sexta-feira, 20/07/2007

de um brainstorm solo que fiz dia desses

ou: por um título para essa última história que terminei de escrever há uma ou duas semanas

e sem nenhuma conclusão, mas.

     pelo azul
de um relógio
                      o tempo aprisionado
  um azul inexistente
        de
mentira            
no azul
                o infinito em mãos vazias
nanquim      mãos vazias
 cinzentos        mar de possíveis
        feito sombras
                                a existência em
sobre a morte e sobre todas as coisas
tudo é o mesmo debaixo da terra
              sob a terra
                              em luta com as armas erradas
                                             de guerra alheia
                     
dos nomes
de há tempos         os nomes das coisas
existissem as respostas
                      aos que não tem perguntas
o tempo das respostas   etc
       possíveis em mãos vazias
porque a culpa é sempre daqueles incapazes de senti-la

quarta-feira, 07/03/2007

De tramas prontas

Anda me dando uma preguiça de pensar em retomar histórias prontas. E prontas, digo, trama fechada, começo meio e fim e conflitos e tudo. Que ainda não escritas, mas tudo muito bolado e revisado e todos os furos muito bem fechados.

Tenho, dessas, umas duas.

Ou talvez uma.

Mas é que é aquela uma que eu já deveria ter escrito antes, e que eu tinha planos de escrever depois de terminar o Operação P-2. E ao invés dela fui escrever uma história sem título nem nexo nem muito menos uma trama com um personagem chamado Deco.

Eu gosto de escrever porque os personagens saem vivendo feito pessoinhas de verdade e eu faço eles terem crises e brigarem com todo mundo. Mas quando já está tudo pronto e depois que passei dias e dias organizando a ordem das ações e das cenas em quadradinhos de papel e a Linda deitava em cima, e. Está tudo pronto.

Não está, sei que não está.

Mas dei de criar gosto por essa de escrever sem saber o final. E ao mesmo tempo não consigo me livrar do gosto de criar a história inteirinha com todos os seus permeios e complicações e de repente uma cena que algum personagem tem uma crise e briga com todo mundo (eu gosto quando o Iuri bate no japonês e o Pedro vai tentar impedir e dá com a cara na parede).

E tem o alpinista-piloto vegetariano que recebe um telefonema de um argentino que menciona uma expedição fracassada como se fosse uma referência boa e eu ainda não descobri muito bem o que diabos esse argentino quer, só sei que o personagem é legal.

E o Gil Tradsky, que pacientemente há cinco anos espera sua reescrita e reestruturação e por ora já troquei as profissões do chefe dele umas três ou quatro vezes. Mas acho que ele vai ser vice-presidente de um clube de futebol e dono de uma empresa de transportes (e continua sendo traficante de drogas). O Gil continua o mesmo, com o mais que dei a ele um hobby. Aeromodelismo. Eu diria que é um bom hobby para um assassino profissional.

História policial sem saber como termina? Marçal Aquino faz isso, de certa forma. Em Cabeça a Prêmio ele me disse que foi escrevendo e do jeito que está o livro, na ordem em que as coisas aparecem no livro, as coisas foram aparecendo para ele.

De mim ainda não sei. Daquela pronta que eu deveria estar escrevendo parei em uma parte (do segundo capítulo) em que o delegado conta umas coisas. E estava achando o delegado muito chato, contando sobre o primo depressivo e a família criminosa. Aí resolvi escrever outra coisa. Mas a trama está pronta. Tem perseguições e tiroteios e corregedoria. E famílias criminosas. Do jeito que deve ser. Ainda escrevo.

segunda-feira, 05/03/2007

De personagens favoritos

Porque esses dias que por fim voltei a escrever. Eu sou meio retardada e quando chegam as férias eu não consigo nem ler nem escrever tudo que eu achava que ia ler e escrever. Pelo menos eu li Grande Sertão: Veredas.

Mas enfim, o que eu ia dizer não era isso.

Outro dia -- outro dia de mineiro, porque já fazem umas semanas -- estava conversando com almirante Nelson Moraes e ele estava me contando que Kurt Vonnegut "tem um personagem, autor de pulp fiction, chamado Kilgore Trout. Volta e meia ele coloca esse personagem nos romances dele. Mas sempre avisa que o personagem é que chega e vai entrando, sem ser chamado. Um personagem stalker. E como o tal Trout é um pouco maluco, ele acha prudente não reagir."

Eu tenho assim um personagem que ultimamente anda folgado e querendo aparecer em todos os meus livros. Por ora só apareceu em dois, mas já tem um terceiro em mente e abrindo as asinhas porque não quer ficar tanto demais como personagem secundário.

Sugestão do Nelson: "Faz um livro arapuca pra ele. Faz que vai escrever um livro, inventa uma trama inverossímil e quando ele já estiver entranhado lá no enredo você aborta o livro e deixa ele preso lá."

Pior mesmo é que esse tipo de coisa pode funcionar.

Mas. A gente cria afeição por esses. Acho que é o melhor personagem que já construí. E, o mais incrível: acho que jamais renderia um livro inteiro como protagonista. Chega a ser cômodo. Porque ele é ótimo para qualquer livro, um sujeito que sempre provoca os protagonistas, sempre parecendo que não se preocupa com nada e continua o mesmo, sempre o tempo todo. Para quem conhece (ao menos alguns dos) meus personagens, pode perceber que estou falando do Michel. (E também o mesmo do último post.)

Ele era o amigo do Luciano, aquele.

Um professor de quinta-série em escola pública, órfão de pai e mãe criado por uma tia artista e com uma herança muito maior do que a responsabilidade. Ah! Mas é tudo que sabemos sobre ele? Agora descobri que o apelido dele na época de faculdade era Deco (mentira, eu já sabia disso quando o nome dele ainda era Edson e ele estudava povos pré-incaicos no Instituto Gregório Reis de História e Arqueologia).

Michel Decker = Deco. O apelido do André, o protagonista desse bicho que estou escrevendo agora, também é Deco.

Na verdade quando o nome dele era Edson ele não era muito parecido com o que ele se tornou depois que virou um Michel. Mantive uns olhos amarelos e um gosto quase irritante pelos Beatles, e um hábito pouco saudável de sair com a mulher dos outros. E quando ele era Edson seu apelido era Deco até mesmo para os colegas de trabalho, mas ele achava isso meio ridículo.

(O Evandro Affonso Ferreira sempre briga comigo porque acha que essa história de botar um personagem chamado Deco é coisa de retardado.)

Mas é que o Michel já virou daqueles personagens que fazem o que bem entendem. Veja, não é coisa de escritor esquizofrênico. O que acontece? Você está escrevendo e de repente se dá conta que, veja, o Michel diria isso, numa situação assim. Mas não é o mais conveniente, que ele diga isso. Mas ele diz, mesmo assim. Porque afinal, ele diria isso. Aí precisamos fazer com que ele se distraia com uma lagartixa, porque um personagem desses só poderia mesmo ser distraído com uma lagartixa, e assim então, finalmente, livrar-se dele, por ora, ao menos, por esse capítulo.

segunda-feira, 10/04/2006

Crash

Tinha um menino e ele estava muito chato e ele ficava com sua cara de bobo sem graça e então eu fiz ele ser seguido por uns caras maus e aí correr na descida e tropeçar e abrir a testa e quebrar a mão e ainda bem que estava perto do hospital Santa Catarina e um taxista simpático ofereceu uma caroninha.

segunda-feira, 16/01/2006

Homicídios, a série

         Cena do crime: campinho de futebol. Corpo caído no gramado. Delegado olha a cena pensativo. Investigador pára ao seu lado e olha na mesma direção.

Investigador: Caiu na área.
Delegado: É... Foi pênalti.

A câmera se afasta para mostrar o corpo caído a poucos metros do gol.

         créditos de abertura. roteiro Alfredo Roberto e Olivia Maia, argumento [sonho do Alfredo]
         fonte branca em fundo preto: HOMICÍDIOS


   [Meus amigos têm os sonhos mais legais.]

terça-feira, 08/11/2005

Um personagem que deu certo demais

[Post editado. Restam explicações.]

Por que eu criei o Luciano:
            Pra ver se eu era capaz de lidar com um personagem masculino e mais velho. Pra ver se ele seria convincente. Não foi pra fazer complô contra ninguém.

O Luciano pra mim é mais real do que deveria ser. Acho que de certa forma eu me apeguei demais a ele, queria mesmo que ele existisse. Não foi nada pra fazer complô, pra zoar, pra chegar no final e dizer 'te peguei'. Nunca pensei nisso.

Eu gosto do Luciano. É um personagem, mas é real. É um personagem.

Não foi um plano diabólico da minha parte pra enganar todo mundo. Foi uma experiência de criação de personagem que saiu do controle. E pode ter certeza que eu não achei isso nada bom.

Não criei O Luciano pensando em ninguém, era só um blog de personagem; eu tenho um outro também, mas ninguém visita.

Não fiz por mal.

segunda-feira, 17/10/2005

Freud explica

Do jeito que minhas idéias andam, vou escrever uma trilogia:
      Édipo em São Paulo

O livro 1 já está em andamento.

Ou então vou começar a matar esses personagens chatos que têm problemas com o pai (e nem quero saber o que eles fazem com a mãe).
terça-feira, 21/06/2005

De uma casa abandonada em algum lugar da Itália

isso talvez não faça o menor sentido

Escrevo coisas, pedaços de história nenhuma, e tenho a sensação que ninguém vai gostar, ou ninguém vai dar assim muita bola, e só eu mesma que estou interessada no desenvolvimento dos meus próprios personagens.

