sábado, 26/04/2008

e por onde se vá qualquer imaginada glória de um autor publicado

claro, meta a sociologia no meio e diga que é tudo culpa dos grupos dominantes que excluem a periferia. mas a mim isso tudo soa quase alienígena, ou mesmo imaginar que um escritor publicado é alguém "contemplado pelo mercado" e pela mídia. a situação atual é outra. o livro na estante é um livro na estante, uma nota no jornal é uma nota que será esquecida no dia seguinte. os que realmente fazem qualquer diferença para o público são uma meia dúzia ou talvez uma dúzia inteira, e que desses boa parte seja do eixo Rio-São Paulo posso até dar razão ao que diz Rinaldo de Fernandes, mas muito muito em parte, porque a verdade é que a mídia e o mercado não estão interessados em coisa nenhuma.

Olivia
11:12 || Literatura
Comentários

Eu sempre acho meio estranho essa coisa de falarem do eixo Rio-São Paulo. Se tiver mesmo essa dúzia inteira que faz a diferença, acho que boa parte vem é do Rio Grande do Sul. Mas é a impressão que eu tenho, posso estar delirando completamente. hehe

Renata Miloni || 12:36 26/04/08

Não acredito no mito do autor publicado. Acho que essa literatura que a gente chama de "a" literatura é um troço muito formatado, quase um tipo de mercado, enfim, uma designação útil pra economistas e editoras, mas não para o beletrista em si.

Primeiro que eu ainda não descobri quem foi que decretou que literatura tem que ser escrita. Muito menos eu entendo quem foi que decretou que literatura tem que ser publicada em livro de editora com folha polen soft granulada off-white, com colofão na última página mencionando composição em Garamond 11/12.

O Brasil tem uma cultura vastíssima, sempre extremamente vinculada à língua --- pra um país em que 70% das pessoas são analfabetos funcionais, a gente fomenta um tal orgulho pela língua que é um negócio até meio difícil de explicar.

Sei lá. A gente tem cordel no Sul e no Nordeste, a gente tem repentismo no Nordeste e no Norte e no Oeste e em São Paulo, e a gente tem os nossos ícones e os nossos mitos e o nosso estilo muito próprio de fazer sentido, a própria lingua como se gingando, insinuando-se em uma direção, furtando-se para a outra, um sincretismo do humor debochado com o inuendo satírico... coisa que o mercado, enfim, não valoriza, mas quem foi lá e decretou que Paulo Lins é mais literatura que a Vai Vai?

Sim, a nossa literatura européia é mínima, quase um fetiche. A literatura-mercadoria não é um conceito que você veja exatamente difundido por aí, por todas as classes da nossa sociedade. E, sim, pra literatura européia, autor merginal, do subúrbio, escrevendo formatado é o epitomo do cool, porque é raro, e de certa forma impossível para eles: é o tipo de coisa para que se paga mais caro.

Digo mais: eu juro que saio no tapa se vierem me dizer que Daniel Galera é mais bacana que qualquer coisa publicada num blog não porque surrealismo e ginga de idéias e literatura polifônica descendente direta de Hilda Hilst --- mas, muito pelo contrário, simplesmente porque está impresso em folhas brancas com tipografia arejada e um selo de editora na capa.

Bruno ( ) || 14:23 26/04/08
O gato comeu a sua língua?


(não será publicado)





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