sobre o nada e o inevitável, e sobre a vida imaginária de pessoas que não existem.#

28.03.2006

Em defesa da arte

Espero comentários, espero alguma reação. Escrevi esse texto durante uma aula de literatura brasileira. O tema, obviamente, é o modernismo. Em um momento da aula o professor falou qualquer coisa que me revoltou e ele ainda virou-se para mim e disse "eu sei que você não gosta disso, mas..." e não tenho muita certeza do que ele falou depois desse "mas", mas... Comecei a escrever. Depois em casa revisei o texto e acrescentei alguns argumentos surgidos em uma conversa com o DGR (Mister Simpatia rules) e tentei deixar a coisa um tanto mais legível.

O texto não está pronto e talvez nunca fique. Mas what the hell.

Pois.


Há de se deixar claro que minha crítica maior não vai diretamente ao modernismo e sim para o legado que ele deixou, e o que representa hoje em dia. Porque reconheço tentativas autênticas entre os movimentos diversos, ainda que convivendo com manifestações infantis, contraditórias e aproveitadoras.

Trato aqui da arte como artes plásticas e como poesia, deixando de lado a prosa que parece seguir um caminho diferente; na prosa sempre há algum tipo de lógica no encadeamento de palavras para que seja possível se contar uma história.

Existe algo de frágil no tipo de enfrentamento onde ambos os lados apresentam um mesmo argumento atribuindo a ele diferente valor. É o que se passa com o modernismo e seus -ismos. Seria impossível debatê-lo; a crítica negativa opõe-se a determinados elementos e atitudes usando-se dos exatos mesmos argumentos com que o poeta modernista os exaltaria. O que existe portanto me parece um simples maniqueísmo despropositado, cada qual se considerando portador da opinião mais correta e inteligente enquanto o outro lado é incapaz de enxergar e compreender a verdade. A diferença agora é que não pude deixar de tomar um partido e ser então incapaz de compreender porque o modernismo causou tanto alvoroço tratando-se de adolescentes rebeldes confrontando o romantismo e o classicismo e criando teorias mirabolantes para explicar rabiscos e palavras jogadas propositalmente de maneira aleatória para "chocar a burguesia".

Mas qual! A possibilidade da criação de teorias mirabolantes sobre o nada torna-se o estandarte desses movimentos, a grande revolução, a grande inovação. Por quê? Revoluções! Como medir o valor subjetivo de uma arte que já nos é entregue como grande e importante e revolucionária? Porque aquele que não entendesse ou apreciasse esse tipo novo de arte não passava de um conservador, alguém que parou no tempo e lutava contra a inevitabilidade da chegada de uma nova geração.

Qual o valor de um artista que passa trinta anos sem encostar em um lápis e sem chegar perto de um livro sobre história da arte que decide de repente - tendo lido um manifesto qualquer recém-publicado - juntar algumas formas e cores e, apoiado por um crítico com alguma teoria revolucionária que o transforma em "the next big thing", o artista mais importante da década?

Talvez um exemplo pouco feliz que sem dúvida dá espaço a uma resposta por parte dos entusiastas do modernismos; resposta essa que vai partir de meus próprios argumentos, usando-os sem modificá-los como algo bom e transformá-los ilustratores de minha cegueira artística, sendo esse o artifício dos modernistas para desafiar e desconstruir os opositores.

Aconteceu que essas novas modas surgidas no final do século XIX devem-se muito a uma melhoria no sistema educacional. Ficou mais fácil identificar, rotular e lançar manifestos. Se um modernista não tivesse aprendido na escola quem eram os românticos e os realistas, o movimento poderia ter se organizado de maneira mais autêntica. Manifestos se esforçam para explicar o que querem que se configure como caos. A própria organização do modernismo em movimentos que se davam um nome e um propósito já contradiz aquilo a que se propõem.

