segunda-feira, 07/06/2004

A Grande Reunião

A sala está cheia. As pessoas ali conversam, e olhando com estranheza os desconhecidos. A sala é grande, mas não é grande o suficiente, e alguns, que preferem ficar sozinhos, tem que se conformar com um canto mais apertado, no chão ou em um banquinho pequeno encostado na parede.

Um rapaz de uns vinte anos está sentado numa das pontas da mesa, e recebe olhares irritados de outros mais velhos. Um homem alto, de olhos verdes e pele muito branca, está entre esses irritados, assim como um sujeito baixinho ao lado dele, de cabelos cortados bem curtos e uma camisa jogada para fora de uma calça jeans surrada. Na outra ponta da mesa, com uma expressão sonolenta, está um rapaz adolescente, usando um boné vermelho com um P bordado na frente.

- Tudo isso é por sua causa?- um outro pergunta em voz baixa ao amigo.

Ele tem os cabelos claros, de em aloirado meio cinza, e os olhos amarelados de uma cor indefinida. Parece recém-chegado aos quarenta...

- Trinta e nove!

Trinta e nove. Tem trinta e nove. Quem está contando a história aqui?

O homem faz careta e sacudiu a cabeça. Volta-se ao amigo, um homem mais jovem, que na verdade aparentava bem menos do que era sua idade real. Ele tem olhos grandes e uma expressão de menino, mas parece um tanto confuso. Responde:

- Não exatamente. Mas pelo que eu entendi, a culpa é minha. Isso aqui é por causa dele, ali.- Ela aponta um outro homem, do outro lado da sala. Eram parecidos, se não idênticos, embora o segundo parecesse bem mais deslocado.- Quem é ele?
- Ele é você. Foi o que eu entendi.
- Tão dizendo que eu sou ele. Digo, que eu surgi por causa dele. Mas não é verdade, eu sei disso.
- Eu não gosto disso.

Um grupo de três rapazes adolescentes conversa em inglês num dos cantos da sala. É gente demais, e as poucas mulheres conversam entre elas como avaliassem as atitudes dos homens, mas não com desdém ou irritação. Em outro dos cantos, um homem está encostado na parede, de braços cruzados, olhando toda a cena com um ódio exagerado nos olhos, querendo estar em outro lugar.

- Atenção!- o rapaz mais atento na ponta da mesa falou, levantando-se. Aquele que estava na ponta oposta não se moveu, distraído com seu próprio descaso.

A maioria ali presente de fato prestou atenção, esperando o que ele ia falar. O homem alto de olhos verdes comenta qualquer coisa com seu colega, e os dois se afastam, se colocando perto da porta.

- Vocês foram convocados aqui para decidir o destino dele- disse, e aponta o mesmo homem que fora mencionado antes por aquela primeira dupla de amigos, sentado em um canto com uma cara de assustado.- O nome dele e de seu... Sósia...
- Sósia? Peraí, Márcio... Não é bem assim...
- Shh! Eu tô falando aqui, sacou?

Com exceção de alguns, e da dupla parada ao lado da porta, os presentes pareciam ter medo do tal do Márcio. Houve silêncio novamente.

- O nome dos dois não deve ser mencionado.
- Por quê?- alguém pergunta, uma menina que devia quinze anos.
- É coisa da Olivia.
- Decidir o destino dele também é coisa dela?
- A gente precisa chamar ele de alguma coisa.
- É, e com letra maiúscula, pra saber que é o nome.
- Pára, pára- Márcio diz em voz alta, um pouco irritado. Ele não gostava de muito barulho, aquele rapaz. Coloca a mão na cabeça, temendo uma enxaqueca.
- Chama de Al...
- Shhh!- uns dez fazem, com uma força para esvaziar os pulmões.
- ... face...?- era um dos rapazes que antes estivera conversando em inglês, e alguns se espantam de ver que ele fala português, ainda que de um jeito um tanto enrolado. Um de seus amigos ri.
- Igor!
- What?- ele pergunta ao outro, que sacudia a cabeça em reprovação.- Just thought it would be...
- Ninguém vai me chamar de alface, peraí.

As dezenas de olhos viram-se na direção do sujeito-assunto da discussão, como se estivessem espantados que ele realmente fosse capaz de falar.

- Tá certo- Márcio toma a palavra mais uma vez.- Como você prefere ser chamado?
- Pelo meu nome.
- Seu nome não pode ser dito aqui. A Olivia...
- Ah, a Olivia que se dane.

Alguns riem. Outros se olham, espantados. Márcio permanece impassível, respirando devagar quase como se não estivesse rodeado de gente.

- Bom, eu decido aqui- Márcio diz.
- Quem te colocou aí?- é um dos dois parados ao lado da porta, o baixinho de olhos escuros e expressão irritada.
- A Oliv...
- A gente sabe tudo sobre você, seu...
- Não me surpreende. Agora, se vocês me dão licença...

O mais alto coloca uma mão no ombro do amigo e pede calma.

- A Olivia mencionou uma tragédia- alguém diz.

O sujeito-assunto olha o homem que falou. Seu sósia...

- Sócia não, porra, eu sou o original.

O original... Não, não dá, assim fica anti-literário. Preciso te chamar de alguma coisa.

- Problema seu, a escritora é você, eu sou...
- Shhh!
- O que foi agora?
- Você também não deve falar nada sobre você.
- Caramba, Deco, isso tá ficando ridículo.

(continua...)