um email, e não um post). Eis a resposta:

Logicamente, vc. pode escolher qualquer personagem para ser o assassino. Apenas se lembre de algumas regras do S.S.Van Dine: o leitor não pode ser traído. O assassino tem de ser algum dos personagens conhecidos; que já eram suspeitos; os motivos e os meios do crime têm de ser convincentes( exceto traficantes com a cabeça cheia de crak, ninguém sai matando por aí sem motivos sólidos); a descoberto do assassino tem de se dar com os meios da polícia, com a esperteza dos tiras, o que significa dizer que a revelação não pode se dar por acaso, por força do além, bola de cristal, acidente, etc. Lembre-se que o leitor também faz a sua investigação. Ele gosta de descobrir o assassino antes do detetive. E os meios à disposição do leitor são os meios que o autor deu ao detetive. Recomendo ler mais uma vez as regras de S.S.Van Dine, que neste particular são válidas...na minha opinião. Abração. ... Esse negócio de deixar o personagem assumi as rédeas d livro é uma faca de dois gumes. Por um lado, é legal, significa que ele está bem constuído, tem personalidade, pensa com a própria cabeça; tá certo; o perigo é que às vezes eles estragem a história.
O que ele chama de regras do S.S. Van Dine eu coloquei aqui pra quem estiver interessado. É de um email que o Joaquim me mandou há um tempo:
achei muito interessantes as regras elaboradas sobre o romance policial. Embora devam ser vistas hoje com reservas, pois foram criadas em cima do romance policial clássico, crime, investigação, punição, creio que são válidas. Abração.
Claro, são regras antigas, e muito mais válidas para os romances policiais clássicos. Mas eu pergunto até onde elas são válidas pras histórias policiais atuais. Até onde você pode "quebrar a regra" sem ficar uma coisa frustrante demais pra quem lê?

Eu não gosto nada dessas regras porque elas dizem "faça isso" "nunca faça isso" "faça isso só às vezes". Na verdade já quebrei praticamente metade. Não gosto muito delas e não concordo com muitas, também. Talvez não concorde com nenhuma. Acho mesmo que se todos os escritores de romances policiais resolvessem sempre seguir essas regras, todos os romances policiais iam ser iguais. E eram, na verdade, vide Agatha Christie e Conan Doyle.

Eu sei que tem muita gente que só lê romance policial como uma diversãozinha extra, e por isso pode ficar frustrado se o livro começar a fugir demais do esperado.

Afinal, o que as pessoas esperam quando lêem um romance policial? E quando digo isso, não digo o que alguém espera ao ler um policial clássico, e sim os atuais. O que, o quê? Esperam que o criminoso seja descoberto e punido?

Respostas! Eu quero respostas! Se só tiver opinião, também, serve.

O Luiz Alfredo Garcia-Roza, pelo menos nos três livros que eu já li dele, tem uma mania de deixar a solução do mistério no ar depois que o livro acaba. As pessoas ficam irritadas com isso, e resolvem parar de ler livros daquele autor? O Sérgio, do Blog do Romance, fala disso em "Perseguido": os perigos do meio do romance. Aliás, recomendo todo o Blog do Romance. E eu já disse isso uma vez.

Céus.

Melhor eu escrever e parar de pensar.

E pra quem não sabe, o Joaquim Nogueira é escritor de romances policiais e já tem dois livros publicados: Informações Sobre a Vítima e Vida Pregressa. Também tem um site de contos com um colega de faculdade, o Leis e Letras. Conheci ele depois de ler o primeiro, gostar e mandar uma carta pela editora (céus, ainda tem gente nesse mundo que manda cartas?!). Ele me mandou um email e ficamos amigos. Como o Joaquim foi delegado por muitos anos, ele me deu dicas sobre o trabalho da polícia civil aqui em São Paulo. E eu recomendo os livros dele. E não é só porque ele é meu amigo.

Olivia
21:11
terça-feira, 06/07/2004

wunderFofocas

Da próxima vez, se você tem uma mínima noção da minha existência (mesmo que seja de caixa de comentários alheia), me avise antes de sair por aí me reconhecendo, "você é a Olivia, não é?", "sem acento?".

Eu fui, eu fui, no lançamento do livro dos wunderblogs.com, na Livraria Cultura do Villa. Tinha um monte de gente, povo bonito e feliz, um monte de nerd e essas coisas todas.

As pessoas olhavam pra mim e acenavam, sorriam e me cumprimentavam. "Olivia!" E eu ultra-lerda não reconhecia ninguém. Só reconheci o Marco Aurélio, que tem uma cara inconfundível.

