Deus em pessoa

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deus

Deus apareceu em pessoa na tv. Foi num seriado em que passava no Canal Sony, há uns 4 anos atrás.

O seriado se chamava "Joan of Arcadia", estrelado pela bela Amber Tamblyn. Joan Girardi, este era o nome da personagem, era uma adolescente de 16 anos que morava na pequena cidade de Arcadia.

O seu pai era o Chefe de Polícia, Will Girardi, interpretado por Joe Mantegna. A sua mãe era Helen Girardi, interpretada por Mary Steenburgen. Completava a família de Joan: um irmão nerd, Luke Girard - Michael Welch e outro irmão, este paraplégico, Kevin Girardi - Jason Ritter.

No primeiro episódio da série, Joan é acordada com gritos de uma voz onipresente, de madrugada. Era o chamado de Deus.

No dia seguinte, Deus aparece pra Joan, dentro de um ônibus. Só que Deus era um cara da idade dela e lhe dizia o que ela tinha de fazer pra ser feliz.

Mas Joan não acredita que o cara tão charmosinho e por quem ela tem uma queda, seja Deus. Aí Deus (como sempre) prega-lhe várias peças se fazendo presente através de pessoas comuns como um lixeiro, um encanador, a mulher do refeitório, a menininha do parquinho, etc. Todas essas pessoas começam a lhe dar conselhos do nada, pela voz de Deus, mas mantendo a voz natural das pessoas escolhidas.

Infelizmente, a série só teve duas temporadas e foi cancelada.

Como uma pessoa me disse uma vez que eu tenho um coração puro, por isso era a minha série preferida.

Eu ficava imaginando Deus voltando a Terra e vendo o caos que se tornou a sua criação mais importante. Se bem que eu acho que Ele fez coisas melhores...

Só que o biólogo britânico, Richard Dawkins, não acredita nessas baboseiras em que eu acredito e escreveu um livro demolidor sobre Deus. Chama-se "Deus, um delírio", um tijolo de 528 páginas e que foi lançado aqui no Brasil pela Companhia das Letras. O livro ficou mais de 32 semanas na lista dos mais vendidos do The New York Times.

Dawkins não deixa pedra sobre pedra ao não só negar a existência de Deus, como afirma categoricamente que os "Estados Unidos são vítimas da política religiosa".

Acho que neste ponto ele tem razão, devido ao caráter messiânico em que George Bush empurrou os Estados Unidos pra uma preocupante vanguarda do atraso, negando os valores iluministas que sempre foram a característica daquela nação.

Eu acredito em Deus, e acho que Ele é tão magnânimo que concede a seus semelhantes que contestem a sua própria existência.

Nunca vi tamanha generosidade!

Por isso, tenho cada vez mais saudades de seriados como "Joan of Arcadia"...

DMI26

Rotas

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rotas

Chego dez minutos antes do início da sessão no consultório.
Resolvo ficar na varanda do velho casarão.

O calor seco de Franca (SP) incomoda, mas não é como o calor senegalesco do Rio de Janeiro, onde eu me dissolvia feito um picolé no asfalto.

Reparo o casario da rua. Se parecem muito com as casas de subúrbio do Rio.

Ela me chama, simpática como sempre, pra entrar no consultório.

Entro.

É uma sala sem luz direta em que o sorriso e a gentileza da doutora tenta me domar. Devo ter sido o cara mais esquisito que já apareceu por ali.

Depois das saudações de praxe, começo a manejar a metralhadora até aqui de mágoa:
-Sabe aquelas estradas que a gente vê nos filmes americanos? Aquelas estradas tipo Rota 66, com um retão imenso? Você olha, olha e não tem jeito de você ver o final do retão? Pois é...às vezes dá vontade de eu pegar uma estradona dessa. Mas à pé, que esse negócio de carrão não é comigo. Ir andando, andando, pegando sol, chuva, frio, enfim, o que vier pela frente, mas jamais parar de andar. E se eu visse que ia chegar até alguma cidadezinha, um posto de gasolina, que fosse, eu evitaria. Andar, andar, até esquecer de mim, esquecer quem eu sou.

Ela olhou sério e disse:
-Você quer se esquecer de você? De quem você é?

Eu devolvi o olhar sério, e troquei por um olhar perdido:
-Talvez seja o melhor a fazer. Se esquecer de quem se é...Tanta gente pega uma estrada e some. Nunca mais se ouve falar da pessoa. Ela simplesmente some, como se fosse abduzida pela vida, pelas suas dúvidas, fracassos, frustrações...enfim, desiste!

Ela olhou sério e perguntou:
-Isso vai resolver alguma coisa?

