sexta-feira, 15/10/2004

Passeio Noturno

O que vi, lhes digo, não era algo que se vê todos os dias. Ou noites. Até hoje me pergunto se de fato vi, ou, quem sabe, ilusão, peça que os olhos pregam pra tornar a vida um inferno. A noite estava clara, tinha lua. Não estava cheia, mas quase. As nuvens ralas passavam velozes por ela dando aquele ar meio sinistro, história de vampiro.

Lembro-me da esquina iluminada por que passei com um ritmo lento. Algo me perturbava na época, crises de homem desiludido, sem propósito na vida. E, afinal, que outro tipo de sujeito andaria sozinho na rua a tal hora da noite? Um sorriso bobo nos lábios, sem razão de existir, e talvez desafiando aquela situação um tanto ridícula. Eu, homem feito e bem sucedido, andando sem rumo pela cidade à noite. E, para tornar tudo ainda mais pitoresco, vi o que vi.

Sob a luz forte do luar, um homem sem sombra.

Pois é bem verdade que minha própria mente entra em conflito com minha memória quando me vem essa lembrança. Divagava, quem sabe, os devaneios de um homem moderno. Um homem que não encontra outro horário ou lugar para desligar a cabeça racional e simplesmente ser. Sem fazer. Não pensava sequer no caminho. Era um fato que no final dessas caminhadas eu precisava tomar um táxi para casa. Nunca parava de andar, e às vezes mal olhava o caminho.

Aquele dia, porém, parei. E olhei. A visão do absurdo entrava em conflito com o cérebro de um homem tão racional. Como uma folha que por um momento parece suspensa no ar, girando, até que se nota um fino fio de teia de aranha segurando-a. Mas no homem à minha frente não surgiu sombra. Nem explicação.

Olhei para cima outra vez e assim permaneci, fitando a quase bola, branca, dona do céu, iluminando os cantos escuros da cidade. Voltei ao homem, que tinha o rosto azulado pela luz da lua, mas de seus pés não saía sombra alguma. Ele fitava o infinito adiante, sem me notar na rua deserta. Uma figura estática, cujo silêncio era cutucado pela minha respiração pesada.

Tive medo, e não me movi. Os olhos continuavam em busca da sombra que não existia, buscando acalmar aquele pedaço do cérebro que ia pirar se alguém pudesse dizer que dois mais dois não é quatro.

Mas não. Dois mais dois é quatro, e quando a luz incide num objeto, acontece a sombra. Todos sabem disso tão bem que a própria lua deveria saber. E ele, alheio, continuou sem me notar. Apertei a vista, esfreguei os olhos e no fim só pude mesmo constatar que estava diante de uma assombração. Só podia ser. Só assim para a luz passar por ele sem encontrar obstáculo algum.

Confesso que não fui capaz de deixar de observá-lo por mais tempo, sem mover um dedo, sem coçar a orelha. Perguntava-me se veria o sujeito esvaecendo, virando pó. Ou lobisomem. Nunca se sabe, era quase lua cheia. Permaneci, feito um bobo, procurando a sombra alheia. Quem era, ou fora, aquele moço? Era? Alguém como eu, desiludido, perdido, e tão fora de si que mal tinha sombra? Ou um alguém do passado, que volta ao mundo dos vivos para apreciar o luar? Ele não olhava para cima, reparei. Olhava em frente apenas, e por isso não me viu.

Tanto olhei, e tanto questionei, que já não via a rua, ou o luar, e mal ouvia os ruídos da cidade que nunca dorme. Só o homem, e sua maldita falta de sombra. Inserido no meu mundo como uma colagem mal feita de computador. Tão exclusivo que parecia não estar mais ali, e sim num plano paralelo onde não havia luz incidente e, portanto, não havia sombra. Um plano onde só havia ele, e eu, preso entre dois, pois não ousaria tirar os pés do meu mundo real, onde se tem certeza de que tudo, sempre, tem sombra quando atingido pela luz. O mundo da razão mantinha a minha sanidade, e pareceu demais sensato acreditar que aquele homem não pertencia a ele, mas eu sim.

Mais tempo se passou. Eu ainda estava imóvel, perdido em pensamentos e explicações diversas, absurdas ou não, quando o homem virou-se para mim. Seu rosto era claro, o olhar brilhava com uma luz assustadora e era como se eu pudesse ver através dele. Sem sombra, e sem massa. Eu estava ficando louco.

Foi um momento curto; senti que meus pés deixavam o meu mundo da razão, e não existia mais rua. Não existia mais luar, ou sombras, ou números. Existia eu, sem sombra, e o olhar que via à minha frente sorrindo, rindo, quase gargalhando, quase me desafiando. Resisti, fechei os olhos, ignorei a pergunta que ouvi clara em minha mente e com esforço sacudi a cabeça. Estava na rua à noite outra vez, mas estava sozinho.

Olhei para minha sombra com satisfação; eu era uma pessoa normal, um ser humano. Pisei no chão com firmeza e voltei a andar, respirando fundo. Meus passeios eram loucos sempre. Talvez bobagens do meu inconsciente, quem vai saber? Pois a verdade é essa, a resposta à pergunta que ouvi:

Eu não seria capaz de viver sem sombra.

Olivia
18:41 || Contos
Comentários

homens sem sombra sao Vampiros.
Blood Suckers.

Ou então, são homens de vidro. O Mr Glass, naquele filme depois do Sexto Sentido.
Mais fácil haver sombras sem homens...

Nossa, ha quanto tempo eu nao vinha em seu blog, hein... Nem sabia que vc tinha mudado de endereco! Nossa, que fan desnaturada que eu sou!
Continuo adorando os seus contos, e querendo ser voce quando crescer.

O gato comeu a sua língua?


(não será publicado)





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