terça-feira, 26/04/2005
Conto desafio - II
Entra o rei Tiagón underground para escrever a continuação do meu começo.
Sexta-feira, ou sábado, tem o texto de outra cobaia humana pessoa super legal.
Tiagón anda meio underground. Ele não sabe se isso é bom ou não. Talvez sejam as más-companhias. Mas como disse Cortázar, "talvez seja o diabo quem diz essas coisas, e talvez você acredite nelas porque quem as diz é um rei".
Xadrez chinês
[Por Tiagón]
O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.
Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.
Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.
Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela. Ele esperava tanto tempo por esse momento. Era a hora do dia que ele mais gostava. Quando ela chegava. Há quatro meses era assim, toda noite tinha um momento especial. A hora de sentir-se em casa. De sentir-se amado e seguro. Ainda que no fundo ele soubesse que jamais estamos seguros. A segurança é um broche de lapela em forma de joaninha. Ela não vai pra Assunção com ele de jeito nenhum. A segurança é uma tatuagem de escorpião no pescoço. Abriu a porta suando frio. “Entra”, “Cheguei cedo, hoje”, “Que bom, tava ansioso”. Ele sorrindo infantil, ela olhando distante. “Tira logo a roupa”, “Primeiro, um beijo”, ” Primeiro, a grana”. Tirou do bolso os seiscentos paus. E como sempre ela contou e sorriu e beijou e lambeu e sentou e fez tudo aquilo que um dia ela fez de graça para ele no tempo em que ele era seu namorado até o dia em que ela descobriu na faculdade uma nova carreira além da Psicologia. Seiscentos paus pra que ele se sentisse em casa, um pouquinho, de novo. “Vem pra Assunção comigo não vai te faltar nada grana amor sexo droga”, “Cala a boca eu já disse que nunca seu nojento feioso”, “Tu me amava”, “Eu tô noutra cai fora goza de uma vez”. A amava tanto que não queria gozar senão acabava mas sempre gozava acabava em poucos minutos. E ela sorria chamando de trouxa e de otário passando a toalha dele na vagina pra limpar o lubrificante da camisinha. Vestiu-se rapidamente e voltou a ser a putinha mais linda da faculdade e caiu fora dizendo sarcástica “Me liga amanhã? Claro, cedinho tu liga, tu sempre liga bem cedinho, todo dia”, deixando a porta aberta e sacudindo bastante a bunda. Ele levantou vagarosamente e lacrou o quarto com força. O prédio todo tremeu. Ele sentiu-se tremer. Sentou-se na cama. Tentou encontrar o silêncio outra vez. Não conseguiu. Desenhou uma carreira sobre um livro e cheirou fundo. A luz tremulava em sua retina e ela doía, mas ele não fechava os olhos. Era muita zoeira naquele bairro. E ele ia ter que descer. Achava uma merda, ter que descer. Mas precisava fazer dinheiro pra pagar o aluguel no outro dia. Acertar as contas com a dona do muquifo. Amanhã ele vai embora. Precisa fazer a grana pra passagem. Custa caro porque é ônibus clandestino, o negão Saul explicou. Amanhã, Assunção, ele pensa. É caro mas é seguro e vale a pena. Quer livrar-se desse lugar, dessa puta, desse horror. Precisa fazer grana pra passar os primeiros dias, se aclimatar, encontrar os canais pra depois vender o pó. O negão Saul conhece o cara, sai ônibus quase todo o dia. Chega dessa sujeira e da puta e das luzes saindo dela. As ambulâncias passam em frente aos cartazes dos topos dos prédios, voando baixo com suas sirenes ligadas. Ele precisa de um pouco de soro. E alguns pontos no supercílio que abre constantemente durante o sono. O sangue escorre e as nas cavidades oculares forma poças de líquido encarnado e viscoso. Os olhos afogam-se e, nos sonhos, ele não enxerga nada.
