terça-feira, 14/08/2007

da ação

eu não sei escrever ação, eu acho tudo sempre muito tosco. porque toda vez que escrevo ação em meus textos, e os personagens fazendo coisas e com ou sem diálogos mas sempre em frente sem muito pensar. a ação. que ele fez isso ou fez aquilo e então andou e pulou e seguiu. bah, esses personagens que não pensam. vai me dando um nervoso, uma vontade de meter um momento de reflexão no lugar mais inadequado possível. e me resta dar uma de Raymond Chandler (sem o charme do Marlowe porque os anos 40 se foram) e tentar qualquer comentário engraçadinho sobre o que se passa e o que há.

quarta-feira, 12/04/2006

Porto do Desespero

hunf.

         (aquela coisa que começou e está rodando por aí e sobrou para mim. e minha poddle menina está deitadinha usando Edmund Wilson de travesseiro, porque no meu quarto todos os animais usam os livros de travesseiro e principalmente os livros da biblioteca da faculdade, não sei bem por que, mas talvez o cheirinho de biblioteca lhes seja mighty agradável.)

Capítulo I: A Carne (Ana Lúcia)
Capítulo II: O Serviço (Leila Couceiro)
Capítulo III: O Noivado (Serbon)
Capítulo IV: A Encruzilhada (Vanessa)
Capítulo V: A Malvada (Alex Castro)
Capítulo VI: Os Paquistaneses (Biajoni)
Capítulo VII: A Virgem Celestial (Almirante Nélson Moraes)
Capítulo VIII: As Contas (Marcos VP)


A Notícia

- "Sobrou pra vocês".

Resmungava, repetindo-se, a cada meia dúzia de passos no corredor em direção ao quarto. Mariana abstraía. Roberto carregava a mochila e uma pasta de couro; única bagagem.

- Paquistaneses.
- Roberto.
- Paquistaneses. Isso é ridículo.
- Roberto, você está com as chaves.

Haviam parado de andar. Roberto olhou a porta. Quarto 216. Ele não era supersticioso, mas sempre se perguntava se os números dos quartos onde ficavam tinham algum significado. Abriu a porta e entraram. Roberto jogou a mochila e a maleta sobre a cama e Mariana foi procurar o controle da televisão.

- Televisão agora, meu amor? Vamos tomar um banho.
- Quieto.

Ela ligou a televisão e procurou um canal onde sabia que teria notícias.

- Essa sua obsessão com o telejornal vai começar a me irritar.

Estava passando um comercial de shampoo. Roberto tirou a camisa e resmungou que ia tomar banho sozinho.

- São três da manhã, Mari, pelo amor de Deus!- gritou, antes de entrar no banheiro.

Mariana continuou sentada na beirada da cama. Quando terminou o comercial, entrou uma reprise de um programa de debates. Mudou o canal. Nada. Hábito estúpido; o dedo não descansava e ela não ia parar em outro canal se não encontrasse algo interessante. Em certo momento ouviu uma voz grave de apresentador de telejornal dizer algo que lhe soou como "ministro". Voltou para o canal e deixou o controle remoto de lado.

Era isso. Morto. Assassinado. A polícia está iniciando as investigações. Algum entrevistado estava contando que o corpo fora encontrado pelo assistente do ministro da economia. Depois alguém na polícia dizendo que encontraram certas pistas na mesa no ministro que podiam lhes servir. Um serviço limpo. Segundo o assistente, nada fora do lugar.

Roberto desligou o chuveiro e Mariana já não prestava mais atenção no que era dito. Estava em transe.

- Merda- murmurou.

Roberto saiu do banheiro com a toalha enrolada na cintura quando Mariana estava atirando o controle remoto contra a televisão.

- Eu sabia que isso não era saudável- ele disse.
- Merda.
- O que foi?
- A gente precisa sair daqui.
- O que aconteceu, Mari?
- Você faz pergunta demais. Última vez que fui te ouvir você inventou um serviço que colocou a gente atrás de uns paquistaneses idiotas.
- Porra.

Ele olhou para a televisão. Ainda falavam do assassinato do ministro.

- Que merda é essa e por que diabos a gente tem que sair? Se a gente não fizer essa dos paquistaneses nossa situação vai piorar. Eu sei que...
- Os paquistaneses que se explodam.

O telefone celular de Roberto tocou. Música clássica. Dizia que era para acalmar; ninguém ligava para lhe dar boas notícias. Atendeu. Mariana não estava prestando atenção na conversa. Queria entender o que a morte do ministro significava. E se isso tinha alguma coisa a ver com ela. Ou com o que ela sabia. Devia ser algum dos dois. E de qualquer forma, sua posição não era das melhores.

Roberto desligou o telefone com uma risadinha.

- Você é um perigo com as palavras.
- O que foi?
- Parece que os paquistaneses se explodiram.
- Mortos?
- Um deles. Serviço a menos.
- Era o Zeca?
- Isso. O paquistanês está no hospital. Zeca falou que se a gente não fizer essa vai ser incompetência demais.
- O que você disse?
- Suck it.

Talvez se preocupar depois. Ela não estava sozinha e o ministro era mesmo um tipo meio incompetente. Inevitável que acabasse com três tiros na testa. Ela era mais esperta que isso.


