segunda-feira, 07/11/2005

Sexo Anal

não é o que você está pensando

Trata-se do livro do nosso querido e agora além de querido também grávido, Luiz Biajoni.

      Eu ia postar isso hoje.

         Ahn, estou postando isso hoje, mas, bem. Ia postar mais cedo. Mas vovó me levou no cinema.

Enfim. Eu li. E serei chata, irremediavelmente chata. Tão chata que é capaz de você desistir desse post no meio e ficar com vontade de ler o livro do Bia só pra poder dizer que tudo que eu disse aqui é uma grande bobagem.

Mas eu faço o que eu sei fazer (ser chata).

Não tem como negar que o livro é bom. Comecei a ler à uma da manhã para ver se pegava no sono. Parei por alguns minutos porque estava pegando fogo num carro lá na esquina e fiquei espiando da janela. Depois dessa, ia ser mais difícil dormir. Continuei lendo. Fui parar de ler quando cheguei ao fim do livro, lá pelas cinco e meia da manhã. Não podia parar antes de chegar no fim (tem coisas que não é bom parar no meio, né).

A idéia, a trama, os personagens, a linguagem; impecável. Mas o livro ainda não está pronto. Ainda não está pronto para ser mandado para uma editora e publicado, porque falta nele um cuidado com o texto que vai muito além da questão da linguagem coloquial, uso de gírias ou o estilo do Bia. Eu diria que faltam algumas revisões. Mas talvez dizer isso seja pouco.

O Evandro Affonso Ferreira vez ou outra reclama que eu coloco um palavrão em algum texto meu e diz que isso acaba com a literatura. Tudo bem, é um ponto de vista mais exagerado. Não é o meu. Aí ele me mostra João Antonio, para dizer que é possível usar gírias e ser malandro e ainda assim escrever bem. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. E isso é estilo.

Certo, ótimo. Estamos de acordo quanto a isso?

O Bia me falou que seu livro estaria mais próximo do Nelson Rodrigues e o Plinio Marcos (porque o João Antonio é carioca demais). Aí foi lá a Olivia então ler esses dois um pouquinho pra saber melhor do que ela está falando.

E continuei achando que o livro ainda não está pronto. Faltam revisões.

O que mais me incomodou foi o uso das vírgulas. Pareceu que faltam alguns conectivos. Em alguns momentos vão sendo enumeradas informações, jogadas uma atrás da outra. Como isso acontece sempre, começa a parecer um eco.

   "Ele estava totalmente perdido, a cabeça rodava, não sabia mais o que esperar da história."

   "Fez a imagem da namorada de jaleco azul sendo enrabada pelo médico de camisa branca, a calça arreada."

   "O pessoal do escritório o conhecia, sabia que tinha algo errado, alguns tentaram mesmo se aproximar e ajudar."

   "Deixava o trabalho, ia pro apê, bebia um pouco, via TV e não tinha nem tesão pra se masturbar."

   "O pai deu tchau na porta, um beijo na menina, e sentou para beber mais com Luiz."

   "Sentou no sofá, olhou para o relógio."

   "Ana fez um gesto de stop, mão espalmada."

   "O Mário olhava com aquele olhar escroto dele, bolsas embaixo dos olhos, sobrancelhas desgrenhadas, um louco!"

Vá, chega. Só para dar um exemplo. Isso acontece muitas vezes. Na minha opinião, enfraquece o texto. Independente de ser uma coisa coloquial ou o que seja. E com o meu parco conhecimento do mundo editorial, esse tipo de coisa acaba sendo um ponto a menos pro Bia na hora de botar o livro à prova.

Falando de ecos, uma revisão também poderia ser útil para se livrar de certas repetições. Não tenho exemplos aqui, mas foi uma sensação que tive enquanto eu lia.

Sei que o livro não tem pretensões literárias. Não é esse o problema. Não estou tentando fazer o livro ficar com pretensões literárias. Do jeito que está ele agrada sim, muita gente. Mas o objetivo não é colocar nas mãos de uma editora?

