quinta-feira, 27/05/2004
Exercício de roteiro
O homem abotoou a camisa com movimentos ligeiros e precisos, enquanto fitava os próprios olhos no espelho, na parte de dentro da porta do armário. Era alto e magro, os músculos eram toda a carne que tinha. A camisa ficava um pouco larga, deixando-o de certa forma com a aparência um pouco mais robusta. O quarto era pequeno e a cama de solteiro o fazia ainda menor, mal sobrando espaço para um armário estreito, o criado-mudo e uma cadeira de madeira, sobre a qual estavam jogados a calça social bege e um cinto preto. As paredes eram de um bege velho e manchado, dando a todo o ambiente uma aparência pálida, desbotada, como uma fotografia antiga guardada em uma caixa de sapatos sob a cama.
A cama estava feita, com um cobertor marrom dobrado sobre ela, e o lençol esticado sem uma dobra sequer, impecável. A janela pequena estava aberta, mas pouca luz conseguia se transportar para dentro daquele espaço, como se o ar ali fosse um pouco mais pesado. O sol entrava quase que perpendicularmente, quase atingindo a parede oposta.
O homem vestiu a calça, vagarosamente, e com a mesma destreza com a qual abotoara a camisa ele colocou o cinto. Olhou sua imagem no espelho com olhos negros bem abertos que, apesar da pouca luz, brilhavam com um certo orgulho da própria figura. Seu rosto era fino e cheio de pequenas manchas de sol. Usava um bigode preto, bem mais preto que seus cabelos, que já tinham alguns fios brancos, em uma faixa que ia de orelha a orelha por trás da cabeça.
O ruído da rua, ao fundo, parecia distante, mal se fazendo ouvido. O som de carros passando em alta velocidade, com seus motores desregulados e amortecedores sendo testados pela via esburacada. O homem ajeitou a gola da camisa e passou as mãos nos cabelos, penteando-os. Mesmo os barulhos mais altos e irritantes não pareciam afetá-lo, entretido com o seu reflexo. Sem cerimônia, fechou a porta do armário e saiu do quarto.
A sala era um pouco maior, e lá os ruídos dos carros pareciam ainda mais próximos. Também era possível ouvir os passos das pessoas que passavam na calçada, lá embaixo. A janela aberta dava para a rua, e a luz não entrava por ela. Mas, talvez por ser maior, a sala parecia tão iluminada quanto o quarto. As paredes tinham quadros antigos de pinturas de barquinhos e paisagens verdes e vazias, anônimas. A mesa de jantar era grande e inconveniente, ocupando metade do espaço e quase bloqueando a porta que dava para a cozinha. E mesmo assim, estava tudo organizado, com uma perfeição exagerada. Ao lado da porta de entrada havia um móvel de madeira com rodinhas, e sobre ele uma variedade de uísques e outras bebidas.
Havia um sofá de dois lugares, sob a janela, e uma mesa de centro, feita da mesma madeira escura que a mesa de jantar. Em contraste a todo o ambiente, tão austero, havia um aparelho de som moderno, de última geração, ocupando a parede adjacente ao sofá, como algum tipo de televisão-monstro prateada de 50 polegadas. Uma prateleira sobre ele apresentava uma coleção enorme de CDs, enfileirados com precisão. Competindo com o barulho da rua, havia também o som de um aspirador de pó vindo do andar de cima, e vez ou outra alguma coisa era derrubada, ecoando por todo o teto.
O homem aproximou-se, tendo que desviar da mesa de jantar. Parou ao lado do piano, pegando algumas folhas soltas que estavam sobre ele, junto de um par de óculos de aro grosso. Colocou-o no rosto e sentou-se com a postura ereta, abrindo a tampa do piano e ajeitando as folhas a sua frente. Havia, também sobre aquele antigo piano, tão bege e tão marrom quanto todo o resto do apartamento, uma fotografia em preto e branco. Ela mostrava um sujeito com os cabelos divididos ao meio, um bigode escuro e feio, com o maxilar largo. A imagem tinha os mesmos olhos que os do homem sentado ao piano, as sobrancelhas ralas e quase inexistentes. A diferença entre os dois era apenas o maxilar, um forte e outro fino.
A música encheu a sala, de repente, ecoando no apartamento quase vazio. Os dedos do homem, ligeiros e ágeis, moviam-se sobre as teclas com uma habilidade surpreendente. A sala ainda era a mesma, escura e bege, mas era como se aquilo não fizesse a menor diferença, com o som do piano que se sobrepunha a qualquer ruído na calçada, ou qualquer carro que passasse com o escapamento estourado. Não era música triste nem muito alegre, e parecia fluir dos dedos longos e velozes do homem. Ele fechou os olhos, erguendo o queixo e deixando a cabeça virada na direção do porta-retratos. Vez ou outra os abria para encarar a partitura, com olhos sérios e sem emoção.
O aspirador de pó do andar de cima foi desligado, e tudo que podia se ouvir era a melodia do piano. O homem abriu os olhos mais uma vez, erguendo um pouco mais a cabeça. O sujeito na fotografia olhava para ele, com um sorriso quase imperceptível sob o bigode preto.
Olivia
não tem acento. Olivia não tem critérios. Olivia não existe. Olivia talvez
seja fruto da sua imaginação.