domingo, 08/05/2005

Conto Desafio - V

Ligeiramente atrasada, chega a Renata com sua continuação pro meu começo de conto. E eu idem, ligeiramente atrasada, deixo ele aqui pra vocês se divertirem enquanto eu sofro com as caixas e aquela zona toda que é casa depois de mudança.

Noir

[Por Renata]

O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.

Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.

Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de
sons.

Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela.

Segurou então, a arma que estava presa junto ao corpo. Encostado na parede, abriu a porta com um leve chute. O silêncio voltou a reinar. Não poderia arriscar a relíquia, era seu dever protege-la. Corajosamente, pulou no corredor com a arma em punho. Olhou para um lado, para o outro, na escada, e nada - apenas um gato, lambendo o próprio corpo, distraído.

Voltou com a arma ao coldre, ajeitou os suspensórios e foi caminhando para o quarto. A mão na maçaneta e uma surpresa: estava trancada.

Ele poderia arrombar a fechadura, como ameaçou fazer. Mas preferiu murmurar:

- Louise, eu sei que você está aí. Abra a porta ou eu atirarei no ferrolho. Eu vou contar até três.

Dois sons agudos seguidos de um estalo, e ela estava lá. Louise segurava um malão e seu corpo sustentava um nínfico vestido preto, que além da cor, em nada era apropriado para uma viúva. Os adjetivos agora pulavam, em seqüência, e não eram nada cristãos. Ela não valia nada, mas tinha os melhores braços e umas pernas que diziam o quão boa dona de casa ela era para o falecido Dr. Morrison.

- Entre, bebé. Não fique parado aí na porta. Ou será que sou uma visita inesperada?

A vontade era de esmurra-la e beija-la até que ela não tivesse mais fôlego. Mas se fizesse isso seria a sua perdição. Começou a se vestir, para evitar aquele olhar inquisidor sobre o seu peito. A camisa rota, o sobretudo.

- Louise, eu vou levar a relíquia até o porto. Saia do meu caminho, eu já cumpri a minha parte no nosso acordo.

Sorrindo, ela senta numa poltrona em frangalhos. Abre a bolsa. Ele aperta a arma contra o corpo. Ela é louca, ele pensa.

- Calma, bebé. Eu só vou acender um cigarro.

E cruza as pernas tirando um isqueiro prateado da cigarreira dourada. A fumaça azulada subia confundindo-se com a luz do neon que piscava moribundo na janela do quarto.

- Querido, você matou o meu marido. E agora eu não vou embarcar sozinha sem você. Ele está morto por nós dois. O Bateau Omnia parte em duas horas. Não há saída. Mas eu também posso chamar a polícia. Duvido que o Inspetor Marlowe o trate tão bem quanto eu trato.

Louca, pensou mais uma vez. E em silêncio, foi até o armário onde estava a Relíquia. Embrulhou o belo Falcão incrustado de diamantes e rubis num jornal vagabundo.

- Você matou seu marido. Louise, você só veio aqui atrás da Relíquia, e ela não será sua.
- Eu não me importo com a Relíquia! É você, bebé! Não seja tolo. A fortuna que eu herdei é suficiente para você ser meu, eternamente.

E, angelicalmente, uma alça do vestido escorregou para o ombro, deixando um pedaço generoso do seio direito exposto, para o deleite do olhar dele. Caminhando, arrebentou um pedaço da liga, deixando as meias de seda escorrerem pelas pernas. O cigarro, atirado no chão, foi prontamente apagado pelo sapato channel. Louise o enlaçou de tal forma, que não havia como se mover. Os lábios estavam tão colados que ele sentia aquele hálito temperado de Martini.

- Eu não vou fazer nada, Louise. O jogo acabou. Vá embora, agora.

Uma lágrima solitária lavou um pedaço da maquiagem bem cuidada, mas ela não se moveu. Por fim, sorriu e olhou fixamente nos olhos pretos dele.

- Eu sempre soube que você era um covarde. Eu avisei o Inspetor Marlowe. Ele já deve estar aqui, idiota. Você vai apodrecer na cadeia e...

Com um estrondo, um homem entra do quarto com a arma em riste. Marlowe, descabelado e com os olhos injetados aponta a arma para Vincent.

- Vincent! Solte a Sra. Morrisson, agora! Relíquia e Arma no chão! Parado!

Vincent obedeceu lentamente. E levantou os braços. Louise, ao seu lado, tentava se cobrir com o lençol.

- Eu já sei de tudo, Vincent. Os responsáveis serão punidos. A lei não pode mais resolver essa situação, resolvo eu. Sra Morrison, venha até aqui.

Louise, sorrindo foi caminhando até o Inspetor, murmurando agradecimentos. Marlowe, andava de costas, para abrir a passagem para mulher, quando Vincent mergulhou no chão, pegou a arma e deu três tiros nas costas da mulher. O cabelo louro e lençol empapados de sangue.

- Vincent!

E Marlowe correu até ele, em pânico.

- Você já devia te-la matado! Para que tanta demora?
- Ela é louca, já te disse.

Vincent guarda a arma e abraça ternamente o Inspetor Marlowe.

- A relíquia, está bem?
- Já está no cofre, faz tempo. Deixe a falsa aqui. Despistará a polícia por algum tempo.
- As passagens do Bateau Omina?
- Devem estar no malão da louca, reviste enquanto eu limpo nossas impressões digitais.

Comprei duas garrafas de Strasbourg para nós dois.

- Elas são uma fortuna!
- É para nossa Lua de Mel, meu bem. E não esqueça, a partir de agora somos ingleses. E ricos.

Olivia
19:45 || Dos outros
Comentários

Precisa dizer se foi bom :D?

Eu voto em Jonny Deep para o papel de Vicent!

O gato comeu a sua língua?


(não será publicado)





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