Deu-se que lendo o Sr. Dino Buzatti me surge uma descrição de casa sinistra e abandonada e quando eu páro e penso eu estou escrevendo uma cena do meu investigador Pedro Rodriguez entrando numa casa assim cheia de pó e Iuri ficando do lado de fora depois de tentar entrar e sair em seguida todo espirrando, todo alérgico.

Que culpa tenho eu que eles dão essas amostragens de passado de repente?

E na verdade são esses momentos que me dão uma alegria de escrever e de ter personagens tão gostosinhos de escrever e imaginar, mesmo que só eu esteja interessada neles.

terça-feira, 31/05/2005

Da minha crise literária

projetos pendentes, não necessáriamente nessa ordem

desumanos- Revisão do Desumano. Parada na página 15 (de 68). Falta força de vontade. Difícil me concentrar nisso quando existem tantos outros projetos atrás dele.

- Segunda versão do Duas Luas. Narração em primeira pessoa por Pedro Rodriguez. Grande ajuda do Rino na criação dessa versão. Plano terminado e muito melhor do que a primeira versão. Parada na página 14 com o Iuri soltando um comentário desnecessário. Continuação dessa parte já foi escrita em caderno. Falta passar pro computador. Falta força de vontade. Queria terminar o Desumano antes de começar isso aqui.

- Contos de 30 páginas mais ou menos com Pedro e Iuri. História de suicídio de um primo do delegado e outra de um caso complicado de triângulo amoroso. História do suicídio tem algumas páginas. Não quero escrever isso antes de terminar o Desumano e o Duas Luas.

- Outras histórias de Pedro e Iuri que obviamente eu não vou escrever antes de escrever o Duas Luas mas que não param de pular em idéias mirabolantes.

- Roteiro piloto para o projeto de série de televisão meu e do Alfredo e do Vicente. Homicídios. Sonhar alto nunca matou ninguém. Eu acho. Plano pronto. Primeiras páginas do roteiro prontas. Falta força de vontade e um pouco de memória para ligar pro Alfredo e fazer isso de uma vez por todas.

- Operação P-2. Pesquisas sobre a ditadura praticamente terminadas. Falta terminar um pedaço da trama e prender alguns rabos e pisar em alguns rabos. Já estabeleci que a história vai se passar em 2001 antes que o protagonista fique muito velho. Plano adiantado com uma ajudinha do Alfredo e em homenagem a ele o jornalista assassinado vai se chamar Alfredo. Não queria começar isso aqui antes de terminar o Desumano. Escrevi cinco páginas do começo além dos mil pedacinhos espalhados pelos cadernos e pelo computador.

- História sobre um antropólogo, um instituto de arqueologia, um arqueólogo assassinado, um caderno com anotações sem nexo, civilizações pré-incas e umas coisas meio sobrenaturais. Falta pesquisa. Falta o plano. Mesmo assim, já escrevi umas 20 páginas há um bom tempo atrás. Aos poucos, vou lendo coisas sobre o assunto. Sempre acho que estou sendo apressada quando faço alguma pesquisa sendo que ainda tem tantos outros projetos na frente desse.

- Reestruturação da história do Gil Tradsky, meu assassino profissional mais querido. Falta um título. Falta um segundo plano. Falta botar no papel todas as idéias para esse segundo plano. Duas empresas vão ser na verdade uma empresa só. Força de vontade não falta, mas falta fazer alguma coisa com essa força de vontade, além de que eu queria terminar o Desumano antes.

Conclusão? Tira o chaveiro de porco e o discman de cima das versões do Desumano corrigidas pelo Marcelino e pelo seu professor de Literatura do colégio, Olivia, e faz alguma coisa.

sábado, 19/03/2005

Andrézinho, Andy Pan

ficção, pedaço de história nenhuma, preparação do campo para uma idéia futura, adaptação de uma idéia antiga

Não, eu não vou me suicidar. Fuga por fuga eu poderia mesmo só sair dessa cidade de merda e daria na mesma. E não, eu não tenho coragem de sair, assim como não teria coragem de me suicidar, — como já disse alguma vez para alguém, não me lembro quem — mesmo porque viveria para sempre com a culpa de ter deixado meu pai sozinho e nesse caso, é, tem razão, o suicídio seria até mais fácil. Qualquer responsabilidade morreria comigo. Ah, mas continuo.

Prisão.

Foi o que esse lugar foi para meu irmão Sérgio, literalmente, e tem sido para mim, ainda que em metáfora. Dá na mesma. Prisão é prisão, concreta ou abstrata. Meu mundo aqui é tão pequeno que eu fico claustrofóbico. E eu procuraria ajuda médica, se houvesse por aqui um médico além do doutor Alcides, de 74 anos, que é de outro tempo. Ele não me entenderia.

Ninguém aqui me entende. A cidade é minúscula e o povo daqui é cabeça-dura e atrasado, de uma mentalidade retardada. Odeio por os pés naquele lugar e acabo ficando ainda mais preso nessa pousada de fim de mundo num buraco no meio do mato. Bicho do mato. Meu pai me chamava assim, brincando, há algum tempo atrás, antes do que aconteceu com o meu irmão, quando ele ainda sabia sorrir. Eu sou literalmente um bicho do mato.

Não me dou com gente, e quando ponho os pés naquela cidade todos me olham estranho. Sei que a culpa não é minha. A culpa é da mata, das lendas, do meu avô Julian que inventou essa história de construir uma pousada em cima de um monte de lendas. A culpa é de meu irmão, da família da minha mãe que foi toda embora daqui para São Paulo e nunca mais deu as caras. A culpa é desse povo idiota que vive nesse tédio absoluto e precisa da desgraça dos outros pra alimentar as fofocas. Porque as novelas da televisão não são o suficiente.

A culpa não é minha. A culpa não é minha que meu irmão se enfiou no meio do mato à noite e nunca mais voltou. Não. A culpa não é minha e também não é de meu pai.

Eu queria cursar uma faculdade, porque talvez alguns anos de estudo me serviriam pra preencher esse vazio que existe no meu peito. Faculdade de quê? No colégio, eu era bom em matemática, química, física e biologia, aquelas matérias que todos os colegas odiavam e pediam ajuda. As meninas me pediam ajuda. André, como eu faço isso aqui?

Meu irmão dizia que elas só falavam comigo porque eu sabia resolver os exercícios de matemática.

Quis fazer faculdade de biologia, quando por um momento passou pela minha cabeça que existia a chance de sair daqui. André, o biólogo. Não, jamais isso funcionaria. Sou André, o irmão do Sérgio menino que quase matou um moleque na porrada. André, o filho do Eric o cara da pousada, aquele homem estranho que nunca mais veio aqui na cidade. André, filho da Júlia a da família grande que foi embora, filha do Julian que ficou maluco. André, um dos netos do Julian o sujeito que construiu uma pousada em cima de um monte de lendas sinistras.

Não sou ninguém.

Meu pai diz que não precisa de ninguém. Meu pai precisa de mim. Ele não sabe disso, conscientemente, mas precisa. Eu sei.

Ódio que eu tenho dessa consciência besta, de cuidar de alguém que não percebe que eu existo, que não pergunta se estou bem, se preciso de alguma coisa, uma conversa de pai e filho, um abraço, porra. Você é meu pai, Eric.

Puta que pariu. Falar palavrão não me ajuda em nada.

Ah, maldita tolerância. Por que eu fui nascer tão tolerante? Tão bonzinho. André, o menino bonzinho, aquele moleque fracote, irmão do Sérgio que jogava basquete no time da cidade antes de espancar um menino do colégio até ele quase morrer. De tanto odiar o meu irmão, tornei-me seu oposto. E ele era estava em um extremo tão extremo que eu acabei ficando na outra ponta, no outro extremo.

Mas eu esqueci que nenhum extremo é assim tão bom. Todo extremo é, de certa forma, insensato. Eu bem que poderia ter encontrado um meio termo para essa palhaçada.

Será que meu pai não percebe?

Meu pai acabou herdando o estigma de uma família que não era dele. Transpondo o estigma em seu sobrenome. Stevenson. Meu tataravô ou o pai dele, não sei, era um americano errante que veio parar no estado de São Paulo por algum motivo que ninguém ficou sabendo. Depois sumiu de novo e deixou só o sobrenome feio que me matava de vergonha, — Andrézinho yankee, Andy Pan — que sobreviveu em uma família que dava tanto filho homem. Esse Stevenson tataravô deixou olhos azuis no meu pai e meus olhos que não tem cor de nada, da cor dos olhos do meu irmão; cinzentos, amarelados, castanho-claro, verde-azul. Ninguém sabe dizer.

Eric Stevenson. Perguntavam se meu pai era americano, inglês, australiano, canadense ou o que fosse. Imagina, alguém mais brasileiro que ele, morador de uma pousada no meio do mato do interior paulista, sem faculdade feita; só um curso à distância sobre gerenciamento de pousada que ele fez depois. E nem precisava, porque o sogro e o cunhado e mesmo minha mãe já haviam lhe contado tudo que precisava saber. Isso antes do meu tio Vitor sumir no meio do mato como depois sumiria meu irmão. E isso antes de meu avô Julian enlouquecer com o desaparecimento do filho queridinho que não foi embora como todos os outros. E isso antes de minha mãe resolver que não podia mais morar naquele lugar sinistro, e que levava os dois filhos pequenos com ela para a cidadezinha ali do lado. Tudo bem, Eric, vamos estar logo aqui do lado.

Eu era muito pequeno, não me lembro.

