quinta-feira, 21/10/2004

Garoa de fim de mundo

Era uma fazenda distante. Há muito que estava meio abandonada, com teias de aranha que se prendiam nos cantos e embaixo das mesas e cadeiras; a camada de pó sobre os pesados móveis. Um cenário típico, para fantasmas fazerem ranger o piso velho, e vampiros saírem de armários. Brisas confundidas com suspiros, e o som agonizante de gritos por ajuda.

Ao redor da casa, mais para o norte e para o leste, o terreno era cercado por uma densa floresta. E a oeste um carro de motor barulhento subia a estrada de terra que dava na garagem da fazenda. Lentamente, uma música monótona no toca-fitas parecia dar uma piscada de vida às plantas abandonadas na beira da estrada, que morriam logo em seguida, quando o carro seguia em frente.

Uma moça desceu, com o carro já parado na frente do casarão. Olhava tudo com olhos arregalados e surpresos. O tempo cinza já escurecia o dia antes da hora e alguns pingos de chuva começaram a cair. Garoa. A moça, bem vestida, franziu a testa e terminou de pegar suas coisas no porta-malas do veículo.

Estava ali para avaliar a casa que seria vendida. Os antigos donos nunca mais quiseram saber dela. Sentiu um arrepio lhe percorrendo a espinha conforme subia a escadaria para a entrada principal. Lugar sinistro aquele, enorme casa térrea colonial, aos moldes de um filme de terror. Entrou.

Os pingos da chuva compunham uma entranha e assustadora sinfonia, era o único ruído naquele lugar. A moça virou à direita, pelo corredor que levava aos quartos. Não havia luz. O clique-clique do inútil interruptor e a respiração pesada da jovem mal se faziam ouvidos. Fato. Enquanto a noite chegava lá fora, aquela sensação incômoda, presa na garganta da moça, era medo.

Quando pequena costumava deliciar-se com histórias de fantasmas e casas mal-assombradas, acreditava em todas. Tinha certeza que se aquelas coisas realmente não existissem ninguém se daria o trabalho de falar sobre elas. Mas tinha medo, sim, tinha medo, embora secretamente gostaria de algum dia ser a prova viva de que tudo aquilo existia. Para poder responder com um sorriso enigmático quando lhe perguntassem sobre o assunto. Colocou a mala pequena sobre uma das camas, odiando aquele cheiro de mofo que incomodava, e a falta de luz que mal deixava ver o estado do quarto. Ajeitou o agasalho e vagarosamente andou até a cozinha, achando lá algumas velas sobre o balcão, como se houvessem sido deixadas ali por muito tempo. Ou talvez não... Talvez estivessem ali, apenas esperando por ela.

As mãos foram rapidamente ao bolso da calça, tirando de lá um maço de cigarros, e um isqueiro laranja. Acendeu uma das velas, e a chama dançava, deixando todo o ambiente amarelado, com as sombras se mexendo. E aquele frio na espinha. Deveria ter saído de casa mais cedo, teria chegado durante o dia e poderia até voltar antes de escurecer. Mas teria que passar a noite, se não quisesse perder a viagem. A garoa, incansável, parecia que não ia parar nunca. O ruído de gotas no assoalho por alguns segundos pareciam ocultar vozes abafadas, risos incompreendidos, em meio ao som da chuva na grama e do vento uivando. A moça sentou-se num dos sofás da sala, com a vela do lado, os olhos bem abertos, tentando captar qualquer movimento suspeito nos cantos mais escuros.

Os minutos passaram; a noite havia chegado e ela ficou ali. Via, imaginava, achava que ouvia. A situação era um tanto propícia. Continuava alerta, esperando algo, não sabia bem o que, mas que a surpreenderia, talvez... Sentia como que se estivesse sendo observada, por olhos invisíveis a fitando pela janela e através dos móveis. Apertava a vista mas não via nada, desconfiada.

