sábado, 15/12/2007
Operação P-2, primeiro capítulo
aos mais curiosos e desconfiados, posto aqui o primeiro capítulo do meu livro Operação P-2, que está logo ali sendo vendido no site d'os Viralata. e assim você pode saber melhor que diabos de livro é esse.
ou como bem disse o Branco, neste natal, dê um viralata de presente.
diz aí. nada como um livro policial para aproveitar as férias.
e ao primeiro capítulo de Operação P-2.
— Amanhã vou dar o golpe.
E era sempre o mesmo, todos os anos. E todos os anos os alunos achavam graça.
— Estudem.
— Professor, a próxima aula cai na prova de sexta?
— Só até hoje.
Juntei o material e esperei por mais perguntas, mas os poucos alunos que continuaram na sala não pareciam interessados em saber mais nada sobre o governo de Juscelino. Ainda faltavam alguns minutos para o sinal. Na sala dos professores, encontrei Carlos lendo o jornal. Professor de física. Um dos meus melhores amigos. Gaúcho como eu; provavelmente o único que não achava que eu era do Rio de Janeiro — culpa de um érre fraco e meio arranhado no sotaque; impossível me livrar dele. Na carteira de identidade eu era do interior paulista, mas Carlos sabia que havia algo de diferente no meu jeito de falar e sempre me olhava curioso quando eu soltava sem querer uma segunda pessoa; um tu mal conjugado. E aquele final de frase cantado e estúpido.
Na verdade evitava o pronome porque o tu me era inevitável; herança de meus pais e de todo meu convívio escolar. Quando não estava dando aulas, falava pouco. Sentia que me denunciava com as palavras.
— Não deu aula hoje?— perguntei.
— Enforquei os últimos vinte minutos. A classe estava impossível. Viu isso aqui?
Dobrou o jornal e me mostrou uma das reportagens. Era uma matéria sobre uma investigação de homicídio. Um jornalista que havia sido assassinado alguns dias atrás. Alfredo Corrêa. Eu sabia que ele era professor de jornalismo em uma faculdade particular, e depois de tanta especulação da mídia descobri que também era formado em história. Minha mulher o conhecia; ela era jornalista, repórter de uma revista semanal.
Alfredo era figura interessante, mas pouco me importava se havia morrido. A polícia não tinha nada, e Gisele passava o dia resmungando que o delegado estava escondendo informações.
Na manchete a revelação da descoberta de um suspeito.
— Parece que foi mandado— Carlos falou.
— Era de se esperar.
— E desconfiam que ele faça parte de uma organização maior.
— O jornalista?
— O suspeito. Que cara de sono, Leonardo.
— Não tenho dormido muito bem.
Pesadelos recorrentes; uma escuridão que me engolia. Carlos me olhou torto. Suspirou, deixando o jornal na mesa ao lado.
— Semana que vem é minha prova e a última coisa que quero é corrigir aluno que não sabe a diferença entre seno e co-seno.
— Tem alguma diferença?
— Que engraçadinho.
Levantou-se para pegar café.
— Dá uma olhada no jornal. Vai te interessar. Estão achando que ele faz parte de uma organização que existe há uns trinta anos.
— Trinta anos?
Senti o sangue gelado e o coração acelerou. Carlos havia enchido um copo de café e me olhava com estranheza.
— Trinta anos. Descobriram uns documentos. Já pensou se for verdade? Quer dizer, tu que é o professor de história. Leonardo?
Quando peguei o jornal percebi que estava tremendo. Carlos ainda me encarava e eu tinha vontade de desaparecer.
— Tu ficou branco.
O sinal tocou e o barulho dos alunos invadindo o pátio ecoou no prédio.
— Carlinhos, preciso de férias.— A professora Juliana entrou na sala fazendo um gesto teatral com a mão.
Procurei a matéria sobre o assassinato do jornalista.
A polícia suspeitava da ligação de Vanderlei Rasini com o crime. Rasini; Vanderlei Rasini. Eu conhecia aquele homem. Larguei o jornal porque de repente não me interessava o que a polícia tinha a dizer.
"Amanhã eu vou dar o golpe." Sempre, ainda, sorrio nesse começo. Adoro.
Olivia
não tem acento. Olivia não tem critérios. Olivia não existe. Olivia talvez
seja fruto da sua imaginação.