sábado, 19/03/2005
Andrézinho, Andy Pan
ficção, pedaço de história nenhuma, preparação do campo para uma idéia futura, adaptação de uma idéia antiga
Não, eu não vou me suicidar. Fuga por fuga eu poderia mesmo só sair dessa cidade de merda e daria na mesma. E não, eu não tenho coragem de sair, assim como não teria coragem de me suicidar, — como já disse alguma vez para alguém, não me lembro quem — mesmo porque viveria para sempre com a culpa de ter deixado meu pai sozinho e nesse caso, é, tem razão, o suicídio seria até mais fácil. Qualquer responsabilidade morreria comigo. Ah, mas continuo.
Prisão.
Foi o que esse lugar foi para meu irmão Sérgio, literalmente, e tem sido para mim, ainda que em metáfora. Dá na mesma. Prisão é prisão, concreta ou abstrata. Meu mundo aqui é tão pequeno que eu fico claustrofóbico. E eu procuraria ajuda médica, se houvesse por aqui um médico além do doutor Alcides, de 74 anos, que é de outro tempo. Ele não me entenderia.
Ninguém aqui me entende. A cidade é minúscula e o povo daqui é cabeça-dura e atrasado, de uma mentalidade retardada. Odeio por os pés naquele lugar e acabo ficando ainda mais preso nessa pousada de fim de mundo num buraco no meio do mato. Bicho do mato. Meu pai me chamava assim, brincando, há algum tempo atrás, antes do que aconteceu com o meu irmão, quando ele ainda sabia sorrir. Eu sou literalmente um bicho do mato.
Não me dou com gente, e quando ponho os pés naquela cidade todos me olham estranho. Sei que a culpa não é minha. A culpa é da mata, das lendas, do meu avô Julian que inventou essa história de construir uma pousada em cima de um monte de lendas. A culpa é de meu irmão, da família da minha mãe que foi toda embora daqui para São Paulo e nunca mais deu as caras. A culpa é desse povo idiota que vive nesse tédio absoluto e precisa da desgraça dos outros pra alimentar as fofocas. Porque as novelas da televisão não são o suficiente.
A culpa não é minha. A culpa não é minha que meu irmão se enfiou no meio do mato à noite e nunca mais voltou. Não. A culpa não é minha e também não é de meu pai.
Eu queria cursar uma faculdade, porque talvez alguns anos de estudo me serviriam pra preencher esse vazio que existe no meu peito. Faculdade de quê? No colégio, eu era bom em matemática, química, física e biologia, aquelas matérias que todos os colegas odiavam e pediam ajuda. As meninas me pediam ajuda. André, como eu faço isso aqui?
Meu irmão dizia que elas só falavam comigo porque eu sabia resolver os exercícios de matemática.
Quis fazer faculdade de biologia, quando por um momento passou pela minha cabeça que existia a chance de sair daqui. André, o biólogo. Não, jamais isso funcionaria. Sou André, o irmão do Sérgio menino que quase matou um moleque na porrada. André, o filho do Eric o cara da pousada, aquele homem estranho que nunca mais veio aqui na cidade. André, filho da Júlia a da família grande que foi embora, filha do Julian que ficou maluco. André, um dos netos do Julian o sujeito que construiu uma pousada em cima de um monte de lendas sinistras.
Não sou ninguém.
Meu pai diz que não precisa de ninguém. Meu pai precisa de mim. Ele não sabe disso, conscientemente, mas precisa. Eu sei.
Ódio que eu tenho dessa consciência besta, de cuidar de alguém que não percebe que eu existo, que não pergunta se estou bem, se preciso de alguma coisa, uma conversa de pai e filho, um abraço, porra. Você é meu pai, Eric.
Puta que pariu. Falar palavrão não me ajuda em nada.
