09.08.2009
outro pseudoensaio sobre o possível
me pego vez ou outra pensando em personagens passados, de histórias fechadas, e me aflijo com a finitude desse ponto final. quero voltar, recriar algum momento e criar outros. quase uma saudade. digo: bateu uma saudade do Luciano Almeida. não é bem (ou talvez seja) uma maniazinha de escritor.
não dá nenhuma saudade do meu Pedro Rodriguez, por exemplo, porque viria daí uma explicação para meu gosto pelas séries, pelo fan fiction que muitas vezes me dei a escrever no começo da adolescência. a necessidade de se criar e recriar infinitas possibilidades, sempre. ter aberta a janela porque minha cabeça não sabe parar, não pode deixar de querer experimentar com situações esses personagens conhecidos, feito cientista maluco de desenho animado com suas cobaias.
mas então há esses outros personagens, encerrados entre o início e o fim de um romance escrito, e já me atrevi continuar vez ou outra o que estava terminado, mas.
mas não.
porque está aí -- e me dou conta e me acalmo -- o que me encanta na literatura, o que me motivou a enfrentar um mestrado quando comecei a faculdade certa de que isso jamais me agradaria. o livro encerrado entre páginas finitas não é nunca uma história finita, não pode nunca esgotar todas as possibilidades da narrativa. ele poderia ser outro livro, sempre poderia ser outra narrativa. ou, mais ainda, poderia ser a mesma história contada de outra forma. e todo esse possível reside justamente no que não foi dito, no que não foi escrito, no que é para sempre possibilidade.
curioso, ou mesmo contraditório que a linguagem permita e encarcere ao mesmo tempo o possível. o infinito. ela faz o finito mas só ela pode deixar entrever o infinito. curioso, contraditório. eu até diria sensacional, mas olha aí que palavrinha mais sem vergonha.
ou, ainda, voltando ao raciocínio inicial, é isso também o que nos mantém escrevendo quando tudo já foi escrito. se Joyce não tivesse escrito porque houve Homero, se Dante não tivesse escrito porque houve Virgílio, se Camus não tivesse escrito porque houve Proust. sim? [devo essa lógica ao amigo Evandro Affonso Ferreira, escritor rabugento mor.]
sei que é o que me mantém escrevendo, e ainda a certeza de que nunca se esgotarão as possibilidades, os possíveis. o devir. tudo aquilo que poderia ter sido e talvez seja, e talvez venha a ser, ou talvez não. [Italo Calvino nos escreve isso, também, e que não a citação pela citação, mas porque a citação é uma forma talvez pouco eficaz, mas ilusória o suficiente, de nos sentirmos menos sozinhos. escreve, ao tratar do tema da visibilidade em Seis propostas para o próximo milênio: "... há uma outra definição na qual me reconheço plenamente, a da imaginação como repertório do potencial, do hipotético, de tudo quanto não é, nem feio e talvez não seja, mas que poderia ter sido." mas isso é só parte de um raciocínio maior e muito bem elaborado, que vale a pena conhecer.]
e devo voltar ao que me fez escrever isso tudo. essa vontade momentânea de revisitar velhos personagens e explorar as possibilidades que no texto foram deixadas em aberto. penso, tenho saudades. imagino personagens alheios que me causam vontade semelhante e me alegro com o poder de criadora que determinou a imprecisão e as entrelinhas mui precisamente (ou o tanto quanto possível), tantas vezes mais poderosas na literatura.
aí vem uma resignação incompleta, mas suficiente: a possibilidade que esses meus personagens causem essa mesma reação imaginativa em outros. que ecoem em outros, por tudo aquilo que foi omitido, que ficou por dizer. tudo aquilo que vez ou outra tenho vontade de dizer, escrever, precisar, aprisionar.
então esperar a vontade passar, escrever um texto como esse, justificativa a mim mesma por algumas ideias imprecisas e voltar a ler o livrinho do Mario Benedetti, que é daqueles bons, daqueles que o protagonista deixa uma saudadinha, daqueles que me deixam imune ao som da TV ligada no Fantástico e ao ronco do (con)cunhado no quarto do lado, que faz parecer que a casa vai desabar a qualquer momento.
gosto muito da maneira como tu PENSA e enxerga a literatura, e como tu coloca a tua em xeque pra chegar nesses conceitos.
ainda lerei um livro teu sobre crítica literária e tudo mais :D
crítica literária que eu, assim de longe, acho fascinante. o eterno escarafunchar e o ver depois (não necessariamente além) do autor.
e, pergunta: tu pensa assim, ou sente assim, essa saudade, dos personagens que morreram? ou porque morreram tinham mesmo que e isso fica só pros vivos?
(porque eu acho que tu mata muito bem)
pois é, os que morreram.
eu escrevi sobre isso: http://diplo.uol.com.br/2008-07,a2491
mando o link, porque, né, o raciocínio ali está mais acertadinho (mas não tanto, vá lá). tinha lido, quando publiquei?
o luciano que é um tipo de exceção, fica entre uma coisa e outra, porque na verdade ele nunca morreu. ele só juntou uns comprimidos na mão. e depois quando a marcela conta ele ainda sobre-existe, mas como um que não tinha existido antes, naquela narrativa. então ele é tipo um morto-vivo.
e é também o que mais faz uma falta. ele e o leonardo.
ao mesmo tempo porque são os mais redondinhos, os que são mais gente de carne e osso, um ideal pra manter no horizonte nas próximas criações e enquanto tento consertar o pedro, que ainda me parece errado, inconsistente em qualquer nível. são também os personagens com quem mais convivi antes de escrever os livros, os que tenho mais escritos pré-livro, escritos descartados, pedaços sem nexo, etc. e tudo isso deve ter alguma lógica que eu ainda preciso desvendar.
[com o andré eu tentei algo assim, mas deve ser que nunca eu mesma consegui entender aquele cara, ou porque ele é mesmo um chato, e no discurso de coitadinho dele isso fique meio confuso.]
no mais, tem muito em tudo isso de um paradoxo daqueles de caber o infinito em uma caixinha, e a gente entra num campo meio borgeano de espelhos, etc. acho lindo. por isso continuo tentando entender deleuze. diz aí ;)
[aliás, borges, hein. devorei todos os 3 livros que trouxe pra esses quatro dias em sertãozinho e restou o borges que o roger trouxe. mas não adianta. borges não me diz muito. e eu tento, tento, tento. mas não dá. me traz meia dúzia de cortázar, faz favor.]
olivia
não tem acento. olivia não tem critérios. olivia não existe. olivia talvez
seja fruto da sua imaginação.