domingo, 24/04/2005
Conto desafio - I
Eu escrevi um começo de um conto. Aí, assim como fez o Dr. Rinogas certa vez, enviei esse começo de conto a algumas pessoas para que elas terminassem como bem entendessem. O primeiro da lista é o David, o estragador de contos que não sabe escrever metafísica, com as palavras dele mesmo.
Espero publicar duas pessoas por semana, mas se essas pessoas não forem boazinhas o negócio complica. Terça ou quarta não percam o texto do Tiagón.
[A parte em itálico é minha. O resto foi escrito pelo David.]
O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.
Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.
Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.
Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela.
Ele peidou. O silêncio agradeceu por ter pulado pela janela, do contrário estaria morrendo, asfixiado. Foi um pensamento tolo, porque o silêncio caiu sobre o capô de um velho Corcel II, sem motor, sem rádio, sem lanternas e sem rodas, abandonado na calçada havia tempos. Foi um pensamento tolo porque o silêncio morreu com o baque sobre o capô. Os adjetivos ficaram chocados, e se transformaram em interjeições de exclamação.
Os passos sumiram no final do corredor. Só então ele se sentiu seguro o suficiente para abrir a porta. Um movimento por vez, a mão na maçaneta, a descoberta da porta trancada, os dedos deslizando sobre as chaves, o giro, outro giro, o chaveiro do candidato à vereador batendo no espelho da fechadura, a maçaneta novamente, mais um giro, com um gemido gostoso da mola da fechadura, uma leve pressão, uma fresta de luz, enfim, a porta aberta. O barato de uma ressaca, pensava ele, era ver a vida ficar metódica, seguindo o compasso das marteladas na cabeça. O triste era acordar em lugares estranhos, talvez com pessoas estranhas, em situações certamente estranhas. Pelo menos não estava todo cagado, como já acontecera antes.
- Jubalbino?
- Hein?
Ah, estava descalço. Descobriu porque pisou em algo viscoso que estava de tocaia no corredor, ali, bem na porta dele.
- Pow Jubalbino, ainda não se trocou? A gente tá arrumando as coisas pra ir embora já!
Que porra de nome é esse, Jubalbino? - Indagava a si mesmo. - O que será que Jubalbino fez comigo?
- Vambora, a unidade móvel ufulógica já tá lá fora.
- Ah, claro. Peraí.
Voltou pro quarto. Resquícios de seu flátulo flutuavam pelo ar, comentando a morte do silêncio. Unidade móvel ufológica? Foi até a janela, e atrás de um Corcel II com o capô amassado, havia uma kombi prateada, ocupado por algumas pessoas vestindo sacos de lixo. No chão, meias e um par de sandálias de couro. Ah, Jubalbino, como você é brega. Já estava vestido, dormiu assim. Não entendeu por que perguntaram se ainda não havia se trocado, até ver um saco de lixo na cabeceira da cama. - Já cheguei até aqui mesmo... - Vestiu-se, à caráter.
- Juba!
- 'Dia...
- Posso te chamar de Juba, né?
- Claro, sem problema...
As marteladas mudaram o ritmo da sinfonia. Tentava lembrar o próprio nome.
- Juba, esse é o Astrogildo - o motorista acenou pra ele - e essa é a Vanessa.
Vanessa! A loirinha com peitinhos durinhos e empinadinhos cobertos por um saco de lixo preto de 100l apareceu em sua memória. Sim, depois da terceira tequila, ela falou de um drink diferente, sangue de enguia venusiana ou algo assim, e depois uma tal reunião interdimensional, e então um convite pra ir pro quarto dela, e não conseguia lembrar de mais nada. Ah, lembrou de ter vomitado o sangue da enguia venunsiana na porta do quarto.
- Bom dia, Juba...
- Então pessoal, todos prontos pra reunião? Que sorte a nossa, hein, encontrar o embaixador arquiliano no bar!
- Vamos agradecer em arquilianês!
- Azublapiuuuuuuup! - Os três agradeceram Jubalbino em arquilianês. Todos sorriam alegremente, embora o sorriso do motorista parecesse um tanto insano, fato que deixou Jubalbino levemente alarmado. Só não ficou mais alarmado com o fato porque já estava suficientemente alarmado por estar numa kombi ridicualmente prateada com pessoas que vestem sacos de lixo falando arquilianês. E estavam indo para fora da cidade, mais precisamente para um canavial.
- A reunião interdimencional desse ano vai ser fantástica!
- É, depois que os greys se renderam, as raças do lado setentrional da galáxias finalmente puderam voltar a se comunicar com a gente!