Acho que desacostumei, tinha muita gente, gente pra todos os lados. Passei muito tempo em casa com meu computador e minha gata Linda (cliquem no link, é o site dela. Além de vesga e pop ela também tem um site. Aposto que seu gato não tem! O link pra página inicial está errado e os wallpapers não funcionam, mas what the hell).

Queria me esconder, esconder! Até me escondi, um momento, embaixo da escada, mas o Ruy (fofo!) apareceu e me encorajou, ninguém mordia e etc.

Tá, mentira. Eu gostei. Me senti importante e coisa e tal. Eu tinha medo do blog dele e agora não tenho mais. E o Alexandre estava de cartola e monóculo, mas não estava de mocassins com meias brancas. E ele é um fofo também. Todos, todos.

O problema de falar fofo é que é contagioso, já reparou? Passe algumas horas com alguém com essa mania, que você sai por aí chamando todos de fofo, inclusive (e talvez principalmente) o cara da padaria pra quem você pede o pão.

Os wunder todos têm letras horrorosas (com exceção dela, tinha que ser), mas a gente perdoa porque o que vale mesmo foi devidamente digitado antes de ser publicado.

Ah, e sim, como foi dito, estavam todos de tanga.

Aliás, eu tô com uma mania insuportável de repetir tudo que eu digo. Escrevendo, mesmo. Acho que tô ficando surda.


Ouvindo trilha sonora de Gun Shy, todas as músicas em um looping infinito

Olivia
01:45
quarta-feira, 23/06/2004

Morcegos Negros

Eu tô lendo um livro muito legal. Tem políticos corruptos, desvio de dinheiro, narcotráfico, máfia italiana e traficantes colombianos, lavagem de dinheiro, polícia especial da Itália, agentes da DEA e polícia federal brasileira trabalhando juntas, operações de infiltração e o escambau. Tudo que tem direito, numa salada complicada e cheia de mentiras.


O problema é que eu já sei que vou ficar decepcionada no final, porque as coisas não vão se resolver nem vão ser explicadas por completo. Bah.

O livro é Morcegos Negros - PC Farias, Collor, Máfias e a história que o Brasil não conheceu, de Lucas Figueiredo. Ele narra tudo como se fosse mesmo uma novela política ou policial, ou os dois.

E eu acho política um saco. Mas o livro é divertido, o que não é necessariamente bom, já que não é ficção e a história é podre.

Ontem eu estava aqui matando tempo no computador quando toca a campainha e era um homem amarelo e azul dos Correios. "Sedex pra Olivia". Uh, sou eu. Aí logo reconheci a caligrafia aboiolada de arquiteto do meu pai e lembrei que há algumas semanas ele tinha me dito que ia me mandar um livro legal sobre a bagunça Collor-PC.

Então tá, vou voltar pra minha leitura.

Olivia
16:36
quarta-feira, 16/06/2004

Mestres do Crime

Tá, Edgar Allan Poe pode ter começado a literatura policial com Assassinatos na Rua Morgue, Conan Doyle pode ter popularizado a história de detetive com o Sherlock Holmes, e a Agatha Christie pode ser a Rainha do Mistério por quantos séculos ela bem entender, mas eu preciso dizer que acho esse tipo de narrativa um saco.

Primeiro, aconteceu o crime. E aí a história acabou. Os personagens ficam sentados batendo papo e só com isso, e talvez mais uma meia dúzia de examinações pela cena do crime, eles descobrem tudo. Tudo! Vide Nero Wolf, o protagonista gordo e praticamente imobilizado do Rex Stout, que não saía de casa e ficava passeando pela sua casa numa cadeira com rodas e usando elevadores. A Agatha Christie foge disso algumas vezes, eu sei, mas na verdade eu li pouco dela pra saber quando e como, então deixa pra lá.

Eu acabei de ler Assassinatos na Rua Morgue agora, e em seguida comecei a ler A Carta Roubada, mas parei logo depois que Dupin devolve a carta ao prefeito da polícia, antes mesmo da história começar. Aí ele começa a explicar os raciocínios magníficos dele e o escambau, e eu não tenho a menor paciência pra isso.


É questão de gosto, eu sei bem.

Pra mim, a história policial começou mais ou menos com o Dashiel Hammett, com o estilo hard-boiled, ou com o que também foi chamado de Romance Negro. E olha que eu nem gosto muito de Raymond Chandler (nem sei por que, só acho a narrativa dele meio irritante).