E além do sobrenome a família não tinha ligação nenhuma com os Estados Unidos e eu nem tinha vontade de ir pra lá. Sonhar alto para mim era sair daquele buraco. Rio Claro era cidade grande.

Mas eu ia pra São Paulo, São Paulo. Ia sim, um dia.

Eu, com 23 anos, carmas familiares à parte, preferia acreditar que ainda tinha muita vida pela frente, e um dia meu pai não precisaria mais de mim.

Meu irmão sumiu aos 25, um ano atrás. Parece que foi há mais tempo. Parece que foi há uns cinco anos. Parece que estou preso nessa pousada há algumas décadas. Desde que meu avô Julian resolveu construir essa porcaria de lugar no meio do mato e em cima das lendas que eu já estou preso aqui; desde 1921 quando eu nem pensava em nascer e devia ser feliz lá no mundo dos espíritos.

Mas já começo a delirar.

Primavera.

Em uma semana daria o dia exato do desaparecimento de meu irmão e eu sentia o peso que caía sobre as costas de meu pai como se caísse sobre as minhas. No feriado da semana da criança a pousada chegava a lotar. Eu achava isso bom porque me ocupava e pensava menos nessas coisas todas que povoam minha cabeça.

Eu tinha saudades da minha mãe.

E tudo resolveu acontecer assim, tão rápido, naquela semana. Justo naquela semana, quando daria o dia exato do desaparecimento do meu irmão e os olhos azuis do meu pai ficavam cada vez mais sombrios.

E chovia.

[Uau, você leu até aqui. Ok, a história não continua. Mas vai continuar. Um dia. Eu juro que aviso. Juro.]

sexta-feira, 18/03/2005

Iuri Kieser

O pai é Karl Kieser, alemão. A mãe na verdade não tem nome nenhum, mas eu bem que podia inventar um agora. Ela é brasileira, mas os pais dela vieram da Rússia lá pela década de 30 pro Brasil. E é mais ou menos por isso que Iuri ficou com esse nome russo e o sobrenome alemão e essa cara meio exótica de tcheco-galã (a parte do galã deve ser culpa do avô materno).

Iuri nasceu em Bayreuth. É uma cidade ao sul da Alemanha, na região da Bavária. A cidade não é grande, mas também não é assim tão pequena. Ele morou lá até os oito anos e falava alemão e português e de vez em quando a mãe ensinava alguma coisa de russo só pra passar o tempo. O pai falava português que nem o nariz dele e não gostava quando sua mulher resmungava em russo porque achava sempre que ela estava falando palavrão. Ele era um homem muito sério, Karl Kieser. Mas a família (quase) se entendia.

Aí Iuri veio para o Brasil porque seu pai, advogado, arrumou um emprego em uma empresa multinacional, trabalhando com consultoria jurídica em direito internacional.

E Iuri não desaprendeu o alemão, mas só sabia falar "oi" e "tchau" em russo, além de "lave as mãos, por favor", que sua vó vivia dizendo, entre outras coisas mais feias. Perdeu muito do pouco sotaque que já tinha falando o português.

E cresceu um menino sério por causa do pai sério. Foi ficar mais amalucado na faculdade, faculdade de direito. Amalucado mas nem tanto. Ainda sempre sério, de emoções comedidas.

As meninas o chamavam de Ki. Os meninos, grande surpresa, o chamavam de Alemão. E conheceu Pedro Rodriguez, que acabaria se tornando seu melhor amigo. E conheceu Rita Barros, com quem acabaria se casando.

Formou-se, casou-se. Pedro o convenceu a prestar o concurso para investigador da polícia civil. "Vamos lá, o que você tem a perder? Não passou na porcaria da OAB mesmo!" Claro, claro. Pedro não havia terminado a faculdade porque desistiu no último ano. Rita não gostou da idéia. Karl odiou. Karl disse que se o filho entrasse na polícia, não seria mais seu filho.

Homem exagerado.

E Iuri passou e Pedro passou. E Karl arrumou um jeito de voltar para a Alemanha e nunca mais falou com o filho.

Pedro e Iuri rabalharam juntos, uma dessas coincidências que fazem a história, no 7º DP, na Lapa. Depois para o DHPP.

Iuri teve duas filhas. Laís e Júlia. E nunca mais falou com o pai.

E seu caminho foi desencaminhando, aos poucos. Rita distante, cada vez mais. Pressão, pressão. A chegada dos trinta. Pressão. Aflição. Vodca. Desencaminhando. Ah, Iuri, Iuri. Um moço tão bom, um moço tão sério.

sábado, 26/02/2005

De um b invertido

mas esse texto não chega a lugar nenhum

Ele se chamava Anidal. Isso mesmo. O escrivão estava mesmo muito distraído quando foi registrar o nome, e acabou invertendo o b. Anidal. Mas ele nem se importava muito não.

Na firma, chamavam o mineiro de Formiga. Nascido em Formiga, Minas Gerais. E ele achama mesmo bem melhor que as pessoas não soubessem seu nome. Vai que acontecia de alguém estar procurando por ele por algum motivo não muito católico, ficava fácil de achar. E por isso também ele não deixava nada em seu nome. Carro, imóvel, linha telefônica, tudo no nome da mulher.

E será que existia um outro Anidal no mundo?

Ele era da roça. Sempre foi. Mesmo quando mudou-se pra Ribeirão pra trabalhar de motorista na firma. Sempre que podia, ia pra roça.

Aos 35 anos só tinha feito até a terceira série do primário. Ele resolveu estudar. Ele, a mulher e os filhos, todos estudando. A casa sempre cheia de livros. Ele achava até estranho. Aos 40 estava entrando na faculdade.

Anidal gostava de ser pontual. Na verdade, chegava nos lugares algumas horas antes, porque não gostava de fazer nada com pressa. Ele sabia que era muito nervoso. Fazia até tratamento de acunpuntura, lá em Ribeirão.

Casou aos 19 anos. O casamento ia ser às 3 da tarde, em sua cidade natal. Ficou trabalhando e fazendo uns serviços do colega até tarde, porque assim o colega faria seus serviços nos dias seguintes, e ele poderia ficar sossegado com a mulher.

Chegou às 2. A noiva já tinha borrado a maquiagem, e todos já haviam desistido do casamento. O Anidal fugiu!

Barba por fazer, cabelo pra cortar. Mas uai, ainda tinha uma hora, homem não precisa de tanto tempo pra se arrumar assim!

E ele era bonitão, na época. Ele sempre dizia, que era bonitão. Aí ficou velho e perdeu o brilho. Isso ele dizia aos 40 anos. A mulher dele ainda achava ele o mesmo bonitão de sempre.

Casou e continuou casado. Vivendo em cidade grande, mas sempre voltando pra roça. Belo Horizonte, Ribeirão Preto, São Paulo. Ele se perdia todo em cidade grande. "Mais perdido que filho de puta no dia dos pais", ele falava. "Como diria o roceiro." Ele era da roça, nasceu na roça.

É sim, esse é o Anidal. Era só isso mesmo que eu queria dizer sobre o homem.

domingo, 20/02/2005

Esse não é um post genial

Escrevi um conto chamado O dia em que Juliano acordou e encontrou um duende na gaveta de frios de sua geladeira. Eu realmente não devia tomar café.

Ganhei uma hora, de acordo com o fim do horário de verão. A hora que passei no MSN com Sr. Rinogas, descobrindo o que realmente aconteceu na história do Duas Luas. Ah, genial, genial. Agora só preciso descobrir como explodir o Pedro. Eu realmente preciso explodir o Pedro, vocês não entenderiam...

Eu nasci pra isso.

(Ui, usei a palavra realmente duas vezes - três, agora - e nem percebi. Deixa pra lá.)

sexta-feira, 07/01/2005

Deixa eu me interromper

Eu estava achando o Duas Luas uma droguinha. Frágil.

Mas aí um e-mail do Abner me deixou mais animada e eu não estou mais achando tudo uma merda.

Se todos os escritores tivessem um leitor assim!

quarta-feira, 05/01/2005

A idéia do Vitor

que agora não sai mais do meu pé (a idéia, não o Vitor)

É difícil pra mim lidar com esse tipo de idéia. Escrevo de um jeito no blog, e de outro, completamente diferente, quando narrando uma história qualquer. Por quê?

Oras, por quê! Porque é assim que me vêm as idéias para serem escritas, e porque quando narro não quero inovar nada, quero apenas contar uma história do jeito que as histórias costumam ser contadas.

Porque não tenho para mim um Edgar como tem o Abner. Porque meus personagens se criam de outro jeito e são como se fossem pessoas, e não brinquedinhos. Porque as idéias não aparecem para mim desse jeito, para que seja dada mais ênfase à linguagem do que à história. Porque não sou Guimarães Rosa ou Mario de Andrade, ou, ainda, um Rodrigo S. M. um pouco mais sádico e engraçadinho, e menos dramático.

Porque existem alguns meios de criação que eu não sou capaz – ainda – de compreender. E digo ainda porque espero ainda um dia ser capaz de entender e dominar e usar.

Mas, de qualquer forma, a idéia do Vitor não sai mais de mim, e eu vou dar um jeito de usá-la. Acontece que a idéia é boa demais pra ser desperdiçada com uma idéia fraca. Ah, não vou contar qual é a idéia, exatamente. Digo apenas que é um novo jeito de contar uma história. Novo pra mim, ao menos. E eu vou usar essa idéia. Nem que pra isso eu tenha que brigar com algum personagem.