- Ainda me lembro da primeira mensagem telepática que recebi dos zarulianos!
O motorista estava realmente emocionado, lembrando dos seus longos diálogos telepáticos com os zarulianos. Agora Jubalbino sabia porque Astrogildo tinha aquele sorriso meio insano. De qualquer maneira, haviam chegado ao canavial, era melhor pensar sobre como Astrogildo é estranho mais tarde. O canavial, estavam numa clareira no meio do canavial.
Haviam outras kombis prateadas no canavial, e Jubalbino percebeu que eram numeradas. Ele veio na unidade ufológica móvel 04. Eram ao total seis unidades ufológicas móveis. Outras pessoas com sacos de lixo os saudaram.
- Gente, esse é o embaixador arquiliano!
- Azublapiúúúúúúúúúp! - Jubalbino não conseguia distinguir a variação tonal existente entre uma saudação e um agradecimento em arquiliano.
- Er... obrigado, obrigado.
Não puderam continuar os diálogos, porque do céu desceu uma calota com luzes coloridas e piscantes. A calota era muito grande, cobria toda a área onde estavam estacionadas as unidades ufológicas móveis. Também era prateada como elas. Mas com luzes coloridas e piscantes, e pairava a poucos centímetros do solo. Uma porta apareceu de um ponto improvável da calota. Todos os trazidos pelas unidades ufológicas móveis estavam ansiosos para conhecer os zarulianos. Astrogildo se adiantou e correu em direção à porta, que emanava uma luz cegante.
- Astrogildo, não! - Vanessa percebera formas familiares se destacando na luz ofuscantes. Ela já vira essas formas antes, aos doze anos, quando fora abduzida. Eram greys!
Astrogildo não teve tempo de perceber seu erro - um raio invisível dos greys o fez virar fuligem. O pequeno grupo vestindo sacos plásticos começou a correr desesperadamente em círculos, virando fuligem antes de poderem entrar no canavial. Restaram apenas Vanessa e Jubalbino. Dois baixinhos cabeçudos se aproximaram dele, com armas de raios invisíveis greys nas mãos.
- Não, o embaixador arquiliano não!
O grito de Vanessa surpreendeu os greys. Entreolharam-se, surpresos, e falaram alguma coisa em arquiliano para Jubalbino. Ele ficou em silêncio, não entendia a situação. Sua mente funcionou melhor quando um dos greys lhe apontou uma daquelas armas de raios invisíveis. Fez um esforço mental incrível, e conseguiu balbuciar a única palavra que conhecia do idioma arquiliano:
- Azu... Azubla... Azublapiúuup!
Os greys ficaram chocados. O embaixador arquiliano acabara de declarar guerra aos greys e ao lado meridonal da galáxia! Precisavam sobreviver para contar aos seus conterrâneos, antes que um ataque surpresa arquiliano acabasse com sua civilização. Correram em direção à calota gigante com luzes coloridas e piscantes.
Jubalbino suspirava aliviado, quando Vanessa saiu correndo atrás dos greys.
- Nunca os perdoarei, malditos!
Um terceiro grey, que cobria a retirada dos outros dois companheiros, transformou Vanessa em fuligem com sua arma de raios invisíveis. Os greys entraram na calota, a porta desapareceu, e a coisa voltou pro céu, desaparecendo em seguida. Seis unidades ufológicas móveis, e um monte de fuligem no chão. Jubalbino de repente se lembrou que seu nome era Jocelino, não Jubalbino. Também percebeu que suas meias estavam sujas com toda aquela fuligem. Entrou na unidade ufológica móvel 04 e voltou pra cidade. Mais tarde, após virar a quarta tequila, lembrou-se que falava arquiliano, e bradou em alta voz, aos seus companheiros do bar:
- Azublapiúúuúp!
Foi fulminado por um agente grey disfarçado que só tomava água, no outro canto do bar.
Sabe, ninguém vai ler isso aqui. O que não é ruim.
Bom, eu li e gostei porque nunca imaginei uma história onde adjetivos e substantivos virariam personagens.
Muito original.
Eu fiquei feliz por não ter cedido ao primeiro impulso. Eu comecei essa continuação com história de alienígenas, também. Acho que a frase da Olivia "Uma luz entrava fraca e esverdeada" é que influencia isso.
E fiquei feliz, por sorte, porque a minha versão ia ficar uma droga. Isso aqui tá altamente filmável. Dá pra fazer pro Festival do Minuto!
E eu também aceitaria um drinquezinho estranho com a Vanessa. Azar do universo.
Olivia
não tem acento. Olivia não tem critérios. Olivia não existe. Olivia talvez
seja fruto da sua imaginação.