Ah, maldita tolerância. Por que eu fui nascer tão tolerante? Tão bonzinho. André, o menino bonzinho, aquele moleque fracote, irmão do Sérgio que jogava basquete no time da cidade antes de espancar um menino do colégio até ele quase morrer. De tanto odiar o meu irmão, tornei-me seu oposto. E ele era estava em um extremo tão extremo que eu acabei ficando na outra ponta, no outro extremo.
Mas eu esqueci que nenhum extremo é assim tão bom. Todo extremo é, de certa forma, insensato. Eu bem que poderia ter encontrado um meio termo para essa palhaçada.
Será que meu pai não percebe?
Meu pai acabou herdando o estigma de uma família que não era dele. Transpondo o estigma em seu sobrenome. Stevenson. Meu tataravô ou o pai dele, não sei, era um americano errante que veio parar no estado de São Paulo por algum motivo que ninguém ficou sabendo. Depois sumiu de novo e deixou só o sobrenome feio que me matava de vergonha, — Andrézinho yankee, Andy Pan — que sobreviveu em uma família que dava tanto filho homem. Esse Stevenson tataravô deixou olhos azuis no meu pai e meus olhos que não tem cor de nada, da cor dos olhos do meu irmão; cinzentos, amarelados, castanho-claro, verde-azul. Ninguém sabe dizer.
Eric Stevenson. Perguntavam se meu pai era americano, inglês, australiano, canadense ou o que fosse. Imagina, alguém mais brasileiro que ele, morador de uma pousada no meio do mato do interior paulista, sem faculdade feita; só um curso à distância sobre gerenciamento de pousada que ele fez depois. E nem precisava, porque o sogro e o cunhado e mesmo minha mãe já haviam lhe contado tudo que precisava saber. Isso antes do meu tio Vitor sumir no meio do mato como depois sumiria meu irmão. E isso antes de meu avô Julian enlouquecer com o desaparecimento do filho queridinho que não foi embora como todos os outros. E isso antes de minha mãe resolver que não podia mais morar naquele lugar sinistro, e que levava os dois filhos pequenos com ela para a cidadezinha ali do lado. Tudo bem, Eric, vamos estar logo aqui do lado.
Eu era muito pequeno, não me lembro.
E além do sobrenome a família não tinha ligação nenhuma com os Estados Unidos e eu nem tinha vontade de ir pra lá. Sonhar alto para mim era sair daquele buraco. Rio Claro era cidade grande.
Mas eu ia pra São Paulo, São Paulo. Ia sim, um dia.
Eu, com 23 anos, carmas familiares à parte, preferia acreditar que ainda tinha muita vida pela frente, e um dia meu pai não precisaria mais de mim.
Meu irmão sumiu aos 25, um ano atrás. Parece que foi há mais tempo. Parece que foi há uns cinco anos. Parece que estou preso nessa pousada há algumas décadas. Desde que meu avô Julian resolveu construir essa porcaria de lugar no meio do mato e em cima das lendas que eu já estou preso aqui; desde 1921 quando eu nem pensava em nascer e devia ser feliz lá no mundo dos espíritos.
Mas já começo a delirar.
Primavera.
Em uma semana daria o dia exato do desaparecimento de meu irmão e eu sentia o peso que caía sobre as costas de meu pai como se caísse sobre as minhas. No feriado da semana da criança a pousada chegava a lotar. Eu achava isso bom porque me ocupava e pensava menos nessas coisas todas que povoam minha cabeça.
Eu tinha saudades da minha mãe.
E tudo resolveu acontecer assim, tão rápido, naquela semana. Justo naquela semana, quando daria o dia exato do desaparecimento do meu irmão e os olhos azuis do meu pai ficavam cada vez mais sombrios.
E chovia.
[Uau, você leu até aqui. Ok, a história não continua. Mas vai continuar. Um dia. Eu juro que aviso. Juro.]
Bah, ninguém vai ler isso aqui.
tu erraste, guri... jah li e achei trilegal...
desculpa, minha linda... faltou um "a" no "guria"... sorry...
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Olivia
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