sexta-feira, 25/06/2004

A Outra

As luzes do palco se apagavam para serem acesas em seguida, centenas de olhos fixos na moça mascarada. E ela, centro de atenções, esquecia que havia gente observando, os movimentos soltos, e imaginava à sua volta um cenário de sonho, que não existia em lugar nenhum. Quem era, ninguém sabia. Uma personagem curinga entre uma cena e outra, que viria a se explicar no final da peça. Mas isso pouco importa. Aquela máscara guardava atrás de si uma pessoa como poucas, ela, a moça...

Pois entrar no palco lhe pedia aquela nova máscara, e ela se transformava. Cabelos longos e olhos misteriosos, antes, era moça simpática, sorridente. Aquela era a moça. Ou talvez fosse apenas o que ela pensava ser. Sorrisos, olhares, era uma máscara invisível que usava para ser compreendida. Mas não se usam duas máscaras ao mesmo tempo, e tirava uma para pôr aquela que a peça pedia. Por baixo de máscaras, era, aí sim, seu verdadeiro eu. Mas as máscaras... A segunda, tão concreta, ainda que irreal, e ela no meio do palco se encontrava, distinguindo fantasia de realidade, percebendo então que não era a moça sorridente, e sim alguém que nunca chegou a conhecer.

Acabava. O espetáculo tinha fim, ela tirava a máscara, voltava a ser... Quem? Voltava a ser quem não era. O disfarce oculto se agarrava ao seu rosto. E se irritava, pois sabia que aquela verdadeira moça existia, mas ela não conseguia encontrá-la fora do palco. Perdia-a cada vez mais, conforme se sentia na obrigação de ser quem não era, encaixando-se àquilo a que supostamente deveria pertencer. E quando a sensação passava, quando quase acreditava no que não deveria ser, havia novamente o espetáculo, e encontrava mais uma vez aquela pessoa inexistente. A moça.

A moça era, insistia que era, alguém, alguma, aquela que via no espelho. Era? E como poderia ser alguém que insistia em se esconder, sem rosto, aquele alguém que ela deveria ser? Deveria? Ou talvez simplesmente quisesse...

A máscara na frente, o palco, era livre. Ninguém a via, só ela. O corpo em movimentos desconexos, não era mais. Protegida de um mundo cruel, não era mais nada, e quem era a esperava fora do palco. O que era? Doida, doida, por que nunca poderia ser aquilo que representava atrás da máscara?

Escolha? Escolheu quem não era? Mas não se é quem se escolhe? O quão triste pode ser viver a vida que não lhe pertence? Tão presa na vida inventada que não se lembra da outra. Existiu outra?

A moça, em casa, passou os dedos pela face lentamente, via alguém em seu reflexo, e mentalmente a mandava embora. Aquela, olhos verdes e enormes... Os olhos lhe diziam algo, como a nostalgia de um passado mais velho que ela mesma, algo que a moça não compreendeu.

- Eu sou.- disse, num tom de sussurro, para ninguém ouvir.- Eu sou eu.- continuou, mais alto, mas ainda se lembrava da sensação sobre o palco, e era tudo tão diferente...- Eu sou... Eu...- fechou os olhos, não era. Nunca fora. Seria, um dia, talvez? Isolada da sociedade, de tudo e de todos, quem sabe? A louca. Aí, então, seria quem era, apenas.

Olivia
23:55 || Contos