No assobio do vento teve até a impressão de ouvir uma voz a chamando; ou talvez fossem as folhas das árvores balançando, e o mato alto se sacudindo. Pensou ouvir passos na grama, abafados pela chuva. Encolheu-se e esperou. Com a mente vazia, respirava pouco, esperando o susto que viria na certa, inevitavelmente. E veio. Um som seco na janela, como se alguém a empurrasse, seguido pelo vento mais forte. A moça deu um pulo, encolheu-se mais. O vento, pensou, era apenas o vento. E logo ele ficou mais calmo, e a vela era a única que se agitava na cena toda.

E a chuva continuava, os mesmos sons, como se alguém estivesse aproximando-se infinitamente, sem nunca chegar. Angustiante. Não havia ninguém na janela, ou mesmo atrás da cortina. Só a moça, e a vela, e sua imaginação. Esperava. Tanto que a mente já divagava, ouvia sons e via sombras que não existiam. Enganava a si mesma alimentando um medo que já nem era medo, esperando o desconhecido e nem tanto o temendo, apenas preocupada com um possível susto. A moça não gostava de sustos. E seu medo, só era, não estava lá. Ela já ouvia — sem ouvir nada — tudo que poderia fazer algum som suspeito. Via sombras que não estavam lá e, sim, sabia que eram delírios de uma mente acuada. E adormeceu, encolhida. A vela já tinha acabado.

Não havia mais sombras, só a escuridão quase total, salva pela claridade fraca da noite sem estrelas. A garoa roçando o mato como um fantasma da noite, ao acaso. Fosse o silêncio total, outros ruídos, grilos, o vento... Não fosse a chuva, a água ilhando a moça num lugar sombrio, haveria estrelas no céu, talvez? E os sons da floresta, se fariam ouvidos?

A moça, dormindo; a casa e suas sombras sequer existiam, o que acontecia não aconteceu. O vento na janela assoviava para se fazer ouvido, mas não era mais. A moça dormia, não estava ali. Como sempre estivera sendo aquela casa abandonada, existindo sem existir. A grama encharcada, a lama e a água que entrava por debaixo da porta. Paravam no tempo, sem testemunhas, como há tanto já estavam acostumadas. Não existiam.

Era início de manhã quando a moça abriu os olhos; luz entrando pela janela que tinha perdido a persiana. Tudo era estático como sempre fora, o ar limpo, e o dia sem chuva. O céu estava branco, sem sol aparente, triste. Era a jovem, e a casa, e só. Dividia o ambiente com algumas aranhas.

Andou até o quarto, abrindo um pacote de torradas que levava na mala, e pegou uma caixinha de suco. Tudo tinha aquele aspecto da casa mal-assombrada que não se mostra nos filmes, com luz, e sem as sombras. Uma melancólica alegria, vida. Na moça, um certo ar de decepção, medo à toa desperdiçado. Ela era só o que era, medíocre; para ela não haveriam aparições. Pensou na noite anterior enquanto arrumava os papéis para avaliar a casa. Lembrava de sons e sombras. Os devaneios já estavam perdidos no outro lado da mente, e ela sabia que nada havia acontecido.

Mas é que essas coisas mal existem de verdade. Imaginação fértil, lendas, mitos. Todos os símbolos precisaram ser criados. Fruto da mente das pessoas, obras do inconsciente, um acaso bem direcionado, com objetivo claro. A garoa sem propósito, ou talvez não? Estava ali por um motivo? A moça... A moça acreditava demais. Que inconsciente era aquele, baú aberto? Que consciente podia-se enganar, se já esperava ser enganado?

Porque a gente tem essa mania de ver o que não está lá. E se não é por medo, é o exato contrário. Falta ter o que aprender. A mente... A mente humana é uma coisa engraçada.

Olivia
17:15 || Contos
Comentários

Tá, esse é longo, mas lê, vai; eu vou desaparecer esse fim de semana, tem tempo ;)

Eu ia postar uns poemas antigos, mas ninguem merece meus poemas. Nem eu mereço.

Alias, alguem reparou que o super Gejfin arrumou o problema dos comentários? Alias, arrumou todos os nossos problemas?