A arte não deveria ter uma importância política, presa por ideais e noções tortas de liberdade. A arte não devia ser crítica de arte - e muito menos crítica social - mas foi no que se transformou. A arte não devia ser feita para chocar a burguesia, porque é a burguesia que realiza, consome e estuda arte, e a torna possível. A arte modernista lutou para se eliminar. Ainda luta. Trata-se de masoquismo e auto-flagelação: o adolescente rebelde que se corta e se fere para se encontrar, para dar sentido à sua existência confusa. Seja esse um ato consciente ou não.

A arte, desde o modernismo, inexiste sem o apoio da teoria; teoria provida pela burguesia - burgueses contra burgueses, intelectuais brincando de roda - que forma o corpo da crítica, e por vezes os próprios artistas que são parte dessa burguesia boêmia-intelectual.

Oswald de Andrade, no prefácio do Serafim Ponte Grande: "A situação 'revolucionária' desta bosta mental sul-americana, apresentava-se assim: o contrário do burguês não era o proletário - era o boêmio! As massas, ignoradas no território e como hoje, sob a completa devassidão econômica dos políticos e dos ricos. Os intelectuais brincando de roda."

Até que chegue o momento esperado por esses artistas atuais: a arte e a poesia será tudo, estará em toda parte. E portanto não será nada, dissolvida em teoria e no cotidiano das massas, e finalmente deixará de existir. Se arte = tudo, a definição da palavra perdeu o sentido.

Mas lutar pela arte é atitude conservadora enquanto os artistas continuam com esse esforço ininterrupto de destruí-la. Parece-me que revolução agora seria voltar à Grécia e buscar o belo, transformar a arte em uma ilha em meio ao caos. O verdadeiro choque não é mais o feio. Há muito tempo a sociedade aprendeu a conviver com o feio e amá-lo.

Talvez não seja esse o caminho da arte, mas insisto que o novo ainda é o mesmo desde a primeira guerra, e estamos próximos de ver completar um século desde que ela aconteceu. Não há novidade no feio e na destruição na arte. Não há novidade em se desconstruir porque não há mais o que se desconstruir. A arte clássica já foi negada e enfrentada. O que fica é uma estagnação, uma tentativa eterna de se renovar algo que já está esgotado.

O sentido do modernismo dissolveu-se em tantas atitudes despropositadas, jovens rebeldes que não sabiam o que estavam fazendo ou o que exatamente estavam negando. Mas a semana de 22 foi há quase 80 anos e as teorias ainda se repetem. O modernismo, reanimador de uma arte monótona e repetitiva, pode agora representar o início da auto-destruição de qualquer tipo de arte.


Pra espairecer, ainda sobre o mesmo assunto, um post antigo do senhor Marmotinha, aqui.

Update: Zérgio querido me fez o enorme favor de descontruir minha argumentação. Careful, young padawan, ele diz, e eu não posso fazer muito mais além de ouvir o que ele me diz e pensar um pouco mais. De qualquer forma qualquer argumentação sempre me parece um tanto frágil e não serve para outra coisa que não a desconstrução. Então estou no caminho certo. O que me resta é essa necessidade obsessiva de colocar em palavras um pensamento caótico e incompleto para que se complete um pouquinho mais e quem sabe um dia se torne mais coerente.

Olivia
17:44 || Arte
comentários

Concordo com praticamente tudo o que disse, e posso fazer uma transposição (escrevi certo?) de tudo o que escreveu para a música, por exemplo. Sobre a arte como crítica musical, eu diria que ela PODE sim ser crítica social, afinal a arte pode ser TUDO. O problema está em uma questão sutil: ela não pode NASCER para ser crítica social. Vira panfretagem, é publicidade, não arte.

Olha, na minha opinião o Modernismo perdeu a pilha já há uns 40 anos. Daria tudo para ver a corrente NONSENSE dominando tudo e finalmente jogando o Modernismo pro escanteio. Já deu o que tinha que dar.