Olivia
01:55
quarta-feira, 29/12/2004

De alpinistas, gays e minorias em geral

Spektrum diz:
se eu nao fizesse direito e nao pudesse fazer nem cinema nem musica eu provavelmente faria letras...
Spektrum diz:
ou viraria piloto de helicóptero...
Spektrum diz:
enfim...
Olivia em Franca diz:
voce tambem podia ser alpinista
Spektrum diz:
letras manda bem...
Olivia em Franca diz:
um personagem meu é alpinista
Olivia em Franca diz:
ele é vegetariano e nao dorme desde que parou de falar com o pai
Olivia em Franca diz:
ele tem problemas, coitado
Olivia em Franca diz:
e ele tem um amigo gay

Spektrum diz:
o problema é que... eu nao tenho um amigo gay
Olivia em Franca diz:
é, mas voce pode arrumar um. o amigo gay do alpinista é biólogo
Spektrum diz:
Mas o naga nao eh mais gay!!
Spektrum diz:
e ele eh o unico biologo q eu conheço...
Olivia em Franca diz:
ah, dá-se um jeito, meu amigo, para tudo dá-se um jeito
Spektrum diz:
se eu ficar amigo do Marcelo, o boiologo... talvez eu possa virar alpinista *pensativo*
Spektrum diz:
e tirando que eu ainda prefiro ser piloto de helicóptero e salvar o alpinista...
Spektrum diz:
e o amigo gay biólogo... pq eu nao tenho preconceitos
Olivia em Franca diz:
ah, mas o meu alpinista tambem é piloto de helicoptero e avioezinhos
Spektrum diz:
mas aí nao vale... ele nao pode ser duas coisas legais.
Spektrum diz:
eu toco cello e desenho... mas nao faço nenhuma das coisas bem... e faço direito, pra compensar.
Olivia em Franca diz:
hahaha, eu sei como voce se sente
Spektrum diz:
obrigado! hehe...
e como andam seus escritos?
Olivia em Franca diz:
terminei o duas luas!
Olivia em Franca diz:
e tenho fome
Olivia em Franca diz:
de comida mesmo
Olivia em Franca diz:
e comecei a escrever a historia seguinte que vem depois do duas luas, porque eu sou compulsiva
Olivia em Franca diz:
e estou achando o duas luas uma droguinha
Spektrum diz:
vc nao vai dar uma de.... esqueci o nome da mina q escrever harry potter... e escrever livros como se fosse uma linha de montagem automática, né?
Olivia em Franca diz:
hahahaha
Olivia em Franca diz:
mas é que essa historia é bem mais legal
Olivia em Franca diz:
logo no começo aparece um morto todo deformado e espancado, com a cara amassada e uns pedaços do cerebro misturado com sangue e cabelo, e sangue e intestinos e uma sopa de gente
Spektrum diz:
espero... ou eu teria q te matar...
Spektrum diz:
hum... q delicia...
Olivia em Franca diz:
só que como eles nao podem identificar o cara, nao dá pra fazer nada, porque ninguem viu nada, ninguem sabe de nada, aquela coisa de sempre
Olivia em Franca diz:
eu ainda nao sei como eles vao descobrir quem é o homem. acho que vai ser um manezinho amigo dele
Olivia em Franca diz:
que sabia que ele ia estar por lá e fazendo alguma coisa perigosa e tal
Olivia em Franca diz:
na verdade é o namorado do cara, porque o cara é gay, mas isso ele nao conta
Olivia em Franca diz:
sabe como é
Spektrum diz:
claro... o namorado gay do alpinista fez uma sopa de gente... acontece todo dia
Spektrum diz:
opa
Spektrum diz:
o namorado gay do amigo gay do alpinista*
Olivia em Franca diz:
nah, essa é outra historia
Olivia em Franca diz:
nao que existam tantos gays nas minhas historias, mas sabe como é, a gente tem que sempre botar umas minorias. tipo filme policial americano, que eles botam uns negros e tal, pra fazer um tipo
Spektrum diz:
ah tá... entendi.... mas nos filmes policiais os negros sao sempre os primeiros a morrer!
Olivia em Franca diz:
ah, nao tem problema, a historia nao tinha nem começado e eu já tinha matado um gay
Spektrum diz:
hahahahaha.... vao te acusar de ser homofóbica quando publicar seu livro.. cuidado
Olivia em Franca diz:
nada, nada. o amantezinho do morto é um cara simpático e tal
Olivia em Franca diz:
e afinal, ele nao morreu porque era gay
Olivia em Franca diz:
quer dizer
Olivia em Franca diz:
acho
Olivia em Franca diz:
ah, nao
Olivia em Franca diz:
mas o pedro investigador vai pensar isso
Olivia em Franca diz:
olha só, que ideia boa que voce me deu
Spektrum diz:
hahahahaha.... o pedro podia ter um amigo negro... gay.... e judeu. E ele seria o representante perfeito das minorias recriminadas... e aumentaria a vendagem do livro...
Olivia em Franca diz:
mas o pedro tem um amigo ruivo e um amigo alemao. sao minorias, alright
Olivia em Franca diz:
talvez nao sejam recriminadas, mas what the hell

sexta-feira, 17/12/2004

Alfaces e amigos imaginários

talvez meu amigo imaginário seja um alface

Meus amigos imaginários andam espalhando por aí que eles são pessoas reais. Cuidado com quem você conversa. Talvez essa pessoa seja um dos meus amigos imaginários.

Eles acham que podem simplesmente fazer o que bem entenderem.

Precisamos criar uma nova profissão: domador de personagens. Ou ainda melhor: adestrador de personagens. Um dos dois. Talvez você deve escolher o melhor para o seu caso específico.

Eu devo estar precisando de um adestrador. Personagens que são até bonzinhos, mas que ficam dizendo pros outros que não são amigos imaginários. Ainda dizem - olha só! - coisas do tipo "a Olivia te disse que eu sou o amigo imaginário dela? Meu Deus, agora ela deu de espalhar por aí que eu não existo, só me faltava essa..." Sim. Um perigo, eu sei.

Oh, mas eu avisei, eu avisei.

Não medi o poder que eu tinha em minhas mãozinhas gorduchas.

quinta-feira, 09/09/2004

A Grande Reunião - Parte III

Leia antes a primeira e a segunda parte.

***
Conforme a sala vai sendo abandonada pela maioria dos presentes, um silêncio perturbador cresce, como se antecipasse algum tipo de grande choque. Um silêncio de filme de terror. O recém-chegado, o jovem Gil, senta-se numa das cadeiras livres e olha na direção dos dois homens que conversam em voz baixa, sentados logo ao lado dele. Um deles é Edson, e o outro é o dito segundo sujeito-assunto da discussão, aquele que se denomina o original.

A moça que o levara até ali lhe explicara a situação. A decisão afetaria aquele sujeito de cabelos negros e olhos grandes, e um outro que era tão igual a ele. Esse segundo está encostado na janela. Procurando diferenças, Gil nota que o sujeito que está em pé tem mais cabelos brancos, e sua expressão mostra uma preocupação que não estava ali a primeira vez que o viu.

- Bom, ótimo- Márcio diz, assim que a porta é fechada.- Podemos voltar agora?

Pedro o encara, lançando olhares rápidos para as quinze pessoas que sobraram na sala.

- Edson Decker- Márcio continua.
- Eu.
- Acho que seria justo ouvir a sua opinião, dado que você que começou a história toda.

Edson levanta-se, dando um tapa no ombro do amigo como se para assegurá-lo que sabia muito bem o que estava fazendo. Mas perde-se ao olhar o rosto espantado de Gil.

- Você tá bem?
- Ele sumiu.

Todos olham na direção da janela, deparando-se com um vazio. Igor aproxima-se e olha para fora, procurando, talvez por alguma evidência de que o sujeito tivesse escapado por ali. Pedro e Iuri aproximam-se.

Márcio encosta o corpo na cadeira, com a expressão de tédio.

- Só me faltava essa.
- Ele não saiu com os outros?
- Ele tava ali até agora. Eu vi- Gil fala, também se levantando. Coloca os óculos no rosto e vira-se para Edson.- Você não viu?

O amigo de Edson tem um sorrisinho no rosto.

- O que você aprontou?- Quem fala é Leonardo Takano.
- A Olivia...
- O que ela fez?
- Está apagando as pistas.
- Como assim?- Edson interrompe, com a testa franzida e a expressão de espanto. Ainda assim, há um certo alívio em sua voz.
- A mesma coisa que ela fez com o seu reflexo no mundo dele.
- Aquele doido?
- O próprio, Deco. O próprio.

Márcio levanta-se e anda até a porta. Abre e chama a recepcionista. Ela aparece logo em seguida. Conversam em voz baixa. Márcio agradece e assim que ela vai embora, vira-se para os outros.

- Ele não sumiu.
- Como não?

Márcio senta-se em sua cadeira na ponta da mesa e apóia o corpo nos cotovelos. Sorri um sorriso cínico, esperando ter todos os olhos voltados na sua direção para continuar falando.

- Mas eu duvido que a gente volte a ouvir falar dele tão cedo.- Sacudiu os ombros.
- Alguma tragédia?- Rubens pergunta, mostrando um pouco da origem carioca.

Deco olha o amigo, que ainda sorri, como se soubesse muito mais do que estava dizendo. Apagando as pistas? Márcio nega com a cabeça.

- Talvez, talvez, em outro momento. É tudo que sei. A tragédia ainda pode existir, mas eu não tenho nada a ver com ela. A culpa é, de certa forma, do Decker.

Rubens ri.

- Minha não. A culpa é daquele meu sócia louco que a Olivia inventou.
- O seu reflexo- Rubens diz.
- Cala a boca, você morre no começo da história- Deco retruca.

