sexta-feira, 04/06/2004

Crise

Quando eu escrevo, eu quero que a história seja convincente. O que eu escrevo é mentira, é ficção, tá no nome. Todo mundo sabe que tudo aquilo não existe de verdade, mas mesmo assim, o leitor espera que a trama e os personagens façam sentido. Um personagem de uma história onde não existe mágica não vai sair por voando ou usando visão de raio-X pra saber o que a velhinha esconde na bolsa, e um vigia malandro, sacana e pobre não vai falar "Depende, senhor, eu teria que ter certeza do que exatamente meu colega lhe mencionou anteriormente." Cruz credo. Nisso, eu tenho que prestar atenção.

Mas esse não é o pior. O pior, na verdade, nunca vai ser convencer o leitor. Porque o leitor já espera ser enganado. O leitor já sabe que está abrindo aquela caixinha de mentiras deslavadas, o livro de ficção. Ele pode até achar que o escritor exagerou um pouco, ou achar alguma coisa mal-feita, mas a conclusão - para um leitor comum - vai ser que a história é aquela mesma. A história pode ser meio irreal, mas é assim mesmo, fazer o quê. O leitor pensa que o escritor que é meio idiota, mas ele não chega a duvidar da história.

O pior, ah, o pior, é convencer a mim mesma do que eu tô escrevendo. Acreditar que aquilo lá aconteceu mesmo, daquele jeito. Eu não consigo mais acreditar em nada. Não me convenço de nada. Tudo parece forçado, mentira mal contada. Uma chatisse só.


Se o personagem acha uma coisa estranha, eu tenho a impressão de que ele só acha estranha porque eu quis que ele achasse estranha. De certa forma, sim, eu sou a escritora, eu inventei tudo aquilo, a imaginação é minha, mas de qualquer jeito. Não me convenço. Parece que tá tudo sendo meio forçado. Como se os personagens não quisessem me obedecer, ou obedecessem de má vontade.

"Isso só é assim, esquisito, porque você exagerou pra ficar esquisito. Nem precisava ser tão bizarro assim" eles me dizem. Argh. Estranho por estranho, um ovo verde com pernas seria muito mais interessante.

Tem escritores que enganam, trapaceiam. Não digo que isso é errado, mas em certos níveis eu me irrito um pouco. Como o Lawrence Block, em After the First Death, narrado em primeira pessoa, quando o personagem diz algo na linha de "no momento eu não percebi, mas o nome mais provável da lista foi justamente aquele que eu não dei atenção". Mas e aí, então não vai contar de que nome tá falando? E se não ia contar mesmo, por que diabos você mencionou?!

Então isso eu não faço. Eu uso outros meios de enganação. Ficar falando que tem uma informação e não vai revelar eu acho um truque besta. Se não quer revelar, simplesmente não diga que tem!

Só que aí, às vezes, sem nem fazer isso, eu tenho a impressão de estar fazendo, como agora, que estou escrevendo em primeira pessoa e o protagonista tem umas crises de amnésia de vez em quando. Ele pode não saber o que aconteceu, mas eu sei, e... Sei lá, é estranho. É como se o personagem também soubesse, porque ele viu na minha mente (afinal, ele mora lá) e agora tá fingindo que não sabe de nada.

Faz sentido?

Não, né.

Ou faz. Quem sou eu pra subestimar a capacidade de raciocínio de vocês. Deve fazer sentido. Talvez só não faça sentido pra mim.

A minha imaginação é meio estranha. Eu acredito demais das coisas que eu crio. Acredito tanto que elas ganham vida própria, e ficam espiando minhas idéias e sabem tudo que vai acontecer com elas antes que aconteça. Aí as situações não me convencem. As cenas parecem falsas.

Diabo. Deve passar.