segunda-feira, 05/03/2007
De personagens favoritos
Porque esses dias que por fim voltei a escrever. Eu sou meio retardada e quando chegam as férias eu não consigo nem ler nem escrever tudo que eu achava que ia ler e escrever. Pelo menos eu li Grande Sertão: Veredas.
Mas enfim, o que eu ia dizer não era isso.
Outro dia -- outro dia de mineiro, porque já fazem umas semanas -- estava conversando com almirante Nelson Moraes e ele estava me contando que Kurt Vonnegut "tem um personagem, autor de pulp fiction, chamado Kilgore Trout. Volta e meia ele coloca esse personagem nos romances dele. Mas sempre avisa que o personagem é que chega e vai entrando, sem ser chamado. Um personagem stalker. E como o tal Trout é um pouco maluco, ele acha prudente não reagir."
Eu tenho assim um personagem que ultimamente anda folgado e querendo aparecer em todos os meus livros. Por ora só apareceu em dois, mas já tem um terceiro em mente e abrindo as asinhas porque não quer ficar tanto demais como personagem secundário.
Sugestão do Nelson: "Faz um livro arapuca pra ele. Faz que vai escrever um livro, inventa uma trama inverossímil e quando ele já estiver entranhado lá no enredo você aborta o livro e deixa ele preso lá."
Pior mesmo é que esse tipo de coisa pode funcionar.
Mas. A gente cria afeição por esses. Acho que é o melhor personagem que já construí. E, o mais incrível: acho que jamais renderia um livro inteiro como protagonista. Chega a ser cômodo. Porque ele é ótimo para qualquer livro, um sujeito que sempre provoca os protagonistas, sempre parecendo que não se preocupa com nada e continua o mesmo, sempre o tempo todo. Para quem conhece (ao menos alguns dos) meus personagens, pode perceber que estou falando do Michel. (E também o mesmo do último post.)
Ele era o amigo do Luciano, aquele.
Um professor de quinta-série em escola pública, órfão de pai e mãe criado por uma tia artista e com uma herança muito maior do que a responsabilidade. Ah! Mas é tudo que sabemos sobre ele? Agora descobri que o apelido dele na época de faculdade era Deco (mentira, eu já sabia disso quando o nome dele ainda era Edson e ele estudava povos pré-incaicos no Instituto Gregório Reis de História e Arqueologia).
Michel Decker = Deco. O apelido do André, o protagonista desse bicho que estou escrevendo agora, também é Deco.
Na verdade quando o nome dele era Edson ele não era muito parecido com o que ele se tornou depois que virou um Michel. Mantive uns olhos amarelos e um gosto quase irritante pelos Beatles, e um hábito pouco saudável de sair com a mulher dos outros. E quando ele era Edson seu apelido era Deco até mesmo para os colegas de trabalho, mas ele achava isso meio ridículo.
(O Evandro Affonso Ferreira sempre briga comigo porque acha que essa história de botar um personagem chamado Deco é coisa de retardado.)
Mas é que o Michel já virou daqueles personagens que fazem o que bem entendem. Veja, não é coisa de escritor esquizofrênico. O que acontece? Você está escrevendo e de repente se dá conta que, veja, o Michel diria isso, numa situação assim. Mas não é o mais conveniente, que ele diga isso. Mas ele diz, mesmo assim. Porque afinal, ele diria isso. Aí precisamos fazer com que ele se distraia com uma lagartixa, porque um personagem desses só poderia mesmo ser distraído com uma lagartixa, e assim então, finalmente, livrar-se dele, por ora, ao menos, por esse capítulo.
Esse Deco tem algo a ver com a cabeça que brilha no escuro?
quem que brilha no escuro?
A melhor maneira de matar insetos e personagens: quando eles estiverem lá, aninhados no meio da página, você - PLAFT! - fecha o livro. Babaus.
:-)
Olivia
não tem acento. Olivia não tem critérios. Olivia não existe. Olivia talvez
seja fruto da sua imaginação.