sobre o nada e o inevitável, e sobre a vida imaginária de pessoas que não existem.#

10.06.2009

um desespero terrível

a usp está às traças. quase literalmente. digo quase porque na fflch a biblioteca é muito bem cuidadinha, mas vá entrar na biblioteca da feusp ou da eca. medo.

os funcionários e os professores querem aumento salarial. justo. ganham mal. estão lutando pelos seus próprios interesses? justo. se eles não lutarem pelos interesses deles, quem vai lutar?

eu e você?

a sociedade não se importa. porque quem reclama é baderneiro que não quer trabalhar.

então não pode reclamar.

ou: pode. mas sem bagunça. mas aí, quem é que vai perceber? a reitora está em sua sala assistindo a tudo pela televisão. não quer conversar. não tem diálogo. e quem se importa com bibliotecas fechadas, bandejão fechado?

os alunos, os professores.

a sociedade não se importa.

mas os alunos também não se importam com o aumento salarial dos funcionários. eles só querem que a biblioteca e o bandejão estejam funcionando.

os funcionários então abaixam as orelhas e voltam a trabalhar?
justo?

é preciso chamar a atenção da sociedade. a usp na usp não importa pra ninguém. funcionários em greve só poderiam fazer alguma diferença para os alunos, mas os alunos também não se importam. a reitora, aparentemente, também não se importa. não é greve de ônibus, de metrô, de banco. é greve de funcionário de usp!

não adianta. a sociedade não se importa. a sociedade quer levar sua vida, não quer pegar trânsito na rua Alvarenga.

estamos todos abandonados, sozinhos. minorias são minorias. minorias são irrelevantes.

dois mil estudantes são contra a incapacidade de diálogo da reitora? minoria. irrelevante. três faculdades? minoria.

estudante da poli e da fea não tem do que reclamar. eles recebem investimento, eles estão muito bem obrigado. justo. que não reclamem. seria demais exigir que parassem para perceber a situação dos vizinhos e não olhassem só para o próprio umbigo. mas que compreendam a necessidade dos outros de reclamar. de pedir diálogo. independente de quem está certo ou errado.

afinal, é uma universidade.

os estudantes não tem pauta de reivindicações? não sabem o que querem? massa de manobra partidária?

os estudantes só querem da reitora a capacidade de diálogo.

não deveria ser necessário concordar com a greve para não concordar com a falta de diálogo.

mas a sociedade não se importa com a incapacidade de diálogo de uma reitora de universidade. a sociedade se importa com a rua Alvarenga sem trânsito. cada um com o seu umbigo. afinal, não estão também os funcionários preocupados só com seus próprios umbigos? ah, essa gente que não pensa nos outros!

a universidade está às traças.

mas isso tudo não importa.

somos irrelevantes e seremos esquecidos.

não, não estamos na ditadura. a gente pode dizer o que pensa. pode gritar bem alto. mas ninguém vai ouvir. e se alguém ouvir, logo vem outro pra apontar o dedo e dizer: pfff, minoria. irrelevante.

desolação.

ouvir certas opiniões sobre tudo isso só me causa essa sensação terrível de desolação. um desespero sem fim. meu deus, estou sozinha. estamos sozinhos.

de nada adianta. gritar, espernear. pedir um aumento? nem pensar. e se insistir demais, eu solto os cachorros. afinal, quem provocou foi você. quem começou foi você. eu aqui só estou querendo fazer o meu trabalho.

não existe diálogo. perdemos a capacidade de conversar. de discutir opiniões opostas com civilidade. e pergunto-me se algum dia já tivemos essa capacidade. tivemos?

não existe diálogo.

e se na universidade não tem diálogo, que dirá fora dela.

que desespero, meu deus. que desespero terrível.

Olivia
20:03 || Mundo
comentários

“O indivíduo já ganhou toda a liberdade com que poderia sonhar e que seria razoável esperar; as instituições sociais estão mais que dispostas a deixar à iniciativa individual o cuidado com as definições e identidades, e os princípios universais contra os quais rebelar estão em falta. A liberdade sem precedentes que nossa sociedade oferece a seus membros chegou, como há tempo nos advertia Leo Strauss, e com ela também uma impotência sem precendentes.” (Zygmunt Bauman, Modernidade Líquida, 2000)

[valeu, Tiagón]

Olivia || 20:58 10/06/09

Acho que "a sociedade" é algo amplo demais. Tem o povo que opta por não se informar sobre o assunto e sobre as condições do ensino público (sendo que o ensino superior público ainda está menos mal do que o fundamental e o médio). E tem o povo que também opta por não ligar pro assunto.

Mas e o resto? Ninguém deveria sair prejudicado numa greve ou num protesto, seja o estudante ou o cara parado na Alvarenga. Acho que bloquear a entrada na portaria foi uma estratégia mal pensada. A USP tb é local de trânsito de linhas de ônibus que vão pra fora do campus e fora da cidade, e uma hora que seja impedindo ônibus de entrar obviamente não gera um trânsito legal. Ainda mais considerando que as principais avenidas ao redor do campus (vital, corifeu e politécnica) são caminho pra tantos outros lugares.

A meu ver, é tão ruim quanto interditar um lado da Av. Paulista: quer ir pra casa? Não pode. Quer ir pro hospital? Não pode. Voltar? Não pode. Dá pra pegar um desvio? Não, não dá, tá tudo parado.

Se aluno quer protestar, o ideal é que proteste mesmo. Muitas vezes não existe outra maneira de se fazer ouvir. MAS existem maneiras de fazer isso sem acabar ferrando a vida dos outros.

