sexta-feira, 14/05/2004

O Último Sensato

O Menino achava que vivia num mundo diferente. O Menino achava que as coisas aconteciam de um jeito, daquele jeito que ele um dia pensou que elas deviam acontecer.

O Menino ficava bravo quando as coisas não aconteciam do jeito que ele tinha pensado.

Ele vivia preocupado de tudo. As horas, o tempo, o trânsito. As pessoas. O Menino às vezes tinha medo das pessoas. Quando as pessoas falavam com ele, ele se preocupava com o medo que tinha das pessoas e se confundia. Não queria que soubessem que ele tinha medo. As palavras saíam enroladas ou pretensiosas.

O Menino nunca teve muito jeito com as pessoas. Mas ele achava que as pessoas que não tinham jeito com ele.

Se preocupava que talvez fosse ele que tinha algum problema. Mas chegava à conclusão que não era, que não podia ser. O mundo inteiro tinha um problema, sério, sério.

Ele não sabia.

O Menino não sabia, e nunca chegou a pensar, que talvez ele também fizesse parte daquele mundo que não acontecia como ele esperava. E talvez ele fosse igual a todas as outras pessoas, sem jeito com Meninos e Meninas que se sentiam a parte de tudo.

Ah.

O Menino ficava sempre muito bravo e preocupado. Ele não sabia o que era ser feliz, porque achava que só os burros eram felizes, e tinha medo de ser feliz e ficar burro. Achava que as preocupações eram normais e necessárias, senão ia perder sua inteligência.

A Felicidade vivia em volta dele, porque ela acreditava que um dia ele ia esquecer de levar tudo tão a sério. E ser feliz.

Mas o Menino tinha medo de ser feliz. Tinha medo de ser feliz e se esquecer o quanto era trabalhoso ser feliz. E emburrecer. E tinha muito medo que as pessoas o vissem, e dissessem "lá vai o Menino, ele é bobo e não é muito esperto".

Ele achava que ser feliz era uma grande bobagem.

Continuou, ele, então, o Menino. A Felicidade sacudiu a cabeça, meio decepcionada, e foi olhar o nascimento de um bebê de uma mãe triste e preocupada. O bebê nasceu feliz. A mãe também, depois, não era mais tão triste, assim, como era antes.

E o Menino...

Ah, o Menino.

O Menino achava que o mundo estava todo errado. E não mudou de opinião. Ele nunca mudava de opinião, no fundo, no fundo. Um dia, ele falava, ia mostrar ao mundo como era ser certo. Ia mostrar ao mundo que estava tudo tão errado, com sua sensatez comedida.

Seguiu, reclamando, bravo e preocupado. Pois era apenas um menino. Existiam outros, como ele. Exatamente como ele. Mas ele não sabia. Nem nunca saberia.

Olivia
23:39 || Contos
 
 

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