quarta-feira, 06/04/2005

Propósito

ficção levemente baseada em fatos reais

— Acho que me apaixonei.
— Ah é?

Ele achou melhor ignorar a negligência da amiga e sentou-se ao seu lado no banco de concreto, enquanto ela lia um livro velho qualquer que havia emprestado da biblioteca. Ela lia com a mesma negligência com a qual respondeu à afirmação de Luiz, virando as páginas sem prestar atenção em coisa nenhuma.

Formalistas russos. Blá blá blá. Alguma coisa sobre metrificação e ritmo.

— Pô, é sério— ele insistiu.
— Você não se apaixonou por mim, né?— Ana perguntou, erguendo uma vez o olhar.
— Não!
— Ah, bom.

Ela sorriu e colocou o livro de lado, finalmente atenta ao que Luiz tinha a dizer.

— Se apaixonou por quem?
— O problema não é por quem.
— A coreana?
— Argh!
— Você não gostava da coreana?
— Gosto, gosto. É, ela mesmo, mas o problema não é esse. O problema é... Aquele.
— Aquele problema?
— Isso.
— Que problema?

Luiz soltou um tipo de urro comedido, erguendo as mãos aos céus mas na verdade não estava fazendo menção nenhuma a deus nenhum, mesmo porque não acreditava nessas coisas. Ana pegou seu livro outra vez, mas ficou apenas olhando a encadernação verdinha sem título nenhum, pensando como era bonito andar por aí com um livro de capa dura verdinha sem nenhum título aparente. Dava um ar intelectual.

— Ah!— Ana disse, arregalando um pouco os olhos. Havia se lembrado do problema.— Contar pra ela não vai dar certo, né? Mas você ao menos conversou com ela? Quer dizer, perguntou o nome dela e tal...?
— Claro que já. Ontem. Almoçamos juntos e passeamos na praça do Relógio.
— Que bonito.
— É verdade.

E Luiz ficou um pouco com uma cara um tanto boboca, pensando na coreana e em seu rosto largo e suas bochechas fofinhas e o sorriso de anime.

— Mas e aí, rola?
— Ahn?— Luiz não queria perder aqueles pensamentos.
— Luiz!
— Ah, então, é... Não sei. Mas tem aquele problema, é... Poxa, eu sabia que isso ia acontecer.
— Não precisa contar pra ela.
— Mas e se a gente for namorar e casar e depois ter filhos e tal?
— Nossa.
— Pois é, vai ser um problema sério! “Escuta, querida, preciso te contar uma coisa, quando eu estava na faculdade eu”...
— Ai, não seja dramático.
— Melhor seria não ter feito aquilo.
— Ah, vai se arrepender agora? Foi divertido.
— É verdade.

E outra vez Luiz ficou com uma cara meio boboca, porque sua imaginação era mesmo muito fértil e ele estava pensando em sangue, muito sangue, e na sujeira desnecessária que ficou no chão, e no cuidado que eles tiveram pra não deixar pegadas e outras marcas.

— Não sei o que te dizer.
— Nem eu.
— Não sabe o que dizer pra você mesmo?
— Nem pra ela.
— Não diga nada.
— Mas e se a gente for namorar e casar e...
— Se nem a polícia sabe de nada, por que ela tem que saber?
— Por que eu tô apaixonado.
— Ah, é. Que coisa complicada.
— Nem fala. É mais fácil matar do que se apaixonar.

Olharam-se e riram, dois risos cínicos porque a piada não tinha a menor graça.

— Sabe o que a gente podia fazer?— Ana sugeriu, guardando o livro na mochila.
— O quê?
— Matar mais alguém.
— De novo?
— Ah, você tá precisando arejar a cabeça.
— Tem razão.

Levantaram-se e saíram daquele pedaço onde passavam muitas pessoas e cachorros, e foram sentar em um canto afastado, embaixo de umas árvores. Decidiram que iam matar alguém da Física, porque matar gente da FEA podia ser perigoso — vai que o cara tinha contatos ricos e importantes e tal.

