segunda-feira, 17/02/2003

Delírio

Tô começando a achar que eu penso demais. Mas não é aquele pensar de pensar, de parar e começar a pensar, ter idéias e tudo mais. É meio esquisito, parece que eu não tô pensando nada, como se eu tivesse só sentindo alguma coisa que eu não sei muito bem o que é. As coisas andam tão estranhas... Em relação a tudo tudo. Parece que eu tô meio que ganhando uma consciência meio esquisita de quem eu sou, ou algo assim. Como se eu estivesse esquecendo alguma coisa?

Saudades do futuro, eu falo, mas será que isso tem qualquer coisa a ver? Eu fico esperando, esperando alguma coisa que eu não sei o que é. Eu quero começar logo a minha vida, do jeito que eu quero, mas eu não sei qual o jeito que eu quero. Mas acontece que eu sinto que eu já esperei demais. E não posso fazer nada, porque eu não sei o que eu tenho que fazer. Mas eu cansei de esperar. Claro, pra quem vê, parece que eu tenho tudo bem planejado, o que eu quero, o que eu gosto. Mas nem é tão verdade assim. As vezes dá a impressão que falta recurso, dinheiro? Difícil. É só uma impressão mesmo, eu sei. O Pedro fica me falando que eu tô entrando num ramo que dá uma puta grana, mas não é bem isso que eu quero. Quando ele fala isso me dá um aperto, porque não é o que eu quero. O que eu quero?

O que me deixa feliz, o que eu gosto mesmo de fazer, não dá dinheiro, e nem um pouco, e não é algo que eu posso fazer pra viver. O que, sonhar? Delirar, inventar, pensar? Só isso. O resto eu faço, porque só essas minhas idéias me deixam um pouco nervosa. Nervosa porque elas são só idéias.

Penso demais. Eu fico aqui, esperando. Não tenho vontade de fazer muito mais. Não tenho tido, ao menos. Como se eu estivesse esperando alguma coisa que está pra acontecer. Eu sei que eu não posso ficar esperando. Não é o certo, e nunca vai ser. Não tenho vontade de fazer um monte de coisa. Eu quero ficar no meu quarto, sem fazer nada, mas eu não fico. Eu fico no computador, assisto vídeos, procuro wallpapers pela net. Era pra eu estar de férias? Se eu estivesse, talvez fosse mais fácil. Mas ao mesmo tempo... É um tempo livre, não? Pra eu pensar, pensar na vida? E os cursos? Sim, eu tô aprendendo, mas eu não deveria estar treinando? Por que eu não tenho a menor vontade de fazer isso? Não era o que eu queria estar fazendo?

Eu ando extremamente intolerante. Principalmente com as pessoas mais próximas. Eu tenho vontade de ficar sozinha, só eu. Mas aí eu percebo que também eu tenho saudades dos meus amigos, e que todos vão estar viajando no carnaval quando, bom, que culpa tenho eu, seria a minha festa de aniversário. Eu tava pensando que talvez fosse um momento bom, pra eu parar de pensar um pouco em nada, ver que talvez eu não esteja tão sozinha assim. Se bem que, eu sempre estive sozinha junto dos meus amigos. E o Pedro? Bom, ele vai estar aqui. A gente pretende fazer uma festa junto, já que o aniversário dele é logo depois. Mas mesmo com ele aqui, mesmo tendo passado o final de semana com ele... Eu sinto que ele talvez seja um dos que menos consegue me entender.

Sei lá, um vazio estranho. Um estado de contemplação que você não tá na verdade contemplando nada. Não faz nada, não pensa nada, mas ao mesmo tempo parece que sua cabeça tá funcionando a mil. Eu tenho idéias, histórias, cenas, diálogos. Essas coisas idiotas que eu sei que vão ficar sempre na minha cabeça, ou talvez vão parar em algum dos meus cadernos que nunca ninguem vai ler. E é só isso que eu tenho feito, ou mesmo tenho tido vontade de fazer. Além de ouvir a música L.A. Song que o Lindsey canta num dos episodios de Angel, mas isso não vem ao caso. Pra mim seria o suficiente, se eu não sentisse um peso, como se algum tipo de obrigação, que continua nas minhas costas. Um peso que parece pedir pra ser ignorado, mas que não pode. Não sei, eu bem que queria entender.

No mais, eu tenho que ir pra minha aula de HTML. Por pilha no meu discman que aquele caminho é um grande tédio. Eu tô cansada. De pensar, e de ter uma idéia a cada esquina, e de ficar repassando idéias na cabeça, minhas, ou mesmo dos outros. De não poder dar qualquer fim pra esses pensamentos, muitos sem sentido nenhum, muitos que sequer são pensamentos conscientes, mas que eu sei que existem. Estranho. E logo já é março. O relógio não parou, mas eu sinto como se eu tivesse parado no tempo. Perdendo tempo, já que a única idiota que parou fui eu, e o tempo continuou andando. Quando eu voltar a andar no tempo vou ter que correr pra chegar no mesmo lugar que todo mundo está, e esse pedaço que eu corri vai ficar quase nulo.

Chega. Eu com os dedos no teclado sou um perigo, e eu vou continuar escrevendo se eu não colocar na cabeça que eu tenho que sair. Tchau. Fui. Até. Até meu próximo delírio.

 
 

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