quarta-feira, 03/11/2004
Desumano
capítulo 2
— Márcio, você tá me ouvindo? Que horas você chegou em casa?
Era a terceira vez que o homem repetia aquela pergunta. Ergui o olhar para fitá-lo, olhando em seguida para o sujeito que estava sentado ao meu lado. O que falava comigo era o delegado; homem pequeno e grisalho, com um bigode feioso e branco. Na verdade, era um segundo delegado que aparecia, pois há pouco tempo um outro homem já havia se apresentado como tal, e inclusive me fizera perguntas semelhantes. O homem sentado ao meu lado, um tanto mais jovem, chamava-se Eduardo. Poderia ter a minha idade, talvez um ou dois anos a mais. Era um dos investigadores.
Eles não pareciam policiais. Enquanto os observava, pensei que eles mais pareciam motoristas de táxi ou funcionários de uma loja de sapatos da rua Augusta. Algum preconceito meu. A presença deles ali, tão próximos de mim, incomodava. Eu não gostava do cheiro deles, do ar quente que eles soltavam com a respiração. Fechei uma das mãos e a senti grudenta, como se ainda estivesse cheia de sangue.
— Márcio, eu sei que é difícil. Mas você tem que fazer um esforço, a gente precisa da sua ajuda.
— Eu não me lembro— respondi.— Não ando de relógio.
Mostrei o pulso esquerdo, onde tinha amarrada a pulseira de couro que comprara em São Sebastião, como se precisasse provar qualquer coisa àqueles homens. O delegado ficou em silêncio e eu voltei minha atenção aos sons da sala de estar, onde os peritos trabalhavam. Estávamos na sala de jantar. Um dos investigadores dissera que eu já havia visto demais daquela tragédia. Mas não fazia a menor diferença, a imagem de antes ainda estava em minha cabeça junto daquele zumbido insuportável, como uma ópera sangrenta. Haviam examinado o corte em minha cabeça, e um dos homens fizera um curativo improvisado. Se tiraram alguma conclusão dele, não me contaram.
Os dois me olhavam com um interesse irritante. Levantei-me e andei até a cozinha — na verdade a continuação da sala de jantar — para olhar o relógio do microondas.
— São dez e vinte— eu disse.— Eu saio da faculdade... Que dia é hoje?
— Quinta-feira.
— Quinta-feira... Eu saí da faculdade às cinco e meia. Mas eu acho que eu não vim direto pra casa.
— Você acha?
— Eu não me lembro— falei, por entre os dentes.
O delegado detestou aquela resposta, pois bufou, impaciente, revirando os olhos com desprezo. Era a verdade, eu não me lembrava. Havia um espaço em branco na minha memória, algum tipo de vácuo.
Isso já havia acontecido antes, poucas vezes, e como o delegado não perguntou, achei melhor deixar pra lá. Às vezes eu dava por mim no meio da rua, sem memória de como ou por que estava ali. Isso podia acontecer no carro, em bairros desconhecidos, e muitas vezes eu não fazia idéia de como voltar para casa.
Sim, aquilo já havia acontecido antes. Mas eu nunca sentira necessidade de me lembrar dos acontecimentos como estava sentindo naquele momento. O relógio digital do microondas queria me fazer lembrar de algo. Dez e vinte e três.
Voltei à sala de jantar e encostei o corpo na parede, cruzando os braços, longe o suficiente daqueles homens. O tira Eduardo me examinava de forma perturbadora, e tive a impressão que ele conseguia ler meus pensamentos, pois havia em seus lábios algo que se assemelhava a um sorriso, mas um tanto cínico e distorcido. Eu queria que eles fossem embora e me deixassem sozinho. Queria deitar e dormir, e espantar aquele zunido da minha cabeça.
— Você quer que a gente ligue pra alguém, Márcio? Pai, tio, tia...?
— Eu não tenho pai. Meu pai morreu— retruquei.