Esses primeiros detetives, Dupin, Holmes, Poirot e outros menos famosos, são sempre iguais. Eles tem um parceiro mais burrinho (que é pra gente se identificar com alguém na história) que vai narrar a investigação e ficar tão surpreso quando a gente quando o detetive vier com mais uma das suas deduções maravilhosas. Eles tem manias esquisitas e se acham pra caramba. São seres superiores. Até hoje, os escritores tentam se livrar dessa marca, criando policiais e detetives "comuns", um de nós, que resolve o caso usando o tipo de dedução lógica que qualquer ser humano poderia ter, ou mesmo usando a força bruta e um pouco de malandragem (aliás, o Sam Spade é o rei da malandragem, penso eu).

Mas qual é a graça? Qual é a graça de um detetive superior que deduz as coisas por meios absurdos (sim, sim, eu digo, gritando bem alto que nem uma histérica louca, a-b-s-u-r-d-o-s!!), vendo detalhes que ninguém mais vê, e criando linhas de pensamentos que, claro, o autor foi bonzinho, só funcionam naquele caso. Porque no final das contas o detetive foi é um sortudo. Como Jô Soares fez com Xangô de Baker Street (eu só vi o filme), onde as conclusões do Holmes estavam sempre certas, pelos motivos errados.

Sorte, pura sorte.


E eu me sinto enganada lendo esse tipo de história. Eu nem sou de ficar tentando desvendar os mistérios enquanto eu leio, mas aí já é demais. Eu já falei uma vez sobre esses autores que enganam o leitor, e o quanto isso me irritava. Não é só uma questão de fazer você acreditar que um é o culpado quando na verdade não é. É fazer você ficar sem saber a solução do mistério mesmo quando todos os personagens já sabem, quando, segundo o autor, tudo já está muito claro, ele só não está te contando.

E o detetive ainda faz questão de dizer: "Olha só, meu amigo, era tão óbvio!" (Aliás, a frase "Elementar, meu caro Watson", nunca foi realmente dita pelo Sherlock Holmes. Aparentemente, foi usada em uma peça de teatro aqui no Brasil, e pegou.)

Ah, bah. Poupe-me.

E nem tem muito jeito, vou continuar lendo Edgar Allan Poe e Conan Doyle e Agatha Christie quando surgir a chance. Como se fosse Vidas Secas, quando a professora da oitava série mandou ler e eu enganei ela direitinho lendo até a metade (ah, credo, eu e meus 14 anos, achei aquele livro uma chatisse tão fenomenal que nem sei se tenho coragem de começar a ler de novo). Quero dizer, vou ler as histórias desses mestres inteirinhas, por teimosia minha mesmo. Pra dizer que eu li. E pra poder reclamar, também.

Eu não presto.


Ouvindo I Want You (She's So Heavy) (07:48) - Beatles

Olivia
16:27
terça-feira, 01/06/2004

Um pouco em cima da hora...

... mas com opções de reprises pra quem perder.

Quem se interessa por romances policiais e tem NET ou TVA, não pode perder uma entrevista com o Joaquim Nogueira e o Luiz Alfredo Garcia-Roza (escritores) que vai passar na TV Puc Canal Universitário (canal 07 da Net e 71 da TVA). Vai passar hoje (agora, agora!) às 21:30.

Tá, eu tô avisando em cima da hora, mas tudo bem, porque vai reprisar amanhã, no mesmo horário (21:30h), sexta (dia 4) às 4h e às 15h, e domingo (dia 6) às 8:30h.

O programa chama Jogo de Idéias. Eu fui assistir a entrevista no Itaú Cultural há um tempo aí. Nem me lembro mais que dia foi isso, na verdade. Lembro que conheci o Cloder Rivas Martos, um escritor de literatura infanto-juvenil e amigo do Joaquim. E depois peguei um táxi com os amigos advogados do Joaquim.

Se alguém assistir, na hora que mostrar a platéia, eu estou lá, entre os amigos advogados do Joaquim e o Cloder Rivas e o amigo dele.

Dum dum dum. É. Isso aí.

Olivia
20:26
quinta-feira, 27/05/2004

Hit List

Pra mim, os melhores livros são aqueles que, ao invés de você ler para pegar no sono, você lê quando tá com sono para ficar acordado. Quando dei por mim, eram mais de quatro da manhã. E meus olhos nem pensavam em fechar!

Bom, na verdade, quando olhei a hora, meus olhos pesaram no mesmo instante, mas deve ter sido um reflexo racional.

Enfim. O livro é grande e ainda não terminei de ler. O que é bom, porque não quero acabar nunca. Estou falando de Hit List, do Lawrence Block. Os diálogos são a melhor parte. O personagem, Keller, é um assassino profissional, que recebe trabalho da colega Dot. Mas ele não é um hitman cruel, que se diverte com as mortes ou qualquer coisa do tipo. Tampouco fica se remoendo de culpa. Ele trata isso como qualquer outro emprego. Ele faz o que o trabalho pede, e é pago por isso.


