terça-feira, 06/04/2004

Foco

Quando se olhou no espelho, foi como se tivesse passado alguns anos sem se ver. Foi como reencontrar um colega da escola depois de décadas, e descobrir que aquele menino magrelo que gostava de jogar futebol havia se transformado num gorducho grisalho, que leva sempre um pano no bolso para secar o suor do rosto.

Os fios brancos ainda eram poucos, perdidos nos cabelos claros, mas via algumas rugas que havia esquecido que existiam. Os olhos eram de um castanho claro amarelado, de uma cor surreal e quase inexistente, que intrigava muitos. E pela primeira vez, o intrigava também. Que cor era aquela?

Muito prazer, quem é você? logo pensou, e quis repetir em voz alta, mas não conseguiu. Tinha medo de bancar o louco, mesmo ali, sozinho no quarto do hotel. O espelho era velho e enferrujado nas bordas. Talvez fosse a luz fosforescente que deixava tudo com um ar esquisito, e ele não se reconhecia no próprio reflexo. Não era possível.

Levou uma mão ao rosto, tocou a pele. Havia rugas em volta dos olhos. Os olhos lhe pareciam menores do que costumavam ser. Sem desviar a atenção do estranho que o observava, tateou o bolso da camisa e colocou os óculos. Era miopia, astigmatismo e o escambau, mas ele tinha preguiça de ficar limpando a lente a toda hora, e acabava por preferir ver as coisas todas embaçadas mesmo.

E a imagem, agora nítida, não saiu da sua estranheza inicial, um desconhecido. Aquele nariz, reto e duro, era seu? A boca de lábios finos, o queixo pequeno e aquele maxilar arredondado... Os cabelos... Ah, os cabelos, ele tinha certeza, eram dele. Lembrava dos poucos fios brancos disfarçados, mãos delicadas o acariciando e contando fios grisalhos para passar o tempo. Olha só, achei mais um aqui, dizia, e achava graça um sujeito com quase quarenta anos não ter tantos cabelos brancos.

Aposto que você tingiu.

Fixou-se nos olhos. Queria reconhecê-los, e por um momento, quase conseguiu, mas a idéia pareceu escorregar e escapar pelo ralo como um anel que ficou largo demais no dedo. Tirou os óculos. Sem eles, via melhor, via com mais liberdade. Nada era nítido, mas tudo parecia fazer mais sentido.

Quantos anos haviam se passado sem que ele parasse alguns cinco minutos para se olhar no espelho e ver o que muitos viam todos os dias? Por que o ato de se olhar no espelho era sempre visto como um sinal de vaidade? Que vaidade havia naquilo, afinal, de querer saber quem é? E o bebê, quando começa a brincar com os próprios pés, ou enfiar o dedo - e a mão inteira - na boca? Não é a mesma coisa?

Prazer, meu nome é Eric. Pensou, e não disse, não era louco e não falava sozinho. E se a figura no espelho não era ele, talvez pudesse falar com ela? A testa tinha algumas marcas antigas de acne da adolescência. O maxilar tinha uma marca de catapora da infância. Não era feio. A barba estava mal-feita, era bem verdade, o que lhe dava um aspecto quase sujo. Mas não era feio. Feliz aniversário, Eric. Quarenta anos, meu amigo.

Você parece tão mais jovem.

E aquelas rugas? E aquelas linhas ao lado dos olhos? Fez uma careta, comprimindo os músculos do rosto. E quase se assustou, quis se assustar mas não conseguiu, pois a razão já falava mais forte e dizia que era absurdo se assustar com a própria imagem. Não era feio, mas não estava satisfeito com aquela figura esquisitona que apresentava-se na frente de si.

Sentia-se sozinho. Sentia-se velho e sozinho, embora soubesse que ainda estava na metade da vida, embora soubesse que o amigo havia prometido uma festa no sábado à noite. Não estava velho demais para festas?

Deu um passo para trás, e a figura embaçou-se ainda mais, um monstro com dois pontos escuros no lugar dos olhos, como um cartão com uma imagem disforme em uma sessão de terapia. Deu outro passo, e poderia ser qualquer um, qualquer um dos irmãos, ou poderia ser o pai, que não faria a menor diferença.

Podia ser, e era, qualquer um, um sujeito desconhecido que passou por você na rua ontem, enquanto você estava demais ocupado em achar as chaves do carro no bolso. Um sujeito qualquer que a televisão focalizou num jogo de futebol, mas você não prestou atenção porque a torcedora ao seu lado era bem mais bonita e estava pulando com um cartaz na mão.

E ele pareceu reconhecer aquela imagem. Finalmente sabia que era ele, e não o pai, ou os irmãos, ou qualquer outro sujeito que ele vira na rua. Reconheceu, aquela imagem mesmo, desfocada como era, sem detalhes, sem cicatrizes de acne ou de catapora. Era o que era.

Desfocado.

Havia desaprendido a enxergar com nitidez.

Olivia
01:36 || Contos