quinta-feira, 03/03/2005
Outros, parte 8
megaliga dos blogs amigos
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Sentia o rosto quente com o tapa forte que levei. E minhas pernas perderam as forças quando eu reconheci – ao menos acho que reconheci – a mulher me olhando feio.
Então percebi o resto da cena. Os dois carros parados, bloqueando a rua, as pessoas que começavam a se aglomerar em volta. Era coincidência demais para ser outra coisa. Era coincidência demais para ser mera coincidência. Abri a boca para falar, mas as palavras não saíram. Os dois homens me encaravam com a mesma cara de dúvida que eu devia estar fazendo.
A mulher não me pareceu entender por que diabos a culpa era dela. E ainda assim, eu tinha a impressão de que a conhecia. Enquanto a maior parte dos outros acontecimentos e fatos passados ainda me pareciam um pouco distorcidos e embaçados, o rosto da moça me era assustadoramente familiar.
Eu tinha uma arma na mão. Por que mesmo eu tinha uma arma na mão?
- Primo...
- Vai começar a me chamar de primo de novo, Alan?
- Olha o que você fez.
A mulher do corpete vermelho ainda olhava para mim. Que tipo de pessoa usava um corpete vermelho daqueles em plena luz do dia? E aquela calça, meu Deus do céu? Onde eu estava com a cabeça?
- Eu... Eu... Eu fiz?
- Não me espanta que aquela mula tenha amnésia. Eu mesma por pouco não fiquei feito ele. Você pensa que pode fazer isso com as pessoas? Ia gostar que alguém decidisse que você odeia chocolate pra depois logo em seguida resolver que é o que você mais gosta na vida? Hein?
- Mas a culpa não é minha...
- E agora?
Meu primo estava falando. Eu não conseguia mais me lembrar o nome dele. Na verdade, não conseguia mais me lembrar porque eu estava ali. Meu primo tinha me chamado de Alan? Meu nome não era Alan. Meu nome era...
- Como assim, e agora?- perguntei.
Porque, oras se eu mandava na vida deles, eu devia mesmo estar segura. De qualquer forma, poderia ficar mais segura ainda se o sujeito armado parecesse um pouco menos confuso. Marcelo e Alan. Não, Alan não era o nome dele. Ou era? Sampaio havia me deixado confusa.
Meu Deus, qual era mesmo o meu nome?
Estava tudo errado. Eu não queria ter escrito aquela história. Sampaio havia destruído minha idéia original. Eu já começava a me questionar se em algum momento existiu, de fato, uma história original. A mulher me olhava com impaciância. Marcelo me olhava com tédio. Alan me olhava com desespero. E eu estava sorrindo. Estava sorrindo porque havia descoberto o que estava acontecendo. Eu havia me lembrado porque Alan não era realmente Alan.
E me perguntava se aquelas pessoas em volta estavam olhando tanto para mim porque eu estaria falando sozinha. Um garotinho prestava atenção no carro baleado. Não. Não. Eles estavam ali. Meus personagens eram tão reais quanto eu. Meu Deus.
- Rápido, me leva daqui!- meu personagem principal gritou, guardando a arma na cintura e correndo até mim.
O que podia ser mais maluco do que aquilo? Eu me lembrava de acordar em um lugar desconhecido. Um homem me atirou por sobre o portão! Todo aquele sangue não havia deixado nenhuma cicatriz! Meu nome não era Alan, minha vida não era aquela.
A moça me agarrou pelo braço e saiu correndo. Sem que eu precisasse dizer mais nada. E ninguém veio atrás de nós. As pessoas apenas olhavam, confusas. Acho que ouvi o som de sirenes. Senti um peso a menos e percebi que a arma não estava mais enfiada na minha cintura.
- O que tá acontecendo?
Por que eu não me lembrei antes? Eu devia saber que aquela idéia de usar um personagem de outra história no meu romance policial não daria certo.
[Não perca o penúltimo capítulo, semana que vem no ô baDundA!]
Olivia diz, Olivia faz.
ah faz é? bom saber! ;)
Romances policiais, sempre os romances policiais.
boa, olivia. ainda não sei o que fazer, mas invocarei a força para estar comigo até na semana que vem.
Olivia
não tem acento. Olivia não tem critérios. Olivia não existe. Olivia talvez
seja fruto da sua imaginação.