Esperaram a noite chegar e escolheram um funcionário feinho e careca que estava andando meio sem rumo pelo estacionamento. Ela pediu ajuda pra colocar a corrente da bicicleta e ele foi ajudar, todo solícito. Não havia bicicleta nenhuma. Luiz acertou-lhe a cabeça com um pedaço de ferro e então mataram o homem com muito cuidado, fazendo desenhos em seu peito com o canivete depois que ele já estava morto.

Luiz ainda queria escrever alguma coisa na testa da vítima pra deixar a polícia confusa, mas ouviram passos e saíram correndo.

No dia seguinte Luiz conversou outra vez com a coreana. Depois de um mês eles estavam namorando. O namoro durou três meses e no fim Luiz já nem pensava em casar e ter filhos com aquela menina maluca.

A verdade é que Luiz casou, anos depois, com uma chinesa de família rica. Ele não estava apaixonado por ela e não achava tão ruim assim mentir pra ela. Mas continuava tendo amantes orientais; uma por mês, mais ou menos. Ana casou-se e teve filhos e mesmo apaixonada não contou nada ao seu marido. Ela achava que certas coisas não precisavam mesmo ser contadas. Luiz freqüentava a casa de Ana, e os filhos dela achavam que tio Luiz aparecia sempre com a mesma moça, porque todas tinham olhos puxadinhos.

De vez em quando Luiz e Ana se encontravam e bolavam mais um plano para arejar a cabeça.

Olivia
20:59 || Contos
Comentários

Eu estou curioso sobre os fatos reais...

Se eu te contasse, eu ia ter que te matar.

Muito bom, Olivia.

A polícia sabe de tudo. Mas se for querer aparentar que sabe tudo, dá muito trabalho e tal. Por isso a cara de "ahn? do que vc ta falando?"

Não li o post.Estou com síndrome de abandono.Só leio se vc me disse olá.Mas tem que ser um ''olá'' com açúcar e com afeto, senão, não adianta.

Se vc me disser que a única parte real é a do livrinho sobre os formalistas russos, eu acredito. ;-)

Hm. Me sinto ofendido.

O Físico poderia ter pensado rápido. Físicos tendem a pensar rápido. E a usar expressões como "análoga" e "de antemão".

Mas não adiantaria nada. Ele iria morrer, de qualquer jeito. É uma sacanagem, isso é.

ah, eles podiam ter escrito mst com o canivete, no peito do carinha.

ia ser divertido.

Esses dois devem ser os mesmos que andam comendo os meus cookies. Que meda.

porque não matam pessoas no Direito? pessoal da Comunicação ia adorar.

tiagón || 13:23 07/04/05

Meu namorado é físico e eu faço Adm... Vou dizer pra ele tomar mais cuidado.

Essa dos olhos puxadinhos é fenomenal.

Excelente texto.

Ei, Adrilles, Adrilles, olá :)

Roger, a polícia não sabe o meu esconderijo secreto.

Olivia || 16:51 07/04/05

Tiagón, o prédio de Direito fica em outra unidade, dá trabalho demais, tem que pegar dois ônibus e tal...

Ah, sim, Renato, os cookies, deve ser. Andaram comendo os meus também.

Olivia || 16:55 07/04/05

Ai, preciso ler o canto I da Ilíada.

Olivia || 16:56 07/04/05

olivia, vamos arejar a cabeça no fim de semana?

rinogas || 19:10 07/04/05

Sim! Sim! Sim! Pode! Pode! Pode! :D

Onde é q estão os fatos reais???? Porque pelo que me parece.. eles cometeram o crime perfeito.. mataram uma pessoa.. e mesmo depois de anos.. ainda matavam outras pessoas para aliviar a cabeça e nunca foram pegos pela policia.. se essa historia for real ( o que eu não acredito que seja),eles cometeram o "crime perfeito"

Leticia || 00:54 12/06/05

eu to ateh agora imaginando como eh namorar uma mulher com sorriso de "anime" hilario! ehueeu gostei do conto ;]

O gato comeu a sua língua?


(não será publicado)





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