(continua...?)

terça-feira, 27/07/2004

Quem matou Henrique Ritcher?

Quem, quem?!

Se você já leu alguma parte da história que eu estou escrevendo, Duas Luas, talvez já tenha se perguntado o mesmo (ao menos eu espero que tenha. E se ainda não leu, e quiser ler, é só pedir que a gente dá um jeito).

Mas, céus, preciso descobrir logo, porque já estou na página 67 da história e ainda não descobri. Pedro e Iuri parecem muito certos de que o culpado é o irmão mais novo, Ivan Ritcher, mas será que foi ele mesmo?

E como se faz quando você não sabe o assassino do seu próprio livro?

Na verdade, eu também tinha muita certeza de que tinha sido o Ivan, e isso nem era o mais importante da história (não, não vou contar o final). Aí de repente outros suspeitos entram na roda e vão rindo da minha cara, porque eu não tinha pensado neles antes, deixando eles muito soltos para cometer o crime e ainda fazer outras coisas enquanto Pedro e Iuri procuravam pelo Ivan desaparecido.

Personagens, lhes digo, são seres muito traiçoeiros. Basta virar as costas uma vez para que aprontem o impossível. O tempo no mundo deles passa mais rápido, e você fica duas horas olhando pro lado e eles fazem um estrago de três dias. Agora, veja eu aqui, sem saber o que esses dois suspeitos extras fizeram enquanto eu não olhava. Sei que fizeram um monte. Aos poucos, estou descobrindo coisas.

Ainda não descobri o suficiente. Ainda não sei quem matou Henrique Ritcher. Foi um deles, um dos três. Talvez tenha mesmo sido o Ivan. O Ivan é um sujeito muito esquisitinho, metido, e treme a mão. É genético, sabe?

Sulistas. Como disse o Pedro, existem sulistas demais nessa história.

Olivia
19:17
quinta-feira, 08/07/2004

Oportunidade!

Você pode ganhar um hamster ou um castelo na Europa. É só preencher esse formulário aqui. Eu sei, é pior que responder às perguntas do profile do Orkut. Mas é por uma boa causa, juro. E lembre-se, tem que escolher entre um dos prêmios. Só um. Eu sei, a escolha é dura.


Ouvindo Drunk Is Better Than Dead (03:39) - The Push Stars

Olivia
17:11
domingo, 04/07/2004

Oretit e os vendedores de tecido da rua da Graça

Thomaz Oretit era fotógrafo mergulhador. Ele trabalhava como freelancer para uma revista de ciência e história, e auxiliava seu colega de faculdade Rui Shuterland, biólogo marinho. Apesar dos rumores que duvidavam da sexualidade de Rui e apontavam um possível relacionamento entre os dois (o que deixava Oretit muito irritado), Thomaz vivia rodeado de mulheres por onde quer que fosse. Era a profissão, ele dizia, que despertava a curiosidade das mais bobinhas.

Fotógrafo mergulhador, ele falava, com a boca cheia, e todos o olhavam com um certo espanto. Uma vez alguém dissera que ele tinha cara de vendedor de tecido da rua da Graça, e ele que nunca comprava tecido na rua da Graça ficou sem saber como eram as caras dos vendedores dali. De qualquer forma, deduziu que não era cara de fotógrafo mergulhador.

Os vendedores de tecido falavam esquisito, e alguns tinha sotaque carioca, até. Tinha todo tipo de sotaque naquela rua, além de muitas lojas de tecido e de máquina de costura. Mas Thomaz não sabia nada disso.

Oras, era o que ele era. Como diabos devia ser a cara de um fotógrafo mergulhador, afinal?

O apelido de Rui era Ruivo, por motivos óbvios, e aos 36 anos não tinha um só fio de cabelo branco, contrariando a barba um pouco grisalha que ele insistia em deixar sempre um tanto crescida. Tinha trejeitos um pouco afeminados e passava horas na frente do espelho arrumando o cabelo, mas não era gay, independente do que dissessem. Falava devagar e parecia estar sempre com um pouco de sono.

Rui e Thomaz se davam bem, apesar de serem opostos. Thomaz falava rápido e insistia em contar piadinhas e fazer comentários sarcásticos que raramente eram entendidos pelo colega. Rui se irritava com a risada dele, mas nunca comentou nada a respeito. Saíam juntos para beber e Rui quase sempre acabava sozinho enquanto Thomaz ia embora com alguma mocinha mais boba que ele ganhara com seu papo de fotógrafo mergulhador.

Olivia
12:51
domingo, 13/06/2004

A Grande Reunião - Parte II

Para ler a primeira parte, clique aqui.

***
- Senhores, senhores, por favor- soa a voz de Márcio novamente, fazendo-se grave e importante, em meio a tantos outros que eram sem dúvida muito mais graves e importantes que ele.

Há uma inquietação geral na sala.

- Chama de Dolly!- é Igor que grita novamente, e recebe outro cutucão por parte de um de seus amigos, um rapaz baixinho de corpo musculoso e uma camiseta laranja da seleção de futebol holandesa.- Well, it fits, doesn't it?
- Kinda- o outro responde, com um sorriso maroto no rosto, embora com uma timidez aparente.

O resto da sala ignora, e Márcio revira os olhos, com impaciência.

- E a tragédia?
- Por enquanto, é a melhor solução- Márcio diz com um sorrisinho, de bom-humor recuperado.
- A gente vai matar ele?- uma moça diz, apontando o dito sujeito-assunto da reunião.

O homem encolhe-se em sua cadeira. Queria desaparecer. Não sente que tem qualquer coisa em comum com aquele bando de malucos, com a exceção do passado meio obscuro e um tanto trágico que a autora insistia em lhes dar. Antes fosse um personagem secundário, como era aquele que havia inspirado sua existência em primeiro lugar. Ser um personagem principal era complicado demais. Ele olha em volta, percebendo que a maioria olhava em sua direção.

- Me matem, então.

Márcio solta uma risadinha. A dupla parada ao lado da porta olha feio para o jovem na ponta da mesa. Pedro e Iuri, são eles, Departamento de Homicídios. Outros policiais ali presentes também não parecem gostar do rumo que a reunião está tomando, assim, de repente. Mas não se atrevem a falar qualquer coisa.

Batem à porta.

- Entra!- Márcio grita.

A mulher que abre a porta é familiar a todos, a recepcionista e arquivista, uma senhora baixinha e meio gorducha que usa os óculos para leitura quase todo o tempo no topo da cabeça, e quando precisa deles nunca se lembra onde estão. O rapaz que a acompanha, porém, é um desconhecido.

Não é alto nem baixo, é magro e descendente de japoneses. Ele segura os óculos da mão e paralisa ao dar o primeiro passo para dentro da sala, com um sorriso incerto no rosto.

- Quem é esse?
- Erm... Meu nome é Gil.
- Gil?!- várias vozes soam ao mesmo tempo, e alguns olham na direção de um sujeito que está encostado num dos cantos da sala, de braços cruzados, cutucando as unhas.
- Esse é o meu nome- o rapaz repete, um tanto inseguro, sem saber se deve ou não tomar uma das cadeiras vazias ou continuar ali, plantado entre a dupla de policiais e o quarteto de adolescentes que conversavam em inglês.
- Gil?- Márcio pergunta.
- Gil.
- Porra, no meio duma crise e a Olivia inventa mais um...- Pedro resmunga, e Iuri solta um palavrão em alemão.
- Outro Gil?- um homem pergunta.
- Se não for como o primeiro, tudo bem...

O sujeito encostado no canto da sala pára de olhar as unhas e enfia as mãos no bolso. Desencosta-se da parede e começa a andar em direção à porta. A recepcionista abre espaço para ele sair.

- Aonde você vai?- Márcio pergunta.
- Embora- ele responde, sem olhar pra trás.- Eu não preciso ficar aqui, preciso?

O jovem Gil dá um passo para o lado.

- Ninguém vai embora- Márcio diz.

O homem sorri um sorrisinho torto e cínico. Tira uma pistola prateada da cintura e vira-se para a sala, apontando a arma na direção daquele que está sendo julgado. Iuri, Pedro, Geraldo, Takano, Denise e tantos outros policiais e delegados, estaduais e federais, automaticamente sacam suas armas também, mas todos continuam com elas abaixadas.

- Gil...- é Márcio que fala.

Os dois olham, o homem e o recém-chegado.

- ... Tradsky...- Márcio completa, e o Gil mais jovem desvia o olhar, examinando a sala e se perguntando como diabos ele foi parar ali.
- Vocês não querem uma tragédia? Eu resolvo isso agora. Se forem continuar discutindo pra não chegar à conclusão nenhuma, eu vou embora. É simples assim- ele diz, sem abaixar a arma.

Silêncio. A senhora recepcionista já havia saído dali e fechado a porta sem que ninguém percebesse. Uma das janelas se fecha com um baque violento. Alguns se assustam, mas Tradsky ainda aponta a arma na direção do homem julgado, e sequer piscou. Havia parado de sorrir.

- Foi o que eu pensei- ele diz, e volta a colocar a arma na cintura. Vira-se, abre a porta e sai da sala.
- Holy hell- Igor diz.
- Mais alguém?
- Mais alguém o quê?
- Quer ir embora?

Os policiais guardam suas armas. Há um momento de silêncio novamente, mas o ar está mais leve, e a respiração dos presentes não se faz tão audível quanto antes. A recepcionista aparece na porta mais uma vez. Gil, o recém-chegado, pergunta para ela se ele realmente precisa ficar por ali.