[Marmotinha, é contigo.]

domingo, 31/07/2005

Sofás, Baudelaire e narrativas

E uma vez um homem botou fogo em seu sofá, porque leu em um livro que os sofás vermelhos daquele tecido de nome complicado queimavam com uma chama bonita, e sua vida andava por demais feia. Sonhou com a visão por noites seguidas, e achou que havia valido a pena.

Mas eu, veja, eu, eu continuo sobre a parte mais segura do telhado, com um livro velho e sem capa nas mãos, lendo e relendo histórias anônimas sobre homens voadores e professores de francês com chapéus coco e edições antigas de Baudelaire embaixo do braço andando apressados em ruas estreitas, tal como é a vida no mundo fantástico dos livros velhos, sem capa e sem autor.

***

É um novo momento. Minha vida literária acaba de ser dividida em dois. Porque, já disse Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e um outro aí que me esqueci, a vida é muito pequena para tudo nesse mundo, e é sempre mais recomendável se viver mais de uma vida para acomodar as coisas.

Depois explico, se depois resolver explicar.

Agora vou ler Giorgio Manganelli.

sexta-feira, 20/05/2005

O melhor lugar no poste de luz

As pombas lutavam pelo melhor lugar no poste de luz. O melhor lugar no poste de luz era ali bem em cima da luz, na cabeça do encaixe da luz, onde era possível olhar toda a rua sem nenhuma outra pomba gorda na frente, pelo melhor ângulo, e onde ainda se podia fazer de gostosa pras pombas que ficavam na haste do poste de luz sem ter muito espaço pra mexer as perninhas.

quinta-feira, 27/01/2005

Meios

Era engraçado pensar nas coisas como eram antes. Nas coisas como foram, por aquela semana ou aquelas duas semanas. Porque é tudo uma questão de ponto de vista. O que confundia era pensar que ele havia sido o primeiro a falar aquelas três palavras que ela tinha tanto medo, ele fora o primeiro a acreditar um pouco mais naquilo tudo. Ou ao menos ele fora o primeiro a demonstrar. E ainda assim, lembrando, é como se ele estivesse achando que ela era mesmo meio doida, no começo. E como se no começo fosse ela disposta mesmo a acreditar naquela história. Como se ele já estivesse preparado a esquecer tudo e voltar à vida que tinha antes, o que ela sabia que nunca conseguiria fazer, realmente. Por que ele podia, e ela não?

O que havia realmente acontecido? Como as coisas haviam realmente acontecido?

E antes ela achava que queria descobrir, mas aos poucos começou a achar que era melhor ficar sem saber. É tão difícil aceitar os próprios erros, às vezes. Será que ela tinha sido mesmo tão errada, se afinal as coisas todas se ajeitaram do jeito que acabariam se ajeitando, e se afinal a história não poderia ter tido um outro jeito de acontecer?

domingo, 16/01/2005

Verdes

Parece uma pintura!, era tudo que ela conseguia pensar enquanto via a paisagem que passava na janela e procurava palavras para descrever aquilo depois. Porque tudo era tão surreal, e o verde era tão verde, e eram tantos verdes! Ela nunca imaginou que um cenário tão monocromático pudesse ser tão vivo, tão colorido! Ela nunca imaginou que existissem tantos verdes. — A paleta de Deus deve ter mais cores, pensou, imaginando aqueles estojos de 120 cores da Caran d'Ache e os verdes todos se multiplicando em entre-tons.

quinta-feira, 28/10/2004

Talvez

Luzes coloridas
E a água caindo
São tantos arco-íris
Talvez...

Um pássaro azulado
Repousa no telhado do farol
E observa
Talvez...

Sinto que essa não é minha realidade
Dias tão comuns; dias cinzas
E agora estou aqui, no meio de...
Talvez...

Talvez...
Talvez seja apenas um sonho.

terça-feira, 24/08/2004

Resposta

do dia 10/08*

Tudo era óbvio demais.

Tudo, menos a sua cabeça.

Ela deixou que alguns detalhes outros fossem um pouco mais esquecidos, só para guardar aquele momento, antes de tudo.

"E essa vontade de... De- de... De- de- de... De..."

Ele gaguejou e ela sentiu o corpo todo perdendo o peso e desaparecendo no espaço, e pensou que se estivesse em pé talvez desabaria por falta de força nas pernas. Os braços pararam de obedecer, bobos, bobos, tombados sobre a mesa. Pensou em tantas coisas e disse palavras que já não faziam sentido, enquanto ele se enrolava e gaguejava com outras frases que ela já não prestava mais atenção.

Quando deu por si, o mundo não existia mais.

Talvez ele esperasse menos, de alguém que ele achava - e ela confirmava - que conhecia tão bem. "Acho que você é a pessoa que mais me conhece." Ou na verdade ela omitira o 'acho', e lhe dera uma certeza. E ainda assim ele surpreendeu-se. Na verdade ele sabia até mais do que ela pensava, mas a razão nem sempre tem a palavra final pra certas coisas. Elas nunca são o que elas parecem ser, e cada vez ficavam menos óbvias.

É que quando as coisas são novas elas vêm de uma vez só, e ela não sabia o que fazer com tanta informação, tanto sentimento que muitas vezes teve certeza que nunca mais queria sentir.

"Te odeio."

"Vou tomar isso com um 'gosto muito de você.'"

*original postado por ele no dia 14/08, sem cortes. Mas o texto é meu mesmo.

Olivia
13:49
 

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