sobre o nada e o inevitável, e sobre a vida imaginária de pessoas que não existem.#

29.06.2004

Achado - Teatro 8ª série - I


CENA 1
1980 - Nascimento das Crianças

Personagens:
Júlio - Angelo
Sílvia - Olivia
Carlos - André
Regina - Taissa
Mulher 1 - Luisa
Mulher 2 - Maíra
Mulher 3 - Luciana
Renato - Guilherme
Sônia - Guingue
Eduardo - Fernando
Flávia - Marina

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Cenário: Do lado direito, uma mesa com bancos em volta, e do lado esquerdo, um sofá. A mesa servirá como cama na maternidade.


Júlio entra ao som de música e fica parado, de costas, no meio do palco, na frente do cenário. Ao fundo, voz de pessoas conversando. A música abaixa.

Júlio: Tá todo mundo louco. Bom, nessa rua, todos são loucos. Mas ultimamente... Estão ainda piores. O que aconteceu, parece até praga. Quatro crianças... Dá pra acreditar que quatro mulheres aqui da rua ficaram grávidas praticamente ao mesmo tempo?


Júlio vira-se e sai andando, para o lado direito, chutando pedras no chão. Na mão, um mini-game. Vai jogando e andando entediado. Entra Sílvia pelo outro lado.

Sílvia: Ah! Você tá ai, Julinho! Seu pai acabou de ligar do hospital. Sua mãe foi a segunda a ter o bebê. Uma menina! Seu pai disse que ela é linda!

Júlio: Bebê tem cara de joelho...
Sílvia: Oras, Julinho, é a sua irmãzinha! Você não tá feliz?

Júlio: Claro que tô.

Sílvia olha no relógio.

Sílvia: Nossa, já são quase quatro horas! Seu pai falou que as cinco ele vai passar na sua casa pra te buscar. Eu vou agora na casa da Regina, ver o bebê. Quer ir comigo? A essa hora é capaz dele estar acordado.


Júlio faz que sim com a cabeça. Saem de cena pelo lado esquerdo. Júlio vai jogando o mini-game. Ouve-se o som da campainha. Do lado direito vem Carlos, tropeçando nas cadeiras, para atender. Abre a porta (que é fora do palco, do lado esquerdo)

Carlos: Oi Sílvia, oi Julinho! Vieram ver a Íris?

Entram em cena, Júlio ainda está com o mini-game, jogando.

Sílvia: Como é que ela está?
Carlos: Ótima, ótimas... Vamos entrando. Rê! Visita! A Íris já dormiu?
Regina (de fora): Mesmo se tivesse você já teria acordado!


Carlos aponta o sofá, Júlio e Sílvia sentam-se. Carlos puxa uma cadeira. (Quase derrubando a mesa, sempre desajeitado) e senta-se.

Carlos: E a sua mãe, Julinho, como ela está?
Júlio: Não sei... Provavelmente deitada...

Entra Regina com o bebê no colo. Levantam todos para ver.

Sílvia: Que linda! Posso segurar?

Regina põe Íris no colo de Sílvia. Júlio fica olhando. Toca a campainha.

Carlos: Eu atendo.

Sai correndo, desajeitado.

Regina: Quer segurar, Julinho?

Ele faz uma cara de dúvida.

Regina: Senta no sofá que eu coloco ela no seu colo.

Júlio senta. Regina pega o bebê e da para Júlio. Entram Mulher 1 e Mulher 2.

Mulher 1: Oi Regina, tudo bem? Sílvia, Julinho, como vão?

Júlio não tira os olhos do bebê. Regina e Sílvia sentam-se no sofá. Mulher 1 e Mulher 2 sentam-se nas cadeiras.

Mulher 2: Sua irmã já nasceu, sabia, Julinho?


Ele afirma com a cabeça, ainda olhando o bebê.

Mulher 1 (mal-humorada): E então, pra quando vai ser o próximo bebê da geração 80?

Carlos entra durante a fala da mulher 1.

Carlos: Como?
Mulher 1: É 1980, não é não? Gente, eu posso até esquecer o mês, mas o ano eu não esqueço não, né?!

Sílvia: Provavelmente vai ser o bebê da Marta. Porque o da Sônia, que por sinal parece que vai ser o único menino, vai nascer só no fim do mês...
Carlos : Menino, é? A Marta vai ter uma menina?
Mulher 2: Ela diz que vai chamar Jaqueline. Eu não gosto muito do nome, mas a família dela aprovou...