- Só tem doido aqui- ele diz.
- Você tá aqui, não tá?- ela responde, com um sorriso pequeno, que seria simpático se não fosse tão cruel.

Ele encolhe os ombros e encosta na parede, cruzando os braços. Alguns se preparam para sair, e Márcio afunda-se na cadeira, irritado.

- A gente não vai acabar isso nunca...- murmura.

(ainda continua...)

Olivia
19:11
segunda-feira, 07/06/2004

A Grande Reunião

A sala está cheia. As pessoas ali conversam, e olhando com estranheza os desconhecidos. A sala é grande, mas não é grande o suficiente, e alguns, que preferem ficar sozinhos, tem que se conformar com um canto mais apertado, no chão ou em um banquinho pequeno encostado na parede.

Um rapaz de uns vinte anos está sentado numa das pontas da mesa, e recebe olhares irritados de outros mais velhos. Um homem alto, de olhos verdes e pele muito branca, está entre esses irritados, assim como um sujeito baixinho ao lado dele, de cabelos cortados bem curtos e uma camisa jogada para fora de uma calça jeans surrada. Na outra ponta da mesa, com uma expressão sonolenta, está um rapaz adolescente, usando um boné vermelho com um P bordado na frente.

- Tudo isso é por sua causa?- um outro pergunta em voz baixa ao amigo.

Ele tem os cabelos claros, de em aloirado meio cinza, e os olhos amarelados de uma cor indefinida. Parece recém-chegado aos quarenta...

- Trinta e nove!

Trinta e nove. Tem trinta e nove. Quem está contando a história aqui?

O homem faz careta e sacudiu a cabeça. Volta-se ao amigo, um homem mais jovem, que na verdade aparentava bem menos do que era sua idade real. Ele tem olhos grandes e uma expressão de menino, mas parece um tanto confuso. Responde:

- Não exatamente. Mas pelo que eu entendi, a culpa é minha. Isso aqui é por causa dele, ali.- Ela aponta um outro homem, do outro lado da sala. Eram parecidos, se não idênticos, embora o segundo parecesse bem mais deslocado.- Quem é ele?
- Ele é você. Foi o que eu entendi.
- Tão dizendo que eu sou ele. Digo, que eu surgi por causa dele. Mas não é verdade, eu sei disso.
- Eu não gosto disso.

Um grupo de três rapazes adolescentes conversa em inglês num dos cantos da sala. É gente demais, e as poucas mulheres conversam entre elas como avaliassem as atitudes dos homens, mas não com desdém ou irritação. Em outro dos cantos, um homem está encostado na parede, de braços cruzados, olhando toda a cena com um ódio exagerado nos olhos, querendo estar em outro lugar.

- Atenção!- o rapaz mais atento na ponta da mesa falou, levantando-se. Aquele que estava na ponta oposta não se moveu, distraído com seu próprio descaso.

A maioria ali presente de fato prestou atenção, esperando o que ele ia falar. O homem alto de olhos verdes comenta qualquer coisa com seu colega, e os dois se afastam, se colocando perto da porta.

- Vocês foram convocados aqui para decidir o destino dele- disse, e aponta o mesmo homem que fora mencionado antes por aquela primeira dupla de amigos, sentado em um canto com uma cara de assustado.- O nome dele e de seu... Sósia...
- Sósia? Peraí, Márcio... Não é bem assim...
- Shh! Eu tô falando aqui, sacou?

Com exceção de alguns, e da dupla parada ao lado da porta, os presentes pareciam ter medo do tal do Márcio. Houve silêncio novamente.

- O nome dos dois não deve ser mencionado.
- Por quê?- alguém pergunta, uma menina que devia quinze anos.
- É coisa da Olivia.
- Decidir o destino dele também é coisa dela?
- A gente precisa chamar ele de alguma coisa.
- É, e com letra maiúscula, pra saber que é o nome.
- Pára, pára- Márcio diz em voz alta, um pouco irritado. Ele não gostava de muito barulho, aquele rapaz. Coloca a mão na cabeça, temendo uma enxaqueca.
- Chama de Al...
- Shhh!- uns dez fazem, com uma força para esvaziar os pulmões.
- ... face...?- era um dos rapazes que antes estivera conversando em inglês, e alguns se espantam de ver que ele fala português, ainda que de um jeito um tanto enrolado. Um de seus amigos ri.
- Igor!
- What?- ele pergunta ao outro, que sacudia a cabeça em reprovação.- Just thought it would be...
- Ninguém vai me chamar de alface, peraí.

As dezenas de olhos viram-se na direção do sujeito-assunto da discussão, como se estivessem espantados que ele realmente fosse capaz de falar.

- Tá certo- Márcio toma a palavra mais uma vez.- Como você prefere ser chamado?
- Pelo meu nome.
- Seu nome não pode ser dito aqui. A Olivia...
- Ah, a Olivia que se dane.

Alguns riem. Outros se olham, espantados. Márcio permanece impassível, respirando devagar quase como se não estivesse rodeado de gente.

- Bom, eu decido aqui- Márcio diz.
- Quem te colocou aí?- é um dos dois parados ao lado da porta, o baixinho de olhos escuros e expressão irritada.
- A Oliv...
- A gente sabe tudo sobre você, seu...
- Não me surpreende. Agora, se vocês me dão licença...

O mais alto coloca uma mão no ombro do amigo e pede calma.

- A Olivia mencionou uma tragédia- alguém diz.

O sujeito-assunto olha o homem que falou. Seu sósia...

- Sócia não, porra, eu sou o original.

O original... Não, não dá, assim fica anti-literário. Preciso te chamar de alguma coisa.

- Problema seu, a escritora é você, eu sou...
- Shhh!
- O que foi agora?
- Você também não deve falar nada sobre você.
- Caramba, Deco, isso tá ficando ridículo.

(continua...)

Olivia
10:33
domingo, 06/06/2004

Invenção

Minha maior tristeza, minha maior decepção, é saber que ele não existe de verdade. Que ele só é assim porque eu quis. Que eu não vou cruzar com ele na rua nunca, nunca.

Tô me sentindo num limbo emocional, suspensa no ar, no tempo.

Isso pede por uma tragédia.

Olivia
10:40

Censura

Agora meus próprios personagens estão me censurando quando eu converso com eles. Ninguém merece.

- Meu primo falou que ia me emprestar aquele livro, mas deu uma sumidinha...
- Eu notei. Deve ter arrumado uma namorada muito mais interessante do que o tal do livro.
- É provável. Aliás, hoje teve reunião.
- Argh!
- O que foi?
- Esse meu computador de merda fica com a tela azul. Argh, odeio essa tela de merda.
- Calma, Olivia.
- Eu tô calma.
- ...
- ...
- Isso tá ficando ridículo...
- Eu sei. O pior é que você tá se divertindo.
- Eu não. Você. Olha aí, tá começando a se confundir toda, eu que ia falar isso.
- O confuso aqui é você, não vem não.
- Se eu sou, é porque deve ser alguma parte de você, não é?
- Bah. Vou dormir.
- Eu também, obviamente...
- Como foi na reunião hoje?
- Foi legal. Demos um nome pro mascote. Toquinho.
- Tem certeza disso?
- Foi aquele ruivo chato que inventou.
- Duvido.
- Ah...
- Foi você.
- Não foi.
- Eu sei que foi, espertão, quer esconder de mim?
- Eles queriam Pitoco. Fala sério...
- Não fala mal de pitoco.
- Vai escrever no seu blog.
- No meu?
- É!
- Bah.
- Aproveita e usa essa sua pseudo-loucura declarada como assunto.
- Bah.
- É.
- Ah, vou fazer isso mesmo. Boa noite.
- Boa noite.

Olivia
00:48
sexta-feira, 04/06/2004

Crise

Quando eu escrevo, eu quero que a história seja convincente. O que eu escrevo é mentira, é ficção, tá no nome. Todo mundo sabe que tudo aquilo não existe de verdade, mas mesmo assim, o leitor espera que a trama e os personagens façam sentido. Um personagem de uma história onde não existe mágica não vai sair por voando ou usando visão de raio-X pra saber o que a velhinha esconde na bolsa, e um vigia malandro, sacana e pobre não vai falar "Depende, senhor, eu teria que ter certeza do que exatamente meu colega lhe mencionou anteriormente." Cruz credo. Nisso, eu tenho que prestar atenção.

Mas esse não é o pior. O pior, na verdade, nunca vai ser convencer o leitor. Porque o leitor já espera ser enganado. O leitor já sabe que está abrindo aquela caixinha de mentiras deslavadas, o livro de ficção. Ele pode até achar que o escritor exagerou um pouco, ou achar alguma coisa mal-feita, mas a conclusão - para um leitor comum - vai ser que a história é aquela mesma. A história pode ser meio irreal, mas é assim mesmo, fazer o quê. O leitor pensa que o escritor que é meio idiota, mas ele não chega a duvidar da história.

O pior, ah, o pior, é convencer a mim mesma do que eu tô escrevendo. Acreditar que aquilo lá aconteceu mesmo, daquele jeito. Eu não consigo mais acreditar em nada. Não me convenço de nada. Tudo parece forçado, mentira mal contada. Uma chatisse só.


Se o personagem acha uma coisa estranha, eu tenho a impressão de que ele só acha estranha porque eu quis que ele achasse estranha. De certa forma, sim, eu sou a escritora, eu inventei tudo aquilo, a imaginação é minha, mas de qualquer jeito. Não me convenço. Parece que tá tudo sendo meio forçado. Como se os personagens não quisessem me obedecer, ou obedecessem de má vontade.