Além disso, algumas vezes me peguei fazendo careta para alguns advérbios. Em muitos momentos eles são completamente desnecessários. (Assim como eu poderia agora ter dito "em muitos momentos eles são desnecessários".) E em outros eles são cliches. Uma revisão pra eliminar cliches e advérbios desnecessários poderia ser útil. Afinal, se o objetivo é um texto simples e coloquial e sem pretensões literárias, por que ficar enfeitando com o que é prescindível? (Por que dizer "rápida como um raio"?)

Já os adjetivos não chegam a ser um problema. Mas assim como no caso dos tipos de advérbios, algumas caracterizações me parecem bobas, por serem um tipo de cliche literário.

   "só lhe vinham pequenos fragmentos": um fragmento de idéia é, sempre será, pequeno. O ajetivo é redundância.

Só um exemplo pra ilustrar a minha idéia.

(E uma coisinha mais insignificante, por que o exagero do uso da palavra "ambos(as)"? Na maioria das vezes elas são bem inúteis. Principalmente quando em "ambos os dois".)

Isso tudo são coisinhas. Coisinhas que podiam ser resolvidas com uma revisão, sem mudar em nada o estilo ou a trama ou qualquer tipo de caracterização dos personagens e dos cenários, nem mesmo o efeito que o Bia pretende com esse livro - uma novela marrom. Acho isso possível e muito válido. Porque o livro é ótimo e tem futuro. Você fica próximo dos personagens. Sente com eles, por eles. E isso por causa do uso dos diálogos: a gente aprende sobre os personagens conforme eles vão se mostrando pros outros, como num filme mesmo. Sem psicologismos ou literatices. Como eu disse ali no começo, não pude deixar de ler até que tivesse terminado. Isso é algo a ser considerado, ainda mais que eu sou chata e nunca gosto de nada.

Mas são por esses motivos - principalmente - que acho que o livro ainda não está pronto. E a única pessoa que pode mesmo fazer essa revisão é o Bia. Justamente para não sair do trilho, não perder de vista o que ele pretende (ou o que não pretende) com o Sexo Anal.

Olivia
21:55 || Literatura
Comentários

Ah, então é assim que a gente tem que fazer quando lê um livro seu.

É difícil ser tão elucidativo.

Se um dia eu ficar completamente louco e resolver escrever um livro, te mando para revisares, hehehe bjs

Que título é esse? Cadê a T.F.P. numa hora dessas?

Muito interessante. Se um dia eu tiver coragem eu te mando algum dos meus livros ruins pra você ler. No momento, só escrevo roteiros e a linguagem ou o estilo é o menos importante, vai tudo virar filme...


Eu acabei de comentar sobre o livro, aliás sobre alguns fragmentos dele. E comprometi-me comprá-lo e ler para depois fazer o meu juízo.

Eu queria te mandar algo meu para que você lesse e depois me desse uma resposta. E pedir-te que visites o meu blogger, vou ficar muito agradecido.

QUE SEJA ASSIM

Às vezes penso na vida que eu teria,
se outra vida escolhida me fosse dada,
quem sabe se coragem me faltaria,
para andar de novo pela trilha errada.

Quem sabe se o destino em pedraria,
de bondade fosse agora transformado,
quem sabe se obstinação encontraria,
para evitar os malogros, desastrados.

Podia ser, e a isso nem eu respondo,
no medo que aos olhos me torpeda,
o angustiado, sem queixa, ou maldade.

Pois que em minha vida, nada se mude,
quero sonhar da sorte, ao golpe rude,
que se faça em mim, vida, tua vontade.
naeno:apanhados

um beijo

Naeno

Olivia, ainda não lí o Sexo Anal, mas concordo com algumas observações tuas quanto ao uso de vírgulas, por exemplo.
Eu também sofro desse mal. Quando escrevo não consigo evitar, como uma compulsão. Quero explicar, colocar algo a mais. E, pronto. Lá vêm as vírgulas. Depois quando vou ler começo a achar que eram desnecessárias, sobram mesmo.
O Biajoni, inteligente que é rapidinho vai incorporar estas dicas e logo o texto estará limpinho. Se os amigos não avisarem quem irá fazê-lo, o crítico do jornal que escreve resenhas por encomenda?
Grande abraço

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