Falei aquilo pela diversão de ver as reações. Meu pai havia morrido quando eu tinha seis anos, e dele eu guardava algumas vagas lembranças de viagens, muito mato e um pouco de futebol no sítio dos meus avós. Sentia a falta dele tanto quanto sentia a falta de um primo distante de quinto grau que eu vira uma vez na vida, e que morreu em uma briga de bar. Consegui, entretanto, a reação que esperava. O delegado abaixou a cabeça e pediu desculpas.
— Algum outro parente? Amigo?
Afirmei com a cabeça, mas era um tanto desagradável a idéia de encarar meu tio num momento daqueles.
— O Sílvio. Na agenda de telefones, em cima da mesinha da sala. É meu tio, irmão da minha mãe.
Estava um calor insuportável ali dentro, e a sala de jantar sempre fora o ambiente mais abafado da casa. Tirei a franja que grudava no rosto e continuei com o olhar perdido, fitando a parede oposta. Em meio ao caos que era minha mente, surgiu uma pergunta. Por que alguém ia querer assassinar minha mãe?
O tira Eduardo levantou-se e aproximou-se do delegado, com uma expressão irritantemente apreensiva. Eles conversaram qualquer coisa em voz baixa, e o delegado fez uma careta descontente.
Eu havia lavado minhas mãos duas vezes desde que as tive cobertas de sangue, mas ainda sentia que estavam sujas. A roupa manchada eu havia jogado no lixo, antes mesmo da polícia chegar. Colocara o saco de lixo na calçada, junto dos sacos do vizinho. Quando pensei nisso, achei que fora uma coisa idiota de se fazer, e me arrependi de tamanha estupidez. A polícia ia desconfiar de mim. Ia achar que eu estava querendo esconder alguma coisa. Eu só queria me livrar do cheiro, daquela sensação de nojo. Sangue e suor. Só queria me livrar...
Sentia um cheiro podre, sem saber de onde estava vindo. E tinha a sensação que o cheiro vinha de mim mesmo.
O delegado virou sua careta de rato na minha direção.
— Isso já aconteceu antes? Esse tipo de perda de memória?
Fiz que sim com a cabeça. Aqueles brancos de memória me incomodavam quando aconteciam, mesmo que fossem raros. Ele veio até mim e ergueu um braço para tocar meu ombro, mas esquivei. O homem fez uma outra careta, um pouco mais discreta. Eu sempre odiei gente pegando em mim sem motivo nenhum.
— Você tem algum médico? Que cuide desse seu... Problema...?
— Não.
— Tá certo...
Ele sacudiu a cabeça e virou-se, fazendo um gesto para o investigador, que saiu para a sala de estar. Ficou mais um tempo me encarando, até que também foi embora, finalmente me deixando sozinho. Os homens na outra sala conversavam em voz baixa, e era impossível entender o que falavam. Ouvi o som das teclas do telefone, e resolvi parar de prestar atenção neles. Vi a imagem de minha mãe, sorrindo, falando que ia voltar mais cedo àquela tarde, e ia cozinhar o jantar. Desencostei-me da parede e fui até a cozinha, parando no meio do caminho e olhando a pia. Havia um pacote fechado de espaguete sobre o balcão, e uma panela vazia logo ao lado. Dei alguns passos à frente. Dentro da pia, vi uma faca grande com o cabo de madeira, a lâmina afiada e quase brilhando, jogada próxima ao escorredor de macarrão.
Não havia motivo para aquela faca ter chamado minha atenção. Mas por alguns segundos, tive a impressão de ter visto aquela lâmina coberta de sangue. Eu podia até sentir o cheiro. Aquele cheiro doce de ferro, um cheiro podre e enjoativo. Num ato instintivo, levei as mãos ao nariz, mas apenas senti o odor do sabonete que eu usara mais de uma vez.
— Márcio?
Virei o corpo num susto, e o investigador Eduardo me encarou com olhos surpresos.
— O seu tio disse que chega em dez minutos.
Olá Olivia, é minha primeira vez aqui gostei muito das coisas que escreveu. Um beijo. Fabricio
Ah, não foi o Márcio. Seria óbvio demais.
Olivia
não tem acento. Olivia não tem critérios. Olivia não existe. Olivia talvez
seja fruto da sua imaginação.