"Isso só é assim, esquisito, porque você exagerou pra ficar esquisito. Nem precisava ser tão bizarro assim" eles me dizem. Argh. Estranho por estranho, um ovo verde com pernas seria muito mais interessante.

Tem escritores que enganam, trapaceiam. Não digo que isso é errado, mas em certos níveis eu me irrito um pouco. Como o Lawrence Block, em After the First Death, narrado em primeira pessoa, quando o personagem diz algo na linha de "no momento eu não percebi, mas o nome mais provável da lista foi justamente aquele que eu não dei atenção". Mas e aí, então não vai contar de que nome tá falando? E se não ia contar mesmo, por que diabos você mencionou?!

Então isso eu não faço. Eu uso outros meios de enganação. Ficar falando que tem uma informação e não vai revelar eu acho um truque besta. Se não quer revelar, simplesmente não diga que tem!

Só que aí, às vezes, sem nem fazer isso, eu tenho a impressão de estar fazendo, como agora, que estou escrevendo em primeira pessoa e o protagonista tem umas crises de amnésia de vez em quando. Ele pode não saber o que aconteceu, mas eu sei, e... Sei lá, é estranho. É como se o personagem também soubesse, porque ele viu na minha mente (afinal, ele mora lá) e agora tá fingindo que não sabe de nada.

Faz sentido?

Não, né.

Ou faz. Quem sou eu pra subestimar a capacidade de raciocínio de vocês. Deve fazer sentido. Talvez só não faça sentido pra mim.

A minha imaginação é meio estranha. Eu acredito demais das coisas que eu crio. Acredito tanto que elas ganham vida própria, e ficam espiando minhas idéias e sabem tudo que vai acontecer com elas antes que aconteça. Aí as situações não me convencem. As cenas parecem falsas.

Diabo. Deve passar.

Olivia
23:10
domingo, 30/05/2004

Gil Tradsky

Gil Tradsky sempre morou em São Paulo. Ele foi, vez ou outra, para outros estados brasileiros, mas nunca saiu do país. E mesmo quando saiu de São Paulo, não ficou tanto tempo fora. Na verdade, o Gil não gosta de viajar.

O Gil não gosta de muita coisa.

Ele é um sujeito alto, com 1,84 metros de altura, pesando 81 kg, o que é, convenhamos, pouco. Ele já foi menos magro, mas isso foi há mais de 7 anos. Aos 27 ele parou de fumar, e começou a comer tão mal, que era melhor ter continuado fumando. Agora, aos 34 anos, Gil mais parece ter 40, ou até mais. Faz a barba dia sim dia não, quando dá vontade, quando o trabalho pede uma aparência mais apresentável. Ele não gosta de passar muito tempo na frente do espelho, e acha um pouco perigoso fazer a barba sem olhar no espelho.

Mas o Gil é um cara normal, um rosto bem brasileiro que não chama a atenção por ser bonito ou feio, cabelos e olhos castanhos. Se você olhar bem (embora isso seja praticamente impossível, sem que ele perceba e fique muito irritado) até vai achar que ele foi mais bonito quando era jovem. Mas agora tem a pela marcada, manchada de sol com um bronzeado irregular.

Talvez você tenha sorte, e encontre o Gil um dia desses no ponto de ônibus do Cemitério do Araçá, saindo do metrô e usando óculos. Não óculos escuros, ele odeia óculos escuros. O cara é míope que é uma desgraça, mas se incomoda com aquele treco grudando no nariz e em volta dos olhos, limitando sua visão e deixando as coisas tão nítidas que ele tem a impressão que o mundo está girando.

Na maior parte das vezes, se o Gil souber onde largou os óculos, eles ficam no bolso da camisa.

Camisa, de cor escura, de preferência. Branco é coisa de pai de santo, ele disse uma vez, mas acaba usando vez ou outra, quando precisa. Prefere camisa pelo mesmo motivo pelo qual prefere calças. Acha shorts e camiseta um jeito idiota de se vestir. E ainda usa camisetas, de vez em quando. Shorts, nunca. Ele acha ridículo. Não é mais criança.

O Gil Tradsky é muito sério.

As cicatrizes são várias, e, inconscientemente, ele até se orgulha um pouco delas, como provas visíveis de sua sobrevivência naquele ramo tão perigoso. A cicatriz maior, por outro lado, ele fez quando menino, e ela nada tem a ver com seus trabalhos. Se perguntarem, e se ele estiver bem-humorado o suficiente para responder, vai dizer que caiu de bicicleta. As pessoas costumam ficar satisfeitas com meias-explicações, e ele deixa por isso mesmo. A cicatriz maior fica no braço (esquerdo ou direito?, esqueci, nesse frio ele está de jaqueta, não dá pra ver) vai do pulso até um pouco depois do cotovelo. Ele não gosta dessa cicatriz, atraí perguntas e não lhe dá orgulho nenhum. A cicatriz que tem na testa, escondida pela franja mal-penteada, ninguém comenta. É uma coisa que as pessoas têm de achar que cicatriz em testa é cicatriz de infância, todo mundo tem uma.

Ele não sabe (nem nunca aprendeu) andar de bicicleta.

Gil vive sozinho (como qualquer outro sociopata viveria) na zona oeste de São Paulo. Cresceu na zona norte, e odeia aquele pedaço da cidade. Passou do rio é lixo, ele dizia, quando ainda se importava. A casa dele é pequena e térrea. Tem um Golf novo na garagem, mas Gil não gosta de dirigir. E afinal, mora tão perto do metrô Vila Madalena, que é idiota perder tempo tirando carro da garagem.

Já ouviu histórias de profissionais como ele serem pegos pela polícia por causa de algum acidente de trânsito. E Gil sempre foi um sujeito precavido.

Pra que tanto dinheiro?, um dos contratantes já disse, quando Gil recusou a oferta inicial, muito baixa. O serviço é cheio de riscos, e os riscos são altos. Um piloto de avião e um cirurgião cardiovascular ganham bastante para realizar um trabalho com muitos riscos. E ele era quase como eles. Com a diferença básica que, enquanto os dois primeiros davam o melhor de si para manter os outros vivos, Gil fazia o contrário. Se o coração ainda bate, o serviço não foi terminado.

E o Gil sempre termina o que começa.

(p.s.: O homem na imagem não é o Gil, e sim alguém vagamente parecido com ele. Ninguém tira uma foto dele desde os tempos de colégio.)

Olivia
02:09
domingo, 18/04/2004

O Baixista

Era a terceira noite do congresso. No jantar, a banda de rock de Carlinhos Toledo estava se apresentando, tocando muito Beatles e outros rocks da década de setenta. Pessoas tão sérias, de terno e gravata, se divertindo e agindo como adolescentes é sempre uma coisa engraçada de se ver. Ainda que, de certa forma, executivos bem-vestidos e sérios bebendo e falando besteira não é mais novidade pra ninguém.

Deu o intervalo, aplausos. A banda desceu do palco para ser cumprimentada pelos colegas e amigos congressistas e esposas e maridos, e mesmo alguns dos garçons queriam falar qualquer bobagem. José Felipe Mazzili, o baixista, aproveitou a pausa para fumar do lado de fora. Avisou Carlinhos que não começassem nada sem ele.

E saiu.

Não voltou mais. Seu corpo foi encontrado dali meia hora, num canto mais escuro do estacionamento, com três facadas no estômago e um tiro no meio da testa. O cigarro, jogado ao lado do corpo, mal fora aceso. Carlinhos nunca admitiria, mas a primeira coisa que pensou, quando viu de longe o corpo do amigo, foi: "merda, Mazzili, você sabe como é difícil achar um baixista que preste!".

***

Tive essa idéia num jantar do congresso. Não tem mais nada, só isso mesmo. Resolvi escrever aqui, porque gostei da idéia. Nem vou fazer nada com ela, a princípio.

Olivia
23:44
segunda-feira, 05/04/2004

Idéias

Todas as idéias boas vêm quando eu não tenho como registrá-las. Ou, ainda, tenho, mas as idéias não vêm prontas o suficiente para serem passadas para um pedaço de papel, e logo acaba o tempo para se ficar a toa pensando nelas, e eu acabo deixando pra lá.

Ou ainda, uma terceira opção, eu começo a passar para o papel, mas a fonte seca de repente, e a idéia perde completamente o sentido. Perde o ponto. Eu esqueço o que, ou melhor, porquê, eu estava falando (escrevendo) aquilo tudo.

Ontem eu comecei a escrever alguma coisa sobre o ato de matar. Mas aí logo pensei que se escrevesse daquele jeito, iam querer me levar pra polícia. Então deixar o texto nas mãos de Gil Tradsky. Mas o Gil é teimoso e desobediente. Ele começou a escrever e logo desistiu. Achou o texto besta e sem propósito. E pra falar bem a verdade, eu acabei não gostando do rumo pro qual ele estava levando o texto. Eu queria escrever sobre uma frase que li num livro na Livraria Cultura. "Matar é fácil. Difícil é entender por que se mata." Ou alguma coisa assim. O livro se chamava O Dia em que Matei meu Pai.

Ah, sei lá.

Matar é fácil. Assim como qualquer outra coisa que é considerada errada, não fossem as leis e repressões, as pessoas se matariam aos montes. Porque as pessoas fazem coisas sem pensar, e o maior problema e dificuldade quando se trata de tirar a vida de um indivíduo não é o ato em si. E sim o motivo. Por causa das leis, as pessoas só matam com motivos. Sem elas, não seriam necessários.