" 'All of half is half of all.' You know who you sound like, Keller? The Three Musketeers."
"It's true, though, and-"
"It's crap," she said. "Keller, you and I are the Two Musketeers, get it? You earned your share when you made sure Buell didn't miss his train."
"I don't know, Dot."
"I do. Knock knock."
"Huh?"
"Weren't you ever a kid, Keller? Come on. Knock knock."
"Who's there?"
"Sharon."
"Huh?"
"Keller, play the game."
"Sharon who?"
"Sharon share alike. We each did something we shouldn't have done, and we both came out of it okay. But I'll make you a deal, Keller. You stop killing our clients and I'll stop accepting jobs in New York. Deal?"

O primeiro capítulo dá pra ler aqui. (Em inglês.)

Eu não tinha gostado muito do primeiro livro do Lawrence Block que eu li, After the First Death. Ainda bem que minha mania meio compulsiva me fez comprar dois de uma vez. Senão acho que nem teria pensado mais nele.

Olivia
12:32
quinta-feira, 20/05/2004

Incentivos

Escrever é uma forma socialmente aceitável de esquizofrenia. (E. L. Doctorow)

Um escritor profissional é um amador que não desistiu. (Richard Bach)

Quem mantém os dois pés no chão, não sai do lugar. (Tor Åge Bringsværd, poeta norueguês)

Citações sobre a arte e a técnica do romance
Olivia
14:07
terça-feira, 18/05/2004

Dennis Lehane e outras coisas

Depois de terminar A Drink Before the War, o Dennis Lehane é, oficialmente, um dos meus autores favoritos. Saí por aí lendo entrevistas que ele deu.

Leiam, leiam. Meu mais novo vício.

Eu quero ler Elmore Leonard, Lawrence Block e Robert B. Parker agora. E mais do Dennis Lehane. Vício, vício.

Vou fazer uma pausa com o Duas Luas e pensar em outra coisa pra escrever. Estou escrevendo muito devagar, não tá dando pra me viciar nos personagens e na história como eu deveria. Ou como eu queria. Sei lá. Talvez eu devesse ler menos quando estou escrevendo.

É um paradoxo.

Olivia
14:51
sexta-feira, 12/03/2004

Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos

Hoje eu tava lendo Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, um livro do Rubem Fonseca, e me deparei com esse trecho:


Um homem magro, alto, com uma cuidada e pequena barba loura e longos cabelos castanhos claros abriu a porta. Era Plessner. Veronika nos apresentou um ou outro.
"Afinal chegou o momento de nos conhecermos." Seu sotaque britânico era afetado. "Gostei muito do seu filme, A Guerra Santa. Sou um grande admirador do cinema brasileiro... Rocha, Dos Santos, Lima Júnior, Andrade, Hirszman, Diegues, Jabor, Toledo, Amaral... Não conheço todos os cineastas brasileiros, é claro, apenas aqueles cujos filmes foram exibidos em festivais na Alemanha..."
O que havia de errado nele? Ter chamado de Rocha o Glauber, de Dos Santos o Nelson? De Amaral a Suzana?

Aí eu pensei comigo mesma: Olha, olha, é a minha avó, é a minha avó! Ela tá sendo mencionada no livro do Rubem Fonseca! Que chique!

Claro, o livro é de 88, e a lembrança do A Hora da Estrela ainda era mais forte, depois do Urso de Ouro que ela ganhou e tudo mais. Mas ainda assim, é legal. Haha, fico toda orgulhosa, viva a minha avó! Será que ela sabe?

Se alguém ainda não sabe, ou percebeu, a minha avó é a Suzana Amaral. Digo, e repito, porque eu sou mó neta coruja hahaha.

Ou, como diria o Pedro, meu professor de literatura do 3o. ano no Santa Cruz, quando falava do Antônio Cândido, de quem foi aluno, muito se orgulha e faz alarde. Ah, sim, um dia eu ainda vou falar daquele professor desse jeito. Preciso voltar lá no colégio pra assistir uma aula dele. É uma pena que tiraram Primeiras Estórias da lista da Fuvest!! O melhor de toda aquela aula de literatura era a análise do conto Nenhum Nenhuma!

Mas por ora, fico por aqui. Vou acordar cedo amanhã para começar a fazer Aikidô com o Pedro (não o professor, o meu namorado) lá pros lados da Raposo Tavares...

 

e que mais

Este é um blog verbeat, e lá eu sou amiga do rei.

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