sábado, 12/03/2005

Destino

Tinham uma relação complicada. Desde o começo fora assim. Ela, demais exigente, ele, demais negligente. As coisas foram virando uma bola de neve... Mas fato era, ele gostava daquela mulher. Esforçava-se, mas as coisas já havia chegada a um ponto. Aquele ponto. Ela havia lhe dado uma última chance. Num lugar movimentado da grande São Paulo, a moça o esperava. Gostava dele? Talvez. Pois afinal, manteve aquilo por tanto tempo... Tolerante na medida do seu possível.

Óculos escuros, sem emoção, arrependida, mexia nos cachos com a ponta dos dedos. Tão frágil, pequena, sem se dar conta da insignificância de seu problema frente ao resto do mundo, e das milhares de vidas que passavam pelos seus olhos, cada uma com uma preocupação. Por um momento até tinha a impressão de que tudo parecia se encaixar, como se todas aquelas vidas fizessem parte da sua, ou de alguma coisa maior ainda, maior até que o próprio planeta. Olhava no relógio. Tinham combinado. Se ele se atrasasse mais de cinco minutos, era o fim. Ela ia para Curitiba, e esqueceria aquele amor mal resolvido.

E o horário. O tempo passava sem piedade, no mesmo ritmo sempre, sempre, tic-tacando o coração daquele jovem desesperado. Olhava os ponteiros cruéis do relógio, não tinha muito tempo e atrasara-se para sair do trabalho. Seu plano era chegar adiantado, e agora estaria entrando no vermelho em dois minutos. Corria, num gesto um tanto inconveniente, passando por lentos transeuntes, senhoras com suas sacolas de feira. Pois parece que o ser humano custa a se dar conta do que tem nas mãos, até que percebe que não o tem mais, ou que em breve não o terá.

Ele amava aquela moça, e o medo de perdê-la o transformara em outra pessoa. Afastava-se ocasionalmente quase sem querer, incontrolável. Tinha medo daquele relacionamento tão frágil. Um vaso de vidro, que podia a qualquer momento cair no chão e se estilhaçar inteiro. Gostava dela, e estava disposto a ter essa chance. Seria uma nova pessoa. Enquanto corria, pensava nela, e um frio lhe subia a espinha quando imaginou que se não chegasse logo, nunca mais a veria. O triste fim...

Com um olhar melancólico ela olhava a rua, e a esquina de onde ele deveria surgir, quase esperançosa. Mas o tempo em sua preguiça passava sem passar, e ela sabia que o moço chegaria na hora, que já era escrita no relógio de pulso. Ou usaria seus créditos para atraso, mas chegaria. Cinco minutos. Abaixou a cabeça, com o peso da vontade de ir embora, espiou a esquina, mas ele não chegava. Chegaria... Tentou pensar em algum motivo para que ele não aparecesse, mas concluiu que aquilo era um absurdo. Ele tinha consciência da gravidade da situação, e ela acreditava em todas as vezes que ele dissera o quanto a amava. Olhou no relógio e mais um minuto havia se passado.

Ele parava então de correr, ia atravessar a rua. E qual foi sua surpresa, quando notou aquela estranha movimentação ao erguer o olhar. Três homens de uniformes, policiais, controlavam o trânsito. Um deles bloqueava a rua que cruzava aquela, e outros dois mantendo os pedestres na calçada, enquanto dúzias e dúzias de viaturas, motos, carros e caminhões passavam em alta velocidade para entrar à direita na perpenticular. O pobre jovem, desespero, olhou aquilo, sentindo uma angústia infernal crescendo em si. Paralisou, jogou os braços ao longo do corpo. Um perdedor. Sentia que carimbavam a testa com a maldita palavra, letra por letra. “Você perdeu.”, cada viatura que passava dizia, com suas ensurdecedoras e desgraçadas sirenes. No poste ao seu lado batia a cabeça com vontade, e ouviu ainda um engraçadinho dizer:

─ Precisa tirar o pai da forca, rapaz?

Uma ou duas gargalhadas. Sim, ele havia perdido. Olhou em desespero a fila de carros que ainda estavam por passar, mas recusava-se a olhar as horas, recusava-se a perder aquela última gota de esperança. Sem saber que, naquele exato instante, ela, já incomodada o bastante com o som daquelas malditas sirenes à distância, olhava uma última vez para a tal esquina, e seguia seu caminha, afastando-se para sempre. Sete minutos. Ele não havia mudado. Azar dele.

E ele... Chegava minuto depois ao ponto de encontro, e lia as horas desconsolado. A esperança ia embora junto do som de sirenes ao longe, e ele estava sozinho. Que são essas ironias do destino, que vez ou outra se metem na vida da gente. Como se estivesse tudo planejado, fosse para estragar ou arrumar a situação. Coincidências. O destino. Sujeito esse, na verdade, sarcástico. Ironia é puro eufemismo.

Olivia
12:08 || Contos
O gato comeu a sua língua?


(não será publicado)





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