E esse sempre foi meu problema para escrever dissertações. Eu tinha partes do texto na cabeça, mas não tinha um ponto a provar, nem nunca tive nada de importante para dizer. Por isso, acho, cheguei a conclusão que o melhor que podia fazer era contar histórias, apenas. E cada um que tire alguma coisa delas.

Olivia
16:00
sábado, 04/01/2003

Ontem

Ontem de noite depois de desligar o computador eu escrevi uns trechos da historia que eu falei. Não sei, eu cheguei a conclusão que os melhores personagens são adolescentes e crianças. Tão dificil fazer personagem adulto esses dias... Sempre foi. Adolescente é coisa simples. Sentimento a flor da pele, pode exagerar, fazer drama. Adulto não. Sempre tão sensato, concreto. Por isso pra personagem adulto eu gosto dos bem crueis, frios. Porque aí tem ação. Pelo menos ação. E acrescentando um passado sinistro, fica até que interessante. Mas ainda assim os adolescentes são os personagens mais sinceros. Reclamam menos com voce na hora de escrever.

Fui no clube! Vou fazer aikido em fevereiro, quando o professor voltar das ferias. Engraçado. Ainda tem as mesmas pessoas andando por lá. O mesmo segurança armário barrigudo (alias, os mesmos). O mesmo cara esquisitinho da secretaria. Os mesmos velhos bebendo na lanchonete do departamento de tênis. O mesmo piso irregular. O mesmo porteiro. O mesmo guri que fica na porta do restaurante. Incrivel. Parece até que eu nem cresci. Fora que o caminho pro tênis ficou estranhamente mais estreito.

Olivia
05:12
 

e que mais

Este é um blog verbeat, e lá eu sou amiga do rei.

também escevo

   folhetim // um romance policial folhetinesco ou uma experiência quase literária, que dei de inventar. Capítulo novo toda semana.
  
atmosfera // o que o vento traz.
   über geek // um blog sobre tecnologia, software e internet. Para geeks e não-tão-geeks. Windows, Linux e Mac. Techloucos e desencontrados.

eu estou por aí

    orkut /
    facebook /
    Pownce /
    del.icio.us /
    StumbleUpon /
    last.fm /
    YouTube /

do blog

    myBlogLog /
    technorati /
    BlogBlogs /

e música!

o que acontece

das fotos

www.flickr.com
e mais:
minhas fotos
fotos da Linda, a gata

links // del.icio.us

estão dizendo

  » tiagón em de um brainstorm solo que fiz dia desses: eu vou ler. eu vou fazer o projeto gráfi (...)
  » tiagón em De tramas prontas: não consigo me imaginar (trabalhando) nu (...)
  » Adriano ! em De tramas prontas: Na verdade a história já está prota na c (...)
  » Milton Ribeiro em De tramas prontas: E daí? E nosso negócio? Não recebi nada (...)
  » MarcosVP em De tramas prontas: Comigo acontecem umas coisas estranhas. (...)
  » Nelson Moraes em De personagens favoritos: A melhor maneira de matar insetos e pers (...)
  » Olivia em De personagens favoritos: quem que brilha no escuro? (...)
  » Adriano ploft em De personagens favoritos: Esse Deco tem algo a ver com a cabeça qu (...)
  » Olivia em Crash: Oh boy. (...)
  » Leila em Crash: Olivia, agora a turma vai cair de pressã (...)
  » Gejfin em Crash: uh! (...)
  » Juju em Crash: tá sumidinha... pelo jeito a cabecinha t (...)
  » MarcosVP em Crash: Beibe, passa lá no Pirão agora. A bola (...)
  » Viva em Crash: Quero morrer sua amiga, tá? (...)
  » roger em Homicídios, a série: Sonhar com Delegado? Pelamordedeus!!! Pr (...)
  » Harry em Homicídios, a série: Cadê os Playmobil? (...)
  » Juju em Homicídios, a série: qq dia te conto um dos meus sonhos.... s (...)
  » MarcosVP em Homicídios, a série: Eu tenho tido sonhos estranhíssimos... s (...)
  » Cláudio Costa em Um personagem que deu certo demais: Pois é! Aprendi que até o Eu de cada um (...)
  » Bruno em Um personagem que deu certo demais: Ele volta? (...)
  » tiagón em Um personagem que deu certo demais: Gostei da Lu. Ótima personagem (...)
  » lima em Um personagem que deu certo demais: Uau... Shame on me.. Porque não fiz (a (...)
  » david em Um personagem que deu certo demais: Brava Olívia, bravo! (...)
  » Igor em Um personagem que deu certo demais: Isto é inacreditível. E eu até tentei c (...)
  »  free credit reports credit check no fax em De uma casa abandonada em algum lugar da Itália: characteristics!faced contester portray (...)
  » Abner em De uma casa abandonada em algum lugar da Itália: ahhh, comecei a presenciar isto só agora (...)
  » tiagón em De uma casa abandonada em algum lugar da Itália: E como poderia ser diferente? Personagen (...)
  » Lala´s em De uma casa abandonada em algum lugar da Itália: E como poderia ser diferente, né Olivia? (...)
  » tiagón em Da minha crise literária: ah. pequena frase que tem se repetido fr (...)
  » tiagón em Da minha crise literária: eu tenho vários parados, também. mas eu (...)
  » luiz em Da minha crise literária: aquilo é um porco? achei q era um sapo s (...)
  » Gigi, a Bandeja Bookcrosser em Da minha crise literária: Idéia para comunidade no Orkut: "Eu tamb (...)
  » Turco em Da minha crise literária: Eu li um texto q vc escreveu sobre suici (...)
  »  pills em Andrézinho, Andy Pan: cunnilingus haunt brownies cloudier rel (...)
  »  credit check uk credit rating score em Andrézinho, Andy Pan: inset:fancier pickers militant:dynamo o (...)
  » genio alves em Andrézinho, Andy Pan: desculpa, minha linda... faltou um "a" n (...)
  » genio alves em Andrézinho, Andy Pan: tu erraste, guri... jah li e achei tril (...)
  » Olivia em Andrézinho, Andy Pan: Bah, ninguém vai ler isso aqui. (...)
  » Olivia em Iuri Kieser: Ele é parecido com o que eu imaginava, t (...)
  » rinogas em Iuri Kieser: assim ele ficou mais hominho. (...)
  » Roger em Iuri Kieser: trinta é uma idade legal... (...)
  » Walkbot em Iuri Kieser: Ele é bem diferente do que imaginava. Pe (...)
  » Abner em Iuri Kieser: Ele é parecido com o que eu imaginava. (...)
  » tiagón em Iuri Kieser: Olivia, o que se pode esperar de um ser (...)
  » Renato K. em Iuri Kieser: Ah, Iuri, Iuri. Eu sempre disse que essa (...)
  » pedro em De um b invertido: Também, não há mais o quê dizer sobre el (...)
  » David em De um b invertido: Ou com um d mudo no final... Será que e (...)
  » Furão, cacofóbicos em Esse não é um post genial: Não! Tenho certeza que sei de qual Pedro (...)
  » Gejfin em Esse não é um post genial: Não pode dizer a quarta! Não pode! Senão (...)
  » Olivia em Esse não é um post genial: Ah, alguem nao pagou a conta telefonica. (...)
  » Olivia em Esse não é um post genial: Guh, eu nao gosto de lan houses com o sp (...)
  » Olivia em Esse não é um post genial: Furão, nao se preocupe, nao é daquele Pe (...)
  » Furão, strip bocha? em Esse não é um post genial: Genial! Não, quer dizer! Não genial! Não (...)
  » rinogas em Esse não é um post genial: rs... só não diga que foi o sr rinogas, (...)
  » Abner em Esse não é um post genial: O Sr. Rinogas tem umas idéias bem boas. (...)
  » Tory em Esse não é um post genial: Não, não o exploda! =~ coitadinho, vc é (...)
  » jubs! em Deixa eu me interromper: olívia, sua vermelha safada! me manda o (...)
  » Jr. em Deixa eu me interromper: O Abner elogiou mesmo o seu livro... olh (...)
  » O Gato de Botas e pena vermelha no chapéu em Deixa eu me interromper: Terminei Lua Nova. Me aguarde. *bursts i (...)
  » Abner em Deixa eu me interromper: Tô com o caso até agora na cabeça. =] (...)
  » Olivia em Deixa eu me interromper: Ah, e eu ia responder esse email e o ema (...)
  » David em Deixa eu me interromper: Só leio se me mandar um desses. (...)
  » Abner em De alpinistas, gays e minorias em geral: Um amigo gay que dá aula na faculdade de (...)
  » Ceres em De alpinistas, gays e minorias em geral: Coloca um japonês, porque japonês *nunca (...)
  » André em De alpinistas, gays e minorias em geral: Negro, gay, judeu e cego. Quer mais?? Fa (...)
  » David em De alpinistas, gays e minorias em geral: Céus, um gay etíope (pra ser negro e jud (...)
  » tiagón em De alpinistas, gays e minorias em geral: e os índios? e os índios? não pode esque (...)
  » André em Alfaces e amigos imaginários: Meu! Agora bateu uma dúvida daquelas... (...)
  » Olivia em Alfaces e amigos imaginários: Bah, vou continuar revisando meu Duas Lu (...)
  » Olivia em Alfaces e amigos imaginários: Será que alguém lê as respostas que eu d (...)
  » Olivia em Alfaces e amigos imaginários: Vitor, meus personagens tendem a achar q (...)
  » Olivia em Alfaces e amigos imaginários: Mas eu já falei oi pra todo mundo? Ahn, (...)
  » Olivia em Alfaces e amigos imaginários: Igor, os personagens das historias polic (...)
  » Olivia em Alfaces