Toca a campainha.

Carlos: Eu atendo...

Sai de cena. Júlio ainda segura o bebê. Entra Mulher 3. Ela olha as outras duas, com desprezo, e senta entra elas.

Mulher 3: Oi pessoal. Como vai, Regina?
Regina: Tudo ótimo.

Mulher 3: Eu já acertei quase tudo, gente. Quando nascer o último bebê, o da Sônia, né? Vai ter uma festa na casa do Renato.
Júlio: Na minha casa?
Mulher 3: Ah, oi Julinho, tudo bem? Seu pai disse que não tinha problema nenhum. É até melhor lá, tem mais espaço.


Regina pega o bebê do colo de Júlio.

Sílvia: Ah... eu até já vejo as crianças brincando de esconde-esconde, jogando futebol...
Mulher 1 (levantando-se): Escondendo as bonecas das outras...

Mulher 2 (levantando-se também): Ahá! Era você que sumia com a minha Mimi!? Eu sabia!
Mulher 1: Sabia nada!

Mulher 3 levanta e faz as duas sentaram novamente. Continuam a discutir. Júlio olha no relógio.

Júlio: Opa! Quatro e trinta e dois! Preciso ir!

Levanta e sai de cena pelo lado da porta.

Regina: Gente, a Íris dormiu... Vamos levar ela pro berço...

Saem todas pelo outro lado.

Hospital. Flávia, mãe de Júlio, deitada na cama, (que antes era a mesa) lendo uma revista. Batem na porta de leve. Entram Júlio, Renato, Sônia e Eduardo, marido de Sônia, pelo lado esquerdo. Sônia está grávida.

Júlio: Oi mãe!

Flávia senta-se. Júlio olha para os lados, procurando por sua irmã.

Flávia: Oi pessoal.
Júlio (olhando para os lados): Cadê a minha irmã?

Renato: Calma, a Alessandra só vem lá pelas seis horas.
Júlio: Ah...

Júlio senta-se no sofá, entediado. Renato senta-se. Fica fazendo cócegas em Júlio para fazê-lo rir. O menino continua emburrado.

Sônia: Então, tá tudo certo com você?
Flávia: Tudo ótimo. O seu é pra quando?
Sônia: Ihhh, pelo jeito vai ser o último. Vai se chamar Maurício.

Eduardo: O pessoal lá da rua tá organizando uma festa...
Renato: Lá em casa.
Flávia: Vocês já foram ver a Regina? Eu só vi ela no hospital.

Eduardo: Nós passamos lá ontem.
Flávia: E você, Renato?

Renato levanta-se.

Renato: Ainda não. O Julinho disse que foi lá hoje, com a Sílvia.

Júlio: O bebê não vai chegar não?

Sônia e Eduardo sentam-se.

Renato: Quer ir comigo no berçário, Julinho? Ver a Alessandra.

Júlio levanta-se e sai rapidinho.

Renato: Já voltamos, amor.

Vão para a frente do palco. A cena atrás continua, eles conversando. Júlio e Renato dirigem-se para o público como se fosse o berçário.

Júlio: Qual é ela pai?


Renato faz uma cara confusa.

Renato: Tô procurando.
Júlio (para o público): Eu falei, bebê é tudo igual, tudo tem cara de joelho...

Renato (apontando com a cabeça): Aquela de rosa.

Júlio olha para o pai (a resposta é inútil, como se houvessem várias de rosa). Renato olha de novo para conferir.

Renato: Ela mesmo, a número 213, ali. (aponta)

Júlio: Ah... Ela é careca...

Renato ri.

Renato: Você vai ser o irmãozão de todas essa crianças que vão nascer lá da rua. Não só da Alessandra, como da Íris, da... Jaqueline e do Maurício... E...

Júlio: Como? Já que vai ser assim é melhor eu começar a decorar os nomes desde já...
Renato: Eu até entendo que no começo pode ser chato, mas quero só ver quando elas começarem e andar, falar, brincar. Imagina só o que é ter um monte de 'irmãozinhos', querendo brincar com você o tempo todo com você!


Júlio olha para o público assustado.

FIM DE CENA//

Olivia
00:57 || Pedaços