Well, well, já que eu também acho que "qualquer argumentação sempre me parece um tanto frágil e não serve para outra coisa que não a desconstrução", i´ve got no point to begin with. Quer dizer, talvez a arte sempre esteja calcada na negação de algo anterior, daí o brincar de roda... Quer dizer, ah, sei lá, pô!

dear young padawan,
Tens certa razão.
As artes caminharam sempre sobre os pés abestalhados e alternados da tradição e da ruptura. O Barroco rompeu, o Romantismo rompeu, mas todos preservaram várias tradições. Os ismos quiseram ser mais radicais em suas rupturas. Hoje arrombam portas abertas. E a Tradição, hoje, é ser completamente novo, totalmente original e, se possível, um absoluto zero.

Ó, eu vou ler de novo e aí posso falar. Mas há algo de muito bom no modernismo que sempre endola os modernistas de manifesto: O "quid" da arte moderna é um ente oculto, transicional. Há, por assim dizer e para relacionar com o soneto que publiquei hoje, um véu sobre toda grande arte, clássica ou moderna. Daí há quem confunda o véu com uma segunda natureza revelada, e crê que a função da arte é exagerar esta segunda natureza, inexistente e trans-temporal na arte real, mas exageradamente imitada e massificada na sub-arte de viés modernista.
Beijo,

Olivia, você deve ser mesmo muito parecida comigo. Quando eu não gosto de alguma coisa, todo mundo olha na minha careta e vê, principalmente os professores.
O que eu posso dizer, eu achava que era só eu que desconfiava do pseudo-revolucionário que constituiu o Modernismo. Pra mim não teve nada de tão especial e extraordinário para perdurar até hoje, águas passadas, passadas e engomadas, aliás.
Esses "ismos" já eram há muitíssimo tempo, pô! Quando essa gente parar de criar catalogações, neo-não sei o quê, pós-não sei das quantas, quem sabe o estudo da Literatura ficará mais empolgante, analisando o que deveria ser analisado, o conteúdo das obras! E não seus rótulos!
É o que penso.

"inexistente e trans-temporal na arte real" - eu quis dizer meta-existente. 'Sculp.

bom, como já disse pra voce, nao posso dar uma super opiniao pq realmente nao tenho conhecimentos mais aprofundados pra isso. O que posso te dizer é a forma como EU encaro essas coisas, arte em geral. Nao costumo ir atras de opinioes ou de rótulos, gosto até bastante que alguem me indique alguma coisa ou ter uma ideia do que vou ver ou comprar.... mas nada disso me faz gostar de uma coisa ou outra. Se eu gosto beleza, pra mim é bom, e não pq alguem me disse que é bom e eu deveria gostar... e levo isso pra tudo... simples... quando alguem vem discutir gosto ou opiniao comigo, mando logo: "gosto é que nem c..., cada um tem o seu" e acaba a conversa. hehehe

ah! esqueci! gosto muuuuuito de voce!!! hehehehe...

e cada dia que passa gosto mais do jeito e das coisas que você escreve... Vou montar um fã-clube!!! Olivia Forever... hahahahaha

Ok, eu tinha ficado de comentar alguns tópicos da nosso conversa por aqui. Como não dá pra falar de tudo, vou me ater a um ou dois pontos do seu texto que eu considero especificamente problemáticos.

