terça-feira, 22/06/2004
A sala de aula na caixa de sapatos
Já cheguei à conclusão que não sou nem um pouco criativa, vendo a criatividade alheia sempre ir tão mais longe que a minha. Só fico inventando caso. Mas é tudo limitado, dentro de um mundo que eu já conheço. Minha criatividade é limitada.
Na 4ª série, fizemos um trabalho de artes no qual cada aluno devia montar uma maquete qualquer dentro de uma caixa de sapatos. Alguns fizeram aquários, outros fizeram cenas espaciais, florestas, desertos, cenários extraterrestres, e toda essa coisa de sonho que as crianças de 10 anos são capazes de imaginar. E eu... Eu fiz uma sala de aula, modesta, e tão parecida com a nossa, com mesas e cadeiras azuis, a lousa verde, escaninho e mural cheio de papéis.
A professora ficou um pouco decepcionada. Os professores sempre esperavam tão mais de mim, Olivia, menina tão criativa. De onde é que eles tiravam essa idéia? Será que as outras crianças eram ainda mais sonsas do que eu? Ou era só porque eu gostava de redação?
Ela me falou, Olivia, você podia ter feito tantas coisas, podia ter inventado tudo que quisesse, podia ter viajado pra onde bem entendesse! Por que fez uma sala de aula? Eu não sei. Não consegui pensar em mais nada. A sala estava lá, com seus detalhes, era só reproduzir. Oras. Eu conhecia a sala. Eu sabia o que fazer. Por quê?
Deixo a análise pros analistas. A minha conclusão sempre foi uma muito simples. Criatividade limitada. Voa, voa, pode voar. Hoje não, esqueci a pena mágica em casa. E por favor, sem gracinhas aqueles que me conheceram antes dos 11 anos (e vocês sabem por quê).
Ah, sei lá. Às vezes eu acho que existe mundo demais pra se conhecer, pra gente sair por aí inventando o que não existe. Só às vezes. No resto do tempo eu penso que eu sou assim mesmo, sabe, deixa pra lá. Criativa eu sou, ah, vai, eu sei que eu sou. Mas de um jeito limitado. Quando eu era pequena e sonhava que estava voando, eu só conseguia voar baixo, ou dentro de casa. Eu voava, sim, sim, eu voava, mas com um limite. Se isso é bom, ou ruim, ou até onde é bom ou ruim, eu não sei.
Eu sei que eu sou assim, ainda sou assim.
Olivia
não tem acento. Olivia não tem critérios. Olivia não existe. Olivia talvez
seja fruto da sua imaginação.