segunda-feira, 10/05/2004
O Chato
Vivo pros meus personagens. Vivo pra escrever. Vão dizer que eu não tenho vida, e eu vou dizer que talvez estejam certos. Eu tenho uma vida que eu não vivo, que eu acabo não vivendo, de mania de se enfiar na vida dessas pessoas que não existem. Eu não tenho uma vida. Eu tenho várias.
Às vezes eu me esqueço de ter a minha vida, aquela primeira, que eu ganhei da minha mãe de presente de primeiro aniversário. Às vezes eu não sinto falta, mas num momento seguinte faz uma falta tremenda e eu entro num período de pseudo-depressão.
Não sempre. Tem vezes que eu me divirto me fingindo de personagem e vivendo a minha vida como se alguém estivesse escrevendo tudo.
Aprendi demais a abstrair as coisas. Abstraio tudo, tudo, quase sempre, demais. Me abstraio do mundo e abstraio o mundo de mim. Eu sei o que acontece no mundo, mas não sei os porquês, só sei metade dos comos e não faço muito esforço pra descobrir. Não vou com a cara dos porquês.
Às vezes cansa.
Tô cansada. De uma vidinha medíocre, sem imaginação e criatividade zero. Quem escreveu a minha vida era um chato professor de literatura que queria fazer alguma coisa nova e diferente, que não gostava de romances baratos cheios de ação e acontecimentos e um pouco de mistério. Queria que o público se identificasse com o personagem e toda essa bobageira literária.
Um chato.
Aí quando eu resolvi assumir o controle (nas entrelinhas, enquanto o chato dorme), o mala não deixou nenhuma saída. Ou deixou, mas eu já estava num humor paralisado e não fui a lugar nenhum. Uma jaula imaginária.
Ah, cansei. Vou voltar aos meus personagens, aprender CSS e essas coisas inúteis que pessoas sem vida costumam fazer.
Olivia
não tem acento. Olivia não tem critérios. Olivia não existe. Olivia talvez
seja fruto da sua imaginação.