sexta-feira, 17/09/2004

Desistência

Quando ela disse que queria se matar, João sentiu uma coisa apertando o peito, que ele não sabia explicar o que era. Mas não tinha argumentos, não sabia o que podia dizer para que aquela menina pequena acreditasse que viver valia a pena. Ela já estava cansada daquela farsa, não vivia, não vivia! Queria poder simplesmente desaparecer para sempre.

E ele, que também não sabia porque vivia, inércia talvez. Vivia porque tinha coisas a fazer, e porque tinha alguns pequenos prazeres que o distraíam de uma verdade maior e não tão oculta. Morreria, no final, e tudo que fizera não teria valido de nada. Mas continuava vivendo, porque lhe parecia sensato, e porque o pós-vida devia ser um tanto entediante.

Pensou, enquanto via a menina chorando, que se estivesse em seu lugar, ele também desistiria. Desistir era sempre bem mais fácil.

Então, o que ele podia dizer? Não é culpa sua, ela dizia, não fique triste. E ele sabia, sabia que não era culpa dele, e sabia que mesmo assim precisava fazer alguma coisa. Tentou falar algumas palavras, tentou fazer algum sentido, mas ela não queria mudar de idéia. João chorou, num ato desesperado. Se ela desistisse, ele desistiria também!

Você não tem porquê desistir, você gosta da sua vida, ela disse.

Estava certa. João mordeu o lábio ao ouvir as palavras verdadeiras. Ele estava mentindo! Que o prendessem por aquilo, mas achara que deveria impedi-la de se suicidar, como um bom menino que era. E se para aquilo precisasse recorrer a hipóteses drásticas, recorreria.

Você não me conhece, ele respondeu, aprofundando-se na mentira, como já havia feito em outros momentos.

Ela balbuciava métodos e idéias. Ninguém vai sentir minha falta, tudo bem, não tem problema.

Ele sentiria, achou, mas depois pensou que preferia vê-la bem e sorrindo, e vê-la sofrendo era demais de ruim. Depois pensou também que talvez não fosse sentir a falta dela tanto assim, e logo a esqueceria. Deixaria sua lembrança bem guardada, numa caixinha de madeira num canto escuro da mente.

Que ela se matasse então.

Sim, ele pensou, que se matasse, se aquilo a deixaria aliviada de todos os seus problemas. Disse a ela que desistia de tentar ajudar, que ela não queria ser ajudada. Foi rude, tinha que ser! E quando ela virou as costas para ir embora, ele não conseguiu conter um pequeno sorriso que se formou em seu rosto cheio de lágrimas. Ela estaria livre, então. Mas o sentimento maior era o mais egoísta.

Ele, João, estaria livre também.

Olivia
20:16 || Contos
Comentários

Pensei que o João iria mata-la! O_O

Mas no final a culpa é dos antidepressivos. Agora todo mundo sabe que antidepressivos podem te levar ao suicidio!

Tch. E eu me achava trágica... ;)

Sim, são 6 da manhã. E eu estou acordando.

Ninguém merece aula de sábado.

Eu vejo sempre três as alternativas. A do meio é desistir em vida, é o que as pessoas normalmente fazem. João está buscando ? Não parece. Há caminhos melhores.

Hmm, nao entendi muito bem o que voce quis dizer...

a ) Mergulhar para a frente. Ainda que não tenhamos a menor idéia do que estamos fazendo. Sonhar que nem criancinha. Subir em árvores prá ver a vista.

b ) Não mergulhar para lado algum. João.

c ) Mergulhar para Trás. Ela.

Tendeu ?

Tendi, tendi.

E sim, faz sentido. Mas eu arrisco dizer que o João está numa fase de transição.

Mas isso ele que me contou. No texto, imagino que nao fique tao claro. Nem é tão importante. Hehe.

Tem um desenho japonês (nao me pergutem como eu sei disso) em que tem a mesma cena. Só que o cara fala "Eu, ja que voce vai se matar mesmo, que tal uma fodinha antes?". Sério.

O gato comeu a sua língua?


(não será publicado)





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