Hmmm... Hm. Acredite no que quiser.

Ah é, eu sempre tive um medo irracional do quintal da minha casa à noite ;P
talvez eu devesse dormir lá qualquer dia desses
um beijo
=*

É, e o rádio tocava músicas com ruídos. É que as fitas perderam o magnetismo conforme os anos passaram.

Comentei agora e não deu problema. Êba! Sou uma pessoa feliz, que consegue comentar no Forsit.

Vou comentar até os dedos fazerem bico.
Posta mais, posta mais...

"tell me more, tell me more..." (Grease).

odeio grease. toscao chato, num é toscao legal.

Que coisa, Abner, justo quando voce aparece assim todo empolgado pra comentar eu estava viajando!

Ah, mas a viagem foi boa!

E o Luiz só reclama ;)

Eu odeio quando sou atropelada por elefantes ao comentar no meu próprio blog. Mais alguém por aí já foi atropelado por elefantes ao comentar no meu blog?

Elefante é esse post...

 
 

e que mais

Este é um blog verbeat, e lá eu sou amiga do rei.

também escevo

   folhetim // um romance policial folhetinesco ou uma experiência quase literária, que dei de inventar. Capítulo novo toda semana.
  
atmosfera // o que o vento traz.
   über geek // um blog sobre tecnologia, software e internet. Para geeks e não-tão-geeks. Windows, Linux e Mac. Techloucos e desencontrados.

eu estou por aí

    orkut /
    facebook /
    Pownce /
    del.icio.us /
    StumbleUpon /
    last.fm /
    YouTube /

do blog

    myBlogLog /
    technorati /
    BlogBlogs /

e música!

o que acontece

das fotos

www.flickr.com
e mais:
minhas fotos
fotos da Linda, a gata

links // del.icio.us

estão dizendo

  » João Barreto em folhetinices: Boa entrevista ;) (...)
  » osrevni em domingo cinzento: Melhor do que eu, você certamente está. (...)
  » Gil em domingo cinzento: Prá mim é uma jaguatirica. Elas ainda vi (...)
  » André em adaptações: Oba! Adaptações, quem não adora adaptaçõ (...)
  » MarcosVP em pô, Bill: Ni muerto. (...)
  » vejo tudo e não morro em pô, Bill: mazá, e queres o quê? para desconfiar do (...)
  » Társis em viver, escrever: Olha, vou te ser sincero. Não sei se a n (...)
  » MarcosVP em viver, escrever: Você anda muito hermética. Com asinhas n (...)

arquivos

posts de antes

  » outras coisas (18/set)
  » porque não confio em gente que não gosta de gato (16/set)
  » manhã de domingo em São Paulo (16/set)
  » retomar Borges (14/set)
  » fato (14/set)
  » a terceira carta não-enviada (13/set)
  » emboscada (12/set)
  » alcoolismo (12/set)
  » agora com links inteligentes (11/set)
  » freeware para estudantes que passam fome II (11/set)

as categorias

- Bobagens e etc -
Abnei in Crazy Town (5); Andanças (77); Badaiocas (221); Balaio de Gatos (2); Conclusões (92); Desenhos e criações (15); Desvarios (83); Foda-se (18); Huh? (81); Letras, aquele antro (42); Maias, Rezendes e afins (31); The Sims (8);
- Ficção -
Carteado (4); Contos (12); Desumano (23); Diversos (8); Dos outros (6); Fichamentos (1); Idéias e personagens (30); Megaliga (12); Pedaços (7); Projetos (24); Pseudo-contos e crônicas (10); Que os mortos enterrem (5);
- Mais -
Arte (12); Cinema (31); Informática (37); Linkagem (70); Literatura (95); Mundo (75); Música (5); Orkut (7); Web (25);
- Umbigo -
Crises (36); Existencialismos (19); Mau-humor (29); Minhas vidas (125); Quizzes (7); Remoinhando (49);

por mês


Está perdido? Fugiu o rumo? Veja todos os arquivos.