Vestiu o capote verde-musgo, pegou a mochila preparada e saiu pela janela. Era escuro e estava úmido. Cruzou o telhado e tomou a escada de segurança. Desceu vagarosamente, luz intermitente no rosto, observando pelas janelas muito próximas as vidas farrapas que esquadrinhavam-se como um xadrez chinês de peças coloridas entrelaçadas. Ele tinha medo de tudo aquilo. Ele temia as pessoas, sobretudo as pessoas felizes. Com sorrisos acoplados como máscaras de festa infantil. Não fazia sentido pra ele. Se lhe olhavam esgueirando-se na escada, freqüentemente achavam que era um lagarto enorme. As crianças até brincavam com ele, chamando-o de Senhor Lagarto. Era um dos motivos pelos quais não costumava descer de dia.
A saída da escada dava num beco, um dos muitos Brooklyns particulares da avenida industrial. Os caminhões e ônibus que ousavam circular por ali à noite estavam sempre apressados e preferiam não notar o festival de ilicitudes que acontecia todos os dias em cada um dos pequenos mocós entre os blocos do imenso conjunto residencial perdido entre as fábricas mais poluentes da cidade. Polícia só quando aparece alguém morto. No Beco da Gazela, ficavam as putas mais fodidas da zona e os viciados em crack. Alguns habitués já conheciam a figura que descia serpenteando pela escada do bloco C, e o apelidaram de Homem-Aranha. Ele também não gostava, mas era melhor que Senhor Lagarto. Passava sem olhar pra ninguém. Tudo era motivo pra tiroteio. Que lhe chamassem do que quisessem. Três becos depois achou o negão Saul. Cumprimentaram-se numa conversa de números – “Três” “Quinze” “Vinte” “Dezessete” “Fechado” – e a mochila trocou de mãos, foi esvaziada, e então recheada de dinheiro, em notas amassadas. Saul estende quatro, ambos cafungam, e então barulho de sirenes e as ambulâncias coloridas como mariposas na lâmpada. Cumprimentam-se outra vez e ele sai dizendo “Amanhã te ligo pra ver o esquema de Assunção” e o negão Saul ri “Certo, claro, amanhã, tu diz isso sempre, rê rê, liga certo claro” e ele sai cabeceando furioso esbarra numa puta e leva uma bifa nos beiços pra deixar de ser filho da puta. Sobe a escada correndo pra não ouvir os gritos de Homem-Aranha mas é inútil. Ele aracneia pelos degraus com as pernas bem abertas e as costas em corcunda, para movimentar-se entre as sombras. E as putas riem dele enquanto vendem pedras de crack por três reais para os viciados.
Ele sobe veloz correndo os degraus estalando em metal velho e mal chega ao telhado, já encontra companhia – engatilhada, e em direção ao rosto. Tá te achando mui esperto, diz o Telha, braço esticado fazendo mira, uma hora a gente ia te achar, diz o Guigo, segurando as sacolas de viagem, as que ele guardou embaixo da cama por quatro meses, por quatro meses nesse inferno imundo de hotel lazarento, dormindo em cima de uma fortuna de quilos e quilos em cocaína, pensando a cada noite que no dia seguinte iria embora, pegaria o ônibus e se mandava pra Assunção, pra ficar longe desse inferno e num lugar em que os homens do Afonso nunca o achariam, mas aí ao acordar de manhã cedo ele só pensava na puta, naquela puta filha da puta que não sai da cabeça e então era mais uma noite esperando pra ficar quinze minutos em casa com ela cadela que não quis de jeito nenhum ir morar com ele no Paraguai porque ele é o Senhor Lagarto e o Telha diz te fodeu, compadre, e dispara a pistola na cara dele, duas vezes, e ele ainda pode ver as pessoas no xadrez chinês pela luz intercalada do beco que agora percorre em vôo descendente, chamem-no de Senhor Morcego, ele tá voando pra Assunção e podem dizer praquela puta que amanhã ela não precisa vir.
Tá bom, você ganhou.
Huur, novo template, lero lero.
Perceba que o conto agora é um mero detalhe.
Tô babando. Muito, muito bom. Laranja é bom, com cinza é bom. Vou copiar no futuro :P
Eu posso falar do conto ou serei linchado aqui?
Hm, Tiagón é foda. Complicado, viu?
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Olivia
não tem acento. Olivia não tem critérios. Olivia não existe. Olivia talvez
seja fruto da sua imaginação.