quinta-feira, 28/10/2004
Desumano
capítulo 1
Eu não conseguia me lembrar como havia chegado àquela situação. Eu estava ajoelhado no tapete. Sentia as mãos sujas, e o tecido da calça grudado no joelho de um jeito incômodo. Sangue.
Havia sangue por todos os lados, e minha camiseta branca tinha uma enorme mancha vermelha no peito. O sangue não era meu, logo concluí. Sentia uma dor aguda no joelho direito devido à posição, mas além da sensação gelada que o sangue na minha camiseta proporcionava, não sentia nada no meu peito, nenhum corte, nenhum machucado.
Deitada no chão, meio de lado, estava a figura de uma mulher de meia-idade, com cabelos castanhos emaranhados, antes presos em uma fivela atrás da cabeça. Levei alguns segundos para perceber que aquela era minha mãe. E eu, ajoelhado ao seu lado, tinha os olhos fixos nela, sem saber o que fazer. Pensei, antes de pensar qualquer outra coisa, que quem fizera aquilo deveria ser algum tipo de monstro. Ela parecia uma boneca, após ter passado pelas mãos de uma criança cruel, com um corte profundo em seu pescoço, e marcas inchadas de unhas ao longo dos braços.
Examinei seu rosto, como se aquela fosse a primeira vez que a visse. Ela estava com os olhos abertos, esbugalhados, e vazios. Senti nojo, uma ponta de enjôo se formando, como se aqueles olhos fossem me sugar para um mundo morto a qualquer momento. Eu reconhecia minha mãe, mas não conseguia sentir que era ela mesma, ali, ensangüentada e sem vida. Não sentia nada, além de aversão, uma angústia infundada que eu não saberia explicar.
Peguei em seu braço e sacudi. Era um gesto inútil, desprovido de qualquer sentido. Não havia nada em minha cabeça naquele momento, além de um ruído agudo e contínuo, como se eu tivesse acabado de sair de uma festa com a música muito alta. Minha mãe estava morta, e era quase como se eu estivesse dentro de um filme sinistro, apenas esperando que alguém no fundo gritasse “corta!”.
Outros minutos se passaram, e eu continuei ali, parado, fitando a cena com a mente vazia.
Ninguém gritou nada. Nenhum diretor imaginário fez qualquer comentário sobre minha atuação, e por isso me levantei, tirando a camiseta e limpando as mãos nela. Olhei meus joelhos ensangüentados e tive nojo de me mexer. Tirei a calça, os tênis e as meias, ficando só de cuecas. O sangue ainda estava em mim, grudado em minhas mãos e joelhos como cola escolar depois de seca. Mas o desespero que por um momento quis tomar conta da minha razão logo foi controlado.
Entrei no lavabo e olhei meu rosto no espelho. Havia sangue nele também, respingos de sangue alheio. No lado direito da cabeça, próximo à têmpora e encoberto pelo cabelo, havia um corte inchado. E um pouco de sangue meu, seco. Levei a mão ao ferimento e o toque desencadeou uma corrente de dores na cabeça. Fui atingido por uma enxaqueca aguda, que chegou como uma agulha enfiada pelo corte aberto.
Lavei o rosto, com cuidado. Nas minhas mãos, o sangue havia se fixado nas linhas e dobras, e custou a sair. Esfreguei tudo com uma calma que me espantou, fitando vez ou outra meus olhos no espelho. O castanho claro da íris mostrava com nitidez as pupilas. Eu estava calmo. Não tremia. Pensei no corte em minha cabeça e só pude concluir que alguém havia me atingido, e daí a falta de memória.
Sem ver alternativa, corri ao telefone. Antes de discar, olhei as roupas no chão e pensei que precisava me livrar delas. A sala inteira tinha um cheiro podre de ferro e suor. Aquele zunido dentro da minha cabeça me impedia de pensar direito. Disquei o número da polícia. Fizeram algumas perguntas, e tentei responder a maioria. Havia pouco a dizer. Minha mãe estava morta no chão da sala, e com toda certeza, fora assassinada.
legal. gostei. manda mais.
Sangue sai com coca-cola. Eu vi e é verdade.
Olivia
não tem acento. Olivia não tem critérios. Olivia não existe. Olivia talvez
seja fruto da sua imaginação.