Angela || 21:46 10/06/09

mas é isso mesmo, gi.
você está só comprovando o que eu já disse.

que maneiras de protestar existem? existem? mas ninguém vai ouvir. ninguém. se nem a reitora. e se resolvem fazer piquete e atrapalhar a vida de metade da população de sp, as pessoas vão ouvir, mas não vão querer saber. vão se irritar com o bloqueio.

elas estão certas? não sei. os alunos estão certos? não sei. aluno burro é o que mais tem por aí, vide as antas que jogaram tijolo em pm. mas e aí?

que a gente faz? a gente não faz nada. a gente não consegue fazer nada. qualquer grito de aluno é logo descartado: baderneiros que não querem estudar. funcionários? baderneiros comunistas que não querem trabalhar. é mais fácil assim.

claro que sociedade é amplo, e claro que eu estou generalizando. mas generalizando, é isso mesmo que acontece. e você, aborrecida com os bloqueios, é só um exemplo disso.

ainda que você é uma pessoa inteligente, e sabe pensar para além desse aborrecimento. mas você é exceção.

e exceções não são ouvidas. e se alguém ouvir, só vai ouvir o que quer: a sua crítica à escolha meio duvidosa dos alunos de bloquearem a rua.

não estou defendendo piquete, e não estou nem mesmo defendendo a greve do jeito que foi feita. a pm estava lá, sim, pq os grevistas foram contra a lei ao bloquear acessos. mas isso é uma universidade e a reitora nem pensou na possibilidade de dialogar com aqueles funcionários. cruzou os braços e chamou a pm. é mais fácil assim. é mais simples.

protestar em silêncio não adianta. protestar comportadamente não adianta. protestar bloqueando ruas não adianta. protestar não adianta. a gente não pode dizer nada. a gente não pode fazer nada.

Olivia || 08:56 11/06/09

Se protestar não adiantasse nada, ainda viveríamos na ditadura. Talvez a questão seja justamente o como protestar: da mesma maneira que há 30, 40 anos?

Ainda que eu não tenha uma proposta específica, nenhum plano genial, me incomoda muito achar que simplesmente *não existe* uma maneira diferente de protestar e ser ouvido. Me parece lógico que, se os métodos e abordagens em diversas áreas mudaram ao longo dessas décadas, também o método de fazer protesto pode mudar. Quero dizer, qualquer publicitário relapso sabe que não dá pra aplicar as mesmas estratégias de vendas de 40 anos atrás; um cirurgião dificilmente usará as mesmas ferramentas de açougueiro de 50 anos atrás pra fuçar num cérebro; e os métodos de ensino também já não são os mesmos de 30 anos atrás (ainda que alguns alunos mereçam ajoelhar no milho :D).

E aí? As formas de protesto também podem ser revistas, e isso pode até fazer com que sejam ainda mais eficazes. É um pouco complicado achar que bloquear vias, carregar faixas e atirar flores (ou pedras) aos policiais vai resolver o problema, ou que vai chamar a atenção do público -- até porque o público é pior que urubu, gosta mesmo é de sangue e tragédia. Só porque uma estratégia funcionou antes, não significa que vai funcionar sempre.

Não é possível que não existam maneiras alternativas de se fazer ouvir. O problema é que isso demandaria um nível maior de organização e coesão, e também um pouco de criatividade. A criatividade se arranja, claro. Mas articular o pessoal... vixe.

Angela || 15:05 11/06/09

oi Olivia.

Colo um texto que fiz e que também quero que seja um comnetário aqui. Vontade de desabafar.

Eu moro em Taubaté. A USP para mim é só um ponto de orientação intelectual. Não tenho relações afetivas com essa comunidade.O que não escondeu o meu horror ao ver que pessoas apanhavam
Bater é errado, minha mãe me disse. Apanhar dói. E Infelizmente eu só voltei a tomar uma posição sobre isso quando a normalidade foi quebrada. Por que para mim, terrivelmente, se tornou natural que as pessoas “abaixo de mim” apanhassem. Voltar a ordem é tudo. Meu Deus, que ordem? Lendo e vendo o que aconteceu, apenas uma coisa me ocorreu: a culpa daquela violência e de muitas violências é minha.
Sou eu, que apático, alimento um espírito Coletivo de Violência que é quem realmente assina embaixo o direito à truculência, muitas vezes disfarçada com a máscara do bom tom.
Não é apenas o governador, ou o policial, ou o juiz, ou o bandido que autoriza “tocar terror geral”; sou eu, um pacato taubateano, que engordando a Cultura da Violência com o meu dinheiro, o meu pensamento, o meu prazer estético etc é que autorizo o espancamento de estudantes, o espancamento de pobres, o assassinato de presos, a caça a policias, os abusos infantis, o estrangulamento da liberdade, o aumento de decibéis e discussões; a violência que me prejudica, machucando de quem eu gosto; desenvolve organismos, igrejas comitês, cooperativas, associações que trabalham insidiosamente na jardinagem de mais violência, cria Datenas e afins.
O pior, ou melhor, é saber que eu gosto de me alimentar de violência, Deus.
Gabriela Leite, uma mulher excepcional, em sua última entrevista ao Roda-Viva, declarou: Essa é uma das épocas mais conservadoras que vivemos.
E para mim, mais conservadorismo é igual a mais violência, habilmente trabalhada, me alimentando e me dando prazer.

Esse post é uma espécie de resposta/ diálogo com dois posts que mexeram comigo.

O texto da Olívia Maia, O outro é o texto da Mariana, via Marcos Donizetti

Incrível, Olivia... sinto igual!

A gente tá completamente só... toda a gente. Não sabia bem o que pensar sobre essa greve... vc compactou o lixo, tá reciclado.

Concordo de cima a baixo.

Rogério Ribeiro || 17:42 15/06/09

uau, fantastico
sinto junto

o gato comeu a sua língua?
 

(não será publicado):



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