E eu:
-Tudo que a gente faz na vida tem que ser pra resolver alguma coisa?

Ela ajeita o óculos, prende o cabelo pra trás (o meu gesto feminino preferido...de alguma maneira ela sabe disso!) e diz, olhando pra parede da frente:
-Não.

Eu, certeiro:
-Então!

Um silêncio de segundos permeia o ambiente.

Ela me olha com o olhar de Sherlock Holmes de sempre. Olha discretamente pro celular pra ver o relógio, e pergunta:
-Quando você parte?

Eu não entrego os pontos:
-Já parti. Estou perdido, mais uma vez. Gostaria de não estar nesse labirinto, mas numa estrada que me leve à nada.

Ela se mexe na cadeira, cruza as pernas e pergunta:
-Aonde você vai parar?

Eu continuo não entregando os pontos:
-E quem disse que tem que parar?

Ela saca do seu receituário, esta infalível:
-Mas os seus sonhos? Suas buscas, seus amores?...

Eu, resoluto:
-Não deu em nada! Tudo dá em nada! Minha vida é uma sucessão de nadas. Como uma estrada que vai do nada ao lugar nenhum!
É tão difícil de você entender isso?

Mais uma vez ela se remexe na cadeira, tira os óculos, limpa as lentes, confere contra a luz, e decidida manda o seu petardo:
-É difícil de entender. Você é muito talentoso.

Eu esboço um sorriso tímido, olho pro teto e digo, propositalmente, de passagem:
-Você não é a primeira a dizer isso! O que eu faço com esse talento se ele não consegue me deixar feliz?

Ela me olha no fundo dos olhos, e diz:
-Mas ele não é pra te fazer necessariamente feliz. Através dele, você pode ser feliz!

Eu não deixo a bolar quicar e devolvo:
-Através dele? Como se faz pra retomar um caminho que se perdeu?

Ela, escapa pela tangente:
-Semana que vem a gente retoma a conversa.
Bom final de semana pra você.

Ela abre simpaticamente a porta e eu desço as escadas com a cabeça embaralhada.
Chego na calçada, começo a descer a rua indo pra casa.
Resolvo passar numa papelaria e compro um mapa da região.
Abro, estico ele no banco da praça e procuro uma estrada que não tenha fim.

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Isso aconteceu em março do ano passado.
De alguma maneira, isso continua atual...


Meu avô Vantuil, o impagável!

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vantuil

Meu avô paterno, Vantuil de Almeida e Silva, era uma das pessoas mais incríveis que já conheci.

Ele era de uma família de gente enrolada. Tinha uns irmãos que eram terríveis: Cici, João Picolé e Zé Capetinha. Viviam aprontando, passando as pernas em incautos, inventando mil expedientes pra sobreviverem.

Mas o meu avô não participava destas tramóias, porque ele tinha a profissão de alfaiate. Ele era um exímio alfaiate, mas tinha um espírito aventureiro e vivia zanzando de cidade em cidade, atrás de trabalhos. E sempre deixava minha avó e os três filhos pra trás, geralmente vivendo de favores em casas de parentes.

Ele tinha uma pose de aristocrata. Você olhava e pensava que ele era um rico fazendeiro. Sempre com o seu terno impecável de linho tropical 120, chapéu panamá e sapato bicolor. Mas tinha uma conversa de baba-de-quiabo, impressionante! E gostava de contar vantagens e ser do contra.

Uma vez em que raramente estava com a minha avó e os filhos em uma festa junina no interior de Minas, ele foi vítima da sua própria mania de ser do contra.

Era uma festa de um casamento em uma famíla amiga. A fartura de comida era uma coisa impressionante. O pai da noiva não economizou e só de garrotes, mandou matar quatro pro churrasco. Sem contar os leitões assados, frangos e todo um elenco de iguarias capaz de saciar qualquer bóia-fria que aparecesse do nada.

Meu avô se fartou, juntamente com a minha avó e filhos. Eles eram muito pobres e muito queridos na cidade de Pirapetinga. Além da comida ainda tinha uma mesa enorme de doces mineiros. Minha avó me contou que eram pra mais de quinze tipos diferentes de doces.

Meu avô vendo todo mundo se fartar nos doces, resolveu ser o do contra.
A dona da festa ao ver ele não comer nada, chegou perto dele e perguntou o por que dele não estar comendo os doces. Ele, rapidinho, olhou a mesa de ponta e ponta e disse:
- O doce que eu mais gosto, infelizmente não tem aqui!
A mulher, apavorada, perguntou que doce era esse.
E o meu avô:
- Doce de abóbora!

