terça-feira, 03/05/2005
Conto desafio - IV
E hoje é terça-feira, e é a vez do Ulisses descobrir o que aconteceu com o homem no quarto do hotel e coisa e tal. Sexta-feira tem mais, tem mais.
Parabéns pra você, nessa data querida.
[Por Ulisses]
O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.
Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.
Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.
Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela.
Os passos aproximavam-se com a mesma velocidade que ele empregava no arrumar do quarto, mas com um cuidado um pouco maior. Mal o silêncio estatelara-se no asfalto, sendo em seguida atropelado por um caminhão de médio porte transportando galinhas caipiras, os tocs-tocs já eram ouvidos por ele enquanto tratava de exterminar todas aquelas sombras, empurrando suas coisas para debaixo da cama. Levantou-se rápido e abotoou a camisa encardida, tocs-tocs, Já vai!, mãos ajeitando rapidamente o possível dos cabelos, dedos removendo remelas, tocs-tocs, tocs-tocs, to... ele abre a porta.
Há poucos metros dali, - ou muitos, dependendo do ponto de vista – ela comprava um bolo. Tentou fazer antes, mas o expediente havia sido puxado, segundo suas próprias palavras ao padeiro que afirmava ter tido ela sorte de encontrar a padaria aberta. Ela sorriu como fazia tantas outras vezes, mesmo sem vontade, e pagou. Era seu aniversário e decerto ficaria feliz em ser lembrado. Claro que sim. Embrulhou a coisa toda meio chocolate meio morango e saiu da padaria pisando contente, com seu semblante iluminado contrastando com a noite fria na periferia da metrópole. No meio do caminho lembrou que ele hospedara-se ao lado daquele lugar horrível - um puteiro, deixem-me dizer. – e pensou mesmo que talvez ele não merecesse, depois de tudo... além do mais, haviam as putas e as náuseas que sentia com aquele néon verde... Embora houvesse mesmo cogitado desistir não interrompeu os movimentos que a conduziam. Seguiu e logo esqueceu a idéia.
Ninguém. Não há ninguém na porta. Olha para direita, corredor vazio. Olha para esquerda e vê os dois moleques filhosdumaputa correndo e rindo alto - Isso era um fato muito comum e corriqueiro no hotel Lençóis, local onde há mais de um mês estava hospedado o triste e pobre inquilino - Tinha que ser preto! Gritou antes de entrar e fechar a porta lentamente, cabisbaixo. Três passos e já está novamente na cama, na mesma posição de outrora. Só o silêncio não voltou, o movimento entre as prostitutas aumentara.
Estava há cinqüenta metros do velho prédio quando lembrou: era do outro lado. Avistar a putarada ajudou um bocado a memória. Durante a travessia, um vento forte abriu o embrulho do bolo e ela, proferindo um caramba, pôs-se a ajeitar o papel numa cena patética. Não viu o Ford Fiesta prata. Foi atropelada, morreu na hora.
O barulho da freada não lhe causou nenhum efeito. Só depois de alguns segundos que levantou e foi até a janela, ver o que acontecera. Um acidente. Viu o aglomerado de pessoas e pensou que a solidão é uma coisa estranha mesmo. Uma porção de idéias foram denunciadas por seus olhos e seu sorriso que indicavam um resquício de esperança. Pegou seu casaco velho e desceu rapidamente as escadas. Na saída do prédio ouviu alguns comentários sobre de quem era a culpa no acidente, algumas putas chorando... Atravessou rapidamente a rua e viu sangue no asfalto enquanto enfiava a mão no bolso direito para pegar o cartão telefônico com a imagem publicitária de algum filme americano. Encontrou o telefone desocupado e discou logo o número. Caixa postal. Tentou novamente. Caixa postal. Caixa postal. Relógio: 23:48h. Ela não vem, concluiu. Ligou de novo e deixou o recado: Filha da puta. Voltou para o apartamento levando uma puta bem gostosa e loira, bem branquinha mesmo, de presente.
A idéia é tão boa que já copiei. Vi lá no Rinogás, que vocÊ indicou dias atrás e já convidei uma turma, há umas 2 ou 3 semanas, mas ninguém ainda me respondeu!
Minha moral anda por baixo! Hehehe!
Abraço!
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Olivia
não tem acento. Olivia não tem critérios. Olivia não existe. Olivia talvez
seja fruto da sua imaginação.