Raízes

| Falaê! (3)

raizes

Chuva, muita chuva, em Franca (SP) naquele dia.
Dispenso a varanda e vou pro sofá da sala de espera.
O guarda-chuva fica encostado no canto, mas com a baixa umidade da cidade, logo seca.

Ela novamente me chama, de penteado novo!, pra entrar no consultório.

Desta vez ela resolve puxar o fio da meada:
- Você precisa criar raízes. Hoje você tá morando aqui, mas sempre fala em ir embora. Você não sente necessidades em ter uma casa, uma família?

Eu, rápido:
- Mas por que eu tenho que ser igual a todo mundo? Sinceramente, não me sinto fazendo parte de qualquer coisa, qualquer organização, sindicato, associação, uma família...Ter uma casa é uma coisa tão distante pra mim. Claro, tenho a minha casinha de dois cômodos aqui em Franca. É impessoal, não tem uma quadro meu na parede. Sempre acho que vou ter que ir embora rápido daqui. Não sei porque tenho esta sensação.

Ela vai na mesma batida:
- É por isso que eu digo que você tem que criar raízes. Falta isso na sua vida. Você não percebeu?

Eu, sem deixar a bola quicar no chão:
- Falta tanta coisa na minha vida! Eu não me sinto de nenhum lugar. Nasci no Rio de Janeiro, mas não tenho mais identificação nenhuma com a cidade. Moro aqui em Franca, agora, mas também não me sinto daqui. Eu vim pra cá por causa de uma aventura que não deu certo. Aventura...essa palavra me move, sabia?

Ela, impávida, colossa:
- Não sabia. Por que a aventura te move?

Eu, com um sorrisinho sarcástico:
- Pra não criar raízes!

Ela, serena:
- Você acha que vai viver bem assim? O resto da sua vida?

Eu, nem querendo saber se a banda tocava desta maneira ou de outra:
- Eu não sei mesmo. Isso tá na conta das coisas que eu não sei e não ligo muito pra isso. Vou seguindo o meu instinto. Ele me move. Acho que nunca vou ser um homem racional! Tomara Deus, que não!

Ela me olha, meio aturdida. Parece que ela sempre quer puxar os meus pés aqui pra terra:
- Você precisa de estabilidade. Pense se você pode construir alguma coisa boa pra você nesta instabilidade que se tornou a sua vida.

Eu resolvo ser sincero. Absurdamente sincero:
- Olha, desde que fiquei sozinho nesta cidade, eu tenho pensado em arranjar uma namorada, sabe? Mas as garotas daqui são estranhas. Todas elas parecem que têm o rei na barriga. Olham pra mim com cara de besta. Eu não suporto isso!

Ela, tentando defender a classe:
- Isso é impressão sua. Franca é muito grande. Não é possível que não tenha nenhuma mulher que lhe atraia.

Eu, de pronto ataque, depois de olhá-la fixamente:
- Ter tem. Mas ela é tão inatingível pra mim!

Ela se perde tentando achar o celular pra ver o horário discretamente:
- Bom, na semana que vem a gente conversa mais. Bom final de semana pra você.

Não houve mais semana que vem. Resolvi me dar alta. O dinheiro que eu tinha pras sessões acabou. Ela tentou me segurar nas sessões dela de todas as maneiras. Mas eu tive que ir.

Já se passou mais de um ano. A sensação de ser de lugar nenhum continua. A estranheza que parece que vai ser determinante na minha vida.

Hoje meu pai me ligou no celular. Não vai ter almoço na casa dele amanhã. Moro a pouco mais de 200 metros da casa dele. Ele reclamou da minha ausência. Dou uma desculpa qualquer. Ele ainda me diz que o meu irmão, que mora a três quilômetros da casa dele, tem aparecido mais na casa dele do que eu.

Não tenho vontade de ter as mesmas conversas.

Alguma coisa ruiu dentro de mim. Não consigo mais fazer pontes. Só em destruir.

No Winamp, toca várias vezes seguidas João Gilberto com "Retrato em branco e Preto".

"Já conheço os passos desta estrada
Sei que não vai dar em nada
Seu segredo sei de cor..."

3 Comments

Sônia said:

Alguma coisa ruiu dentro de você??????
Reconstrua-se!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Eu vou estar sempre aqui para te ajudar!!!!!!!!!!!!!!!!

Eu vou fazer isso, meu amor!
E já comecei ontem!:)
bjs

Roger said:

Só quem conheceu Franca sabe o que aquela chuva insistente faz com a gente...

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Esta página contém um post de Flávio publicado em julho 5, 2008 9:54 PM.

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