A dona da festa não se fez de rogada. Gritou a plenos pulmões:
- Emília! Traz as travessas de doce de abóbora pro seu Vantuil comer!
Aí começou o desfile de travessas de doces de abóboras em direção à mesa. Meu avô foi jogado em uma cadeira e a mulher, dizendo:
- Pronto, Vantuil. Mata seu desejo!
Meu avô suou frio. Minha avó começou a rir e falou:
- Toma papudo! Come doce de abóbora até o cu fazer o bico!

E assim, o meu avô passou a noite se empaturrando de doce de abóbora.
Resultado: uma caganeira de três dias.

A chapa tá esquentando, presidente!

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Charge290608

ocio

Parece uma maldição! Logo eu que costumo enfileirar um trabalho após o outro, devo ter caído numa esparrela chamada hiato criativo ou ócio criativo!

Tem uma semana, mais ou menos, que eu não consigo destravar. Faço as charges diárias pros jornais que tenho que fazer todos os dias e...nada! Fico lendo jornais, revistas e nada de criar o que me propus a fazer!

Moro sozinho numa casa pequena. Trabalho sozinho, também. Faço as charges diárias pros jornais que me sustentam e tenho o resto do tempo livre pra fazer o que quiser.

Há uns 15 dias cismei que vou fazer um romance gráfico. Uma história com personagens bem parecidos com o pessoal daqui de onde moro. Com o seu cotidiano, com as suas vidas. Tenho escutado muitas histórias, pedaços de vidas, nas conduções que pego, daqui pra Pádua, quando a internet daqui pifa ou tenho que fazer compras pra casa.

Tenho muita coisa, já arquivada na cabeça. Não anoto nada. Tenho mais ou menos o fio condutor desta história, como ela deve ser desencadeada, como se desenrola...mas algo travou. Dizem que se chama hiato criativo, ócio criativo, ou coisa parecida. Fico rodando em volta, feito um peru bêbado, e não consigo começar.

Passo as tardes assistindo a reprise de Cabocla, no único canal da tv emprestada que tem aqui em casa. O ambiente da novela, roça, é o mesmo que quero abordar no romance gráfico. A novela me inspira, mas a época é outra e a minha história não tem nada a ver com a da novela.

Mas quem disse que eu destravo?

Quando isso passa?

Será que passa?

Um dia

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umdia

Um dia eu vou fazer a viagem de trem, que eu fazia na minha infância.
Um dia eu vou lançar vários livros infantis, de minha autoria, que estão na gaveta.
Um dia eu vou lançar a minha rádio na internet.
Um dia eu vou voltar com a minha coleção de LPs em vinil.
Um dia eu vou pegar a minha revista preferida, e não ver a brega e insuportável Ivete Sangalo na capa dela.
Um dia eu vou parar de sentir que tô sempre incomodando as pessoas.
Um dia eu vou voltar a caminhar tranquilamente pelas ruas e em todos os bairros da minha amada cidade, o Rio de Janeiro.
Um dia eu vou gravar um cd cantando as canções que calam a minha alma.
Um dia eu vou poder andar de mãos dadas pelas ruas com a mulher amada e morar pertinho dela.
Um dia eu vou declamar, ao vivo, o poema que escondi e que fiz em sua homenagem.
Um dia eu vou rasgar todos os calendários e comer panetone no meu aniversário, no final de março.
Um dia eu vou ver a minha filha imaginária se tornar real.
Um dia eu vou seguir a linha de trem abandonada, que passa na beira da estrada que leva até a casa do meu pai.
Um dia eu vou passar um Natal com neve.

Um dia...


Boa noite

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Não tenho palavras pra dizer o quanto a sua indiferença fez diferença pra mim!

Faça!

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Não implore o amor.
Explore-o!

Em Brasília, 19 horas!

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Não faça marola que o mar de lama dá pra todos!

Tirano

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Pra baixo, todo Chávez ajuda!

Sem norte

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Levava uma vida tão sem rumo, que a sua bússola não tinha nenhum norte!

No fundo

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No fundo, no fundo, pode ser que eu te encontre um dia.
No fundo.

Barato

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Era um conquistador tão barato que seus argumentos eram de liquidação.

Musical

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Quem canta seus bens encanta.
(Ao som de Roberto Ribeiro)

v e r b e a t b l o g s

sobre

  • Flávio é um cartunista com mais de 30 anos de praia e que literalmente leva a vida correndo o risco. Adora novela das seis de época e chora com cenas tocantes. Ele acha que nasceu numa época errada, mas tenta desesperadamente acertar o relógio dos séculos passados com os de hoje. Nem sempre consegue, mas vai fazendo o possível pra ser contemporâneo entre estes séculos dissonantes.

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