sobre o nada e o inevitável, e sobre a vida imaginária de pessoas que não existem.#

17.01.2005

Carteado

primeira parte

      A placa na entrada daquela vila queria dizer pouco. Um nome conhecido apenas de tanto ser repetido na cabeça, mais nada. Havia conseguido evitar a cidade vizinha, margeando o município pela estrada, e após cinco horas, em um percurso que ele com certeza faria em uma hora se estivesse de carro, chegou. Água ele ainda tinha, no cantil, porque economizava. Mas estava com fome.
      Ouvia o som de grilos e outros ruídos da roça que desconhecia. Àquela hora da noite, os habitantes daquele pedaço de terra dormiam. Os cavalos dormiam, as vacas dormiam — as galinhas, aparentemente, estavam acordadas — e o cachorro que viu encostado na parede da primeira casa também dormia.
      Olhou no relógio. Onze e alguns minutos.
      Havia dias em que estaria acordando nesse horário.
      Desceu para o que lhe disseram ser a rua principal. Principal, talvez, por ter uma venda e um boteco. O boteco era seu destino, e era a única luz acesa que encontrou naquela rua. Andou até ele, com os passos sofridos de quem passou as últimas cinco horas caminhando. Homens falavam em voz alta. Jogavam truco.
      O lugar era uma casa feia pintada de alguma cor qualquer que ele não distinguia com a luz azulada da lua. Em uma placa sobre a porta estreita estava escrito “bar da vila”. Pensou que era um nome até que original, mas não entendeu o próprio raciocínio. Original? Bar da vila? Ele poderia ter um bar com esse nome sem pensar muito na hora de encomendar a placa.
      Entrou.

      Já esperava que olhasse para ele com espanto. Só não estava contando com aquele silêncio mortal que pareceu desabar sobre sua cabeça no momento em que colocou o corpo para dentro da casa feia. Seus olhos pousaram imediatamente sobre o grupo que jogava cartas e percebeu que um deles aproveitava a distração dos colegas para tirar, literalmente, uma carta da manga. Amador.
      O homem barrigudo atrás do balcão que falou:
      — Pois não?
      Percebeu que seria de qualquer jeito o centro das atenções nos próximos minutos. Sorriu, um sorriso que pensava ser simpático, mas não recebeu nenhuma reação positiva.
      — Eu andei cinco horas. Preciso me sentar e comer alguma coisa.
      O homem apontou uma mesa vazia — a única mesa vazia — no canto mais afastado dos jogadores de truco.
      — Tem muita coisa pra comer a essa hora não, seu moço— o dono do bar disse.
      — Qualquer coisa me serve— respondeu, um tanto rude.
      Porque era de sua natureza. Ele queria ser simpático, mas lhe era difícil demais.
      O homem fez uma careta de desgosto, torcendo o bigode grisalho, e entrou em uma porta ainda mais estreita e feia do que a porta de entrada. Os outros homens no boteco continuaram com suas conversas, mas em um tom mais baixo, e lançando olhares não tão discretos na direção do forasteiro. Os jogadores pararam o jogo para beber mais um pouco. Um deles pediu licença se levantou e saiu de cabeça baixa, sem nem sequer espiar aquela mesa afastada.
      — Qual teu nome?— um velho perguntou ao recém-chegado, sentando-se numa cadeira de frente para dele, tendo nas mãos um copo pequeno com uma bebida qualquer. Ele tinha cheiro de álcool.
      — Rios.
      — E isso é nome?
      — É nome o suficiente— retrucou.
      — Como é que tu veio parar aqui a pé?— o velho continuou.— Ninguém vem parar aqui a pé a não ser que esteja muito perdido ou saiba muito bem o que quer.
      — Eu sei muito bem o que eu quero.
      O jogo de cartas havia acabado com a saída daquele sujeito esquisito. Um dos jogadores brincava com o baralho e os outros bebiam, conversando no mesmo tom de voz receoso do resto do pessoal.
      Foi quando Rios percebeu que havia uma mulher entre os homens. Ela estava sentada atrás de um dos jogadores e tinha os cabelos curtos. Usava uma camisa larga e xadrez, e só parecia uma mulher porque tinha os traços do rosto delicados e seus olhos a denunciavam. Ela o fitava com ares de desconfiada.
      O velho sentado à sua frente também.
      — Eu tô atrás de uma pessoa— Rios disse.
      — Quem?— A curiosidade do velho era irritante.
      — De onde eu venho ele é conhecido por Três. Ouvi dizer que o seu nome verdadeiro é Sávio Barbosa.
      O segundo silêncio não apenas desabou sobre sua cabeça dessa vez. Atingiu-lhe a cara e socou-lhe o estômago, sem piedade. Era um silêncio dos mais cruéis. Rios estava prestando atenção na moça e percebeu que algo em sua expressão mudara, e ia além da surpresa nos olhos daquele bando de homens bêbados. Ela se levantou abruptamente e saiu pela porta da entrada, quebrando o silêncio em pedacinhos.
      — Que ocê quer co’ Savinho?
      O homem que perguntou não tinha os dentes da frente e falou com um desdém e fúria exagerados, deixando Rios um pouco desconcertado.
      — É dívida? Se for dívida, entra na fila— um outro falou.
      — É dívida— Rios afirmou.— Mas não o tipo de dívida que vocês estão pensando.
      — Ih...
      — Ninguém precisa estar vendo pro moleque se meter em encrenca.
      O dono do bar voltou com um prato quente de comida.
      — Ô, Beto, o homem tá dizendo que veio atrás do seu Savinho— alguém lhe disse.
      — Veio à toa, rapaz— o dono do bar respondeu, colocando o prato na mesa.— Savinho sumiu faz mais de um mês. Até capaz de voltar, porque ele era de sumir assim de vez em quando, mas nunca por tanto tempo.
      — Ninguém sabe pra onde ele foi?
      — Disse nada não— Beto continuou, com o olhar triste.— Eu sou pai dele e pra mim não disse.

(Continua no Lenda Urbana, quando eu avisar.)

Olivia
00:02 || Carteado
comentários

Hmm! Idéias, idéias! Vou escrever no papel, mas infelizmente não vai dar pra digitar porque o meu pai (tirano) proibiu a gente de usar o computador (huhuhu, olhem pra mim).

Mas eu já sei o que escrever.

O Gato de Botas usando a pena do chapéu pra escrever || 11:53 17/01/05

Muito bem, señorita. Aproveitei que papai saiu de casa e não voltou e escrevi um pedaço de texto que num deve ser muito maior que meia página. Prometo que eu escrevo melhor depois.

Carteado, parte II

O Gato de Botas e o Ás de ouros || 12:43 17/01/05

muito bom, mas to com preguiça de ler o resto.

Oh, vc não disse nada. Ah, sim, gostei. Carteado.

Bom. muito bom!

o gato comeu a sua língua?
 

(não será publicado):



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