Primeiro, é importante entendermos o que está sendo criticado. Porque existem duas coisas diferentes, mas inseparáveis: arte moderna e modernismo. Diferentes porque uma se refere à arte produzido por pessoas que queriam dar conta de seu tempo, enquanto o outro se refere ao discurso – critico, histórico etc – que busca validar esta arte. Indissociáveis porque ao criticar apenas este discurso sobre a arte – e isso é possível – você está automaticamente propondo um discurso alternativo. Mesmo quando alguém propõe que a arte deveria dispor de qualquer tipo de discurso, isso é um discurso sobre o que a arte é ou deveria ser. Isso explica quando, como você diz, “os lados apresentam um mesmo argumento atribuindo a ele diferente valor.” Claro, se não existe uma verdade intrínseca sobre o que a arte é, a mesma arte é passível de disputas políticas, teóricas etc. E eu digo isso exatamente porque a arte não possui uma natureza imanente. Quando alguém diz ‘arte é isso, arte é aquilo’, não está descobrindo a Verdade da arte, está expressando uma crença sobre o papel da arte na sociedade. Mesmo que não saiba disso. Decorre daí que argumentos bastante generalizados, como o da Estela quando ela propõe que se pare de “criar catalogações” para que nos atenhamos à analise “do que deveria ser analisado, o conteúdo das obras”, que estes argumentos estão sim – na maior parte das vezes inconscientemente – catalogando a arte. Estão colocando um rótulo de incatalogável na arte. É necessário SIM discutir as classificações, pois são elas que definem o que as coisas classificadas são. Não existe experiência “pura” da arte para além de suas classificações. Mesmo quem não conhece estas classificações e pensa que tem uma experiência “direta” está culturalmente informado de alguma maneira sobre o que a arte é ou deveria ser, e está aceitando algum ponto de vista sem saber. O argumento de que “gosto cada um tem o seu” não é necessariamente válido, uma vez que seu gosto não é “seu”, e sim determinado socialmente através das diversas experiências que você teve desde seu nascimento. Se até a idéia de ‘eu’ é uma construção cultural, como diabos pode existir algo ‘meu, e meu apenas?’

Daqui eu posso continuar para um segundo ponto especificamente importante: você fala bastante do que arte não deveria ser. Isso necessariamente implica em alguma noção do que arte é ou deveria ser. Outra evidência disso é falar em destruição da arte. Para algo ser destruído, este algo tem que existir de alguma forma. Você tem que ter alguma idéia sobre o que este algo é. Você me disse que optou por não entrar nesta discussão, mas isso é inevitável. Sua linha de argumentação pressupõe, ainda que de forma oculta, uma série de noções sobre a natureza geral da arte. Aí eu pergunto: que noções são essas? De onde elas vêm? Volto ao ponto que discutia antes: dos inúmeros discursos culturais, explícitos ou não, que nos informam sobre o papel da arte. Sua forma de colocar o argumento cria uma armadilha retórica: você expõe suas idéias de forma demolidora (como a da auto-destruição da arte), amparada em noções que não estão ali para ser questionadas (como a natureza desta tal de arte que está se auto-destruindo). Alguém poderia dizer que estou me desviando de discutir seus argumentos propriamente ditos, mas não é tão simples assim. Lembrando mais uma vez da Estela, é muito complicado, nestas condições, discutir o ‘conteúdo’ do seu post, pois para fazer isso eu teria que concordar tacitamente com as idéias outras que dão sustentação ao post. Seu texto, em pontos como estes, torna-se extremamente traiçoeiro para quem quer chegar e discutir apenas o conteúdo dele. Eu estaria argumentando de uma posição muito desvantajosa. Só dá para eu discutir coisas como a auto-destruição da arte com você se nós dois concordarmos razoalvemente sobre as condições de existência deste fenômeno chamado arte. Do contrario, temos que dar um passo atrás e discutir o que é arte, não tem jeito. É por isso que eu nem discuto arte, por exemplo, com quem acredita em Verdade absoluta. Não dá, é que nem botar um chinês e um grego para discutir cada um em sua língua natal.

Por fim, só para constar, coloco aqui minha posição. Eu sou extremamente critico de certos legados do discurso modernista. Mas minhas razões para isso certamente diferem muito das da maioria das pessoas que normalmente discutem isso, incluindo a maior parte dos que já comentaram aqui. Concordar ou discordar apenas não diz nada. O que importa são as razões pelas quais se concorda ou discorda.

Vale a pena disputar politicamente a arte. A arte não simplesmente ‘é’, ela é o que nós queremos que ela seja.

Olívia, posso incluir a discussão sobre o kitsch e o modernismo nessa discussão? Está no meu último post...

Ai ai ai... redundância horrível, foi mal :o)

Tinha uma frase minha num post que devo ter apagado: "a arte só é moderna se você deixar."

o gato comeu a sua língua?
 

(não será publicado):



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