terça-feira, 30/03/2004

O Curinga

O despertador tocava às seis da manhã todos os dias, fosse ou não meio de semana. Aquele homem mal o ouvia tocando, acordava ao mesmo tempo e preparava-se para mais um dia de trabalho. Ele era, e não era, apenas mais um entre tantos, um número a mais no censo da cidade grande. Sujeito amargurado, desconfiado. Suas qualidades no trabalho vinham de seus defeitos fora dele, e ele levava sua vida solitária sem qualquer laço afetivo o ligando a nada. Ia, a inércia o guiava. Qualquer coisa que houvesse aprendido quando jovem sobre aproveitar a vida esquecera.

Pois eis que tão triste vida poderia estar em vias de mudar quando, certa feita, a caminho do velho trabalho, andando a pé em direção ao ponto de ônibus, esse homem se perdeu. O que dizer, como explicar, rota aquela feita e refeita até o corpo ser capaz de segui-la com olhos fechados. Não havia razões para ter se desviado, não pensava em nada fora do comum. As pequenas casas, residências, um pedaço de sonho, uma fatia de um lugar distante, apresentavam-se aos seus olhos com a imponência de um monumento europeu. Onde estavam os altos prédios e torres da capital paulista? A rua de paralelepípedos, direto de um filme antigo, e o vazio, silêncio preenchendo a atmosfera. Um som de motor de carro ao fundo afastava-se, deixando aquele homem perdido num mundo que não lhe parecia real.

Sentia aquela estranha sensação na garganta, um berro preso ou um grito por socorro. Onde estava? Estaria atrasado se não pegasse o ônibus em menos de cinco minutos, mas olhava ao redor sem mais saber de onde viera, e para onde tinha que ir. À sua frente, uma mangueira vermelha rodava, jorrando água no gramado como se alguém a houvesse esquecido ligada. Mas ninguém. Aquele pedaço de mundo não parecia habitado. Uma gargalhada percorreu-lhe a espinha, o medo o possuía, e ele esqueceu o trabalho.

Um sujeito então o fitava, os olhos arregalados e o rosto muito pálido, olhos pintados e roupa estampada com losangos verdes e vermelhos. Sorria mostrando os dentes brancos, enquanto sacudia o corpo de um lado para o outro, seguido pelo som dos guisos presos aos sapatos de pano. Na cabeça, um chapéu com três pontas, também com guisos dourados. Fitava o homem com ginga de folião - em pleno mês de setembro! - e sorria. Sorria tanto que soltou outra gargalhada, tão aguda e tão sinistra que o homem sentiu os pulmões congelados.

E o homem, paralisado, analisava o que via, incrédulo, tomando aquela figura por um curinga, tal qual se vê nos jogos de cartas. Olhou, perguntava, não tinha respostas, e de fato estava um tanto intrigado. Tanto questionou, que esqueceu todos os seus compromissos e as obrigações, perdido nos guisos dourados do curinga, que continuava pulando e convidava o homem a segui-lo. Mas o outro permaneceu parado, pois havia ainda algo que ele não havia esquecido. Algo que, embora o curinga tentasse e se sacudisse, não seria capaz de mudar. E era no que aquele homem tão sério acreditava e seu jeito racional de pensar. Era uma cidade traiçoeira, todos eram muito bem capazes de puxar tapetes e poucos - se algum - não o faziam. Afinal, o que ele entendia de curingas? Por que ele haveria de confiar num sujeito com roupas esquisitas, gargalhando e dando piruetas? Como ele poderia saber que, em meio ao inferno paulistano, aquela estranha criatura só queria fazê-lo ver?...

O homem colocava os pés no chão, com firmeza. Afastou-se com certeza no olhar, recusando o tão suspeito convite de tão inconveniente bufão. Ele não sabia... Não entendia, transformou o medo em pura e simples desconfiança, e lembrou-se do trabalho. Desviou o olhar, atribuindo aquela visão à parte tortuosa de sua mente e lembrou-se de que era um homem com muitos compromissos e obrigações, e precisava ir logo embora. Olhou no relógio, impaciente. O curinga percebeu que seu trabalho havia sido em vão, estava dada a prova de que aquele era um caso perdido. Mas haveria outros, e um caso mal-sucedido entre tantos que dão certo sequer seria lembrado. Sem mais sons, o curinga desapareceu com a brisa.

Os passos apressados de um homem sem ambições o levavam então ao ponto de ônibus, para de lá dirigir-se ao velho trabalho, lugar onde passava os dias, sem se lembrar. Sem sequer se lembrar de que um dia um curinga lhe oferecera a chance de mudar sua vida. E ele tivera medo.

Medo?

Olivia
02:57 || Contos