quarta-feira, 13/10/2004

Um dia, um palhaço

Sem dúvida aquilo deveria fazer algum sentido. Mas a jovem tinha a mente vazia, e não fazia mais nada além de olhar. Todas aquelas pessoas, prisioneiros de uma rotina de cidade grande, o início de mais um longo dia. Carros, placas, buzinas, ônibus lotados, gente gritando, e o palhaço. Palhaço? De novo, aquilo recomeçava, mais outra vez...

Esfregou os olhos, e olhou novamente para onde vira o tal sujeito. Sim, ele ainda estava lá, parado, como se não estivesse ali. Ignorado pelo resto da multidão, tão normal quanto ela, decerto também sendo ignorada pela multidão. Quem, afinal, haveria de se preocupar com um... Palhaço? E não era a primeira vez o que o via. Era ele mesmo, o tempo todo, sempre ele, sempre imóvel. Sempre despercebido. Seguia-a? Ou talvez seguia alguém, ironia do destino, alguém que acabava por estar no mesmo ponto de ônibus, ou na mesma padaria. Coincidências existiam. E se não existissem as pessoas logo tratavam de inventá-las. A moça sacudiu a cabeça, espantando aqueles pensamentos sem nexo, olhou se seu ônibus já vinha e logo os olhos pararam outra vez sobre o palhaço.

A figura permanecia sem expressão alguma, parada apenas, nem triste, tampouco alegre, nem mesmo pensativa. E sim, coloria de certa forma a calçada cinzenta e as pessoas sérias que compunham a paisagem. Todo de azul, amarelo, vermelho e todos os derivados imagináveis, parecia uma estátua pintada com guache, em pé, com os braços soltos ao longo do corpo e a cabeça reta, olhando para lugar nenhum. Por um momento, a jovem pensou ter visto-o piscando. Parecia, por um curto instante, alguém como todos aqueles outros.

Ela olhou no relógio, já ficando impaciente. O ônibus, maldito, faria com que ela se atrasasse. Tinha a impressão que aquelas coisas só aconteciam com ela, enquanto via dezenas de ônibus passando. E o palhaço já começava a deixá-la irritada. Parado, quieto, intocável, invisível. Talvez nem estivesse lá. Talvez não devesse estar. De fato, não deveria. Irritava-a, tal sujeito tão alheio. Irritava-a por deixar a impressão de que era a única que o via, e se achava uma louca, vendo coisas por aí. Pensou que logo avistaria uma figura de azul e vermelho voando no céu, do jeito que sua cabeça estava. Por sorte morava no Brasil, e não era por ali que sujeitos daqueles viviam.

E o palhaço.

O palhaço era como que parte dela, absorto em seu tédio absoluto, como que se não pensasse ou mesmo soubesse o que era pensar. A menina ajeitou os livros nos braços, tirando um pouco de franja dos olhos, ainda perturbada, como se ele, sem mesmo encará-la, quisesse lhe dizer alguma coisa, quisesse perguntar alguma coisa ou talvez... Talvez dar alguma resposta.

Olhou, ele piscava. Um ser humano, pintado, com estranhas roupas? E tudo em volta dele ganhava um novo tom de cor, um cinza triste, sem graça, em contraste com suas vestes, que ainda assim eram tão melancólicas quanto sua expressão niilista. E tudo que ela lia em seus olhos era algo que dizia "sou um palhaço", mas sem explicações extras, como se aquilo bastasse.

Até que - surpresa - o palhaço se mexeu. A moça arregalava os olhos, enquanto ele movia lentamente a cabeça na direção do inicio da rua, depois da curva. O trânsito já era maior, os carros passavam lentos e vozes de motoristas estressados já tomavam o ambiente, entre a mistura de sons de música e de noticiários nos diferentes toca-fitas. O palhaço olhava; parecia até respirar o ar fino e frio da manhã; olhava como se esperasse um ônibus. E mexeu-se novamente. Um, dois, três passos à frente. Passos lentos, medidos, e assim mesmo desengonçados, os passos de um palhaço. Sorria? Não. Mas algo em sua expressão havia mudado, como se já estivesse cansado de esperar. Na verdade, como qualquer outra pessoa sorria sem sorrir, de objetivo alcançado.

Virou-se para a moça, encarando-a com as sobrancelhas bem arqueadas e balançou a cabeça, numa misteriosa afirmação. Dizia sim, sou real, ou talvez o extremo contrário, ou mesmo nada daquilo e apenas afirmava. Para a moça, com a moça, e pareceu por aquele momento que dizia que, fosse ele real ou não, ela o via, e ele estava ali de algum jeito. O que era real, de qualquer forma? Que diferença fazia?

Ela não entendeu. Apenas continuou fitando-o, olhos em desespero.

O palhaço.

O palhaço voltou a olhar a rua, e com movimentos pesados aproximava-se dos carros. Um último passo, sumia entre o tráfego, deixava de existir, como se pegasse carona com um vento qualquer. A moça, pasma, mal notou seu ônibus que passava lotado.

Olivia
17:57 || Contos
Comentários

Hm...

Bruno || 00:06 14/10/04

:)

(Saber que alguém leu já me deixa feliz. Mas... Mais nada a declarar? Hm, hm?)

Olivia || 10:55 14/10/04

Minha impressão é que seu texto está menos coloquial - não que o estilo coloquial seja ruim. Alguma influência do sr. Machado, o qual você tem lido ultimamente?

Ops. ;)

Escrevi esse texto em 2002. Estava lendo Guimaraes Rosa, Clarice Lispector - essas coisas vestibulosas.

A ultima revisao desse texto foi esse ano mesmo. Aí, sim, talvez alguma culpa dele.

Nao lembro se li Machado de Assis em 2002...

Olivia || 11:38 14/10/04

A ilustração sob vários ângulos de um paradoxo é o que vejo. Não sei se era este o intuito... Mas gostei.

Bruno || 00:04 15/10/04
O gato comeu a sua língua?


(não será publicado)





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